Anelize
4 Capítulo 4
A porta do quarto se abriu, o velho tio de Anelize estava lá com os olhos arregalados, totalmente frio e sem qualquer sinal de vida. Sua esposa havia desaparecido. Joana olhou desesperadamente ao redor do quarto, quando uma batida a trancou dentro do recinto de morte. Assim que a mesma se virou para olhar a porta, alguém surgiu por detrás da mulher dizendo em palavras engasgadas: “_Eu que... a menin...rrr” Joana se virou e viu a figura horrenda de sua cunhada, engasgada no próprio sangue. Seus olhos brancos, cadavéricos e vazios eram completados pelo cheiro detestável de decomposição. As mãos da morta alcançaram rapidamente o pescoço de Joana, que tentou se desvencilhar, mas sem sucesso algum. Em meio ao desespero a mulher acordou aos berros. Porém ninguém na casa pareceu ouvir, para a mulher era sempre assim, todos dormiam feito pedra. Ela não conseguia entender como Alfredo conseguia uma boa noite de sono mesmo sabendo o que ocorreu com a irmã. É claro que não havia como saber se o mesmo estava dormindo ou não, já que fazia algum tempo que o casal não dormia no mesmo quarto. Ontem, quando Joana contou o que aconteceu para o marido, ele se sentou, colocou a mão na cabeça e exclamou: “_Que merda!” Mas quando chegou a noite, ele parecia impassível. Com sua tranquilidade rotineira e seu velho hobbie de fumar charuto antes de dormir. Já Anelize parecia nem saber o que era a morte, sua frase ecoou tão convincente no ouvido da mãe, que era como se a garota nem entendesse completamente o que ocorreu aos tios:
—Mamãe, que bom. Agora eles irão ver o papai do céu não é? Será que algum dia eles voltam?
Joana riu, enquanto a garota a encarou seriamente por uma resposta naquele momento. A mãe apenas disse que eles não voltariam, ao que a resposta foi acompanhada por um suspiro de alívio da garota. Foi estranho, mas ao mesmo tempo a mãe julgou novamente como um ato inocente.
Já era manhã quando o detetive Eduardo estava conversando com Alfredo. Do homem ele não conseguiu arrancar muitas respostas, o mesmo parecia estranhamente tranquilo e respondia as perguntas em tom de deboche. Logo depois foi a vez de Joana, que contou com riqueza de detalhes, desde o dia em que deixou Anelize lá, até o dia em que foi buscar a garota e a mesma afirmou estar sozinha. Por fim, interrogou Anelize, que parecia uma bonequinha de tão arrumada que estava. A mesma indagava com entusiasmo: _É como naqueles livros da Aghata não é? O senhor é tipo o detetive Poirot?
Eduardo riu, pois não fazia ideia do que se tratavam aqueles nomes. A garotinha parecia inocente diante de tantas perguntas, respondia tudo com uma resposta digna de uma garota mais nova do que ela, seguida de alguma pergunta do tipo: “_Quando meus tios vão voltar?”
Depois de todo o interrogatório, o casal foi chamado para conversar sozinho com Eduardo. O detetive parecia perplexo: _Eu não consigo entender nada. Os dois morreram a noite, é estranho Anelize ter dito que saíram para resolver um projeto sobre construção. Mas também não faz sentido achar que ela teria os matado, não existem evidências. Claro que não estou dizendo que a filha de vocês é suspeita de alguma coisa, mas não consigo entender nada. Irei continuar investigando.
Joana parecia incrédula: _Minha filha não teria capacidade de machucar ninguém detetive.
Mas o marido da mesma respondeu antes de qualquer resposta por parte de Eduardo: _É o trabalho dele, deixemos que ele mesmo encontre o que procura.
Com um aceno de “até mais”, Eduardo se despediu dos mesmos. Mas ao invés de ir embora, o que ninguém sabia é que Eduardo permaneceria do lado de fora da residência, esperando pegar qualquer ato que poderia entregar algum culpado.
