Anatomy
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Joseph’s Pov
Acordei uma hora antes de dar o horário para que eu fosse à faculdade. E embora eu estivesse cansado, eu estava muito feliz para simplesmente me entregar de vez ao sono. Então aproveitei a circunstancia em que me encontrava – John dormia abraçado a mim –, para relembrar o que havia acontecido entre nós há poucas horas atrás.
Flashback
Eu me inclinei sobre a mesa, fazendo com que os pontos de tapeçaria se desemendassem na medida em que meus pensamentos se dispersavam no quesito Ashley. Ela era muito importante para mim, mas essa confusão em minha mente e em meu coração, certamente seria desenrolada no decorrer dos dias. A sensação de angústia, medo e necessidade tornava de mim uma pessoa totalmente transtornada e atraída por aquele corpo, que me prensava com uma força essencial. Eu sabia que isso era tudo o que eu precisava. Eu precisava daquele homem, eu precisava de John.
Sentir a ardência junto do anelo se exalar daquele corpo suado, coberto por prazer, desesperado por atos vulgares, me deixava louco para experimentar de seu sexo.
Existia uma única palavra para decifrar e resumir tudo o que eu sentia naquele exato momento: êxtase. Eu estava totalmente entorpecido pelos toques de John.
Ter a pessoa que você desejou durante tanto tempo ao seu lado, torna da tarefa mais fácil a mais difícil, me fez parar de respirar e pensar, enquanto eu deixava de lado minha sobriedade para trocá-la pela ambição.
Meu corpo continuava contraído em um L completamente torto, permitindo que John jogasse todo seu peso sobre mim.
Seu desespero carnal fez com que meu abdômen se chocasse com brutalidade contra a lateral da mesa, que rangeu com o choque violento. Utilizou da mesma violência para abaixar minha calça junto da boxer preta que já estava apertada demais.
Deixou que seu membro liberto se eriçasse contra minha entrada, mas diferente do que imaginei a única coisa que ele fez foi se agachar e me penetrar com a língua, “degustando” do meu sabor.
Seus movimentos eram obscenos e eróticos, um quanto incomum para o misterioso e enigmático John, mas tudo fazia jus à minha letargia.
Eu não trocaria isso por nada, nem mesmo pela pequena que complicou com a minha vida, que me fez entrar em uma caverna de escolhas e confusão. Por que eu me entreguei a Ashley? Eu sabia que algum dia eu estaria nesse inferno com tapete de paraíso, eu sabia que o dia que John iria me querer chegaria.
Suas mãos fortes percorreram meu corpo em uma análise ampliada, em um estudo selvagem e externo, mas tudo o que eu ansiava era uma exploração completa.
Sua boca passou a acariciar e a molestar minha glande da maneira mais torturante e aflitiva que poderia ser, enquanto um dos seus dedos, molhado por sua saliva, me penetrava lentamente.
Senti sua boca sugar com volúpia um dos meus testículos, me fazendo ter uma contração severa em um dos orgasmos mais violentos. Não conseguindo me sustentar mordi meu lábio inferior, na tentativa de conter um gemido agudo, alias aquele lugar ainda tinha vizinhos.
– Não faça isso. – o ouvi murmurar contra minha pele. – Tudo o que eu mais quero é vê-lo gemer para mim. Chame pelo meu nome, chame por mim Joseph. – continuou a falar enquanto mordiscava minha nádega, fazendo movimentos circulares e safados dentro de mim. Senti-lo daquela maneira era tão... Incógnito. – Chame por mim. Chame. – o tom de sua voz aumentava na medida em que seus movimentos se intensificavam. – CHAME JOSEPH.
– Jo... – fui cortado por um gemido longo e doloroso, ao senti-lo por completo dentro de mim.
– Não era isso o que você queria? – sussurrou malicioso.
Não me importei com seu lado selvagem e nada generoso, pelo contrário, toda aquela fricção só me fazia querer mais e mais do que ele poderia me proporcionar.
Suas estocadas passaram a ser lentas e com-ple-ta-men-te torturantes, e eu não tinha idéia de até quando meu corpo aguentaria tamanho tormento.
– Me foda de uma vez, caralho. – grunhi impaciente.
Ouvi sua risada rouca ecoar pelo cômodo,
– Ah, Joseph... – ele disse baixo enquanto se inclinava, beijava e lambia minhas costas. – Quem diria, huh?
– Cala a boca, John. – eu grunhia, enquanto mordia meu lábio sentindo toda a extensão de seu pênis dentro de mim.
Até quando ele ficaria nesse jogo? Eu não sabia, só sei que decidi tomar uma atitude e passei a me friccionar contra ele.
