Angels or demons

24 O apocalipse


Notas iniciais
OLÁ! Demorei muito? hahah desculpe, mas estou com dificuldade de escrever, e postra qualquer coisa eu não faço. Espero que gostem, deu um trabalhinho. (Ah! Talvez o próximo capítulo saia no natal) Boa leitura.

Minha cabeça doía. Minha perna doía. Minhas costas doíam. Nem sabia que era possível doer tanta coisa ao mesmo tempo. Me doíam lugares que nem sabia que tinha. Ao mesmo tempo, tinha frio e sentia que a roupa aderia ao meu corpo como uma segunda pele. Algo salgado batia no meu rosto, de um modo continuado e num ritmo certo. Abri os olhos e dei de cara com um manto azul que cobria meu corpo e começava a fazer o mesmo ao meu rosto. Estava ficando submersa. Me apoiei nos cotovelos para elevar a cabeça e olhei à minha volta. Acima de mim estava o topo da falésia. Eu estava numa protuberância das rochas, caída no chão, no momento em que a maré subia e com dificuldades de locomoção. Sorte a minha!

Havia uma gruta, nas minhas costas, para onde eu poderia tentar ir. Provavelmente, fora a água a esculpir aquela gruta, mas talvez, a maré não subisse tanto que a inundasse. Ou talvez, estivesse descendo. Qualquer que fosse a realidade, minha melhor opção era me mexer e entrar na maldita gruta.

As feridas em minhas pernas doíam por causa do sal. Movi-as para teste. Apesar de doloridas, não estavam partidas, então era capaz de me levantar. Com movimentos lentos, comecei minha tarefa, aos poucos e poucos. As costas se queixaram, no entanto, se queria sobreviver, não podia ouvi-las. Com o maxilar bem fechado, comecei me erguendo, enquanto rezava para que a rocha não cedesse. Não foi fácil, mas acabei por me levantar completamente. Encostada à parede da gruta, fui entrando, devagar. Olhava para todos os cantos, com esperança de que não saísse nada estranho a meu encontro.

Quando cheguei a um ponto que considerei suficientemente dentro para que a água não chegasse, me sentei no chão e rezei para que o mar não subisse muito mais.

Nickolas's POV

Mas onde é que estava ela? Já passava do meio-dia, o sol já começava sua trajetória descendente, e nada dela. Procurara num raio de cinco quilômetros, mesmo sabendo que era impossível ter andado tanto, contudo, nem um rasto dela era visível. Considerava-me um batedor razoável, mas sabia que não era o melhor. Procurar rastos é algo que exige paciência, coisa que eu não possuía com abundância. Anael era um batedor muito melhor do que eu. Talvez, devesse chama-lo. Não, não. O tempo que demoraria a ir à cidade e voltar poderia ser crucial para perder. Devia continuar a procura-la eu mesmo.

O som das ondas me fez estremecer. Eu sabia onde poderia estar, mas pensar nessa hipótese gelava meu corpo. Para não estar em terra, tinha de estar no mar, no mar que ela vira pela primeira vez e que, portanto, não saberia enfrentar. Gabrielle não sabia nadar. Já estava desaparecida há tanto tempo que, se tivesse caído no mar, já estaria mais do que morta e arrastada contra as rochas e, provavelmente, totalmente dilacerada.

Não, me recusava a pensar nisso. Ela não podia estar morta. Tinha de estar em algum lugar, eu só tinha de encontrá-la.

Com os olhos fechados, me atirei para frente, para fora da falésia, deixando-me cair, de cabeça para baixo, a uma velocidade alta, que penteava as penas de minhas asas.

O que faria se nunca mais a encontrasse? Se ficasse desaparecida para todo o sempre? Ninguém desaparecia sem mais nem menos. Tudo o que desaparecia tinha de ir para a algum lado. Pessoas desaparecidas, normalmente eram atacadas ou caíam, ou eram raptadas, ou assassinadas. Humanos não podiam desaparecer. Era cientificamente impossível. Ela tinha de estar em algum lugar. Eu só não estava procurando no local certo.

