Anelize
2 Capítulo 2 - Família Reunida
Notas iniciais
O carro esportivo finalmente chegou até o seu destino, uma casa linda e bem acima da média, visualmente bonita e com muitas decorações. A casa dos Hansur era um espetáculo para os olhos e um vislumbre para os olfatos mais aguçados. Na entrada do portão seu jardim decorado com damas da noite, orquídeas e algumas árvores frutíferas traziam um ar familiar e gostoso do campo. Junto ao jardim, uma passarela por onde o carro sempre rodava até chegar a garagem, onde já se encontrava uma moto, coincidentemente também de modelo esportivo. A garagem era à parte na casa, sempre que saíam ou entravam, o portão eletrônico abria e se fechava com um pequeno aperto no controle remoto. Quando se saía da garagem, havia um caminho estreito bem do seu lado pareando com o jardim, o mesmo levava até a porta de entrada da residência dos Hansur. E foi bem lá que mãe e filha encontraram pai e tia esperando com sorrisos alegres estampados em seus rostos: “_Como minha sobrinha preferida foi de viagem?” – perguntou com certo tom de entusiasmo, misturado a uma gota de sarcasmo, já que Suzana não simpatizava com a sobrinha. Anelize deu de ombros e fingindo que não ouviu a pergunta, passou reto com uma expressão fria e foi até seu pai. Este esperando com um sorriso e braços abertos, enquanto que a menina se aproximou e lhe deu um beijo no rosto. O pai a abraçou, enquanto Anelize exclamou: “_Eu sei de tudo papai.” A frase surtira um grave efeito no peito esquerdo do homem, junto à uma pontada na cabeça de Suzana. Em meio a frases gaguejadas de “tudo o que”, um sorriso malévolo estampava o rosto da criança, que exclamou medindo e controlando um tom inocente nas palavras: “_Que você sentiu muitas saudades de sua menininha não foi papai?” Gargalhadas de alívio vindas de Alfredo, se juntavam ao suspiro de Suzana que continuava com um tom sério no rosto. Joana completou com um sorriso forçado: “_Você quase morreu de susto agora hein amor?” Alfredo meio sem jeito se justificou: “_Eu não fazia ideia do que ela estava falando, mas isso não vem ao caso. Foi tranquilo a viagem?”. Joana fechou a cara, o casal andava brigado por aqueles tempos, nem ao menos se davam boa noite para dormir, nem bom dia ao acordar. Na verdade quem foi ficando estranho com o tempo foi Alfredo, Joana sempre tentou fazer com que o casamento voltasse a ser como era no começo, mas o mesmo estava fadado à crise fazia uns três meses. Joana respondeu a pergunta do marido apenas com um “venha Suzana” e então a sala ficou silenciosa novamente, apenas com Alfredo que se sentou em sua poltrona e ficou olhando pensativo para o horizonte.
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Anelize sentada em sua cama nem via o tempo passar, lia o livro A morte no Nilo da rainha do crime Agatha Christie. Um de seus hobbies prediletos, além de alguns hábitos estranhos, como armar ratoeiras e colocar veneno para ratos em alguns cantos da casa. Uma particularidade um tanto bizarra para uma criança de doze anos, que parecia se deliciar com os corpos de ratinhos encontrados, tanto esmagados pela ratoeira quanto agonizantes com o veneno que lhes consumia por dentro. Além dos ratos, Anelize tinha uma maneira estranha de tratar os animais. Muitas das vezes fazia carícias e brincava, mas em alguns minutos, quando ninguém estava olhando, os bichinhos corriam desesperados de perto da garota, emitindo sons de dor e choro.
Além de seus hobbies, a garota não tinha mais muitas particularidades. Sempre foi bastante solitária, não era muito de se enturmar, era educada, meiga e comportada. Sempre recebia elogios na escola em matéria de letra bonita e inteligência fora do comum. Os únicos problemas e reclamações vinham quando tinha que ser feito algum trabalho em grupo. Na última vez, a menina mordeu o braço de um colega na escola, porque o mesmo disse que Anelize era bonita.
Voltando ao presente, Ana despertou Anelize de sua leitura concentrada. Sua prima era filha de Suzana, fruto de outro casamento da mesma. A garota, se assim claro pudermos chamar uma jovem de dezoito anos, era uma das únicas que ainda iam visitar Anelize. Os Hansur pagavam bem para que olhassem sua filhinha, mas apesar de precisarem só às vezes de seu serviço, Ana sempre estava por lá.
“_Olha só quem está lendo. A psicopata mirim, como você está hoje?” – Perguntou em tom de asco.
Anelize observou a prima de maneira minuciosa. Percebeu um perfume forte, além de estar com uma saia rosa minúscula e um top branco. A garota respondeu: “_Eu estou bem. E você, pronta para ir ao puteiro?”
Ana fechou a cara: “_Como pode falar dessa forma comigo pirralha. Vou contar aos seus pais esta sua forma de conversar, isto não pode ficar assim.”