Mais uma risada.
– Você é muito apressado, J.J.
– E você fala demais... – rolei os olhos, enquanto ele retirava lentamente seu membro de dentro de mim, reintroduzindo de um modo mais... Violento.
Gemi, enquanto me segurava do modo que podia na mesa.
Ele repetia o ato com mais frequência, utilizando e aproveitando da brutalidade a cada investida. E merda, como eu estava gostando daquilo.
Os movimentos de “vai e vem” se intensificavam, assim como os gemidos de ambos, além da mesa que rangia mais alto a cada movimento nosso.
Seus dedos se entrelaçaram em meus cabelos curtos, puxando minha cabeça para trás de um modo nada delicado, até porque delicadeza não existia naquele instante. Senti sua língua deslizar suavemente de minha orelha até o pescoço, fazendo todos os pêlos de meu corpo se eriçar. Era incrível o misto de sensações que o loiro conseguia me provocar.
Nem nos meus sonhos mais eróticos – que não foram poucos-, eu imaginaria o quão bom era senti-lo em mim, estar completamente submisso a ele, me entregando de corpo e alma a esse momento.
John fez com que eu ficasse de pé e de frente pra ele. E antes que eu conseguisse processar tudo o que estava acontecendo comigo, ele avançou em meus lábios, escorregando suas mãos até a região de minhas nádegas, as apertando com desejo. Eu acariciava sua nuca e procurei o conduzir às cegas para o sofá que estava a poucos centímetros de nós.
Assim que nos aproximamos, ele sentou-se no sofá e eu me sentei sobre seu colo, sentindo-o penetrar mais uma vez. John puxou meu rosto para si, para retomarmos nosso beijo, enquanto seu volume se reintroduzia em mim. Gemi contra seus lábios, ao senti-lo inteiro em mim.
Seus lábios deslizaram para o meu pescoço, ombro, parando no meu mamilo, onde ele lambia, mordia e por vezes “puxava” de leve. Aproveitei a circunstância para começar me movimentar sobre ele, “cavalgando” sobre seu membro.
Ele arfou em aprovação, enquanto me arranhava fortemente nas costas, jogando sua cabeça para trás com os olhos fechados.
Então nossos corpos passaram a se mover com a mesma intensidade, num baque surdo. Sua mão foi de encontro ao meu membro, que roçava e sujava seu tórax com meu pré-gozo, e no instante seguinte, ele passou a me masturbar. Meus braços estavam envolvidos sobre seus ombros procurando por um apoio que me fizesse movimentar mais rápido contra o seu quadril. Nossos lábios se encontraram mais uma vez, e assim iniciamos outro beijo, com as nossas línguas se entrelaçando do modo mais erótico possível.
Arqueei minhas costas ao sentir o tecido gelado encostar-se a minha pele assim que ele me deitou no sofá. Ele me encarava com aquele maldito sorriso que eu amava, enquanto suas mãos deslizavam sobre meu corpo já suado. Ele afastou as minhas pernas e penetrou de uma vez, depois de segurar com firmeza em minha cintura.
Fechei meus olhos e mordi fortemente meu lábio, principalmente depois dele aumentar seu ritmo de investida contra mim. Eu me sentia indo do inferno ao céu toda vez que seu membro atingia a minha próstata.
Eu gemia alto e implorava por mais, por muito mais, e ele atendia os meus desejos se movimentando o mais rápido e forte possível.
Não demorou muito para que eu chegasse ao grau mais elevado e culminante de um orgasmo. Poderíamos chamar de ápice, mas as sensações que John me fez sentir em uma única noite não passou de um dos melhores clímax que um homem poderia ter.
/Flashback
Minhas lembranças foram interrompidas com o despertador do meu celular tocando.
– Oh, como você aguenta levantar nesse horário? – John perguntou resmungando, enquanto se espreguiçava.
Eu apenas ri, enquanto procurava por forças para me levantar da cama. Assim que o fiz, vesti minha calça e tive a liberdade de pegar uma camiseta dele emprestada.
– Acha que é fácil ser estudante? – perguntei e ele riu, enquanto me encarava com cara de sono.
– Faz tempo que eu não sei o que é ser isso. – continuou rindo. – Mas eu acho que você deveria ficar para...
– Não. – ri, sentando-me na cama e calçando meus tênis. – Tenho prova hoje.
– Estou vendo que tem certo alguém que continuará a faculdade depois do meu plano acabar. – ele sentou-se na cama, me puxando para um beijo.
– Será? – perguntei, me desvencilhando dele e terminando de me vestir. — Te vejo mais tarde, chefia? — peguei minha mochila e a coloquei nas costas.