Senti-me como se meu corpo estivesse sendo atravessado por centenas de lâminas e assim soube que me tinha descontrolado e deixado cair dentro da água. Merda. Merda. Não recolhera as asas. Não conseguia voar com as penas molhadas. Era tão cientificamente impossível quanto como para os humanos desaparecer sem mais nem menos.

Continuei a praguejar e abri os olhos. Já que estava ali, ia aproveitar para procurar. Esperava não encontrar nada. Ela nunca sobreviveria ali. A água era surpreendentemente límpida. Conseguia ver um raio de alguns quilômetros e n]ão vislumbrar, imediatamente, um feixe de respiração. Não existiam peixes ali, apenas rochas e algas e outras formações marinhas que, provavelmente, seriam bonitas, mas que não conseguia apreciar no momento. Nadei até à base da falésia.

Vermelho.

Uma sombra vermelha estava entre duas rochas. Senti meu corpo começar a pesar, enquanto absorvia o choque. Não. Não. Por favor. Não deixe que seja ela. Nadei o mais depressa que consegui até lá. Empurrei uma das rochas com brutalidade, mas sem qualquer razão, porque não havia mais nada do que um pedaço de tecido vermelho. Sofri um misto de frustração e alívio. Graças a tudo o que era demoníaco, não era ela, mas se não era ela, então onde estava? Toquei o tecido com as mãos. Me era familiar. Nem tanto a cor, que se apagava em comparação com o cabelo de Gabrielle, mas a textura. Recordava-me de moldar uns ombros bem-feitos por cima deste tipo de tecido.

Era dela. Este xale era dela. Conseguia me lembrar. Perfeitamente. Segurando-o entre os dedos, olhei para cima. Deveria ter caído, ou sozinho com ela. Dando impulso ao corpo, nadei na vertical, perto da falésia. Mantinha o olhar atento. Se ela tivesse caído por ali, haveria sinais.

De repente, vi-me de frente para um buraco na parece. Uma gruta, totalmente submersa. Por que não? Era suficientemente larga para eu passar. Entrei. Meus olhos não tiveram qualquer problema em se adaptar à pouca luz. O inferno era negro, depois de tudo. A maldita gruta era comprida como tudo, parecia não acabar, ainda que me parecesse possuir uma ligeira inclinação positiva. Estava subindo e a água descendo. O teto já não estava coberto e ainda bem, porque necessitava de respirar. Com a cabeça fora de água, deixei de nadar e passei a andar. O teto era tão alto que não havia problema. O nível do mar continuava a descer. Apenas meus joelhos continuavam submersos. Foi então que eu vi. Um corpo estendido no chão, num local aonde a água não chegava.

— Gabrielle!

Gabrielle's POV

Devia ser um sonho. Só podia ser um sonho. Estava deitada num canto, com frio, com a cara contra o chão rugoso, sem forças para mover um dedo que fosse, e ouvia a voz de Nickolas em minha cabeça. Um sonho no escuro. Ou uma alucinação. Se morreria assim, seria uma morte boa. Não podia pedir melhor, de fato. Conseguia imaginar mortes muito piores, com dor e sofrimento e solidão. Eu podia estar sozinha, mas não me sentia como tal. Era bom.

Para minha surpresa, a alucinação me tocou e colocou minha cabeça em seu colo molhado e aí não tive como não acreditar que, talvez fosse real.

— Humanazinha?

— Eu mesma. — abri os olhos e olhei para cima, ainda que me fosse impossível ver mais do que sombras e formas, sorri para ele. Sentia pingos caírem em meu rosto que, provavelmente escorriam de seu cabelo. Sua pele estava, ainda assim quente, como o costume. — Nossa falta de sorte é impressionante, ham?

Ele riu.

— Você está bem? Como veio parar aqui? — questionou, limpando as gotas que caíram em meu rosto, em sucesso, porque continuavam caindo mais.

— Caí da falésia para uma saliência. — expliquei, tentando me lembrar de todos os pormenores possíveis. — Quando a maré começou a subir, fui-me arrastando para cima, para fugir da água.

— E fez o certo, querida. — mesmo com a cabeça no sentido contrário à minha, me beijou, me fazendo notar um contraste enorme entre os seus lábios quentes e os meus, gelados.

