P.O.V. Lena

(Mais dois dias...)

Hoje vou conhecer as outras enfermeiras que viajarão comigo, eu nunca exerci meu trabalho de fato, sei mais a teoria, mas mesmo assim tenho que ir, sei que um dia alguém vai precisar de mim. Também irei avaliar os soldados, ao lembrar disso um sorriso bobo surgiu em rosto.

Saí de casa umas oito horas, teria que chegar no quartel às nove, mas prefiro chegar antes do que depois. Quase toda a neve tinha derretido, o dia estava mais quente, porém o vento ainda soprava gelado em meu rosto. Não demorei muito pra chegar no quartel. Vi uma menina com a mesma roupa que eu e me aproximei dela.

–Olá. – eu disse, um pouco tímida. Ela se virou e sorriu.

–Oi... –Ela pareceu tímida — Eu estou com medo. – disse a garota loira, ela parecia ser mais nova que eu.

–Medo de que? – eu perguntei confusa, Pearl Harbor nunca sofreu ameaças de guerra.

–De perder quem amo. Todos da minha família são homens, sou a única garota. – Na hora que ela disse isso vi que minha situação não era tão ruim, e se todos da sua família morressem? O que seria dessa garota?

–Também tenho medo. – eu disse abaixando o olhar. – Qual seu nome? – decido mudar de assunto, não queria falar de coisas tristes, afinal minha vida já estava pra baixo demais.

–Meu nome é Miranda. – respondeu. – e o seu?

–Lena Woods. – ela desviou o olhar pro campo de treinamento, sua expressão mudou.

–Antes de você chegar os garotões estavam treinando. – ela sorriu. – eles eram lindos e ... Nossa, fico até sem ar de lembrar. – aquilo me fez rir.

–Eu já estive aqui antes, e são mesmo. – ela também riu.

Não demorou muito e o resto das meninas chegaram, a idade de todas nós me surpreendeu, a mais velha tinha vinte e um anos. Acho que as mais qualificadas já haviam viajado para algum lugar na Europa. Fiquei conversando com a Miranda e a Sarah, que conheci depois. Sarah tinha 19 anos, a mesma idade que eu, Miranda tinha 18 mas parecia ter uns 16. Todas nós estávamos ansiosas para amanhã, mas era uma ansiedade amedrontadora.

A mulher que me expulsou da sala que meu irmão entrou a alguns dias atrás, veio até onde estávamos.

–Vocês já podem vir, os soldados estão à espera. – ela começou a andar e nós a seguimos. Entramos na mesma sede que entrei com meu irmão, mas desta vez estava tudo diferente. Tinham dez divisórias, que era onde nós iriamos ficar para avaliar. Enquanto nós entravamos a mulher, cuja não se apresentou, ia explicando o que deveríamos fazer. – Os soldados irão se direcionar a vocês, e os testes e visão, audição e etc. deverão ser feitos. Não esqueçam e aplicar as injeções. – ela só disse isso e saiu.

–Nossa, que antipática – Sarah é a mais extrovertida de nós três, ela exibe felicidade por onde passa. Ela conseguiu, por algum tempo, me fazer esquecer do que teríamos que enfrentar.

–Concordo, Sarah. Eu já tinha visto ela antes... – Miranda parecia nervosa. – o que houve Miranda?

–Eu nunca apliquei essas coisas em ninguém. Eu tenho ânsia de agulhas, elas me dão fobia. – ela fez uma cara de nojo, fazendo eu e Sarah rirmos. Não contei a elas que tinha fobia a sangue, na verdade não gosto muito de falar de mim, principalmente dos meus medos. – parem de rir – ela disse já começando a rir também.

–É melhor irmos para algumas dessas mini salas estranhas. – disse Sarah – vai que aquela mulher aparece de novo...

–Boa sorte. Espero que vocês consigam gatinhos. – elas riram com o que eu disse. Geralmente os soldados, no último dia na cidade, levam as enfermeiras para um hotel. Mas eu não sou muito fã dessas coisas de se entregar para alguém por uma noite. Pode até ser irreal mas prefiro que tudo seja sem mentiras, com amor e o respeito tem que prevalecer.

Me dirigi a uma das mini salinhas, como eu já sabia iria avaliar os pilotos de avião... não esperei muito até a porta se abrir e vários homens entraram pela porta, sem nenhuma ordem, com certeza o coronel não estava por perto. Sem pensar direito eu já estava à procura de Ryan Brighton, antes de acha-lo um garoto gordinho sentou à minha frente, o que me fez desviar a atenção da porta principal.

–Olá, soldado.

–Bom dia... Você vai ter que me furar com isso? – ele olhou para as agulhas ao meu lado.

–Sim, soldado. – falei rindo, ele parecia não gostar muito de agulhas, como a Miranda. – Acho que a dor que irá sentir com essa agulha não vai nem se comparar a dor das doenças que você irá ter se não toma-la. – ele sorriu nervoso. Deixei a injeção pro final de tudo, o piloto gordinho fez um enxame, o que foi muito engraçado, não parei de rir um segundo enquanto o consultava. O próximo garoto sentou-se me encarando, ele tinha um beleza muito diferente, era lindo.

–Bom dia, soldado.

–Bom dia, enfermeira. – ele sorriu. – Eu te vi conversando com o Brighton na segunda feira.

–Ah... – foi o que consegui dizer. – E?

