An Angel In The War
3 Tentando não ter segundas intenções
Notas iniciais
–Lena! – escutei a voz de Lari bem perto de mim, mas não abri meus olhos.
–O que foi?
–Luke quer saber se você vai com ele pro Forte. – imediatamente fiquei sentada na cama e bati com a cabeça na da Larissa.
–Ai! – falamos em uníssono, depois começamos a rir.
–Eu vou sim, Lari. Tem como você avisar pra ele me esperar? Por favorzinho? – falei tudo freneticamente.
–Tá bom... – Lari me olhou estranho, ri baixinho. Quando ela saiu do quarto levantei-me muito rápido e fui direto tomar banho, saindo do mesmo fui escolher a minha roupa. Com que roupa se vai num Forte?
Eu não estou me reconhecendo, Lena Woods nunca foi desse jeito. Depois de alguns minutos enrolada numa toalha branca, decidi que iria com uma calça jeans, uma das poucas que eu tinha, uma blusa rosa e muito quentinha, um cachecol e uma touca roxa. Bom não estava tão ruim assim, afinal eu só iria num Forte com meu irmão, tentando não ter segundas intenções.
(...)
–Você está linda, maninha. – Luke me elogiou enquanto caminhávamos pelo meio na rua coberta de neve. Sorri em resposta. – Não me diga que você está pensando em arrumar um soldado. – gelei mais que a neve sob meus pés. A neve não estava tão densa quanto ontem, ela já estava derretendo, hoje o dia amanheceu mais quente do que na semana passada inteira.
–Mas é claro que não, Luke. — Mas depois pensei, se eu conseguir conversar com o soldado Brighton não vai fazer muita diferença, por que eu vou viajar daqui a seis dias...
–Hum... – ele pareceu desconfiar de mim, mas usei minha capacidade de ignorar meu irmão. Andamos uns quatro quarteirões, até chegar na rua do quartel. Luke me colocou nas suas costas e eu soltei um gritinho por conta do susto, quando eu era mais nova adorava quando ele fazia isso comigo, eu ainda gosto... chegando na frente do portão de metal gigante ele me colocou no chão. Lá de fora dava pra ouvir os gritos do Tenente para treinar os soldados que seriam transferidos. Aqui no Forte é coberto, então a neve não tomou conta do campo de treinamento.
–Quando você vai voltar a treinar? – perguntei a Luke.
–Eles disseram que já treinei o bastante, só virei nos três últimos dias. – ele parecia angustiado.
–Ah. Posso vir com você?
–Por mim tudo bem. – segui meu irmão até a sede, acho que era onde os soldados faziam as refeições e etc. Entramos e percorremos um corredor cheio de portas verde escuras, meu irmão bateu numa das portas que tinha o número oito talhado na madeira na porta. Uma mulher, com os cabelos mais negros que já vi abriu a porta, não consegui ver o que tinha dentro da sala.
–A garota não pode entrar. – ela falou como se eu fosse uma criança mimada.
–Tá, ela espera lá fora então – Luke disse olhando pra mim. – Pode ser, Lena? – balancei a cabeça concordando, mesmo querendo fazer o contrário. Não gostei nem um pouco daquela mulher, ela tá achando que eu tenho o que? Cinco anos? O que é que eu não posso ver ali? Na quinta eu iria ter que vir pra cá mesmo pra avaliar os soldados...
Quando lembrei disso um sorriso se abriu em meu rosto, eu poderia avaliar o soldado Brighton. Eu posso ir procura-lo agora. Acelerei os passos até chegar no campo de treinamento dos soldados, vi muitas filas, homens fazendo flexões, abdominais, alguns levando sermões dos tenentes. Eu estava um pouco distante do local de onde eles treinavam, consequentemente não via seus rostos direito. Não sei se posso me aproximar mais deles, mesmo não sabendo eu fui. Ele estava na primeira fila do batalhão, eles abaixavam e faziam algumas coisas que eu nunca conseguiria fazer, o soldado Brighton tinha uma leveza ao fazer os movimentos, parecia que ele não estava fazendo nenhum esforço. Sorri ao encontrar o seu olhar, ele pareceu se desconcentrar e perdeu o ritmo do exercício, aquilo me fez prender o riso, ele também sorriu pra mim, mas não parecia saber o que fazer ao certo. Fiquei observando todos um pouco, mas meu olhar sempre voltava para o soldado Brighton. Após alguns minutos o treinador os liberou, para irem beber água provavelmente, não sei desde que horas eles estão treinando sem parar. Ele veio até mim.
–Senhorita Woods, o que faz aqui? – não lembrava como a voz dele era tão... nem sei explicar.
–Vim acompanhar meu irmão, ele veio preencher uns papeis aqui... e me chame de Lena, por favor. – sorri.
–Ok. Me desculpe eu não vou te cumprimentar estou num estado de nojo próprio. – aquilo me fez rir.
–Não se preocupe, soldado Brighton.
–Ryan Brighton. – ele piscou um dos olhos. Ryan, que nome hein... meus pensamentos perversos me fizeram, mais uma vez, prender o riso. – até quando você ficará aqui no Canadá? senhorita... opa, desculpe, Lena. – ele me faz rir a cada instante, isso nunca aconteceu comigo, não com meninos.
