Anarconha

1 O jogo que os seres superiores a nós jogam


Notas iniciais
Olá, Eu sou o personagem principal deste capítulo, e vou lhes introduzir a essa viagem transcedental que é o meu cotidiano. Bora lá...

âââÂÃÂRRGH! — Esse sou eu acordando. — ââââââÂÂÂÂÂÂÃRRRGGGHHHH!.

— Vamos meu filho! É hora de acordar!

Esse é meu pai me acordando como ele faz todo santo dia, cantando uma paródia horrível de Xibom Bombom que ele mesmo compôs.

— Analisando esse dia tão bonito, quero dar um abraço no meu filho tão querido, analisando esse dia tão bonito, quero dar um abraço no meu filho tão querido. — Sim, isso piora! — E o dia cada vez fica mais lindo, e mais lindo cada vez fica o dia. — Eu sei, isso não tem o menor sentido. — E o motivo todo mundo já conhece, é que hoje é seu dia e vai ser muito bom. — Essa com certeza é a pior parte. — bom, bom bom, vai vai ser bom. Bom, bom bom, vai vai ser bom.

Apesar dele me acordar as seis da manhã todos os dias com essa música insuportável, porque ele acredita que “Quem acorda cedo vive mais!”, eu gosto. Isso porque tem uma história muito linda por trás dessa música.

Era um dia ensolarado de um domingo de outubro, quando ainda faltavam três horas pro jogo do Fortaleza começar, minha mãe tinha ido à feira com meu irmão e eu, e meu pai estava jogado no sofá assistindo as propagandas infinitas do SBT. Enquanto meu pai tomava o último gole da última latinha de cerveja, estava passando os comerciais da Polishop, que meu pai assistia entediado.

Quando de repente, algo muito inesperado aconteceu. Meu pai não soube explicar o que tinha visto, mas algo muito estranho tinha aparecido na Tv e sumido rapidamente, como um vulto. Meu pai pensou ter bebido muita cerveja e estar vendo coisas, mas alguns minutos depois o fenômeno se repetiu. Ele deu um pulo do sofá e ficou em estado de alerta, evitava piscar muito os olhos pra poder comprovar com toda a certeza o que estava vendo. E quando aconteceu pela terceira vez, ele não teve dúvidas, estavam aparecendo imagens de perfumes da Jequiti que apareciam e desapareciam em questão de milésimos de segundos.

Apavorado, meu pai desligou rapidamente a Tv e trancou-se no quarto. Depois de muitas horas trancado no quarto com medo e sem ter absolutamente nada pra fazer, ele pensou: “Vou fazer uma paródia horrível da música Xibom Bombom, pra acordar meu filho todos os dias as seis da manhã com a desculpa de que “Quem acorda cedo vive mais!””.— Ah, meu pai!, sempre pensando em mim.

Voltando ao presente. Minha mãe já estava impaciente e gritava lá da cozinha enquanto meu pai ainda estava dançando e cantando aquela música de sua autoria. — Vamo ver Lennon! Acorda o Wednesday que o almoço já tá na mesa, já é onze horas, e as aulas dele começam hoje!

Sim, você não leu errado. Meu nome é Wednesday. Wednesday da Silva Sousa. Você deve tá se perguntando o que levou uma senhora tão simpática e um senhor tão calmo a colocar um nome tão...Digamos...Incomum.

Minha mãe se chama Maria, ela nasceu no interior do Ceará, numa família com grandes dificuldades financeiras. Eram meados de 1985, e minha mãe estava na flor da adolescência, e as adolescêntes daquela época só pensavam em duas coisas: John, e Travolta.

