Ana, se lembre...
1 Luzes piscando
As luzes de dentro e fora da casa estavam apagadas, e o corredor era iluminado apenas pelo piscar do jogo de luz instalado no jardim — aquele piscar todo estava causando dor de cabeça. Ela terminou um cigarro, deu o último gole na cerveja e percebeu que precisava ir no banheiro.Estava um pouco tonta pelo piscar da luz, pela cerveja bebida, pelo cigarro fumado rápido demais.Se levantou e foi para dentro da casa, subindo a escada com mais cuidado que o normal, tentando não cair, tateando as paredes até encontrar a porta do banheiro principal no fim do corredor, já que sabia que se entrasse no seu quarto para usar o seu banheiro acharia a cama convidativa demais e iria ficar por ali mesmo.Entrou na porta a direita, acendeu a luz e deu de cara com seu rosto no espelho.Ficou olhando alguns segundos, se perguntando porque continuava bebendo, já que sempre fica bêbada rápido demais e enjoada demais, pelo menos no começo.Observou os olhos com olheiras de cansaço por um momento, e foi fazer xixi.Terminou, deu descarga, lavou as mãos, jogou um pouco de água fria no rosto, prendeu o cabelo em um coque alto.Achou algumas balas perdidas no bolso, colocou uma na boca sentindo o gosto forte de hortelã, lavou de novo o rosto, mordeu a bala até ela sumir e só ficar o resíduo do gosto na boca.Sentia-se melhor.Apagou a luz e fechou a porta.
Havia algo do lado de fora, uma sombra preta encostada na parede.Mesmo com a pouca iluminação, percebeu que a sombra alta a observava.Pensou em correr, pensou em voltar para o banheiro, pensou em todos os filmes de terror que já tinha assistido e lembrou de quanto medo tinha do escuro, pensou que poderia ser um fantasma já que não conhecia a história da casa, vai que era assombrada.Pensou que era médium, pensou que já tinham falado isso pra ela algumas vezes em ocasiões diferentes, pensou também que haviam mais pessoas na casa além dela então provavelmente era alguém esperando para usar o banheiro, pensou em voltar para dentro do banheiro e por fim decidiu andar e ir para fora de novo ignorando o que quer que fosse aquela sombra.Andou em direção a escada e quando passou do lado da sombra,uma mão pegou a sua e a puxou para si.
Enquanto ela olhava assustada para o rosto da sombra, sem poder distinguir quem era, a sombra a beijou.
O beijo tinha gosto de urgência,saudade,cerveja e cigarro.Não reconhecia aquele beijo, mas ele dava tão certo que achou que pudesse ser um beijo que já havia existido em algum momento.Era bom, calmo e afetuoso, embora as mãos da sombra a segurasse pela cintura de um jeito firme, impedindo que ela pudesse sair de lá.Ela também não tentaria sair.
Ela e a sombra se beijaram pelo que pareceu muito tempo, as suas pernas cada vez mais trêmulas, seu corpo cada vez mais quente.A sombra começou a beijar seu pescoço e ela sentiu uma barba por fazer, macia, que espetava um pouco mas não incomodava.Suas mãos estavam nos ombros da sombra e por lá ficavam, mas as mãos da sombra percorriam todo o seu corpo.Ela ouvia a música que tocava no quintal, ouvia gritos e risadas, o barulho da água da piscina,barulho de garrafas batendo.Mesmo de olhos fechados conseguia ver a claridade das luzes piscando, ouvia seu coração disparado e o sentia bater por todos os lados do seu corpo.Percebia o quanto a situação era estranha mas não se importava.O beijo parou assim como começou, sem ela estar preparada.
A sombra desencostou-se da parede, virou de costas e foi a caminho do banheiro, segurando a sua mão até que ficou longe demais e as mãos foram se separando aos poucos.
A sombra chegou ao fim do corredor, abriu a porta e acendeu a luz.Quando virou-se ,a sombra a olhou e abaixou o olhar fechando a porta rapidamente, mas por tempo suficiente para ela ver uma camisa surrada de banda dos anos 80.
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