And the game is over
1 And we forgive you, Ender
Notas iniciais
“Derrubá-lo venceu a primeira briga. Eu queria vencer todas as próximas também. Então eles me deixariam em paz.”
Não era como se tivesse sido um ataque surpresa. Nós os vimos chegando há muito tempo, mas não tínhamos fome de guerra. Queríamos nos comunicar, mas aqueles estranhos seres não abriam suas mentes, não tínhamos como entrar. Então, esperamos. Esperamos que quando chegassem, ao ver que não atacaríamos, percebessem que queríamos paz.
Nós estávamos errados.
Diferente das duas ocasiões em que, em nossa ignorância sobre vida inteligente naquele planeta, fomos até eles, dessa vez eles estavam mais ferozes, mais criativos e mais ágeis. Não demoramos a perceber que não tínhamos chances. Mesmo quando achávamos que estávamos perto de conseguir uma vitória, eles surgiam com uma solução.
Estávamos perdidos.
Porém, ao mesmo tempo em que a Guerra assolava nossas Colônias, conseguimos estabelecer o mais próximo que podíamos de uma comunicação com aqueles estranhos seres, tão diferentes de nós. Conseguimos acesso à mente que comandava o exército que nos perseguia.
“No momento quando eu verdadeiramente entendo meu inimigo, o entendo suficientemente bem para derrotá-lo, nesse momento eu também o amo. Eu penso que é impossível realmente entender alguém, o que eles querem, o que eles acreditam, e não amá-los da mesma maneira que eles se amam. E então, nesse momento em que eu os amo... Eu os destruo.”
Quando fizemos o contato, choramos por ele. Em sua mente, vimos que se chamava Ender e que era solitário, mais solitário do que os que estavam ao seu redor. Vimos também que tinha medo. Cresceu com o medo do que nossa chegada ao seu lar provocou a todos os habitantes. Nossa ignorância nos fazia inocentes por não saber, mas também nos fazia culpados por ter provocado um medo tão grande naqueles seres que transformaram um dos seus filhotes em um soldado.
Não, mais do que isso, o transformaram em nosso carrasco, e ele nem ao menos sabia disso.
E também vimos que ele poderia ser misericordioso. Que buscava nos entender. Que queria as respostas sobre o porquê da nossa invasão ao seu lar. Vimos que ele queria nos entender.
Nosso carrasco também poderia ser nosso salvador. Então, começamos os preparativos a partir das lembranças que vimos em sua mente cheia de tristeza e cansaço. Fizemos um santuário baseado nessas memórias para a única Rainha que sobreviveria e nos permitimos ter esperança por ela.
Porque para o resto de nós, o destino estava traçado.
Eles não nos perdoaram. Vamos morrer, com certeza.
“Eu vivi tempo demais com a dor. Eu não sei quem eu sou sem ela.”
Então, nos morremos, mas também sobrevivemos naquela solitária Rainha. E ela esperou, esperou por anos a fio até que ele chegou.
Ender entendeu e Ender chorou por nós, assim como, um dia, choramos por ele. E foi então que tivemos a confirmação de nossas esperanças: seríamos salvos pela mesma mão que nos matou, e essa gentileza era mais valiosa do que a agressão, porque Ender nos agrediu sem saber, mas nos foi gentil por escolha.
Porque ele entendeu.
Ele viu nossa dor ao perceber que machucamos seres pensantes e, antes mesmo de chegar a nós, viu nosso amor por nossa terra e nossos filhotes. Angustiou-se com a possibilidade de nos por em perigo, de nos trazer de volta para outra guerra, mas jurou nos salvar.
Ender não se perdoou, mas nós o perdoamos. Perdoamos a todos eles e amamos a todos eles, em especial Ender.
Nós o perdoamos porque, como ele nos entendeu, nós também o entendemos e, por isso, nós o amamos, porém, ainda mais do que ele se ama. Talvez por esse motivo o destino interveio e nunca vamos correr o risco de destruí-lo, mas sim, daremos a ele o presente que tanto ansiava:
A chance de redenção.
–x-
Ender escreveu cuidadosamente antes de mostrar a Valentine. Não tinha tanta confiança em sua habilidade com as palavras quanto com a guerra, mas considerou seu trabalho satisfatório quando finalmente o fez.
Guardava o casulo com cuidado, só o tirando de seu esconderijo nos momentos em que escrevia. Assim, podia ver melhor as lembranças que os Formics compartilhavam, os sentimentos para os quais eles não tinham palavras, mas Ender tinha.
E era isso que ele havia feito durante os últimos dias: colocado tudo aquilo em palavras, para que os humanos conhecessem a verdade, para que perdoassem aqueles seres que não eram nem melhores e nem piores do que eles, apenas diferentes.
Não importava que isso também fosse fazer o ódio surgir contra Ender. Era algo com que ele já tinha aprendido a lidar. O ódio alheio era um companheiro constante, um dos poucos que ele já encontrara.
Quando percebeu que o povo daquela Colônia já podia seguir muito bem sem ele, preparou-se para cumprir a missão que lhe fora designada. Porém, não precisava ir sozinho. Valentine o seguiu, mesmo com a possibilidade de ser uma longa e infrutífera busca.
Entretanto, se ela não se importava, Ender muito menos.
Era sua chance de se perdoar, e ele não a desperdiçaria.
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