Angel of Light
26 Vinte e Seis
Notas iniciais
Os seus seios estavam colando no sutiã e a sensação era estranha, tinha perdido a vontade de transar quando os dedos se Stephen começaram a se demorar mais que o habitual por conta da fita. Era um vestido maravilhoso, mas não, não o usaria nunca mais. Nem ele e nem qualquer outro vestido que precisasse desse sacrifício.
Hoje era o dia da faxina. Tinha que começar a se preparar pois logo Wong apareceria e estava pensando demais no Mestre dos Brinquedos. O pequeno totem na sua forma estava escondido e não mostraria a ninguém, se esse homem estava perseguindo-a de algum modo, teria que se virar para descobrir como faze-lo parar a sua matança.
De dentro do armário na área de serviço tirou o que precisava de produtos de limpeza e acessórios de faxina, colocou tudo em um balde e puxou o aspirador de pó. Seria uma manhã bem longa.
“Bom dia, Wanda”, a voz de Wong falou. “Eu vou ajudar você com esse aspirador”, o seu amigo puxou o aparelho das suas mãos. “Agora que o Stephen está trabalhando e ganhando bem, ele pode comprar um aspirador de pó novo para o Sanctum. Eu acho que vou pedir um iPod novo de aniversário esse ano. O que você vai pedir?”, ele riu.
“No meu último aniversário ele me deu um marido, tenho medo que ele me dê um filho esse ano”, riu.
“Então vocês andam...?”, a curiosidade de Wong era desconfortável.
“Não para fazer crianças, não, Wong. Chega de falar disso”, disse rapidamente. “Aonde vamos limpar primeiro?”.
“Eu pensei em primeiro lá em cima e depois nós descemos, não faz sentido limpar aqui embaixo, depois limpar lá em cima para voltar e emporcalhar o que já limpamos”, sim, fazia sentido. Calçou as luvas de borracha nas mãos e subiu com esfregões e baldes.
Wong subiu na sua frente e tirou de dentro de um dos armários a caixinha de som para colocar o iPod. A playlist dizia Wong’s Jam Sessions e uma foto dele. Riu disso quando o viu colocar no modo aleatório. Antes de começarem, a primeira música a tocar foi Single Ladies, de Beyoncé.
“Stephen e eu temos uma relação forte com essa música”, ele riu. “Eu estava ouvindo com fones de ouvido na biblioteca, lendo uma revista sobre novelas, quando de repente eu percebi que alguma coisa estava acontecendo pelas minhas costas”, Wong disse nostálgico. “Ele estava abrindo portais para pegar livros da biblioteca, tinha acabado de aprender sobre projeção astral”.
“Que gracinha, é a música de vocês”, brincou.
“Sim, é a nossa música, mas qual é a música de vocês? Todo casal tem uma”, o seu amigo falou enquanto ligava o aspirador de pó na tomada.
Não sabia que música era a sua com Stephen, tinha ouvido tantas no primeiro beijo que ficava difícil escolher somente uma. Havia uma que era especial, que dizia que era melhor dizer alto que tarde demais e que amor não é amor até você senti-lo. Essa parecia funcionar melhor, mas não poderia esquecer das outras.
“Amongst the Waves, Pearl Jam. Com uma pitada de Sirens, também do Pearl Jam, e Love Hurts do Incubus. Oh, e uma música que nós dançamos ontem, foi bastante conveniente ter tocado The Night We Met, de Lord Huron”, respondeu.
“É difícil escolher só uma quando você tem uma playlist que lembra o Stephen”, ele riu. O barulho de aspirador de pó era alto e precisavam começar a limpar tudo.
“Como sabe que a minha playlist é sobre as minhas impressões sobre ele?”, perguntou surpresa. Umedeceu a flanela listrada com produto para limpar madeira e começou a tirar os livros pesados das prateleiras.
“Não é difícil prever esse tipo de coisa, vocês se apegaram um ao outro. Eu achei que demoraria um pouco mais, mas eu torço por vocês desde que você chegou aqui. É tão bom ver vocês dois tão apaixonados, parece um clichê... daqueles gostosinhos de ler nas tardes de domingo”, Wong confessou.
“Como assim?”.
“Você é uma garota legal, Wanda, e o Stephen é alguém legal debaixo daquela máscara de eu sou um deus. O que nós vamos almoçar? Eu acho que vou encomendar alguma coisa no vietnamita aqui perto”.
“Ainda são dez da manhã e nós acabamos de tomar café. Como eu faço para limpar as redomas das relíquias?”, perguntou.