– Sim, claro. Se você quiser. – ele sorriu e eu indiquei com a cabeça que eu voltaria... Era claro que eu voltaria. — Até mais, pequeno.
– Vai para o inferno. – mandei-lhe o dedo do meio, rindo e em seguida me retirei.
Eu tive a leve impressão que estava sorrindo de orelha a orelha. Até porque o que eu mais sempre almejei havia acontecido na noite anterior e tudo indicava que eu continuaria tendo John nos próximos dias.
E com esse pensamento, fui para a faculdade, até que me lembrei que também tinha a Ashley em questão.
É, eu não estava mais sorrindo tanto.
Joseph’s Pov Off
– A prova está fácil, principalmente depois da nossa revisão. – Zachary disse enquanto entregava a prova aos alunos. – Ao terminarem, me devolvam a prova um de cada vez e assim serão automaticamente liberados, lembrando que não é permitido ficar passeando pelos corredores. – sorriu gentil para todos os alunos. — Boa prova.
– Obrigado. – os alunos responderam em coro, exceto Brian que tinha a mente longe e estava se odiando pelo fato de ter aparecido para fazer a maldita prova, e principalmente ao deparar-se com o olhar desolado de Zachary o encarando assim que o próprio lhe entregou a bendita folha de papel.
Respirou fundo e tentando desligar-se mesmo por instantes de sua situação com Zachary, Brian passou a responder o questionário da prova, e surpreendeu-se ao reparar que sabia tudo da matéria do professor. Zachary realmente era um bom professor, tinha de assumir. Pensava o que seria de sua vida se ele fosse apenas seu professor, e não o homem que passara a ter um relacionamento.
Enquanto Brian tentava se concentrar na prova, Zachary estava sentado em sua carteira, encarando os alunos e deixando que seu olhar pousasse em Brian. Queria poder pedir perdão naquele momento, queria poder fazer as pazes, queria dizer para ele que o amava e que não gostaria de perdê-lo, ali mesmo, sem se preocupar com os outros, sem se preocupar com as regras impostas pela faculdade. Mas não podia e ele tinha consciência disso, então ele nada mais fazia a não ser olhar Brian e suspirar baixo.
Os pensamentos de ambos se resumiam no outro. Fossem nas brigas que tiveram, ou nos momentos das trocas de juras de amor que eram trocadas quando estavam na cama. Já haviam passado tantas coisas juntos e ambos tinham receio que tudo aquilo se perdesse num simples piscar de olhos.
– Eu necessito falar com você. – Zachary sussurrou para Brian assim que o mesmo entregou sua prova. – Por favor... – o encarava nos olhos enquanto segurava sua mão.
– Te espero na biblioteca. – murmurou enquanto desviava o olhar. – Embora não devesse nem dirigir a palavra a você. – disse embora soubesse que era da boca pra fora.
– Obrigado. – soltou a mão do mais novo e o viu sair trêmulo da sala. – Você vai me entender... Assim espero. – falou baixo para si mesmo, acompanhando com o olhar os passos de Brian até que o mesmo desaparecesse de seu campo de visão.
Brian’s Pov
Zachary conseguia exercer um poder sobre mim que era simplesmente inexplicável. Aqueles malditos olhos verdes e aquele tom de voz saindo de forma suplicante, me faziam perder a cabeça, além da vontade de querer agarrá-lo em todos os instantes e obrigar a minha mente a esquecer toda a parte ruim que havia acontecido no nosso relacionamento.
Eu não sabia ao certo o que estava fazendo, mas lá estava eu na biblioteca, encarando os diversos livros nas estantes, mas eu pouco prestava atenção nos mesmos. Minha mente trabalhava em diversas duvidas e suposições, que vontade de sair correndo daquela biblioteca não faltava.
Até porque, o que eu diria a Zachary? Ou o melhor, o que ele queria falar comigo? Será que ele terminaria de vez tudo o que estávamos vivendo? Eu não queria, mas talvez devêssemos terminar. Devíamos, certo? Não, não devíamos. Nós nos amávamos, mas os nossos dramas passados não permitiam de sermos tão sinceros um com o outro, de não nos entregarmos de corpo e alma para o nosso amor.
Encarei meu relógio de pulso, perguntando-me mentalmente se Zachary demoraria por mais tempo, mas eu já havia perdido a noção de quanto tempo estava ali aguardando por ele. Eu estava confuso e perdido em meio a tantos livros e em meio a tantos pensamentos que me rondavam.
