Angelique
3 Capítulo 3
Lá estava Angelique naquele mesmo lugar que parecia ser sua rotina agora. Haviam se passado duas semanas, a exposição de Kyle tinha sido um sucesso total, tanto que foi convidado pelo dono de uma importante galeria de uma grande cidade do estado vizinho para expor por três semanas. Sua habilidade se desenvolvia de maneira inacreditável. A vida do rapaz estava tomando um rumo completamente diferente. Quando percebeu que poderia ter um futuro com desenhos e pinturas, Kyle transformou-se, em seu apartamento não havia mais garrafas de cerveja jogadas pelo chão e ele tentava parar de tomar os remédios, estava disposto a superar seus vícios. Menos a nicotina, isso ele decidiu que não largaria no momento. O jovem havia transformado sua sala em seu espaço de criação, trocou televisão por cavaletes, sofá por mesas com lápis, de todos os tamanhos, e tintas de várias cores.
Mas não era somente isso que Angelique observava de diferente naquele lugar, a dona da galeria também havia se tornado comum naquele espaço. A cupido estava em seu lugar cativo, em cima do guarda-roupa, a mulher se encontrava semi-nua, deitada ao lado de Kyle, sua cabeça no peito do rapaz e as mãos dele afagando-a. A criatura mística estava ali por chamado do amor, ela deveria flechá-los naquele maldito instante antes que a terceira lágrima negra rolasse. Ela sentiria a dor e culpa três vezes mais. Mas Angelique não iria flechá-los, estaria a cupido se rebelando contra a grande força superior? Se sim, até quando o ser supremo toleraria as atitudes daquela cupido? Ela não sabia, mas não tinha medo em tentar descobrir. Simplesmente não conseguia flechá-los. Não era a hora certa para ele.
– Nós continuaremos apenas com transas casuais? – a mulher perguntou para Kyle. Seu queixo estava apoiado em sua mão, que se encontrava no peitoral do rapaz, por isso sua voz saiu um tanto abafada.
Era esse o momento, Angelique flecharia primeiro Kyle, ele responderia que queria mais do que aquilo, pois sentia que ela era certa para ele, em seguida ela acertaria a mulher, que sorriria e o beijaria ternamente. Então ambos viveriam os anos mais felizes de suas vidas. Era simples o que a cupido deveria fazer. Mas ela não fez. Naqueles segundos em que Kyle hesitava em responder, Angelique olhou nos olhos de ambos e viu novamente suas histórias de vida. Por mais que a mulher aparente elegância e confiança, seu passado é miserável. Filha de imigrantes de italianos, Valentina, era o nome dela, chegou ainda muito nova no país, por isso seu sotaque não é tão acentuado como de seus pais, porém, como todos que chegam de mãos vazias em um país desconhecido, desde cedo ela trabalha, começou aos 14 anos na padaria do pai, aos 16 começou suas aulas de artes e passou a trabalhar em uma galeria de arte e aos 18 conheceu um rapaz que jurava amor, mas que somente queria dar um golpe no dono do lugar. Quando caiu na armadilha, a menina passou por uma época negra, foi presa como cúmplice dele, mesmo não tendo nada a ver com a história. Na prisão começou a mutilar-se e desenvolveu problemas de confiança. Conseguiu provar sua inocência apenas no ano seguinte, então se mudou para a Itália, fez faculdade e se formou com honras. Juntou um dinheiro, fez nome e voltou para o país em que cresceu, totalmente nova por fora, porém, a mesma jovem angustiada e depressiva por dentro.