“Aqui tem um produto especial para vidros, pode usar com este maravilhoso rodinho de pia”, ele piscou enquanto mostrava o rodo em miniatura. “Agora é uma pergunta pessoal...”
“Mais pessoal do que perguntar se eu e Stephen já estamos fazendo bebês?”, retrucou.
“Qual é a sua música? Aquela que rege a sua vida, que você acha que combina com as suas motivações”, Wong perguntou sincero. “A minha é Survivor/I Will Survive, Destiny’s Child e Gloria Gaynor em mash-up. Não me olhe assim, um cara fica traumatizado depois de descobrir que a namorada passou para o lado de Kaecellius”, percebeu o tom sombrio quando citou a mulher, não sabia que ele tinha se envolvido romanticamente como alguém do Kamar-Taj.
“I’m Alive, Shinedown”, disse sem voltas. “Eu sou a única que o salvará hoje à noite, acho que isso deveria funcionar comigo”.
“Não... não se pressione tanto, Wanda. Você está fazendo progresso. E Stephen me contou uma coisa bastante curiosa sobre você... que você anda recortando os jornais e tirando tudo o que faz menção ao Mestre dos Brinquedos”.
“Stephen fala demais sobre mim, então?”, arqueou uma sobrancelha.
“Você acredita mesmo que esse pode ser um caso para nós, algo místico?”, ele rebateu.
“São crimes de ódio, Wong, requintes de racismo e xenofobia. Eram crianças, todas elas! Eu não seria eu se não me sentisse inquieta, eu sou a mesma coisa, uma estrangeira buscando asilo político aqui”, suspirou.
“Se você acha que pode ser algo da nossa alçada, o que acha que pode ser?”
“Eu venho estudando demonologia há algum tempo, acho que pode ser isso. Alguém invocando uma força que não faz ideia de como controlar”, se dirigiu para a vidraça aonde ficava a capa de levitação. A peça de Stephen veio e se achegou até o iPod para mudar a música. O piano e os gritinhos denunciavam Dancing Queen, do ABBA. Quem não gosta de ABBA?
“Ela tem um senhor bom gosto, Wanda”, Wong apontou para a capa. Ele suspirou. “Que Stephen não saiba, mas eu também andei investigando esses casos. Quem fez isso não deixou muita coisa para trás fora os totens. Tenho uma pista, mas pode não dar em nada, não sei. Vamos conversar depois sobre isso, agora precisamos terminar de limpar isso tudo e eu já estou cansado só de lembrar”, ele resmungou.
Foi uma manhã longa limpando as prateleiras, tirando a sujeira dos carpetes, espanando as paredes, tudo isso ao som da playlist animada de Wong. Jurava que o tinha visto rebolar um pouco quando tocou uma versão retrô de Bye Bye Bye do N’Sync. As suas costas doíam e sabia que teria que fazer mais um pouco disso depois. Olhou para o lado e viu o vidro da rede de cabelos reluzir um pouco assim como um vento gélido tomou conta do ambiente.
Se levantou do chão e pausou o iPod de Wong justo quando tinha chegado em Footloose. Se aproximou da redoma cristalina e viu como a rede de cabelos de encaixava perfeitamente no busto de porcelana. O trançado era fino e preciso, as pedras não tinham tanto trabalho assim, mas as gemas pareciam simetricamente lapidadas. Se fosse uma joia atual, diria que os detalhes em negro eram ônix negras, entretanto, quando comparadas a rubis verdadeiros, ônix negras não tinham valor de mercado equiparado ao de rubis. Aquilo deveria ser caro, então se perguntou como poderiam manter aquilo junto das outras coisas e o Sanctum aberto para qualquer pessoa. Na verdade, era estranho que não tivesse tido muitas ocorrências assim para que fosse preciso chamar o Mestre Strange.
Observou mais um pouco a joia e sentia uma estranha atração por ela, como se ela quisesse que fosse sua. Riu ao cogitar isso, mas depois do que viu acontecer e de como se tornou um milagre pelas mãos da HIDRA, não era difícil crer que esse artefato tinha tanta vida quanto a capa de levitação de Stephen.
Podia sentir, no fundo, que não era somente a rede de cabelos que estava à espreita. Se virou com calma e nada viu, estava crente de que algo a observava e não tinha nada ali.
“Wanda! Almoço!”, se assustou, não ouviu a porta abrindo. Olhou no seu relógio de pulso e viu que já passava do meio-dia. Devido ao esforço de ter que arrastar alguns móveis, estava com fome e curiosa para saber o que Wong tinha trazido do restaurante.
