And If I Love You?
8 Capítulo 7 - parte 2
Notas iniciais
A vida é bela
A flor é amarela
E eu acredito plenamente nela
— Lavínia, 2016
Pov's Ally
Eu não era uma das melhores pessoas para procurar um emprego. Muito menos para fazer um currículo, a imagem de Austin se divertindo com a minha confusão rodava várias vezes.
Como ele dizia mesmo...?
Tente uma vez, tente uma segunda, então se tentou nas primeiras duas vezes, porque não uma terceira?
Pois é, só que no meu caso, a terceira virou vigésima e assim prosseguiu.
Afinal, o que eu colocaria em meu currículo?
1 — Identidade falsa
2 — Ex-Ally Dawson
3 — Fugitiva
4 — Estudante de Juilliard
5 — Procurada
Realmente a quarta opção, era a mais acessível, mas eu diria o que?
Faz exatos vinte e um anos que estou na faculdade.
E o resto da minha vida? Eu não poderia com certeza contar com a minha adolescência, comecei minha carreira aos quinze anos. E o resto, em parte foi dedicado a puberdade e a outra... Em Barbies.
Tudo o que eu mais queria era um emprego, viver de favor na casa de Austin não era terrível, mas era digamos... Encomôdo. Ao longo dos dias eu percebi que nem todas as pessoas queriam minha presença ali. Piper demonstrava isso a cada cruzada de olhar que trocávamos, a loira parecia tão gentil desde a primeira vez que a vi, mas agora nem tanto.
Mas eu já sabia bem o porquê. Estava claro. Ela queria Cassidy com Austin, estava estampado em seu rosto que desejava mais que tudo sua melhor amiga de volta à seu irmão. O que era ridículo, o que eu tinha haver? Austin com certeza estava em penúltimo em minha lista mental de "se dar bem", claro, eu deixara o último lugar reservado à Piper.
O shopping estava cada vez mais tedioso, passei minha tarde toda à procura de algo e tudo que eu achei foram um velho rabugento e um cara rabugento da loja de tecnologia.
Perguntava-me qual era o problema das pessoas rabugentas comigo. Deve ser algum tipo de karma.
Suspirei levemente sentando em uma cadeira qualquer. Dava-me a perfeita vista de Dallas Centineo. Tenho convivido bastante com ele ultimamente, Cassidy fingi indignação sempre quando começamos a conversar, o que não era novidade, o moreno tinha um modo de pensar bastante conectivo com o meu.
Observei o cliente no qual ele parecia estar se irritando, sorri comigo mesma, eu adorava ver aquelas maçãs ficarem em um tom escarlate. O cliente era loiro, cabelo completamente bagunçado, me lembrava... Austin.
E o que não me lembrava do loiro?
As imagens de um dos momentos mais confusos da minha vida voltavam, estava tão indignada comigo mesma, era como se fosse da água pro vinho.
Flashback On
— Levanta os braços! Passa o dinheiro! Eu quero o dinheiro! O celular também! Anda, eu não tenho todo o tempo do mundo, garota. — A voz era grossa, mas... Falhada? Parecia-me familiar, porém o pânico não me deixava raciocinar direito.
Sentia meu corpo tremer e eu gaguejar coisas como do tipo "tem um loiro sacana lá em cima, ele é o dono da casa." "se bobear você é mais rico que eu, moço." "vida de pobre é desgraça todo dia."
Nunca senti minhas pernas tão bambas. Eles não podiam me roubar, quer dizer roubar Austin, afinal, nada ali era meu.
Foi quando gargalhadas explodiram na casa.
Que?
Era tão estridente e contagiante.
Mas que porra é essa?
Virei-me sem mais medo nenhum e dei de cara com o acéfalo loiro.
— Prazer, Austin Moon. — A desgraça, ainda teve a coragem de me jogar na cara o quanto eu era idiota.
— Prazer, Trouxa do ano. — Ele espremeu os lábios numa tentativa falha de não rir.
Mas sua mão continuava lá estendida, ignorei raivosa e voltei a procurar algo para comer, como se ele não estivesse ali comecei a cantarolar mais para provocar do que acalmar.
— Qual seu nome? Não vai me dizer nada?
— Austin, qual seu problema? Tá você me pegou, uhul, mas já deu. Já provou que sou uma idiota, satisfeito? Pode voltar a dormir agora. — Meu tom irônico fez o mesmo se contorcer. Abri a geladeira pegando uma maçã e me virando, indo em direção das escadas.
— Prazer, Austin Moon. — Alzheimer realmente não deve ser fácil.
Suguei todo o ar que consegui, pedindo pra Deus me dar paciência, porque se me der força, alguém saí morto daqui hoje.
