Anelize

1 Capítulo 1 - A volta das Férias


Anelize Hansur estava sentada à beira da lagoa, trajando um vestido branco que combinava acertadamente com seu rostinho puro e angelical. Uma garota de 12 anos de idade, que em aparência faria qualquer pai e mãe suspirar pela beleza de sua filha.

Lá estava ela, olhando perdidamente para o horizonte. Seus lábios tremiam com a temperatura baixa que o ar trazia. Os cabelos pretos ao vento, bagunçavam qualquer chance de manter o penteado em ordem. Nenhuma preocupação, nenhum problema, nenhuma expressão. Essa última era exatamente as palavras que o psicólogo da garota falara à mãe da mesma, “nenhuma expressão”. Sorriso, caras e bocas, nada se manifestava diante de quaisquer situações normais de alegria. As suas únicas reações eram diante de coisas completamente estranhas, causas que não seriam tão normais de se arrancar o sorriso de uma pessoa, muito menos de uma criança. Mas seus pais não acreditavam que uma garota tão bela e tão meiga pudesse apresentar algum tipo de distúrbio.

Sentada ali, olhando para o horizonte. Sozinha. De repente arriscou um leve sorriso em um canto da boca, mas foi uma tentativa fracassada. Ela lavava suas mãos no rio, o sangue que estava na mesma se dispersou. Ao se levantar, percebeu que seu vestido estava encharcado da cor vermelha que representava a vida e que estranhamente jorrara da morte. Caminhou lentamente até a um galpão velho e escuro. Arrumou uma lata de querosene, jogou dentro de um barril, junto à um fósforo e suas peças de roupa. Seria o fim de um trágico vestígio.

Já de noite, dentro de seu quarto e vestida com seu pijama rosa todo decorado de coraçõezinhos vermelhos, Anelize espreguiçou e soltou um bocejo satisfatório, afinal ela sentia que tinha feito o que tinha de se fazer. Enquanto sua noite de sono caminhava para uma manhã tranquila, a casa soava um silencioso cortejo fúnebre, onde nem os mortos conseguiriam descansar. O sopro da vida não habitava mais ali, sua via de partida foi envenenada, falsamente estrangulada e degolada por uma garotinha de aparência angelical e olhar vazio.

Pela manhã sua mãe chegou. Buzinou animada, pois já faziam quase dois meses que não via sua menininha. Ela saiu correndo de encontro à mãe, que estranhou o sorriso inesperado. Um sorriso que quase parecia assustador, se não tivesse saído da face de alguém tão querido. Perguntou sobre seus tios, tios estes que se comprometeram a cuidar de Anelize nas férias. A garota franziu as sobrancelhas e respondeu: “_Saíram faz alguns minutinhos mamãe, disseram que não precisava esperar pois tinha um assunto urgente para tratar sobre uma casa que iriam construir.”

Joana riu: “_Nossa, não acredito que te deixaram sozinha para tratar sobre seus projetos agora, não podiam ter me esperado? Pois bem minha filha, vamos, seu pai está morrendo de saudade.”

Anelize deu de ombros: “_Ele nunca tem tempo para mim mamãe, não acredito no que a senhora diz.” Joana repreendeu Anelize e falou enfaticamente em o quanto o pai da garota à amava, mas a garota parecia nem estar ouvindo, pois correu como um vento para dentro do automóvel, aliás um belo automóvel preto, algum tipo de carro esportivo que era uma das paixões do pai de Anelize.

Joana entrou no carro e comentou com um sorriso: “_Bem, vamos nessa. Depois ligo para seus tios agradecendo a eles por terem cuidado de você..” Enquanto ela se virou para ligar o carro e o som do motor rosnou como um grunhido poderoso, ela completou: “_Está ansiosa com a volta às aulas filha?”

Uma azia angoniante penetrou o peito da mulher, ao ver o rosto irritado e maquiavélico de sua filha balbuciar com força: “_Odeio todos eles.” Mas como já era de costume, toda essa expressão mudou para aquele sorriso estranho da garota junto à algumas palavras calculadas: “_Mas eu amo minha mamãe, sou sua garotinha.”

Sorrindo meio sem graça e sem palavras para continuar, a mulher soltou um sorriso meio desajeitado e colocou o carro para cruzar a rodovia à caminho de casa. Uma viagem silenciosa entre mãe e filha, ao mesmo tempo barulhenta com a calmaria das músicas relaxantes que Joana ouvia para aliviar o stress dos dias.Chegariam em casa dentro de algumas horas, enquanto que lá atrás algumas perguntas sem respostas estariam por vir.

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Alfredo fumava seu cigarro tranquilamente, Suzana se despedia. Tinha sido uma noite proveitosa para os dois ali naquele quarto de motel. A consciência do homem não trazia nenhuma alarde ao mesmo, era como se não houvesse cometido mal algum. A mulher, sua amante, assoviava feliz da vida, ainda exclamava: “_Que horas minha irmã volta com minha sobrinha?”

Alfredo tossiu, olhou para o relógio e exclamou: “_Acredito eu que dentro de umas duas horas mais ou menos. Minha irmã mora numa fazenda um pouco antes de chegar em Uberaba, não é tão longe, mas também nem tão perto. Mas acalme-se, troque de roupa bem tranquila e vamos para minha casa, sua irmã nem irá perceber nada de estranho.”