A sensação de ser observada não passou, sentia que algo estava com os olhos grudados nos seus passos e teria que tomar cuidado. O Sanctum de Nova York lhe era familiar apenas de um modo, dos outros ainda lhe parecia hostil e estranho.
[...]
Apesar de tudo, se sentiu ultrajado por Wanda na parte em que ela disse que estavam invocando uma força que não sabiam controlar. Bebericou o seu chá e se lembrou de Rodrick. Não conseguia falar com ele e tinha medo do que ele tramava. Sabia que os interesses dele iam além de dar um susto rápido em Wanda e Stephen para os poderes de ambos se amplificarem e eles se conectarem emocionalmente mais ainda, mas até Loki temia o que poderia vir de seres como ele. Isso cheirava mal e não era o cabelo do seu irmão sem lavagem há dias.
Odin, Asgard... tudo isso não o fazia querer voltar para casa. Não pertencia em Asgard, pertencia em qualquer lugar que poderia observar o seu casal favorito e fazer os dois acontecerem.
Os seus primeiros movimentos com eles haviam sido propositais, mas agora... agora só precisava assistir os dois tendo momentos ardentes à noite. Estava para mudar os seus planos para que tudo acontecesse mais rápido, não importava o que Stephen tivesse visto com a Joia do Tempo.
[...]
Não conseguia escolher um saquinho de chá, estava pensando em misturar hortelã e cereja e isso não era um bom sinal. Uma semana que sem ter uma noite com Wanda estava deixando-o mal-humorado, todos notavam. Para um homem que tinha uma vida sexual bastante ativa, isso era deprimente. E doloroso.
A emergência não estava exatamente calma, mas sair para tomar um chá poderia ser revigorante. Já tinham vomitado no seu tênis e uma senhorinha tinha apalpado a sua bunda quando não viu aliança alguma na sua mão, isso era um sinal para adquirir alianças, bem lembrado. Entrou no corredor que dava acesso ao seu escritório minúsculo e viu Billy para do na porta. Já estava ficando injusto deixar o garoto sem aprender direito e traumatologia não era especialidade para ele.
“Dr. Strange, a sua esposa mandou o seu almoço, ela disse que precisava ir a Long Island e lhe deixou um cartão”, ele entregou o saco de papel nas suas mãos e sentiu o cheiro de carne assada com purê de batatas.
Eu precisava checar Cassie Lang, devo isso ao pai dela – W.
Não gostou muito de saber que ela iria sair sozinha para Long Island, a ideia dela dentro de um trem cheio e depois um ônibus cheio era terrível. Se lembrou de adicionar um automóvel na sua lista de prioridades para o ano.
“Ela foi visitar a filha de um amigo e eu não gosto nada disso”, falou reticente.
“Do amigo ou da visita à filha do amigo?”, Billy perguntou em dúvida.
“Não gosto do amigo e nem dessa visita”, foi o que conseguiu.
“Mas a filha dele é bonita? O senhor poderia me apresentar para ela”, o residente insistiu.
“Bom, para uma criança ela até que é uma gracinha, me lembra muito as minhas sobrinhas”, riu.
“Podemos esquecer que essa última parte aconteceu, Dr. Strange? Eu não quero ser o próximo alvo do Dr. West”, ouviu.
“Por agora, sim, mas eu vou lembrar no dia que você tirar a sua licença. Ei, Billy, você lembra daquela vez que você perguntou pela filha do amigo da Wanda e ela vai querer bater em você assim como o pai da menina. Nunca mais fale coisas assim, certo?”, Billy afirmou com a cabeça rapidamente.
“Ah, senhor, tem uma mulher querendo vê-lo. Ela é loira e usa um distintivo bem bonito do Departamento de Imigração”.
“Eu já sei quem é, só não esperava que ela viesse aqui. Eu cuido dela, faça a triagem das crianças, hoje você vai para a emergência pediátrica”, vibrou falsamente. Teria que lidar com Eleanor Janise, isso não era um motivo para comemorar.
Andou sem vontade alguma e a passos lentos até a porta que tinha o seu nome na plaquinha de metal. Pediu que o multiverso o mantivesse calmo pois já estava mal-humorado o suficiente por não estar fazendo sexo. Abriu a porta e viu a mulher loira em pé, olhando para os seus certificados.
“Sra. Janise, é uma honra receber a sua visita”, disse tentando parecer cordial o tempo todo.
