Angels and Demons
4 IV
Notas iniciais
IV

Thomas.
A imagem do bruxo que habitara o coração da Lancaster durante décadas materializara-se finalmente à sua frente e isso assustava-a mais do que devia. Por mais que forçasse a sua mente a apagá-la ou substituí-la, esta era pura e simplesmente teimosa demais para se subjugar a tais desígnios.
Os receios que acreditava serem, no seu interior, infundados, vinham agora à superfície trazendo com eles todas as inseguranças que a haviam atormentado depois da separação. Não era fácil saber-se trocada por uma mulher como Freya Mikaelson, ver e sentir a sua felicidade, poder escutar o seu coração bater mais rápido quando ela e o Whestchappell estavam juntos, olhar o carinho com que esta o encarava e ver da parte dele sentimentos recíprocos.
O destino parecia esbofeteá-la sem piedade. O seu maior arrependimento, a origem da sua maior dor, o amor que pensara ser para sempre estava de volta à cidade onde tinham trocado juras para uma vida lado a lado, longe de toda a confusão do sobrenatural, com a mesma aparência de há cinquenta anos, agindo, contudo, como se não se conhecessem. Aquilo magoava-a mais do que pensara; Thomas não devia ter o mesmo efeito sobre ela, não depois de tudo.
Os olhos da vampira fecharam-se, deixando os seus ouvidos concentrarem-se no barulho da chuva a embater contra o vidro do carro. Ao seu lado, Kol conduzia em silêncio até ao apartamento, do outro lado da cidade.
O Original fora algo evasivo, contentando-se com as meias respostas que ela lhe dava e não repetindo as perguntas que sabia incomodá-la, contudo, o seu estado absorto denunciavam o descontentamento que isto lhe causava, fazendo a mulher remexer nervosa as mãos. Como seria de esperar, Kol percebera que algo estava errado, mas a posição adotada por este servira apenas para aumentar o sentimento de culpa que queimava no seu peito por lhe ocultar o que ela considerava ser uma informação tão importante.
— O que é que se passa, Pipa? – a voz do Mikaelson trouxe-a de volta à realidade e a morena mexeu-se subtilmente no banco, apercebendo-se de que estavam parados no estacionamento do prédio deste.
— Eu não me estava a sentir muito bem – mentiu, colocando uma mecha do cabelo escuro atrás da orelha, sem grande coragem para encarar o homem enquanto as palavras saíam da sua boca.
Podia sentir a tensão do olhar curioso e preocupado do vampiro sobre ela e, com uma expressão algo embaraçada, levantou os seus olhos até encontrar os dele. A tristeza nestes era palpável e isso apenas fez o coração de Philippa apertar-se ainda mais. Não gostava de mentir, especialmente a uma pessoa com a qual se comprometera a ser honesta. Mordeu o lábio inferior, contendo o desejo de lhe contar a verdade. Kol podia ter inúmeros defeitos, mas não merecia aquilo, não merecia alguém como ela.
— Já conhecias a Freya? – perguntou o homem ao fim de uns momentos, ansioso por apagar aquele momento tão claramente incómodo para ambos. A vampira pigarreou, fazendo um esforço para se concentrar na sua pergunta e não na quantidade absurda de coisas que corriam na sua mente.
— A cara dela é me vagamente familiar, acho que a vi num baile ou algo assim. Vocês tinham-me dito que ela tinha morrido quando ainda eram humanos.
— Era o que pensávamos. Aparentemente a nossa querida mãe decidiu ocultar-nos que devido a um acordo com a nossa tia, lhe devia o primogénito de todas as gerações Mikaelsons. É por isso que os vampiros não podem procriar – explicou calmamente, olhando-a com a mesma apreensão que acompanhava a sua expressão desde o início da conversa – Estás mesmo bem?
Philippa assentiu, esboçando um sorriso e inclinando-se para beijar o Original ao seu lado. Os seus dedos tocaram timidamente o rosto dele, deixando os seus olhos mergulharem nos dele durante alguns segundos, antes de estes se fecharem ao sentir os lábios dele sobre os seus num beijo desesperado para compensar o tempo perdido. Nunca antes se sentira tão vulnerável junto a Kol. Normalmente, todas as suas preocupações se dissolviam assim que se beijavam, mas o vampiro exigia-lhe tal entrega que sentia o seu coração acelerar à medida que aquela troca de afetos se tornava mais e mais profunda.