Sim, como cinco em cada cinco mulheres eram fãs alucinadas do americano mais charmoso da época (hoje ele perdeu esse título para o Snoop Dogg), minha mãe colecionava fotos, revistas com notícias do astro, fitas cassete dos filmes e até uma embalagem de desodorante que ela comprou na internet que supostamente ele usou. Minha mãe era completamente apaixonada pelo John Travolta, e como sua família vivia na pobreza, seu sonho era de um dia encontrar um americano lindo, forte, rico e cheiroso como o John Travolta pra ela casar e ser feliz pelo resto da vida.

Até o dia em que ela conheceu Lennon, meu pai. Minha mãe e suas irmãs, que também eram pobres e soberbas, foram pra um uma festa de arromba, aquelas festas que só tocam músicas da jovem guarda. Todas as irmãs da minha mãe já tinham arrumado um paquera e estavam xavecando, só a pobre Maria ficava escorada no balcão apenas observando o ambiente, até que surge um moço lindo, forte, cheiroso e aparentemente rico vindo em sua direção. Tímida, Minha mãe finge não perceber que o rapaz se aproximava, focando sua atenção à esquerda, onde havia dois cachorros que estavam acasalando ali perto.

Essa parte eu nunca vou esquecer, meu pai já me contou essa história umas quinhentas vezes, e toda vez que ele vai contar de novo ele diz: “Eu tenho uma história ótima pra lhe contar meu filho, não lembro se já contei, mas vou contar.”. E aí ele começa a narrativa: “Eu me aproximava daquela moça tão formosa escorada no balcão do bar, quando ela percebeu que eu me aproximava, ela virou o rosto para o lado esquerdo, provavelmente para dar destaque às suas bochechas e tentar me seduzir mais. Apesar de eu estar indo falar com aquela bela moça, eu não sabia o que dizer, eu andava com um sorriso no rosto, mas na verdade eu estava completamente nervoso, tão nervoso que comecei a ficar banhado de suor, a pressão começou a subir, já haviam dois círculos enormes de suor nas minhas axilas, e eu me aproximava sem saber o que dizer, foi então que me veio na cabeça uma música do Renato Russo. chegando a uma distância relativamente perta da moça, de forma que eu aparecesse na sua visão mesmo com seu rosto virado pra esquerda, eu olhei em seus olhos e proclamei as sábias palavras de Renato:

— Oi amor. — Eu lhe falei. —Você está tão sozinha. — Ela então sorriu pra mim.”

Foi aí que eles se conheceram, passaram a noite dançando Banho de Lua, foram ao motel mais próximo, e no dia seguinte, Maria soube seu nome: J.Lennon. Ela não conseguiu se conter e deu um grito enorme, tão alto que o gerente do motel que estava na recepção falou para o funcionário, “Esses jovens de hoje em dia estão tão viris.”

Minha mãe estava empolgada porque finalmente tinha encontrado um americano gostosão e provavelmente rico (ela pensou isso só porque ele pagou a conta do motel), e agora ela podia realizar seu sonho de ser feliz para o resto da vida. Alguns meses se passaram e minha mãe engravidou, ela estava morta de apaixonada, e pediu para meu pai escolher um nome bem americano para pôr em mim. Acontece que a única coisa que meu pai sabia em inglês era Baby, e não podia colocar o nome do bebê de bebê em inglês. Então teve a brilhante idéia de olhar alguma palavra no dicionário de inglês, foi quando ele abriu em uma das últimas paginas e viu Wednesday, ele escolheu esse pensando:”Deve ser Wesley em inglês.”. E foi assim que eu ganhei esse nome tão esdrúxulo.

Quando eu finalmente consegui me levantar da cama, já estavam todos na mesa: minha mãe, meu pai, e Zé. Zé é meu irmão mais novo.

Você deve esstar se pergntando porque Zé não tem um nome tão estranho como o meu. Foi porque depois de alguns meses depois do meu nascimento, minha mãe descobriu que J.Lennon, na verdade era João Lennon, e ele não era da California, e sim de Catunda, uma cidadezinha no interior do Ceará. Essa notícia foi um choque para a minha mãe, lembro dela sendo carregada nos braços do meu pai para a ambulância.