– Seis anos atrás, eu lecionava aqui durante as manhãs e trabalhava no IML no período da tarde até o inicio da madrugada... Eu vivia fora de casa e quando estava nela, estava cansado e só queria descansar. – fui surpreendido por Zachary encostado de braços cruzados na estante de livros atrás de mim. Virei-me e o encarei. – Pensava que eu era novo demais e quando envelhecesse teria tempo de sobra para descansar com Kathleen ao meu lado. – ele não sorria, seu olhar estava vago e sua boca trêmula. – Porém ela vivia reclamando que nós não vivíamos mais como um casal, porque nós mal nos víamos, pouco fazíamos amor e pouco saiamos para passear como um casal “normal”.
– Vamos nos sentar num canto mais reservado. – eu disse baixo, indo em direção a mesa mais afastada da biblioteca, Zachary assentiu e veio atrás de mim, sentando-se ao meu lado. – Todo casal tem suas crises. – comentei, rindo forçado. Ele apenas concordou.
– Sim e nós estávamos em uma quando ela partiu. – suspirou. – Ela trabalhava o dia inteiro no salão e eu, bem, você já sabe. Não tínhamos mais tempo um para o outro.
Brian’s Pov Off
Zachary’s Pov
Eu estava decidido a me desculpar mais uma vez com Brian, e após todos os alunos entregarem as provas, eu fui rapidamente ao encontro dele na biblioteca. E eu não vi outra saída para me desculpar a não ser contar a ele sobre o drama que me envolveu no período da morte de Kath.
– Um dia, eu cheguei em casa tarde da noite e me deparei com Kathleen adormecida no sofá junto com Maggie, eu a acordei para que ela fosse dormir comigo na cama. – eu falava pausadamente, procurando me lembrar de cada detalhe. — Ela se levantou e mesmo com sono, sugeriu que nós marcássemos um jantar só nós dois. Ela disse que fazia questão de preparar algo especial para nós em casa desde que eu chegasse cedo do IML, e eu claro, concordei... – sorri fraco. — O dia que marcamos nosso jantar era justamente o dia do nosso aniversário de casamento. Até porque, nada mais digno que um jantar “romântico” só nós dois para comemorarmos tal data. – respirei fundo. — No dia do nosso aniversário fiz de tudo para poder chegar mais cedo em casa. Antes passei numa joalheria, e depois numa floricultura, queria presenteá-la da melhor forma possível.
Flashback
Cheguei por volta das sete horas da noite, sendo que meu horário comum de chegada era às duas da manhã. Deparei-me com a casa vazia, fui até a cozinha e encontrei um recado dela pregado na geladeira:
“Fui ao mercado, caso você chegue antes de mim, não se preocupe, eu provavelmente já estarei chegando.
Te amo.
Sua Kath”
Como lá dizia que ela voltaria logo, resolvi tomar banho e me vestir para a ocasião especial, deixando os presentes em cima da nossa cama.
Eu já estava pronto e ela ainda não tinha chego.
– Ela já deve estar chegando. – murmurei comigo mesmo, deitando-me no sofá. Acabei por adormecer instantes depois.
Acordei assustado por volta das três da manhã, encarei a sala e a cozinha e ambos estavam exatamente do modo que eu havia deixado.
– Kath? – a chamei um pouco sonolento. Subi para o nosso quarto e o mesmo também estava do modo que eu havia deixado.
Peguei meu celular e liguei para ela, porém o mesmo dava caixa postal. Desci as escadas apressadamente e peguei a chave do meu carro, procurando ir em direção ao mercado aonde ela costumava ir, achei estranho ao notar que o mesmo estava lacrado, então supus que o mesmo estava em reforma e, portanto ela devia ter ido a outro. Mesmo assim dei voltas e mais voltas na região e para as poucas pessoas que eu encontrava na rua, perguntava por ela, mas ninguém sabia responder.
/Flashback
– Diversas coisas me passaram a mente, e eu nada mais fazia a não ser orar durante todo o trajeto de volta pra casa, torcendo para que nada de mal tivesse acontecido com ela e que ela já estivesse sã e salva em casa, porém ao chegar lá, não me encontrei com ela. – encarei o nada e por fim voltei a olhar Brian. — Supus que ela tinha sido seqüestrada, mas ao mesmo tempo supus que ela tinha encontrado com alguma amiga e havia bebido demais, ou então simplesmente passou na casa dos pais dela e acabou ficando por lá mesmo. Eu até cheguei a acreditar nisso e torci para que isso realmente tivesse acontecido.
Brian concordava com a cabeça e no fim pousou sua mão sobre a minha que se encontrava em cima da mesa. Encarei nossas mãos unidas e sorri fraco.