— Ando bebendo de novo, foi? — Ele riu negando, pegando em meu braço e me levando de volta a bancada.
— Ah qual é Ally! Todos aqui sabem que nós começamos com o pé direito, porque não com o esquerdo dessa vez? — Pé esquerdo? Juro que preferia o ouvir cantando Frozen.
E quando aquele sorriso de lado brotou sobre seus lábios, eu sabia que o pecado vivo estava em minha frente, um simples mexer de lábios me desconcertava toda.
Porque tão desgraçadamente lindo?
Por um motivo que eu nem mesma sei, sorri também. Relativamente, era impossível não sorrir.
— Tá e agora? — Ri irônica. Aonde ele queria chegar com aquilo?
— Ally, eu sinceramente estou tentando ter uma conversa civilizada com você, sem vodka, tapas ou xingamentos. Será que dá pra colaborar? — Suspirei rendida e estendi minha mão de volta. Ele retribuía com seu mais raro sorriso, já estava de bom tamanho.
— Prazer, Ally Dawson ou Hanna Monroe... Ou... — Ele arregalou os olhos achando ter mais identidades falsas envolvidas. Ri de seu espanto.
— Ou... Hóspede cinco estrelas de Austin Moon.
Ele sorriu cínico se divertindo.
— Ou... Hóspede nenhuma estrela de Austin Moon.
— Esqueça suas panquecas de manhã, garotão. — Não pude não lembrar do vídeo de Cassidy no porão.
— O que? Não! Seis estrelas, sete, até dez se quiser! — Gargalhava descontroladamente, e o loiro não demorou muito para me acompanhar.
Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo, muito menos o porquê. Mas pela primeira vez com Austin ao meu lado, me senti em casa. E poupei minha mente sobre o passado do mesmo, sobre Cassidy e tudo que estava me deixando extremamente louca. Porque ali simplesmente estava a minha paz interior, talvez felicidade, eu só não a ignoraria novamente com coisas que nem ao menos eram da minha conta.
Flashback Off
— Só podia estar pensando em mim, não é mesmo, Monroe? — Pulei do banco como uma perfeita manobra olímpica, meu coração estava acelerado.
Até perceber que o imbecil na minha frente era Dallas. Pisquei os olhos diversas vezes até sorrir cínica pra ele.
— Hm... Nada contra você Dallas. Mas caras que fazem chapinha no cabelo, não fazem muito meu tipo. — Ele posicionou suas duas mãos sobre a cintura e fez sua melhor cara de desapontamento.
— Tem certeza, querida? Aqui é 99% de pura gostosura e...
— 1% de pura imbecialidade. É não, obrigada.
Não saiu de sua pose, sem antes sussurrar em meu ouvido:
— Podemos negociar aqui mesmo... Cassidy não precisa saber. — Batia meus pés descontroladamente sobre o chão e ria como uma maluca, sua voz sedutoramente ridícula estava acabando com a minha reputação de uma pessoa normal.
— O dia que você virar homem, a gente conversa. — Ele se virou na direção de seu novo cliente fingindo irritação.
— Um dia Hanna, você vai perceber, que percebeu tarde. — E se virou voltando a sua caminhada, não antes de me mandar um beijo no ar.
Sorri negando comigo mesma e me levantei, afinal, eu ainda precisava de um emprego. Fui até a Cake's Of Boss me perguntando o porquê do nome, "Bolos do Chefão"? Tipo "Que?"
Fui até a balconista pronta para fazer pela quadragésima vez o mesmo discurso, me dando uma de coitada pobre sem casa e pegando meu currículo da bolsa.
— Oi, eu realmente estou mui...
— Nem adianta a cara de coitada, pode ir guardando esse currículo, não temos vagas e não, não é o chefão que confecciona os bolos. — Na segunda palavra com um tom entediado e mal-humorado, eu já não tinha dúvidas, era Trish.
— Trish? Mas o que? Ontem mesmo eu te vi na loja de departamentos. — Ela tirou seus olhos da revista de fofocas e quando me viu arregalou os olhos vindo pro meu lado da bancada.
— Hanna! — Piscou disfarçadamente pra mim. — No termo de "regras" deles, um funcionário deve permanecer por mais de uma hora no local de serviço, acredita? Ridículo. — Sua fala era tão indignada, como se fosse o maior absurdo do mundo.
— Trish, mas... Um funcionário deve permanecer pelo menos por cinco horas no serviço.
— Cinco HORAS? Você acha mesmo, que eu sou tão desocupada assim? E se você está procurando por um emprego, achou a pessoa certa.