E essa é minha família, almoçamos e jantamos juntos, vamos ao parque aos domingos, e conseguimos dividir igualmente o tempo de cada um com o controle da Tv.

Depois do almoço, fui me arrumar para ir à escola, na minha velocidade de Guepardo, sem pernas. Tomei um banho, escovei os dentes e fui.

É muito bom voltar às aulas, rever os amigos, brincar com eles, fazer exercícios que nunca me servirão de nada, apenas para ocupar meu tempo para que eu não possa pensar em me questionar se isso vai ser útil ou não na minha vida. Ao contrário da maioria dos jovens, prefiro o período de aulas do que o de férias, porque nas férias eu não tenho absolutamente nada pra fazer, e o tédio faz eu pensar em paradoxos existenciais sobre diversas coisas, desde a razão da nossa existencia, até a teoria de que somos apenas personagens de videogame de seres muito superiores a nós. Em uma dessas viajens existenciais, cheguei a formular uma teoria de que nossa razão de existir é simplesmente conseguir evoluir os jogos de videogames a uma tecnologia, gráficos e jogabilidade, até o ponto em que conseguiriamos programar um jogo com tamanha qualidade gráfica e jogabilidade que o nosso universo, ou seja, que nós criássemos um jogo do jogo que somos, e quando esse dia chegar, será o dia em que finalizaremos o jogo em que estamos, ou seja, o jogo que seres muito superiores a nós estão jogando. Não sei por que motivo, mas minha mãe me obriga a ir no psicólogo às sextas pela manhã.

Fui caminhando rumo a escola, com meus passos fracos e lentos, com aquela cara de quem não queria estar aqui, quando falo aqui, me refiro ao planeta Terra. Eis que encontro no meio do caminho meu colega Caio. Ele também me ver e vem correndo me dar um grande abraço.

— Olá Wednesday! Quantas saudades, Você não está feliz?

— Olá Caio! É muito bom te ver de novo, mas porque eu estaria feliz?

— Porque hoje é seu dia!

Ah, já tinha me esquecido, todas as quarta-feiras Caio faz essa piadinha. Caio é um amigo incrível, mas ele tem um defeito, ou talvez uma qualidade, não sei, depende da situação. Caio é o rei dos trocadilhos, ele é um jovem muito respeitado na escola pelo seu talento magnífico de fazer trocadilhos com absolutamente tudo, há boatos de que para você ser um aluno honrado,você tem que receber um apelido dado pelo Caio. Apesar de que ele não tinha um apelido, porque sei nome já era um trocadilho nato.

— Não acredito que você Caio nessa!

— Essa roupa Caio bem em você!

Até quando assistiamos Dragon Ball juntos: —Você conhece o Caio? — eu já sabia que ele ia falar alguma besteira, mas respondia pela amizade. — Caio quem? — Então ele simulava o Kaioken do Goku.

Eu adorava a amizade de Caio, embora ele nos fizesse passar vergonha algumas vezes, como uma vez que fomos ao enterro de uma tia da avó de um amigo nosso e quando chegamos em frente ao cemitério ele disse, “Mas isso é um SEMitério ou um COMitério?”, eu fiquei morrendo de vergonha, e como se não podesse piorar, ele solta um, “Mas é CEMitério ou MILmitério?”. Pobre Caio, levou uma bolsada de uma senhorinha que estava ali perto.

Estavamos a um quarteirão da escola, e eu já conseguia ver meus amigos que tanto amo, logo na esquina estava Marlon e Larissa, apelidado carinhosamente, ou melhor, honradamente, por Caio de Marlombra e Larica. Eram o casalzinho de maconheiros mais fofos que já pisaram no planeta Terra. Nos abraçamos com muita força, contamos coisas sobre as nossas férias e continuamos juntos rumo à escola.