– Dizem que más noticias chegam logo e, como eu não havia recebido nenhuma ligação, nem nada eu acreditava que realmente nada tinha acontecido. – mordi o lábio e entrelacei nossos dedos. – Até porque se ela tivesse sido seqüestrada, certamente os tais seqüestradores me ligariam, ou ligariam para os pais dela e os mesmos, eu acreditava, me ligariam. – encarei o chão. — Mesmo receoso, tomei diversos medicamentos para que eu pudesse adormecer sem preocupações, nem me passara na cabeça em ligar a TV e assistir algum noticiário, para ver se tinha algum incidente na região, porque como eu disse, eu acreditava que realmente nada de mal tinha acontecido. — engoli em seco. – Você pode até achar que minhas ações foram frias, até porque parece que eu não havia me preocupado, porque eu fui dormir... Mas eu pensava que eu já tinha me dado tão mal no meu passado, que a vida certamente teria compaixão de mim e finalmente me deixaria ser feliz. Pode soar estranho, mas era o que eu pensava. Eu havia me tornado otimista em tudo depois que a encontrei. – minha voz falhava. — No dia seguinte, acordei atrasado e acabei perdendo a hora para dar aula na faculdade. Então decidi ir direto para o IML e de lá ligar para algumas amigas dela para ver se elas sabiam de algo. – continuei. — Ao chegar lá, todos os meus colegas de trabalho me encaravam de uma forma diferente. Pareciam sentir pena, dó, eu até cheguei a ouvir um “eu sinto muito”... E por um momento, achei que estava enlouquecendo, ou que estava passando a ouvir coisas por estar preocupado e receoso por Kathleen. No fim, eu acabei não ligando para nenhuma amiga dela, já que havia corpos prontos para a necropsia... Acreditando fielmente que ela me ligaria a qualquer momento para se desculpar e se retratar.
Flashback
– Está tudo bem, doutor Zachary? – Mary, uma residente perguntou, me encarando receosa.
– Acho que sim. – sorri forçado.
– Quer que eu o acompanhe na necropsia? – sorriu nervosa.
– Não, obrigado. – respondi arqueando uma sobrancelha. Eu sempre realizava as necropsias sozinho. Não havia entendido o porquê dela se oferecer assim, repentinamente. – Bom, vou para a sala... Até mais. – me despedi com um aceno de cabeça e sem entender nada me dirigi para a sala de necropsia. – Cada uma que me aparece... – ri sem humor.
Ao chegar na sala, deparei-me com um corpo coberto pronto para a realização da necropsia. Encarei a ficha e o mesmo dizia que documentos não foram encontrados, portanto estava indicado que era apenas uma mulher, sem nome, sem endereço, apenas uma indigente.
Vesti minhas luvas, coloquei um avental cirúrgico e uma máscara e decidi descobrir o corpo. Maldita hora em que resolvi fazer tal ato.
Dei um passo para trás, não querendo acreditar na pessoa que eu ali estava enxergando.
– N-Não pode ser. – murmurei trêmulo, tirando minha máscara e a jogando longe. – Kath... Não, não pode ser. — Só podia ser coisa da minha mente, eu não queria aceitar. Não podia ser ela ali. – N-Não... Eu estou ficando louco. — Minhas mãos suavam e minha respiração ficava cada vez mais pesada. — Não é a minha Kath...
Eu saí rapidamente da sala, e mesmo trêmulo, peguei um copo d’água e bebi o mesmo. A imagem que eu havia acabado de ver simplesmente não fazia sentido. Quer dizer, passou a fazer sentido.
O mercado lacrado, o não retorno de Kath pra casa...
– Não. – murmurei encostando-me na parede, deixando que o copo caísse de minha mão. – Por que, meu Deus? Por que tirastes mais uma pessoa que eu amo de mim?
Lembrei-me da ficha e do “indigente” carimbado no mesmo. Eu teria de ser profissional, eu teria de encarar a realidade, eu teria de entrar naquela maldita sala e fazer o meu trabalho. Além de tudo, Kathleen não merecia ser apenas identificada como “indigente”, como se ela fosse qualquer uma encontrada no meio da rua, sem nome, sem endereço, sem destino... Ela era minha esposa, a mulher que eu tinha escolhido para viver ao meu lado até os meus últimos dias. Mas a vida... Ah essa maldita vida que nunca respeitara as minhas vontades.
Respirei fundo, tentando deixar todo o meu lado emocional fora da sala, mesmo sabendo que era impossível.
Ao entrar na sala novamente, todas as sensações voltaram
– Vamos lá Zacky. – murmurei trêmulo comigo mesmo. – Faça o seu melhor... Faça isso por ela. – encarei mais uma vez o rosto de minha esposa e por fim fechei meus olhos por alguns instantes, orando em silêncio.
