Em tempos imemoriais, este planeta era vigiado por alados seres de bondoso coração. Tinham aparência humana, embora sua pele fosse pálida e seus cabelos de tom metálico. E, claro, a maior diferenciação: Suas magníficas asas. Eram translúcidas, e o que se via era o contorno da membrana e as delicadas vertentes do mesmo (que lembravam rios afluentes que sempre se entrelaçavam), cujas linhas davam a impressão de serem feitas de uma contida labareda, variando entre os tons frios. Eram grandes amigos dos animais que compartilhavam o espaço celeste com eles, frequentemente vistos rodeados por passarinhos e borboletas.

Attely – cuja última sílaba se pronuncia ‘rai’ –, esse era o nome pelo qual foram chamados. Voavam pelos mais diversos lugares, ajudando a quem precisasse. Porém, nessas visitas, alguns acabavam por se apegar aos humanos locais. E, por vezes, esse apego se tornava algo além da amizade.

Foi a sua ruína quanto à moradia neste mundo. Os apaixonados, para ficarem ao lado daqueles que amavam, abriam mão de suas asas e de sua mística existência. Tornavam-se seres humanos comuns, ainda que não fossem corrompidos por sentimentos como ira, inveja ou ódio. A líder da raça, com medo de que todos acabassem por sucumbir àquela tentação, ordenou que voltassem para sua dimensão de origem.

Dizem que alguns dos mestiços que surgiram dessa união ainda andam por essas terras, sorrindo para cada borboleta que passa a sua frente, ajudando a todos que entram em seu caminho, e esperando seu despertar.


Once I knew all the tales Uma vez eu sabia todos os contos


-Conta essa história de novo, mãe! – pediu a garota, avidamente

-Ah, Clara... – suspirou a mulher que estava sentada na beirada da cama – Não acha que já está um pouco tarde?

-Mas essa é incrível! – exclamou ela, os olhos azuis brilhando – Não tem mais nenhuma sobre os Attely?

-Realmente gostou tanto assim? – indagou a mais velha, recebendo uma afirmativa animada

-Por favor! – suplicou Clara

-Não. Já está na hora de dormir. – argumentou a mãe

Em seguida, ela fechou o livro que estava em seu colo, e beijou a testa da filha, lhe desejando boa-noite. A menor, ainda que contrariada, deitou-se e se aconchegou debaixo do edredom para dormir.

Não demorou muito para que caísse no sono. Um sono sem sonhos, e leve o suficiente para acordar ao som da porta da sacada se abrindo. Colocou-se sentada, esfregando os olhos. Ao mirar o relógio no criado-mudo, percebeu que tinha acabado de começar outro dia. Voltou a atenção para a porta, tentando se lembrar se sua mãe tinha a trancado naquela noite.

One night the clock struck twelve Uma noite o relógio bateu à meia-noite

The window open wide A janela abriu-se escancarada


Não que estivesse reclamando. A brisa noturna que entrava naquele momento era completamente adorável. Adorava a maneira como ela brincava com seu cabelo de singular tom cinzento, e amava a sensação boa que ela lhe trazia, embora não soubesse identificar o que era aquilo.

De repente, viu um brilho. Uma borboleta azul turquesa voava pelo seu quarto. Ela pareceu até parar a sua frente por um momento, em seguida girando a sua volta e saindo em direção da sacada. A garota, encantada pelo pequeno inseto, logo se levantou e o seguiu. Quando a borboleta ultrapassou o limite da sacada, nem hesitou em descer pelas vinhas ao lado. Já fizera aquilo diversas vezes – não que fosse uma criança bagunceira; simplesmente não gostava de estar presa em um lugar fechado.

Seguiu o pequeno ser alado, que parecia até estar brilhando debaixo da luz advinda da lua cheia, que imperava no céu daquela noite.

It's time to turn back time É hora de voltar o tempo

Follow the pale moonlight Siga o luar pálido


Seguiu aquela brilhante visão, por entre o bosque que havia atrás de sua casa. Passou por todas as belas e frondosas árvores, chegando ao limite das terras de seus pais.

Limite literalmente. O som da água corrente era nítido, mesmo estando há tantos metros abaixo. A beira do precipício estava a poucos passos dos pequenos pés descalços.

A borboleta continuou seu caminho, atravessando o vazio, seguindo pela ponte que o ar construía para aqueles com o dom do voo.

E, por um momento, ela parou no meio da travessia, quase como se estivesse a chamando.

Clara deu mais um passo, mas hesitou ao ver que se aproximava do limite. E então, a brisa a atingiu de novo. E foi em um estalido que se deu conta.

Quando o vento a tocava, lhe lembrava de como seria a sensação de voar.

Como se aquela percepção tivesse lhe dado uma nova energia, voltou a andar. Sem medo. Sem hesitação.

Faith brought me here Fé me trouxe aqui

It's time to cut the rope and fly É hora de cortar a corda e voar


Ao que se jogou, sentiu mais do que nunca uma sensação boa ao que o vento a envolveu. Um brilho novo apareceu em seus olhos...

Seen through the eyes Visto através dos olhos

Of the one with pure heartDaquele com coração puro


Um brilho que só ganhava força naqueles que mantinham a pureza do acreditar. E, um instante após sua queda ter iniciado, uma suave luz verde apareceu em suas costas. Logo um rio de labaredas começou a se desenrolar, brilhando intensamente. Antes que encostasse na água, brandiu suas asas, cessando a queda.

Sorriu. Seu sangue Attely tinha acabado de ser despertado.

Notas finais
So, mereço reviews? :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!