A alguns metros estava outro grande amigo meu, o Paulo, apelidado por Caio de Paulêra. Era o rockeiro mais brutal, sanguinario, demoníaco, simpático, carismático e meigo da nossa escola, ele tinha um grande cabelo preto ondulado que chegava até mais ou menos no seu umbigo, e na maioria das vezes estava batendo cabeça, usava sempre camisas pretas, as vezes algumas cinzas, porque as pretas quando vão ficando antigas e desbotadas ficam cinza, seu cabelo era enorme e cobria seu rosto, não me lembro de ter visto seus olhos alguma vez na vida, mas as vezes eu conseguia ver seu nariz.

Encontrei todos os meus amigos e fui pra sala de aula, e logo dou de cara com o garoto mais idiota da face da Terra sentado na cadeira fazendo atividades que ainda iam ser cobradas, o nome dele era Jorge. Um garoto riquinho, esnobe, que sempre enchia a boca pra dizer com palavras chiadas: “Eu vim do Rio de Xxxaneiro, Poxxxa”. Jorge era o líder da turma, eleito de forma nada democrática, ele era um traidor, um aliado da direção, um aliado do sistema, e entregava todos os alunos que colavam, que conversavam, e até os que jogavam a bolinha de papel no lixo e erravam, e as pessoas sempre iam reclamar com ele:

—Poxa Jorge, você me entregou à direção de novo! Nõs não somos amigos cara?

—Amigos não! Colegas.

Todos odiavam Jorge. Além de ser um tremendo X9, Jorge também era super autoritário, mandava os alunos limparem a sala antes e depois de cada aula, a consequência disso foram cinco alunos que pegaram gripe, e três faxineiros demitidos por falta de produção.

A escola tinha se tornado um inferno desde o dia em que Jorge chegou, um inferno não, porque se fosse um inferno pelo menos o Paulêra estaria satisfeito, era um pesadelo. Mas tudo isso estava prestes a mudar, aquele primeiro dia de aula depois das férias do meio do ano entraria para a história da nossa turma.

Todos já estavam em sala, sentados em suas cadeiras, apenas esperando o professor chegar, então Jorge fala: “Vocês sabem o que o Wesley Safadão foi fazer na escola?”, e como sempre, ninguém mexeu um músculo pra responder, e ele mesmo respondeu: “Não sei, perguntem pra ele alí”, apontando pro Paulêra. Então Paulêra se levantou rapidamente e disse:

— Sabe o que o Jorge foi fazer no inferno?

Ninguem respondeu mas estavam todos anciosos pela resposta, que veio logo em seguida.

— Dar seu crânio como garrafa pro sangue de Belzebul e usar suas tripas como cordas para a guitarra de Lúcifer.

Todos ficaram calados, só Marlombra e Larica riram. Jorge se encheu de fúria e avançou pra cima de Paulêra, Jorge era religioso. Então Paulêra levantou o braço preparando para socar a cara de Jorge, quando o professor chegou na hora e viu a cena, colocou Paulêra de castigo tendo que fazer todas as atividades de casa dele e de Jorge por uma semana, e as notas pelas atividades ainda seriam dadas a Jorge.

Estavam todos revoltados com aquele garoto irritante, até o momento que tudo começou a mudar, o momento em que o professor falou:

— Vou apresentar a vocês dois alunos novos que chegaram na cidade recentemente. Podem entrar!

E entraram na sala duas pessoas que mudariam para sempre a nossa turma, uma garota loira, com um olhar sério, de altura mediana, que vestia uma camisa vermelha com uma foice e um martelo pintados de amarelo, e um garoto alto, forte, que mesmo na adolescência, já tinha um bigodinho acima da boca, ele usava um boné de guerrilha verde com a bandeira de Cuba costurada na lateral esquerda.

— Podem se apresentar. — disse o professor.

— Meu nome é Maxwell, mas podem me chamar de Marxwell.

— Meu nome é Marlene, mas podem me chamar de MarLênin.

Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.