Comecei a realizar todos os procedimentos de uma necropsia, embora meus olhos estivessem cobertos por lágrimas. Eu teria de ser profissional, mas estava sendo difícil, principalmente quando meu olhar pairava sobre o rosto dela, e eu podia ver suas feições que demonstravam dor e medo.
Mordi meu lábio nervosamente, enquanto confirmava suas características físicas feitas por outro legista.
Lá, cada médico legista ficava responsável por um procedimento. O exame externo já tinha sido feito, portanto eu estava responsável para a realização do exame interno. Eu poderia fazê-lo assim como eu sempre fazia, com tranqüilidade ou como muitos enxergavam, com certa frieza. Mas era a minha esposa ali. Como agir com frieza?
Peguei todos os instrumentos necessários e após contemplar o corpo tão conhecido por mim sem nenhum defeito – exceto pelos ferimentos causados pelas balas -, comecei uma incisão larga e profunda em forma de “Y” curvada em torno da base das mamas.
Logo eu estava fazendo a dissecação de seus órgãos, cortando tecidos, músculos. Procurando pela causa de sua morte.
Kathleen fora atingida por três disparos, sendo que dois atravessaram seu corpo e apenas um ficou alojado. Tratei de tirar o projétil que ficara alojado em seu pulmão esquerdo, colocando-o dentro de um pequeno envelope de evidencias.
Um disparo acertou e atravessou sua perna direita e eu concluí que este disparo não fora a causa de sua morte uma vez que essa área não era tão letal em relação aos outros disparos que ela recebeu. O segundo disparo acertou seu ombro esquerdo e atravessou e saiu na região das costelas, já o ultimo disparo acertou seu peito em cheio, sendo que atravessou seu coração e acertou o pulmão esquerdo.
Olhei para os lados e peguei novamente a ficha, encontrando o laudo policial atrás. O mesmo alegava que ela havia sido atingida por disparos durante um assalto no mercado. Sendo encontrada ainda com sinais vitais, mas não resistindo aos ferimentos por muito tempo.
Ao terminar todo o procedimento, retirei minhas luvas e pousei minha mão em seu rosto.
– E-Eu sinto muito... Eu deveria ser mais presente. – disse trêmulo. – Por que mataram logo você, minha garota?
Sentei-me na cadeira, abaixei minha cabeça e fechei os olhos, deixando que as lágrimas rolassem. Ela havia sido morta enquanto comprava ingredientes para o nosso jantar. Ela foi morta justamente no dia do nosso aniversário de casamento. Morta... Quem seria capaz de atirar nela? Ela jamais reagiria num assalto, eu a conhecia. Ela era sempre quem me dizia para nunca reagir caso tentassem me assaltar. Por que a mataram? Por que ela?
– Eu vou descobrir o que realmente aconteceu com você... Apenas descanse em paz. – murmurei assim que me levantei e me reaproximei de seu corpo, acariciando seu rosto em seguida. — Eu te amo! – eu disse baixo, cobrindo seu rosto em seguida.
Retirei-me rapidamente em seguida, sem me importar com as lágrimas que banhavam meu rosto, sem me importar com os olhares de todos que estavam ali me lançavam.
Eu queria que aquilo não passasse de um mero pesadelo... Mas não era. E mais uma vez, eu havia perdido uma pessoa que eu amava.
/Flashback
– A partir de então eu não quis mais trabalhar ali, quer dizer, eu trabalhei mais uma semana após o enterro de Kath... Mas depois eu não conseguia mais focar em nada, nem pensar em nada. Lágrimas brotavam instantaneamente e eu apenas queria poder morrer junto com ela. – eu dizia com a voz trêmula deixando evidente a força que eu estava fazendo para não chorar, Brian segurava com força minha mão, me encorajando a continuar a contar, desabafando sobre tudo o que aconteceu nos mínimos detalhes, sendo que mais ninguém sabia. Não tão detalhado assim. – Indicaram-me psicólogos, terapeutas, tudo quando é ajuda para que eu não me deprimisse, mas nada me tirava da cabeça o desejo de morrer para poder reencontra – lá... Eu passei a desejar o suicídio.
Flashback
Era quarta-feira, 20 dias após a morte de Kathleen, e eu havia acordado naquela manhã decidido. Tiraria minha própria vida. Arrancaria do meu peito toda minha angustia. E principalmente a falta que ela me fazia a cada dia que passava.