Já Kyle tinha uma história que tocaria o coração de qualquer um que ousasse lê-la. Sempre fora um menino levado, a mãe berrava a tarde inteira para ele voltar para casa, mas ele preferia sempre ficar no campinho jogando bola, apanhava para tomar banho e gostava de provocar seus dois irmãos mais novos. Uma tarde, após o almoço, todos foram dormir, menos Kyle. O menino estava ansioso para ver o que acontecia com seus soldadinhos de plástico se os colocassem no forno, então ele pegou uma vasilha de alumínio e colocou seus brinquedos dentro dela, ligou o gás, porém o botão do fogo não acendia, para não ficar irritado, o garoto decidiu ir jogar um pouco de bola antes de tentar novamente. Pegou-a no canto da sala, fechou a porta e ficou o resto da tarde brincando com os vizinhos. Angelique tremia sempre quando chegava nessa parte da história do rapaz. No começo da noite, seu pai chegou do trabalho, abriu a porta e sentiu o cheiro do gás de cozinha, correu para desligar, mas quase toda sua família já havia morrido intoxicada. Todos os três morreram dormindo. Suas feições estavam tranquilas, como se estivessem tendo um bom sonho. Kyle não viu os corpos, mas escutou esse relato dos enfermeiros que chegaram com a ambulância. O garoto nunca mais entrou naquela casa. Viu três macas saindo com os corpos embrulhados e seu corpo paralisou. Seu pai não olhava para seu rosto. Kyle tinha apenas oito anos. Foi o assunto do país naquela época, seu nome nem seu rosto foi exposto, por ser de menor, depois de alguns meses de tremendo horror, ele foi parar em casas de adoção, passou por várias, carregando sempre seu trauma. Fez terapia por mais de dez anos, a culpa diminuiu, apesar de ainda existir. Por isso o fundo de seu poço era tão profundo. Por isso Angelique simpatizava tanto com ele.
Assim como ela, Kyle vivia se indagando o motivo de sua existência, seu valor e o quanto sua vida valia a pena. Ele vivia sua escuridão particular. Já pensara em suicídio, inúmeras vezes, mas sabia que, para onde quer que ele fosse após a morte, não reencontraria sua família. A cupido sorria sarcástica com esse pensamento, “nem se você pensasse que fosse, iria encontrá-los”, visto que sabia a inexistência de vida após a morte. Duas almas miseráveis compartilhando o mesmo desejo: encontrar significado para suas vidas. Era trabalho de Angelique fazê-las com que se encontrassem, mas ela não iria. Ela não flechou quando deveria ter feito. Valentina balançou a cabeça e deu dois toques em Kyle, murmurou um ok e se levantou daquela cama. Angelique desapareceu instantaneamente, aparecendo no terraço daquele prédio, ela não iria ficar para ver o terceiro potencial amor do rapaz ir embora por aquela porta. E nem arriscaria a terceira lágrima negra escorrer no apartamento, ainda mais com o rapaz tendo a possibilidade de conseguir vê-la. E foi no momento em que seus pés tocaram o chão que Angelique sentiu a lágrima aparecer em um de seus olhos. Sentia uma dor que começava na ponta de seus dedos dos pés subir até seus olhos, nesse caminho parecia que estava levando tudo o que existia dentro de seu ser. Como uma patrola em um terreno cheio de obstáculos. A dor realmente era três vezes maior. Era como se suas asas tivessem dez vezes mais o tanto de penas e Angelique arrancasse uma por uma. Ela se ajoelhou de dor enquanto lentamente aquela lágrima escorria em sua bochecha. Se arrastou até atrás de alguns vasos de planta e ficou esparramada no chão.
Mesmo com toda aquela dor, a cupido ainda pensava ter feito o certo. Ela tinha esse sentimento dentro de si que a impedia de fazer Kyle se apaixonar, ela se identificava com o rapaz, não fazia ideia do motivo de suas ações, ela apenas... agia. Angelique sentiu seu braço direito arder, não era a mesma dor da lágrima, ela então olhou e viu uma imagem se formar, era uma nova tatuagem. O desenho era de um rapaz idêntico a Kyle, ele segurava um pincel que se transformava em pequenos pássaros na ponta superior, a cupido não entendia o significado daquilo, mas tinha a sensação de que em breve saberia. Ela permaneceu deitada por um tempo indeterminado, se deixou levar por suas memórias, tentou se recordar de cada casal que já juntou durante seus quarenta anos de existência – que foram muitos –, ainda não sabia o que era o amor, talvez nunca fosse descobrir, ela não havia sido criada para sentir e saber, apenas para ajudar outros. A lágrima caiu de sua bochecha e, no instante em que tocou o chão, toda sua dor desapareceu, era hora de partir, havia outros casais para serem formados, talvez ela reencontrasse Kyle em algum futuro, ela estava decidida a flechá-lo, por mais que isso fosse contra seus instintos, ela tinha que parar de ser tão teimosa, afinal, o ser superior existe há mais tempo do que ela, então ele sabia como tudo funcionava muito mais do que Angelique.