Um pouco de culpa pesou sobre o rosto de Suzana. Ela tentou esquecer mas soltou um comentário: “_Isto que estamos fazendo é o certo Alfredo? Não acredito até hoje como pude me apaixonar pelo marido de minha irmã.” Mas o homem olhou meio preocupado para aquele comentário e reagiu: “_Lembre-se do que seu marido iria pensar. Ele não iria suportar a ideia de que sua mulher o estaria traindo, talvez você se tornasse culpada até de algo pior, como um suicídio talvez.”

Suzana bradou: “_Idiota, você não me fez sentir nem um pouco melhor. Não entendo como minha irmã aguentou viver todos estes anos ao seu lado.” Alfredou soltou uma risada enquanto a mulher reclamava. Ele se levantou, a agarrou com força e a beijou. A mulher tentou resistir, mas o clima de um obscuro adultério reinou por sobre suas pobres almas.

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Padre Fábio estava tranquilo em seu quarto, quando alguém bateu-lhe a porta. Rogério, seu irmão estava ali, com lágrimas escorrendo pelos olhos. O padre tratou logo de mandar o mesmo entrar, perguntando o que tinha acontecido. Em meio a soluços desamparados e um clima de agonia Rogério começou: “_Minha mulher irmão, eu sei que ela está me traindo. Ainda não sei com quem, mas eu sei. Ela some muitas vezes à noite, dizendo que vai na casa de sua irmã, depois ela desaparece. Estes dias atrás fui até a casa de sua irmã e perguntei se Suzana estaria lá, mas ela disse que não viu nem sinal de sua irmã. Ainda perguntei se Suzana às vezes bateu lá e ela não viu, mas Joana confirmou que estava esperando pelo marido que estava trabalhando até tarde, então não tinha como não ouvir. Está acontecendo tudo de uma vez, bem debaixo do meu nariz. E eu não consigo fazer nada a respeito.”

O padre olhou com um pouco de piedade para com seu irmão. Ele já sabia como seu irmão era um pouco sentimental demais e como sempre dependia de sua mãe na infância. “A mesma criança de sempre”, pensava consigo mesmo o padre. Fábio, mesmo sabendo o quanto seu irmão era dessa forma, também sabia que o mesmo não devia estar tão louco assim. Nas missas de domingo, quando ele e a esposa sentavam num dos bancos da frente, dava pra se perceber como Suzana olhava de forma duvidosa para com o marido de sua irmã. Suspiros e brilhos nos olhos revelavam aquela asquerosa relação, acontecendo dentro de um templo de adoração ao senhor.

Fábio pensou subitamente alto: “_Abominação...” Um silêncio dominou todo o quarto. O rosto encharcado de Rogério olhou implorando por uma explicação, o clima triste se tornou tenso e pesado. O padre, como não podia dar um falso testemunho e nem queria colocar mais coisas na mente de seu irmão, resolveu aconselhar: “_Converse com sua esposa, veja o que está acontecendo. Se você não está feliz, largue. Se você perceber que é ela que não está satisfeita, faça o mesmo. Mas não faça de sua vida um luto sem fim, nem acabe com qualquer sonho ou esperança de outros. Seja feliz irmão, a felicidade só depende de você. Ore todas as noites e siga sua razão, esqueça a emoção que lhe atormenta a alma e acaba com suas noites de sono.”

Mas seu irmão não pareceu escutar nada do que o Padre falou e com um vazio no olhar e um misto de conformidade e ódio em sua voz, disparou: “_Eu mato. Se eu descobrir que ela fez qualquer coisa contra mim, eu mato. Não importa se vou preso, na verdade eu estaria bem morto antes que isso pudesse acontecer. Mas, vou descobrir primeiro, até lá, vou fazer de conta de que não desconfio de coisa alguma. Passar bem irmão.”

Fábio não obteve tempo de protestar contra aquela loucura que ecoou da voz estremecida de seu irmão. A porta bateu bem antes de qualquer tentativa de resposta. O padre continuou sentado no mesmo lugar por alguns minutos, perdido em seus pensamentos. Palavras como “será” e “não posso acreditar” eram as mais faladas ao vento pelo homem. Em meio a pensamentos confusos sobre adultério e a ira doentia de seu irmão, de repente um nome lhe veio à cabeça: “Anelize”. Refletindo consigo mesmo naquele quarto que ele morava sozinho, ou como ele mesmo dizia, só ele e Deus. Ele lembrou de como aquela era uma criança educada e de bons modos. Aquele rostinho angelical, não merecia ter nascido no lar em que nasceu. Quanta turbulência todos aqueles fatos poderiam causar a mesma, ou a sua inocência. Claro que ela tinha uma forma estranha de agir, quase nunca era pega sorrindo, muitas das vezes seu rosto era estranhamente sereno e não mostrava expressão alguma. Podia parecer estranho lembrar de algo naquele momento, mas em uma passagem da biblía que o leitor estava lendo para o publico na igreja, algo sobre darem a cabeça de João Batista a uma enteada de Herodes, a garotinha sem expressão abriu um leve sorriso e finalmente foi possível ver algum brilho em seus olhos negros. Lembrando dessa ocasião, um arrepio medonho correu pelo corpo do Padre, que já atrasado para alguns compromissos paroquiais exclamou em voz alta: “_Que Deus me perdoe por estes pensamentos absurdos contra uma criança.”