Abri o mais largos de meus sorrisos e a acompanhei revisando algumas partes do meu currículo. Sentamos numa das cadeiras da confeitaria, ela respirou fundo antes de dizer:
— Já trabalhei e fui demitida de quase todas as lojas desse shopping. Então ninguém melhor do que eu para te mostrar suas variedades horríveis. Loja Little Secrets, Shoes Now, MAC, Barraquinha de celulares, Barraquinha de cachorro quente do Chuck, Fashion Show, Sweet and Damon, Sorveteria da Mary, Cartas e Cartas, Mabey Livraria, Morning Good, Farytail, FlyWings Fashion... — Ela falava e falava, era como se meus ouvidos estivessem no modo Off e tudo que ela repetia nem passava pelos mesmos.
— OK, Trish. Eu trabalho em qualquer lugar que me dê horas flexíveis. — Ela parou de falar me olhando pensativa.
— Até de stripper? Eu conheço um ot...
— Trish!
— Ok, ok... Mas saibam que eles pagam muito bem, pra você sabe o que... — A repreendi com o olhar bufando e revirando os olhos em seguir.
— Claro porque além de uma identidade falsa, Ally Dawson também pode ir lá na esquina fazer ums pontos. Qual é Trish, é Nova York que estamos falando, precisa ter alguma coisa.
— Já disse que tem e que ganharia mui... — Lhe dei um beliscão fazendo a mesma resmungar. — Esse lugar foi o único que eu consegui ficar mais de dois dias. Mas, não é no shopping. — Minha curiosidade foi a mil, e eu me levantei junto dela esperando por sua fala.
— Diga Trish! — Implorei.
— Ahn... Juliet's Balcony.
Pov's Lucy
Minhas mãos tremiam, e meus dedos forçavam a caneta bater descontroladamente sobre o papel de processo. Eu estava atônita à tudo que acontecia e eu tentava, juro que tentava manter um sorriso no rosto, que no momento estava sendo destruído pelo medo que se acomodava ao meu corpo.
— Lucy? Você está bem? — Filho da mãe, cara de pau.
— Claro Baker. É apenas Clara querendo dar sinal de vida. — Sorri forçadamente pensando o que seria da minha princesinha nesse mundo cruel.
— Ótimo, vamos ao que interessa. Allyson Dawson, infringiu seu contrato no qual sua renovação seriam cinco anos ao nosso lado. Todos concordam que ela mereça um processo, sim?
Observei todos presentes à mesa. Todos pareciam concordar com mais uma das loucuras de Baker, mas eu não. Ally foi uma das únicas pessoas que eu tinha certo afeto e confiança, era a minha vez de retribuir tudo que ela já fez por mim.
— Certo. Primeiramente nós precisamos saber urgentemente aonde ela está, sobre isso não irá demorar muito. Meu investigador particular está recebendo um bom dinheiro somente pra uma buscazinha. Segundo, jogaremos o processo em sigilo até o tribunal. Aí de vocês se abrirem a porra da boca pra alguém, a mídia não pode saber de nada. Terceiro, aquela filha da mãe vai ter o que merece. — Engoli em seco. Não tinha mais dúvidas, minha pressão havia caído, Clara estava agitada.
Merda, merda.
Perguntava-me como era possível ser dificilmente difícil a gravidez.
Ally não poderia ser encontrada, se fosse e tivesse um mínimo de sorte dariam-lhe pelo menos seis anos de prisão. Não lhe culpava por fugir, a vida dela aqui era considerada como o inferno na terra por trás das câmeras. Eram incontáveis as vezes em que ela desmaiava por falta de descanso, e quando eu cheguei aqui, eu podia perceber que só me sentia em casa ao trocar pequenas conversas com ela, que ficarão marcadas pra sempre.
Eu sentia que deveria correr esse risco, mesmo com um feto na barriga, mesmo com o medo transparecendo a cada gotícula de suor derramada.
Ao perceber a falta de pessoas na mesa peguei rapidamente minhas coisas evitando olhar na cara do homem que desgraçaria a vida de Allyson.
— Lucy, espere! — Fechei meus punhos respirando dificilmente.
Tenha calma, calma, muita calma.
Optei pelo mais falsos de meus sorrisos e me virei. Encontrei-o escorado sobre sua enorme cadeira giratória. Por um momento pude alucinar um sorriso carinhoso, mas ao balançar de minha cabeça descobri ser somente miragem.
— Hm.. Baker, aconteceu algo?
— Desde quando algo precisa acontecer para eu querer saber sobre seu bem estar, Lucy? — Engoli em seco novamente. O que ele queria, hein?
— Lucy, você sabe de alguma coisa? — Sei sobre meu ódio por você, serve?
— Não, não senhor. — E pela primeira vez no dia, usei e abusei da sua cara de pau.