“Dr. Strange, eu disse que viria ver o senhor. Preciso fazer algumas perguntas, se não se importa”, a mulher tirou de dentro da bolsa de couro italiano uma agenda. “Há quanto tempo reside em Nova York?”
“Quinze anos, fiz faculdade e carreira aqui”, disse objetivo.
“Bom, isso significa que possui laços com a cidade. Como conheceu a Srta. Maximoff?”
“Por intermédio de um amigo em comum. Nos correspondemos por um tempo e começamos a namorar”.
“Antes ou depois do Acordo de Sokovia? Precisa ser dizer a verdade”, ela insistiu.
Tinham se conhecido por intermédio de um amigo em comum, sim, Thor era esse amigo, mas falar a verdade poderia coloca-la em risco. “Antes do Acordo, quando ela morava na Torre dos Vingadores ainda”.
“Interessante. Como considera a relação dela com os seus amigos? Ou melhor, como acha que eles a consideram?”, Eleanor estava bastante insistente.
“Wong definitivamente gosta dela, as outras pessoas estão conhecendo-a agora”, disse a meia-verdade.
“Ah, sim, conversei antes com o Dr. Nicodemus West, ele falou coisas interessantes sobre vocês dois. Sobre como a Sra. Strange estava trajada na noite do Baile de Gala do Metro-General Hospital e como o senhor agiu com violência quando ele a elogiou”, a mulher sabia, então, do baile.
“Eu assumo ser um homem bastante ciumento, não gosto do modo como ele fala da minha esposa”, foi curto.
“Dr. Strange, o senhor esmurrou um homem em uma festa”, Eleanor disse.
“Esmurrei? Ah, sim, aquela coisa boba... eu prefiro enxergar pelas lentes de que eu estava apenas defendendo a honra da minha adorável esposa. Hoje é quarta-feira, ela deixou o meu almoço aqui”, riu do hábito que Wanda tinha adquirido por conta da assistente social enquanto balançava o pacote pardo.
“Sim, é adorável”, a mulher anotou algo na agenda. “Pensam em filhos, Dr. Strange?”
Engasgou com o seu chá, Eleanor Janise fez essa pergunta para Wanda também e era a segunda pessoa que o questionava sobre crianças e essas coisas. Com Wong poderia conversar depois, com essa mulher não. Tinha acabado de fazer um mês de casamento e não era possível que estivessem pressionando os dois para que tivessem um filho.
Um filho requeria cuidados, responsabilidade, uma poupança bem gorda para a faculdade de medicina e um ambiente que não fosse o Sanctum de Nova York para crescer... é, filhos agora não.
“Ah, eu tenho duas sobrinhas, por enquanto achamos que é o suficiente de crianças nas nossas vidas”, respondeu.
“Filhos não no momento”, ela falou enquanto escrevia mais um pouco. “Vocês têm algum animal de estimação? Um cachorro ou um gato, talvez um hamster...”
“Não”, estava começando a se sentir desconfortável sobre esse batalhão de perguntas sobre a sua vida sexual e o fato de não querer ter filhos agora.
“Eu vou ligar para o seu irmão, para averiguação. Qual o perfume que ela usa?”
“Eksos, Korres. Importado”, respondeu, que tipo de pergunta era essa.
“Tivemos uma boa conversa, Dr. Strange, no próximo mês farei mais uma visita e também conversarei com o seu estagiário, William, ele parece bem-disposto a falar do senhor. Até mês que vem, doutor”, a mulher se levantou e saiu, não se despediu nem nada, só abriu a porta e se foi. Precisava dar um jeito de essas conversas serem as menos traumatizantes possível. E menos chatas, também.
Quando garfou a salada de folhas que Wanda mandou, teve uma sensação estranha, como se algo gelado estivesse passando pelo seu escritório. Não era diferente da sensação de se sentir observado o tempo todo, como se alguém tivesse os olhos no que fazia o tempo todo. O tempo todo implicava que tinha alguém observando quando ele ia para a cama com Wanda e isso não era legal.
Bebeu o resto do seu chá e continuou a comer. A sensação, no entanto, não se foi. Algo de muito estranho estava acontecendo e tinha quase certeza de que era alguma coisa relacionada ao tal Mestre dos Brinquedos e o fato de não conseguir provar que ele e Rodrick eram a mesma pessoa. Ou o mesmo Dividido, tanto fazia. Estava uma pista à frente de Wanda e não poderia deixa-la mexer nesse vespeiro sozinha.
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