Ao que uma resposta quase que imediata a fez ficar de queixo caído: “_Faça como quiser. Quem sabe mamãe não fique sabendo também que você vive andando por aí, mostrando o traseiro para o papai. Acho que estes dias você mostrou os seios pra ele, e ele lhe deu grana, será que seria bom sua querida titia saber disso.”
Ana ficou horrorizada, não sabia o que dizer. Como aquela pirralha sabia de tudo aquilo e como ela podia falar as coisas daquela forma. Anelize completou com um sorriso no canto dos lábios: “_Agora saia do meu quarto antes que eu faça você sangrar bem devagar piranha.”
Ana desceu correndo as escadas, quando bateu de frente com sua mãe: “_Filha, porque está correndo deste jeito, pode acabar se machucando uma hora, escadas são perigosas.” Suzana ouviu a resposta “não é nada” e observou sua filha ir para um canto da casa. Era estranho Ana estar assustada daquela forma, nunca vira a filha assim. Ela foi chamada de volta de seus pensamentos por sua irmã: “_Bem, vamos as compras?” E saíram com o carro, para trazer mantimentos para a casa.
Enquanto Ana estava meio assustada em um canto, estava sendo observada por Alfredo. O homem estava olhando por debaixo da saia da garota, enquanto a mesma estava distraída. Tomou um susto quando o homem tocou suas pernas: “_Porque tanto medo minha sobrinha favorita. Sabe que não precisa ficar assim.” Ana respondeu: “_É a Anelize, ela diz que viu tudo. Como iremos fazer tio e se alguém descobre?”
“_Anelize não sabe o que diz, é apenas uma garotinha. Que tal irmos para o quarto? Podemos fazer algumas brincadeiras bem legais.” Ao que a jovem respondeu: “_Estou amedrontada não está vendo? Não estou afim.” Mas Alfredo tirou algumas notas de cem reais da carteira, fez de leque e ainda exclamou: “_Tem mais te esperando lá no meu quarto.” Os olhos da jovem brilharam, ela se esqueceu de qualquer receio e seguiu o homem.
Cerca de uma hora depois, Ana estava tomando banho, um banho quente e relaxante. Enquanto a água caía, a mesma assoviava e pensava em como gastaria a grana que ganhou. Eram seiscentos reais, ganhos em vinte minutos. Aquela era uma verdadeira mina de ouro na mente da garota. A mesma não se importava com questão de honra e nem com qualquer outro meio moral, só o dinheiro a interessava e seu tio lhe daria muito ainda, podia comprar roupas, podia comprar o que seu pai e sua mãe quase nunca lhe davam. O dinheiro fácil que ela ganhava muitas vezes, era somado aos quinhentos reais por semana que ela ganhava por olhar Anelize. Risadas começaram a soar de dentro do banheiro. “_Aquela pirralha estúpida, ninguém acreditará nela.” Seu pensamento alto, foi interrompido por uma batida na porta. Ana saiu do chuveiro e abriu a porta, mas não havia ninguém ali. Pensou ser coisa da cabeça dela, quando voltou pro chuveiro escutou agora uma batida mais forte. “_Alfredo! É você tio.” Mas ninguém respondeu, apenas um bilhete embaixo da porta, onde estava escrito “Piranha”. Ana se enfureceu, fechou o chuveiro e correu até a porta do quarto de Anelize, batendo com muita raiva. “_Sua pirralha, vou te matar. Abre essa merda.” Como a portava permaneceu trancada, Ana foi até o alto da escada e gritou seu tio: “_Tio Alfredo, Anelize está me importunando.” Alfredo apareceu lá de baixo e gritou:”_Vai colocar uma roupa, o portão abriu, sua mãe e sua tia estão ai.” Ele saiu para a cozinha, bebendo sua garrafa de cerveja, Ana fez um gesto obsceno com o dedo do meio e exclamou: “_Elas podiam me ver assim, seu idiota.” Após estas palavras, Ana sentiu um arrepio subir as costas, uma respiração quente e silenciosa a tocou por trás. Ela se virou em um único giro, seus olhos se arregalaram ao entrar em contato com aquele olhar inexpressivo. Duas mãos pequenas foram as únicas coisas necessárias para colocar um começo no espetáculo acidental que iria colocar um sorriso num rosto dito “inocente”. Gritos de dor podiam ser ouvidos por toda a casa, misturados aos barulhos que eclodiam pelas escadas. No fim do espetáculo, jazia uma jovem nua, com a toalha perdida no meio da escada, rastro de sangue, fruto de algum machucado enfeitou a cena, completando com a garota toda torta e inconsciente ao chão. A porta de entrada se abriu, as duas mulheres correram desesperadas para socorrer a jovem, seu tio ficou imóvel, não acreditava no que estava vendo. Seus olhos correram até o alto da escada, quando encontrou sua filha o encarando em tom de reprovação, um sorriso meio forçado surgiu no rosto da criança que se virou em direção ao quarto, como se nada tivesse acontecido.
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