Ela se levantou e preparou suas asas para voar quando escutou um “Wow...” vindo atrás dela. A cupido se assustou e olhou para trás, arfou quando viu que era Kyle. O cigarro preso entre seus lábios quase caía e o isqueiro que estava em uma de suas mãos encontrou-se com o chão. Os olhos verdes do rapaz estavam arregalados. Angelique franziu o cenho. Havia sido vista. Isso nunca ocorrera com ela, sempre havia tomado todas as precauções quando sentia a energia pura de alguém; estava tão imersa em sua vida que não havia sentido a dele. Mas como se alguém tivesse acendido algo dentro dela, algo como uma lâmpada ou tirado uma venda de seus olhos, ela sabia exatamente o que falar e havia aceitado o destino que de repente havia lhe sido mostrado. O céu repentinamente ficou nublado. Ela se aproximou de Kyle e retirou o cigarro da boca do rapaz, jogando-o para longe
– Por toda minha vida caminhei sem rumo na Terra, juntando casais. Todo mundo deseja ser amado. Mas será que todos encontrarão o amor? Nem todos. Você foi agraciado por ter inúmeras oportunidades, mas meu egoísmo não deixou. Identifiquei-me contigo desde a primeira vez que vi tua história. És um rapaz tão triste quanto sou. Não sei o que é amor e dediquei minha vida a despertar esse sentimento em outros. Não sei sentir nada além de angústia e tristeza. Você despertou outras coisas em mim, não sei explicar. Observo-te e sinto que não é comigo que tua história tem que ser feita o final feliz. Por mais que muitos recusem admitir, a maior parte das pessoas aqui do planeta Terra gostam de uma boa história de amor. Um dos motivos para que eu as faça acontecer. Por mais que não sei como é o sentimento que desperto nas pessoas, sei algumas coisas são decorrentes dele, como a entrega total de si e a vontade de que a outra pessoa seja mais contente do que você é consigo mesmo. Um nome tão curto para o sentimento mais complexo que humanos e deuses podem sentir. Causa de guerras e tensões. Respostas para perguntas e motivo para um algo melhor. Posso reencarnar duas mil vezes como cupido que ainda não entenderei a complexidade e profundidade desse sentimento, mas sei que você despertou em mim algo muito próximo. É por isso que me entrego, que transformo minha vida em seu futuro maravilhoso. O que te aconteceu de ruim nunca havia sido de sua verdadeira intenção, esse buraco em sua alma tamparei com minha essência. Há outro como eu que te encontrará e te fará despertar o amor merecido. Existi para te dar paz. Existi para preencher teu espírito. Aceito submissa meu destino. O destino de Angelique.
Após sua fala, a cupido beijou a testa do rapaz, que ainda a olhava tentando entender o que estava acontecendo, inúmeras lágrimas negras escorriam dos olhos de Angelique, ela finalmente pode sentir. Seu coração estava apertado, novamente um bolo em sua garganta, em meio a lágrimas negras, lágrimas reais escorriam. Por milésimos de segundos antes de se desintegrar por completo, ela conseguiu sentir o que era o amor. Angelique amou Kyle, e o amou profundamente. Os pontinhos negros rodeavam o rapaz que havia caído de joelhos após a moça ter se desfeito em sua frente, ele olhou para cima e os respirou profundamente, aos poucos eles entravam no jovem, passavam por seu sistema respiratório, nervoso e sanguíneo. A dor de ter causado a morte de seus familiares passava aos poucos, se transformando em uma memória distante que, apesar de doer menos, ainda doía. A escuridão que dominava seu ser aos poucos se dissipava. Ele agora conseguia pensar em seu futuro, planejar e ter esperança de tudo dar certo. Ele já não sentia mais necessidade de recorrer a vício algum. Pela primeira vez desde a morte de sua família, Kyle sentia verdadeira felicidade. As nuvens davam espaço para os raios solares, o rapaz se sentia muito mais apto a desenhar e a viver. Angelique descobriu qual era o seu destino poucos segundos antes de morrer. A felicidade de Kyle.
Era esse, era esse o destino de Angelique.
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