Ana
1 Capítulo único.
Me rasgava, me rasgaria inteira.
Só para não ser toda essa sujeira, essa asneira.
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Ana se agarrou as próprias pernas, se agarrou a si. Não porque se tratava da melhor opção, mas sim a única. Era duro ter só a si mesmo quando não se é nada. Sorriu agridoce, se observando no espelho passando o forte batom, aquele vermelho. E quem diria que um dia a menina nem tão bonita acabaria assim? Era desejada por todos os tipos de homens dos mais ricos e finos aos mais fétidos e sortudos, vamos lá pequena Ana. Faltava só mais algumas semanas, segura a barra de ferro para não apanhar, não grita, não geme, não deixe seu cliente reclamar, sorria e se limpe porque ninguém está aqui para à bancar. Os dias depois não eram tão "fáceis" assim, o velho tocador de músicas já não tocava o bom Chopim, os olhos vivos pareciam brisas mortas por almas perdidas em jardins. Ana, era como uma estrela, daquelas pequenas que você quase nunca nota pelo brilho fraco, só universo dirá quando ela se explodirá e se tornará poeira cósmica. Então será assim, algo grande para a pequena menina de dedos quentes e coração frio. Era peso demais ser prostituta, ser mulher, era difícil demais carregar todo o mundo nas costas. ''Desculpa'' foi o pedido rouco e atormentado, fechou fortemente os olhos sentindo o tapa sendo transferido em seu delicado e talvez muito jovem rosto. E o céu cai em sua forma mais sublime, em torrentes.
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Ana era assim, como torrentes e amargura, planeta que se colide e vira pó, simplesmente deixando desaparecer. Era blasfêmia e também cheiro de nicotina, lábios brancos e rosto pálido. Como ninguém ela sabia que dentro daquele pequeno cativeiro, longas noites e homens estranhos iriam lhe provar até as entranhas, assim era desde dos quinze. Seu rosto se afundava e sua pele, essa ia se perdendo aos ossos desmoronando feito empilhadeiras. Fechou os olhos e se permitiu imaginar, fungou baixinho engolindo o soluço que estava por vir. As piores coisas da vida vem de graça e, Ana sabia que todos eram anjos, mas alguns vieram para morrer.
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