Kol era, usualmente, bastante intenso, contudo, parecia esforçar-se para controlar os seus impulsos quando estavam juntos. Aquele beijo, pelo contrário, não tinha nada de controlado. O Mikaelson explorava a sua boca com feracidade, possessivo e gentil ao mesmo tempo, como se a qualquer momento ela se pudesse estilhaçar em pedaços, deixando a sua mão deslizar até à sua perna, puxando-a para ele. Entendendo as suas intenções, Philippa passou as suas pernas ao redor das do homem, apoiando as mãos nos seus ombros, enquanto as dele vagavam pelas suas costas, arrepiando-a quando sentia os seus dedos trilharem um caminho sinuoso pelo interior da sua camisola.
A proximidade com o Original parecia aumentar a cada segundo fazendo-a aprofundar o beijo, numa tentativa de apagar os seus sentimentos e pensamentos contraditórios. Kol era a única droga que ainda tinha efeito nela e embora a sua mente lhe gritasse para cortar aquela ação antes que fosse tarde demais, o seu corpo não parecia disposto a corresponder a tais comandos.
Os seus lábios separaram-se com um leve resmungo do homem, logo apagado pela sensação da boca da Lancaster contra o seu pescoço. O Original soltou um gemido, puxando firmemente a mulher para o seu colo, de modo a poder encará-la nos olhos.
— Sabes que não me podes enganar tão facilmente, Pipa! – afirmou com um zombeteiro sorriso de canto, roubando-lhe um beijo. — Mas já que realmente sei que estás bem, ou pelo menos finges de uma forma convincente o suficiente para mim, talvez fosse melhor passarmos isto para o quarto!
A morena revirou os olhos ao convite sugestivo deste, passando os braços à volta do seu pescoço. Sentia-se de certa forma grata por ele ter cortado aquele ato. Sabia que Kol a desejava da mesma forma que ela o desejava, mas não assim. Não num carro, numa corrida louca para apagar as chagas do seu coração usando o Original para isso.
Os seus olhos desceram até à sua mão, entrelaçada na do vampiro carinhosamente, fazendo brotar nos seus lábios um leve sorriso. Desejava conseguir pôr por palavras aquilo que sentia naquele momento. A felicidade que o Mikaelson lhe transmitia era tão surpreendente e ao mesmo tempo tão familiar. Perguntava-se constantemente como nunca se dera conta dos verdadeiros sentimentos dele. Ele esperara-a durante séculos, permitindo que o seu coração fosse quebrado da mesma forma que o dela fora, terminando relacionamentos que tudo tinham para dar certo, por ela.
Ao longo dos anos aprendera que a eternidade não era uma maldição à toa. O tempo inesgotável potenciava situações e problemas que não faziam parte das vidas efémeras. Nem todos os que se aproximavam deles tinham boas intenções e com os Originais isso era apenas exponenciado. Não lhes era fácil confiar em alguém, mas Kol confiava nela. A pressão de não o querer desiludir assustava-a, mas esse sentimento, tal como todos os outros quando estava com ele, parecia desaparecer em chamas. Tal como com ele.
O vampiro ficou em silêncio durante alguns momentos, olhando-a com carinho e uma certa preocupação, deslizando o seu polegar sobre a lateral do pescoço dela.
— New Orleans está uma confusão… — confessou num tom baixo, sem a olhar nos olhos. — Mas estou feliz por estares aqui comigo, Philippa.
A mulher abriu um sorriso, levando com delicadeza as suas mãos entrelaçadas aos lábios.
— Eu também.
Kol puxou-a para junto do seu corpo, permitindo-se a olhar calmamente a mulher que amara por séculos. Sentia o perfume dela, o calor do seu corpo, o toque macio dos seus lábios nos dele. Ter Philippa tão próxima era uma sensação nova, tão ou mais agradável do que imaginara quando a conhecera. Contudo, a Lancaster era uma verdadeira caixa de surpresas, e o mistério que sempre a envolvia e que tanto o atraíra, começava agora a mostrar a sua outra face.
Também ele escondia certos pormenores dela, começando talvez com o eufemismo que usara ao classificar a situação de New Orleans como uma confusão, mas não podia deixar que a vampira mantivesse segredos dele, especialmente daqueles que podiam significar a morte de todos eles. O jogo que estavam a jogar era demasiado arriscado e não iria permitir que os encantos de Philippa o impedissem de a proteger. Não iria cometer o mesmo erro duas vezes.