— Nós iremos achá-la, nem que isso seja a última coisa que eu faça na minha vida. — A última coisa que você fará na sua vida é apodrecer no inferno. Sorri relutante assentindo.
— Enfim, só queria saber sobre Clara, quando irá nascer? — Pra você, 30 de fevereiro.
— Oh! Ahn... Ainda não sabemos ao certo, Ty e eu estamos esperando pela próxima ultrasson. — Menti descaradamente. Ela iria nascer daqui a três meses.
Ele assentiu meio irritado, por algum motivo que eu não fazia questão de saber, e essa foi a deixa para eu sair da sala às pressas.
Ouvia meu nome sendo chamado mas nada mais me importou quando liguei a inguinação do carro.
Eu precisava encontrá-la.
***
Ally havia sumido exatamente à um mês e meio, no dia de ação de graças, e pelo o que o porteiro conseguiu descrever, o táxi foi para o leste.
Mas eis a questão, que lado do leste?
Nova York era considerávelmente grande, e quando uma pessoa queria se esconder, não era muito difícil.
Depois de três horas implorando, inventando as mentiras mais cabeludas da minha vida, eu consegui o acesso das câmeras da cidade.
Claro, um um pouco de suborno não mataria ninguém.
E ao longo de mais uma hora, percebi que no desfile de uma das ruas, um ponto preto chamava atenção com uma mochila nas costas, um pouco de zoom e... Touché! Mas a chuva cobriu toda a rua e tudo que vi depois foram uma blusa com as escritas PINK bem grande. Agradeci mentalmente quem quer que estivesde usando aquele moleton chamativo. Anotei na palma de minha mão o nome da rua e o número da casa e ao levantar parei bruscamente.
Por favor princesinha, agora não, agora não, agora não.
Era uma péssima hora para os nocautes de Clara, e a cada chute que a pequena dava eu pensava o quão boa lutadora ela seria.
Reprimi um gemido de dor e me apoiei no batente da porta.
Pelo amor que você tem pela sua mãe, Clara Walters.
É... Não sou tão amada quanto eu desejaria.
Juntei todas as minhas forças possíveis e consegui me locomover pelo menos até meu carro, eu precisava ir até lá. Por ela.
Só me senti totalmente aliviada ao chegar em frente a casa de cor creme. Sorri. Lá dentro estava minha menina. Tirei a chave da inguinação, não antes de acariciar minha barriga e peguei minha bolsa, pronta para ver como ela estava. Fui até a porta, respirei fundo apertando o botão que talvez mudaria o destino da minha vida e... Emprego.
Então me deixei esperar.
1 minuto...
2 minutos...
3 minutos...
4 minutos...
No quinto eu não consegui me conter e comecei a apertar a campainha loucamente. Eu não era normal.
— Ally já falei pra abrir a porra da porta!— Ouvi uma voz grossa e masculina dizer, mas era risonha.
Ally! Ele disse Ally!
Suspirei aliviada e por um breve momento senti Clara parar de se remexer. Sorri.
— Retardado mental, como acha que eu vou conseguir abrir com você me fazendo cócegas?— Ela ria e ria, parecendo bater para que o rapaz parece o que estava fazendo.
Olhando a porta, me amaldiçoei. Ela parecia feliz ali, sendo quem ela sempre desejou que fosse. Eu iria acabar com isso no momento em que ela me visse. Mas ela precisa saber, logo mais alguém iria vir atrás dela.
Foi quando escutei algo cair duro e cacos de porcelana chegarem até meus pés, sem nem tempo para absorver o que estava acontecendo, meus olhos se encontraram com os dela. Se não fosse pela boca desenhada perfeitamente, igualmente de uma boneca ou pela convivência de três anos, eu jamais à reconheceria.
Minha filha se agitou com emoção e tudo o que eu pude fazer foi simplesmente abraçá-la. Sentia-me em casa e quando seus braços finos retribuiram, fechei meus olhos apenas aproveitando o cheirinho doce de Ally Dawson. Seria ela como uma primeira filha pra mim.
— Lucy... — Sussurrou abalada. Podia sentir seu sorriso.
— Ally... — Sussurrei de volta, segurando as lágrimas que insistiam em aparecer.
Depois de tanto tempo abraçá-la era realmente reconfortante. Poderia ficar ali apenas sentindo a brisa mexer-lhe os cachos agora pretos. Mas voltei ao tempo, quando um resmungo masculino se fez presente.
— Ally, preciso falar com você — Murmurei com meu sorriso cada vez menor, ao lembrar-me do assunto.
— O que faz aqui? — Sussurrou ainda piscando confusa. Suas lentes cinzas deixavam ela tão diferente.
— Baker...
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