— Quando é que podemos sair daqui?

Ele demorou um pouco a responder e, quando o fez, pareceu algo culpado.

— Não agora. Não recolhi as asas ao entrar dentro da água. Preciso que sequem para conseguir nos levar até o topo.

Não consegui não sorrir imaginando sua expressão.

— Acho que podemos pôr a conversa em dia.

— Está muito molhada? — inquiriu, preocupado, e começou apalpando meu corpo freneticamente. — Está ferida?

— Não estou, propriamente seca. E acho que amanhã será difícil me levantar da cama, mas nada demais.

— Prometo que não terá de se levantar da cama durante duas semanas.

— Temos um mundo para salvar.

— Eu tenho um mundo para salvar e o apocalipse terá de esperar enquanto tomo conta de você. — afirmou, dando ênfase à primeira palavra.

— Quanto tempo é que você acha que vai demorar para suas asas secarem?

Pude senti-lo levantar a cabeça e olhar à sua volta. Ele obviamente conseguia ver mais do que eu.

— Com a umidade que está no ar, algum tempo. — respondeu. — Bastante tempo.

— Consegue ver alguma coisa?

— Não vejo bem, mas também não vejo mal.

— Quais são as possibilidades de conseguir fazer uma fogueira?

— Poucas.

— Mas não é o demônio da luxúria? Não seria suposto conseguir soltar o fogo da paixão ou algo do gênero?

Abraçou-me mais contra ele, me subindo para seu colo.

— Não sou Anael nem Lúcifer, humanazinha. Mas com uma ajudinha...

Abraçou-me mais contra ele, me subindo para seu colo.

— Acha que já conseguimos sair?

— Perfeitamente. Com alguma sorte, a maré já terá baixado e, então, poderei levar você ao colo sem nos molharmos. — declarou Nickolas, esticando as asas para mostrar como já se encontravam totalmente secas. — Me dê sua mão. Eu conduzo daqui pra fora.

Meus olhos se haviam adaptado melhor à escuridão, ainda sim, me sentia mais segura agarrando a mão do demônio. Enquanto íamos andando e percorrendo aquele corredor alto, a luz foi aumentando, ainda que muito ligeiramente, e não apareceram quaisquer sinais de água que não gotas e poças espalhadas.

— Parece que vamos conseguir sair daqui sem nos molharmos. — comentei.

— Parece que sim. — Nickolas concordou, contudo, consegui distinguir uma ruga vincada entre suas sobrancelhas.

— O que houve? — inquiri.

Ele demorou um pouco a responder, enquanto aumentava a velocidade de seus passos e, consequentemente, dos meus.

— Algo não está certo. Há um cheiro no ar.

— Um cheiro?

— Medo. E destruição.

Um arrepio percorreu toda a minha espinha, se instalando na base de minha coluna como um peso morto.

Quando a moldura da saída da gruta começou a se tornar mais nítida, diminuímos os passos, como se soubesse que algo estava quase acontecendo e quiséssemos atrasá-lo o máximo tempo possível. A um pé da liberdade, Nickolas parou e respirou fundo. Se virou para mim com uma interrogação no olhar. Apertei sua mão com mais força e assenti. O que quer que estivesse para vir, iríamos enfrentar juntos.

Avançamos e, apesar de o termos feito, apenas me apercebi da diferença de ambiente alguns segundos depois. De fato, a maré baixara. As ondas batiam contra as rochas lá embaixo, com muita força. O problema não estava aí.

— O que é isso? — questionei, encarando o céu quase preto, praticamente sem estrelas, ainda que não devesse passar das seis da tarde. Ao fundo, era possível distinguir uma nuvem espessa ainda mais escuro do que o céu, que ia se formando em bolas, desvanecendo outras, enquanto ia avançando em direção à cidade. — O que é aquilo?

A mão de Nickolas apertou ainda mais a minha, enquanto sua face se contorcia numa máscara de agonia.

— O apocalipse, Gabrielle. O apocalipse chegou.

Notas finais
Que tal deixar um comentário maroto aqui em baixo? UM beijo anjinhas, um abraço demoniozinhos, nos vemos no natal.