Eu havia mandado um e-mail ao invés de uma carta de despedida para Charles. No mesmo eu agradecia por todos os anos em que ele esteve ao meu lado sendo meu amigo, também pedi desculpas por não ter sido homem o suficiente de encarar a minha realidade e estar decidido a tirar minha própria vida. Ele sabia a proporção do meu amor por Kathleen e ele sabia que eu não aguentaria viver sem ela por perto. Ela fora a maior motivação da minha fase pós-jovem. Pedi perdão diversas vezes e deixei explicito a vontade de encontrá-lo talvez no além ou em outras vidas.
Depois de enviar o tal e-mail a Charles, dirigi até uma ponte, a mais afastada da região. Eu não havia escolhido tal lugar a toa. Além de ser um local que não tinha tanta movimentação de pessoas e automóveis, foi naquela ponte, dentro do carro dela, que nós nos amamos pela primeira vez.
Respirei fundo, subindo na mureta de proteção da ponte e encarei o horizonte. Aquela seria minha ultima visão antes de morrer. Eu iria atirar na minha própria cabeça e deixar que meu corpo desabasse no rio e a morte me carregasse no colo para algum lugar desconhecido.
– Esperem por mim, mãe, pai e Kath. – murmurei apontando a arma na minha própria cabeça, deslizando meu dedo no gatilho, só faltava apenas um impulso no mesmo para que tudo estivesse acabado. – Esse é o fim. — Fechei meus olhos e quando eu já iria atirar em mim mesmo, senti mãos puxarem meu corpo para trás enquanto a arma escapava de minha mão e caia no rio.
– Zacky, pare. – era Charles quem havia me puxado e agora me abraçava. – O que você ia fazer?
– Eu... Eu não suporto mais essa dor. – comecei a chorar enquanto ele me segurava firme em seus braços.
– Você parou pra pensar na dor que eu viria a sentir caso perdesse meu melhor amigo assim? Caso você tirasse a sua própria vida? – perguntou levantando meu rosto para que eu o encarasse. – Ainda bem que li seu e-mail antes que você cometesse qualquer loucura. – ele me olhava e me envolvia em mais abraços. — Eu não consigo imaginar a dor que você deve estar sentindo... Mas você vai superar, eu te prometo.
– Charles... Eu...
– Não precisa dizer nada. Apenas me prometa que nunca mais irá tentar algo contra a sua vida.
Eu nada respondi, e ele continuou:
– Eu vou te ajudar, e eu vou estar sempre ao seu lado, meu amigo.
/Flashback
– Ele impediu que você se matasse...
– Sim. – murmurei. – Ninguém mais sabe disso. – desviei o olhar.
Brian sorriu mínimo.
– E o que veio a acontecer a partir de então?
– Charles fez com que eu frequentasse terapias, psicólogos, e qualquer outra coisa que me fizesse superar a morte dela, ou que pelo menos tirasse a idéia de tirar minha própria vida. Além do fato de sempre me chamar para sair para os lugares. Nós saiamos todo final de semana antes de eu te conhecer.
– Eu te roubei dele, então? – riu e eu ri junto, concordando com a cabeça.
– Como desisti de trabalhar no IML, eu passei a trabalhar somente na faculdade, até porque eu me distraia enquanto lecionava, mas as lembranças de Kath me atormentavam assim que eu colocava os pés em casa. E toda a dor que eu sentia pela falta que ela me fazia, eu procurava aliviar no nosso quarto, que eu resolvi manter intacto. – mordi meu lábio. — Entenda Brian, eu me sentia culpado pela morte dela e eu não sabia o que fazer... Eu apenas deixei seu quarto intacto para mantê-la para sempre comigo. – encarei Brian e toquei seu rosto. – Não queria que você descobrisse o quarto daquela forma, mas acabou descobrindo. E eu confesso que eu agi errado também quando te vi ali... Mas eu não quero relembrar a nossa discussão agora. Eu mais do que nunca, percebo que eu mereço ser feliz mais uma vez, amar e ser amado e não sofrer mais por ela.
Zachary’s Pov Off
Brian’s Pov
– Brian... Perdoe-me por ter sido estúpido com você, por não ter te contado sobre o quarto... Ajude-me a apagar essas memórias, eu preciso de uma nova vida... – Zacky dizia desesperadamente, aproximando mais o seu corpo do meu. – Eu preciso me reerguer mais uma vez.
– Como assim? – perguntei um pouco confuso pelas suas palavras.
– Eu quero estar com você e somente com você. – sorriu fraco, entrelaçando nossos dedos. — Eu percebi que não é mais necessário guardar as memórias de uma vida antiga. Eu quero ter uma vida nova, sem lembranças do que eu já vivi com outro alguém, eu quero somente ter você e me lembrar de você.
– Zee...
– Mude aquele quarto, jogue fora as coisas dela, arranque de vez todas as lembranças que existem naquela casa... Eu não quero mais nada a não ser que venha de você.