Klaus encarava Thomas com o olhar afiado, os braços cruzados em frente ao peito e uma expressão compenetrada. Este, por seu turno, mantinha-se focado em Elijah e Freya que discutiam algo animados, com uma habilmente forjada atenção, suficiente, no entanto, para captar a atenção do híbrido.
O encontro com Philippa e Kol mexera com o Whestchappell tanto quanto mexera com a vampira e as razões que tinham levado àquela reação não deixavam de o importunar.
— Concordas, Niklaus? – O loiro levantou a cabeça assim como o bruxo dirigindo um olhar confuso ao irmão, sentado na cabeceira da mesa — Concordas com uma reunião com as fações do French Quarter? Freya sugeriu que organizássemos um jantar para acalmarmos os ânimos e apresentarmos a situação a Philippa.
Ao ouvir este nome, o homem de olhos esverdeados mudou de posição na cadeira, desconfortável, levando aos lábios a bebida de cor escura que residia em frente a cada um deles, despertando um sorriso sádico nos lábios de Klaus.
— Acho uma ótima ideia, Elijah! Na realidade, porque não organizarmos uma festa? Haverá melhor maneira de celebrar o regresso de Philippa à cidade? — indagou com um sorriso falsamente inocente, acompanhado de um sobrolho franzido de Elijah.
— Então está decidido! — concordou o Mikaelson mais velho, levantando-se — Eu tenho de ir ao Bayou falar com os lobisomens, a lua-cheia é daqui a poucos dias e eles estão preocupados em conter a sua transformação. Acompanhas-me, Niklaus? Josie referiu que gostaria de falar contigo…
— Infelizmente não posso, já tenho… planos!
— Espero que esses planos não incluam um massacre no Quarter! Conto que tenhas noção do quanto já chamámos as atenções nos últimos meses! — advertiu o moreno com um olhar censurador sobre o irmão que se limitou a erguer as sobrancelhas, divertido.
— Como me poderia esquecer se todos os dias me lembras para me comportar? Não te preocupes, Elijah, os meus planos para esta noite não são assim tão divertidos! Mas se procuras companhia porque não levas Freya? Podia sugerir Kol ou Philippa, mas conhecendo bem o nosso irmão, duvido que eles não tenham planos mais agradáveis… — alfinetou, sugestivo o suficiente para fazer a irmã revirar os olhos com tédio e Thomas mover-se desconfortável na sua cadeira, regressando segundos depois à sua posição neutral.
— Por mim tudo bem! — acedeu a bruxa com um suspiro, sem ânimo para rebater as claras provocações de Klaus — Vemo-nos à noite, amor?
O Whestchappell pareceu acordar do transe naquele momento, beijando rapidamente a loira e levantando-se, preparando-se para sair atrás da mulher e Elijah quando sentiu uma mão no seu braço impedindo-o de concluir o seu ato.
— A minha irmã pode ser cega o bastante para não ver o traste que tem nas mãos, mas não contes com esse tipo de benevolência da minha parte! Eu vou descobrir o que se passou entre ti e a Philippa e quando o fizer… bem, penso que já convives connosco há tempo suficiente para saberes como acabam aqueles que nos ousam enfrentar!
O bruxo franziu o sobrolho processando as palavras do loiro com um sorriso que raiava a evidência do desprezo que tinha pelas suas ameaças.
— Desejo-te então boa sorte, Mikaelson! – afirmou num tom baixo desafiador, sem perder a pose, alargando mais o seu sorriso ao ver o do híbrido ser gradativamente substituído por uma pesada carranca.
O respeito que a primeira relação amorosa de Freya com alguém exigia e a promessa que fizera a Rebekah quando esta deixara a cidade para proteger a sua filha de não voltar a interferir nos relacionamentos dos irmãos, eram as únicas razões porque aquele bruxo insolente não estava ainda com o pescoço partido, mas a cada provocação Klaus não podia deixar de sentir que existia ali algo mais. Quase como se ele quisesse que ele perdesse as estribeiras.
Sacudiu a cabeça, saboreando com uma careta o resto da bebida na sua taça. Por mais que tentasse contrariar o instinto que lhe dizia que aquele era um pensamento rebuscado demais até para Thomas, sabia que nada lhe era impossível.
E de algum modo isso estava ligado a Philippa.
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