–Como sabe que não vou permanecer aqui em Ontario? – ele franziu as sobrancelhas.
–Eu não sei, foi só um chute. – ele riu.
–Ficarei até sexta à noite... Virei aqui avaliar os soldados que viajarão um dia antes, na quinta. Os pilotos pra ser mais precisa...
–Serio? – ele pareceu surpreso e ao mesmo tempo feliz.
–Sim, por que?
–É que eu...
–Lena? –escutei Luke me chamar atrás de mim.
–Oi Luke. – Uma mini raiva percorreu pelo meu corpo.
–Vamos? – queria dizer não, mas é claro que não iria fazer isso.
–Claro. – olhei para Ryan e ele continua a me fitar com os seus olhos cor de esmeralda. – tchau, soldado Brighton. – sorri e me virei.
–Só Ryan, senhorita Woods.
–Só Lena, Ryan Brighton. – escutei sua risada enquanto seguia para o lado de meu irmão. Andamos até a saída do quartel sem trocar uma palavra. – Luke, antes que você diga alguma coisa, sobre o garoto que eu estava conversando, eu o conheci ontem por isso estava conversando com ele.
–Hum rum... – Luke sempre teve um ciúme obsessivo por mim, isso não é nada legal, principalmente agora que nós não vamos nos ver nem tão cedo depois que formos transferidos. – por que não me disse que o conheceu ontem?
–Me desculpe, Luke. Eu esqueci, estávamos tão felizes no jantar de ontem que acabei me distraindo. Mas por que você queria que eu te contasse? – falávamos a caminho de casa.
–Questão de confiança, Lena. – ele estava magoado, conheço bem meu irmão.
–Isso não tem nada haver... E ele não é nada meu pra você ficar tão magoado assim. E nem vai ser, Luke. Mesmo se eu tivesse algo com o Ryan iria tudo chegar ao fim na sexta. Não só com ele, mas com qualquer um que tentasse se relacionar comigo... – foi um pouco doloroso falar aquilo, expor toda a verdade da minha tão deplorável época da vida. Luke me olhou.
–Você está certa, me desculpe. Eu não queria ter esse ciúme obsessivo por você, maninha. Não sei nem por que eu tenho, eu sei que o amor de irmão pra irmão é incondicional.
–Claro que é. Lembra que quando eu dizia que queria casar com você? – ele riu, vi que seus olhos brilharam por conta das lagrimas.
–Você tinha seis anos. – rimos juntos. – e depois que descobriu que não poderia casar comigo, ficou uma semana sem me olhar. Como se a culpa fosse minha – a cada palavra dele, meu coração apertava e as lágrimas cada vez mais perto de chegar ardiam em meus olhos.
–Eu vou sentir sua falta. – ele me abraçou, como fez ontem na sala de casa, mas dessa vez me tirou do chão.
(Dois dias depois...)
As horas passaram rápido... a cada piscar de olhos, a cada batida do coração, os segundos junto da minha família se passam, não é legal pensar no que pode acontecer a Luke, de todos nós é ele que deve saber o que fazer, na hora certa, no segundo exato, se não arcará com as consequências.
E pensar que um dia a garotinha ruiva que brincava de guerra de bolas de neve, teria que um dia cuidar de pessoas que acabaram de sair e uma guerra de verdade. Hoje mais cedo minha mãe me perguntou como eu estava me sentido com tudo isso e minha resposta foi resumida em uma palavra “vazia”.
A única coisa que não me fazia chorar era pensar em Ryan Brighton, não sei ao certo por que. Talvez ele me fizesse um bem estranho o qual eu nunca senti antes, eu nunca acreditei nessas coisas de amor à primeira vista, mas estava parecendo isso, se bem que esse amor (se é que ele existe) não iria durar tanto tempo assim. Fiquei pensando no que Ryan ia me dizer quando Luke chegou, ele parecia feliz com o que ia dizer... Eu estava dominada por uma mistura de curiosidade, tristeza e ansiedade.
(...)
Com certeza já passou de três da manhã, e sono não bateu na minha porta. Já tentei fazer todos os métodos que me ensinaram para ficar com sono e nenhum teve um resultado consideravelmente certo. Minha garganta estava ressecada, então fui a cozinha beber um pouco d’água. Desci as escadas com medo de não acertar os degraus e acabar caindo, mas por fim cheguei na cozinha sem usar minhas habilidades desastrosas de cair em qualquer lugar a qualquer momento. Fui até a bancada e retirei a garrafa de água, enquanto colocava a mesma no copo fiquei olhando pela janela, uma luz prateada brilhou ao lado direito da janela. Minha curiosidade falou mais alto que o medo, coloquei a garrafa em cima da bancada e fui olhar o que havia lá fora.
Caminhei devagar até a porta da frente de minha casa e a abri lentamente, sem fazer qualquer ruído. Olhei primeiro pro lado de onde vi a luz, mas ela não estava mais lá, e nem do outro lado. Esperei por alguns segundos ainda com a porta entreaberta, a falta de sono deve estar me deixando daltônica. Dei uma última espiada antes de fechar a porta. Um rastro de luz rasgou o céu, não era como uma estrela cadente, era mais bonito e tinha mais luz, nunca vi algo assim antes.
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