Eu o encarava surpreso com um sorriso tímido nos lábios.
– Eu quero te amar, te proteger e não permitir que nada de mal aconteça com você. Saber que você estará sã e salvo em meus braços. Eu juro que vou ser o melhor pra você, eu juro que nunca mais vou te magoar ou te decepcionar... Apenas diga se você quer voltar para mim. – riu sem jeito, mordendo o lábio.
– E-Eu... – toquei em seu rosto. – Eu volto, é claro. Eu também te amo, Zee. – deixei que as lágrimas rolassem pelo meu rosto no mesmo instante que o mesmo acontecia com ele. – Eu agi feito um idiota.
– Não Brian... – ele me interrompeu. — Talvez eu tivesse a mesma reação, caso eu descobrisse aquele quarto do modo que você descobriu. – ele encostou sua testa na minha, enquanto seu dedo deslizava sobre a maçã de meu rosto. – Eu me arrependo de não ter te dito nada... Aliás, eu me arrependo de quase tudo que aconteceu de errado entre a gente, me arrependo até de ter ousado em aumentar meu tom de voz com você.
– Está tudo bem. – sussurrei. – Confesso que eu não consigo mais me imaginar sem você... Esses dias foram muito difíceis pra mim. Dormir e acordar sem ter você ao meu lado, não ter mais esse seu sorriso abençoando os meus dias... Eu percebi que eu não consigo ser feliz sem você comigo.
– Nada mais me importa a não ser você, Brian... Eu não quero desperdiçar essa segunda chance que a vida me deu de tentar ser feliz no amor, eu quero te ter ao meu lado... Hoje e sempre se for possível.
Eu o encarava sorrindo enquanto meus dedos deslizavam sobre seu rosto.
– Eu te odeio na verdade. – eu disse por fim.
– O quê? – perguntou surpreso, se afastando.
– Te odeio... – o segurei pela mão. — Te odeio pelo fato de você aparecer na minha vida e se tornar peça essencial, por ser o cara que eu me apaixonei e que diz essas palavras e faz meu coração bater acelerado, te odeio por me tornar tão dependente de você, te odeio por te amar demais, Zachary.
Ele riu fraco, depois de suspirar aliviado. Sua mão pousou em minha nuca e me puxou contra si, colidindo nossos lábios, iniciando um beijo calmo, porém urgente. O bom do local onde estávamos era que se qualquer um entrasse na biblioteca não nos veria de imediato.
– Sem brigas a partir de hoje? – perguntei, depois de encerrar o beijo, o olhando nos olhos.
– Sem brigas. – ele sorriu.
– E eu, bem, eu sinto muito pelo que aconteceu com a Kathleen e tudo mais. Imagino o quanto deve ter doído estar na sua situação. Só posso dizer que você, apesar de tudo e mesmo com a ajuda de terceiros, você foi e é um guerreiro Zachary.
Ele negou com a cabeça, rindo sem jeito.
– Você sabe, não superei totalmente a perda dela, mas acho que vou superar dessa vez. – ele sorriu sem graça. – Você estará comigo principalmente agora, sabendo claramente tudo o que aconteceu comigo...
– Sim. – retribui o sorriso. – Eu sinto muito mesmo... Por tudo. Desde o que te aconteceu, até o modo como te tratei naquele dia.
– Tudo bem... Vamos recomeçar a partir de agora. – ele me encarou divertido. — Quer ir pra minha casa? – perguntou sussurrando, enquanto suas mãos passaram a acariciar minhas coxas.
– Eu acho que meu pai vai surtar. – ri e ele me encarou.
– Por quê?
– Ele se surpreendeu quando me viu em casa, agora eu vou voltar pra sua de novo.
Nós dois rimos e eu procurei selar nossos lábios mais uma vez.
– Vocês se acertaram? – perguntou por fim.
– Não... Eu acho. – ri sem jeito, me levantando. – Vamos embora agora?
– Sim. – ele se levantou também, me abraçando por trás. — Quer realizar seu fetiche agora, senhor quero-transar-em-público? – perguntou baixo, rindo em seguida.
– Agora estou tímido. – respondi e ele riu alto. – Deixe-me primeiro matar as saudades desse seu corpo no seu quarto pra depois decidirmos em que local publico iremos. – pisquei. Zachary apenas continuava rindo enquanto selou pela ultima vez nossos lábios. Por fim nos desvencilhamos e nos retiramos de lá.
Todas as minhas duvidas e pensamentos foram apagados naquele instante. Nós nos demos mais uma chance e eu sabia que a partir de então, nós daríamos o melhor de nós mesmos para que tivéssemos um relacionamento melhor.
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