–Vocês são amigos?

–Não exatamente... Mas deixe isso pra lá, tenho que fazer seu teste. – tentei mudar de assunto, mas o soldado voltou a falar de Ryan, o que começou a me irritar.

–Não é legal você ser próxima dele, ele quase matou um dos nossos soldados, por um motivo que não sabemos. – gelei quando ele me disse aquilo, mas fingi não me importar. – Só achei melhor te avisar.

–Vocês vão viajar hoje de madrugada... não tem nem como eu me aproximar. – ele deu de ombros, peguei a injeção, o liquido e a agulha e apliquei no piloto, que ao contrário do gordinho não fez nem careta. Comecei a fazer as perguntas necessárias para o teste, mas aquilo ficou martelando em minha mente... quando eu estava acabando as perguntas o soldado disse.

–Já sabe para onde vai, enfermeira? – eu olhei em seus olhos quase cinzas de tão azuis.

–Pearl Harbor. – Desviei o olhar e continuei preenchendo a ficha.

–Nossa... será que é o destino? – ele me perguntou, mas ignorei não estava tolerando levar cantadas de ninguém, com certeza ele também iria para lá.

–Já acabei seu teste, pode ir. – ele se levantou, seu nome era Jack.

–Quem cala consente, não é o que dizem? – dei um sorriso sarcástico. Jack saiu me deixando com meus pensamentos. Eu até tinha achado que ele não era mais um garoto com testosterona a mais no corpo, mas Jack era só mais um. Não sei por que ele me falou de Ryan, aquilo só me deixou com mais vontade de vê-lo, queria perguntar-lhe se aquilo era verdade, para onde ele iria, como estava se sentindo... e não aquelas perguntas do tipo “Qual o seu tipo sanguíneo?”.

Preenchi a ficha de mais uns três pilotos, todos lindos, mas eram tarados demais, teve até um que me perguntou se depois que eu acabasse de fazer os testes poderia ir com ele para um quarto e depois ir num Hotel, por que ele se excitava com garotas ruivas. Na hora que ele disse isso ri por dentro mas não o respondi.

Eu já tinha perdido as esperanças de pelo menos ver o soldado Brighton pela última vez e aquilo me entristeceu, talvez ele nem fosse piloto de avião. Talvez ele tenha ido fazer os testes na sede ao lado dessa. Porém como ironia do destino, encontrei seu rosto que parecia ter sido desenhado. Seu olhar parecia estar um pouco perdido, como se estivesse procurando por alguém, ele me fitou e um sorriso surgiu em seus lábios. Ele estava vindo até mim, eu não consegui pensar no que dizer, mas quem falou primeiro não fui eu.

–Senhorita Woods, bom dia.

–Bom dia soldado Brighton. — Ele parecia feliz. Lembrei-me do que Jack havia me dito sobre Ryan, aquilo não parecia ser verdade, mas eu não o conhecia direito a ponto de julga-lo. Seu sorriso era contagiante, eu não consegui dizer nada só fiquei olhando naqueles olhos.

–Eu recebi hoje. – ele estava com um papel nas mãos.

–O que tem aí? – perguntei curiosa. Na verdade eram dois envelopes, um aberto e um ainda lacrado.

–Bom, nesse que eu abri tem uma aprovação na aeronáutica. – ele sorriu. – Eu acabei de receber, por isso não vim aqui antes, eu queria te ver, — Gelei. Ryan queria me ver? – mas quis logo pegar o resultado. – eu sorri.

–E no outro? – ele deve estar pensando em como sou curiosa e intrometida. – me desculpa, não quero me intrometer.

–Mas eu já ia dizer. – ele riu. – Nesse aqui está escrito pra onde vou hoje.

–Você não quer saber? Todos os outros já sabem...

–Eu gosto de surpresas. – Ryan Brighton era completamente diferente de qualquer menino que conheci, ele parecia ser igual, mas não é, tinha um brilho próprio, algo que não parecia ser de verdade... – Lena, para onde você irá hoje?

–Hoje? Você não quis dizer amanhã? – fiquei confusa afinal eu só iria viajar amanhã...

–É Lena... hoje depois daqui. – Eu não acredito.

–Eu vou pra casa, Ryan. – falei um pouco grossa, não achei que o soldado Brighton pensaria assim de mim, achei que ele fosse diferente, meu Deus como eu sou ingênua e infantil.

–Posso te levar?

–Como? – ele franziu a testa. – Ryan, me desculpa mas eu não sou do tipo de garota que dorme com alguém que conheceu a menos de uma semana. – Ele começou rir, mas não riu pouco e foi um riso sarcasticamente provocante. – Do que está rindo?

–Senhorita Woods, eu não sou do tipo de garoto que dorme com garotas só por prazer. Tem que existir sentimento, mas não qualquer um, aquele que vem de dentro, que quando é sentido nem nós próprios não nos reconhecemos, de tão extraordinário que ele é e inconfundível. É como estar apaixonado. – A culpa me consumiu. Ryan Brighton calou minha boca e muito bem calada.

–Me desculpa, Ryan. – eu não consegui olhar em seus olhos, fixei meu olhar nas minhas mãos.

–Acho que eu que tenho que pedir desculpas, por ter perguntado se poderia simplesmente te levar em casa. – ele levantou-se da cadeira me deixando ali sentada com meus pensamentos confusos.