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No Hospital, Ana permanecia tediosa. Não queria estar ali naquele quarto de hospital, apesar de seu padrasto ter pago um apartamento bonito. O mesmo possuía algumas flores vermelhas e amarelas decorando o quarto. Um frigobar, uma tv a cabo, um ar-condicionado e uma cama reclinável tornavam as coisas mais confortáveis do que um quarto comum. Mas mesmo assim, a paciência da garota tinha se esgotado. Ela no auge de sua idade, ali plantada naquela cama. Tinha ainda muito a viver segundo o seu pensamento. Quantos jovens rapazes ela poderia estar pegando naquele momento. Quantos deles, idiotas pagariam por tudo o que ela quisesse. Bastava um piscar de olhos e um beijinho no ar, o resto estava a cargo de sua beleza. Suas outras colegas de escola a invejavam, o que para ela era um grande passatempo. Resolveu ligar a tv, estava passando um filme de romance qualquer: _Que chato, não acredito que ainda tem idiotas que acreditam neste lance de amor.
Conforme foi mudando de canal, se deparou com algo no mínimo interessante. No noticiário, falava sobre a morte de dois integrantes da família Hansur. Angelina e Raphael Hansur, foram encontrados mortos e a polícia procura esclarecer o que ocorreu ali. Um embrulho no estômago, seguido de um longo calafrio tomou conta de Ana, que em meio a todos os seus pensamentos confusos, deixou escapar uma palavra de sua boca: _Anelize!
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Alfredo ainda estava dormindo, quando um cutucão o acordou. Abriu os olhos meio sonolento, mas logo acordou terrivelmente abalado com as fotos que estavam pregadas na parede do quarto. Nas mesmas estavam ele e Suzana se beijando, em algumas tinham os dois pelados na cama. Alfredo sussurrou em desespero enquanto esfregava os olhos para ver se enxergava direito: _O que é isso afinal?
Anelize riu atrás do pai. Este se horrorizou ao ver o divertimento da filha. Anelize ainda completou: _Você vai fazer algo por mim hoje. Se falhar ou se recusar, estas fotos irão parar na mão da mamãe, tem muito mais de onde vieram estas.
Alfredo se levantou alterado e furioso: _Eu te mato sua psicopata.
Anelize correu de Alfredo, que a perseguiu até dar de cara com a porta do quarto da garota. O homem batendo violentamente e gritando para a garota abrir. A única resposta que conseguiu foi: _Se acalme pai. Primeiro lembre que seu quarto está cheio de fotos proibidas e segundo, se você me bater, além de ser reconhecido o seu adultério, você também irá preso por agressão à menor.
Alfredo se desequilibrou e caiu sentado para trás. Aquilo parecia um pesadelo ainda. Não sabia o que dizer, nem o que fazer. Até que a porta de Anelize se abriu. A garota foi caminhando até ele, se ajoelhou, olhou bem nos olhos do homem e disse: _Você pertence a mim agora. Se não quiser ver seu nome arruinado vai fazer o que eu disser. E não se preocupe, se fizer corretamente nada de mal irá acontecer.
Alfredo parecia aflito: _E o que quer que eu faça?
Anelize ergueu-se até a orelha do pai e com um tom de voz um pouco diferente sussurrou: _Quero que mate para mim.
Alfredo pulou para trás num susto, custou a engolir o pouco de saliva que ainda tinha dentro de sua boca: _Eu não posso fazer isto, ficou maluca?
Mas a garota não estava para conversas: _Bom, veja o que mais vale para você. Sua imagem, ou algumas mortes sem muita importância? Você decide. Ou você vai pra lá agora e faz as coisas da forma que eu vou te orientar, ou você vira a vergonha dos Hansur. E ai papai?
O homem se levantou. O rosto cheio de horror e dúvida. Ele escutou atentamente o que a garota tinha a lhe dizer. O mesmo acabou vomitando um pouco no chão ao ouvir o plano, enquanto experimentou uma expressão de repúdio por parte de Anelize. Ele não parecia muito seguro de si e a dúvida ainda pairava pela sua mente. O que seria melhor afinal? Arriscar perder o orgulho de ser um grande empresário, que publicamente mostrava ser um homem íntegro e um ótimo pai de família? Ou sujar as mãos para continuar mantendo sua falsa e tranquilizadora imagem?
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