Angústias
1 Capítulo 1
Com o fim das coisas que mais amava, se deu o início de uma vida de sofrimentos e angústias. Pediu que lhe passassem bolachas, para acompanhar um café que tomava tranquilamente, e aparentemente ninguém a escutara. Levantou-se, deu a volta na mesa, desviando dos obstáculos no chão, serena, e matou a fome antes que aquilo a pudesse matar. Sorriu ao voltar para sua cadeira, no extremo oposto da mesa.
Afinal, se as coisas boas acabavam, não deveriam surgir mais coisas boas? Por que apenas nos restam as ruins? Seria isso uma mera obra articulada por nós mesmos, uma espécie de auto-sabotagem? E porque para uns a felicidade que dura pouco, enquanto outros aproveitam do luxo e do benefício que vem como um visitante repentino que se delonga demais nas despedidas?
Suas despedidas da antiga boa vida eram apenas os lamentos, as saudades do que não mais voltava e o final reconhecimento daquilo que perdeu. Levou seu copo até a pia, não antes desviando dos cadáveres no chão e escorregar numa das enormes poças de sangue que transbordavam a vida daquelas pessoas.
Lavou o copo, com a tranquilidade de espírito, como se dissesse que lavava suas mãos para tudo aquilo. Arrumou a mesa e guardou a louça, vendo luzes estranhas, coloridas, e ouvindo um barulho insuportável do lado de fora. Já estava cansada de tanta arrumação, afinal, estava feito o que estava feito.
- Adeus, mamãe. Adeus, papai. — Disse, acenando para os cadáveres com imensa afeição.
E com essa despedida, apagou a luz da cozinha e dirigiu-se para a sacada do prédio, onde o seu velho amigo vento a recolheu e lhe abraçou no seu mergulho para o fim de sua angústia — e vida.
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