— Eu não vou entrar para a cirurgia agora, eu já disse, mais algumas horas e eu vou, mas eu preciso que ele esteja aqui comigo, eu não vou entrar sem antes me despedir… – o jovem moreno com o corte de cabelo em black power de altura mediana estava sentado na maca do hospital, já alterando sua voz dirigindo- se à sua irmã, que o insistia para entrar à sala de cirurgia o quanto antes.

— Você não pode escolher isso, nós sabemos que ele não vem, porque ele não é real… E você não precisa se despedir, você vai sair da sala de cirurgia bem, tudo vai ocorrer bem, eu tenho fé, então para de falar comigo como se estivesse indo para a sala da morte. – a outra aumentou o seu tom de voz para sobressair naquela discussão, mas então ambos foram interrompidos pelo médico adentrando a sala e trazendo suas respectivas atenções para si.

— O que está acontecendo aqui? Qual é o motivo de tanta gritaria nesse quarto? – o médico ruivo vestindo jaleco branco e uma touca cirúrgica azul com padrão de extraterrestres de cor amarela questionou fazendo com que os outros se calassem no mesmo instante.

— É que minha irmã está querendo que eu entre pra sala de cirurgia agora e eu não posso… Eu… – o jovem começou, mas foi novamente interrompido pela outra.

— Ele está tendo um equívoco de memória, doutor, meu irmão está achando que o garoto que ele conheceu nesse verão vai chegar antes de ele entrar para a sala de cirurgia, mas eu já falei pra ele que esse garoto não existe, é tudo…

— Ele existe, pelo amor de Deus, tire ela aqui de dentro, eu preciso ficar sozinho e eu vou esperar ele chegar, não vou ser operado antes que eu possa vê- lo pelo menos mais uma única vez! – seus olhos se encheram de lágrimas e seus batimentos cardíacos se alteraram, os mesmos mostrados na máquina ligada em seu corpo ao lado da maca denunciaram isso.

— Tudo bem, tudo bem, eu vou conversar um pouco com sua irmã lá fora e vou levar o seu prontuário para eu saber se realmente tem condições de esperar um pouco mais antes da cirurgia ou não, tudo bem? Mas aí será a palavra de um médico e não de uma irmã, eu já volto…. – o médico saiu da sala junto da irmã do outro e fechou a porta após a expressão do garoto lhe consentir.

— Doutor, essa cirurgia é de grande risco, não é mesmo? Pode me dizer a verdade, eu preciso saber e ele não está no juízo comum para entender a gravidade das coisas ele… – era notável o cansaço da jovem moça que estava evidentemente preocupada com a situação do irmão.

— Bem, como eu estou confirmando aqui… – fechou o prontuário após checa- lo enquanto a outra estava falando e a encarou seriamente – Ele tem alguns meses de vida sem cirurgia, o tumor está em um estágio avançado, mas eu acredito que operando ele possa ter mais que meses se a operação e a recuperação ocorrer bem, mas para isso eu preciso entender o porque ele está se recusando a entrar o mais breve possível para ser operado, pode me explicar?

— Ele está confuso, quando ele descobriu o tumor no cérebro, ele decidiu que iria viajar por alguns lugares aqui do Brasil e então em uma dessas viagens, em uma ilha no Rio de Janeiro, ele conheceu alguém… Mas… Essa pessoa não existe, entende? O tumor criou toda essa história, mas pra ele foi tão real que não consegue entender isso, não tem um telefone, uma foto, nada, entende, doutor? Eu estou tão preocupada, eu quero que ele opere logo, eu preciso que ele mude o quadro dele de meses para mais que isso, eu não posso perder o meu irmão… – seus olhos encheram- se de lágrimas, suas mãos começaram a ficar trêmulas.

— Você tem certeza disso? Ele está tendo esse tipo de alucinação? Você tem certeza de que essa história toda é criação da mente dele? – o doutor a encarou seriamente, ela balançou a cabeça positivamente confirmando todo o caso. Ele a conduziu para dentro da sala novamente e ambos entraram no quarto em que Philip estava internado.

— Eu já sei, ela falou com você que estou criando imaginariamente alguém e que tudo isso é culpa do tumor em meu cérebro, não é? Eu sabia… Mas eu não estou criando nada, eu preciso que você acredite em mim, doutor, por favor…

— Tudo bem, me conte como foi que o conheceu, me conte mais sobre ele… – o médico estava claramente lhe examinando, queria ter certeza de que tal história não era mesmo fruto de sua imaginação causadas pelo tumor, então precisou ouvir do próprio paciente. Ele começou a contar.

***

Estava quente no Rio de Janeiro, quase quarenta graus marcava os termômetros nas ruas, a sensação térmica evidentemente já tinha passado desse número, mas lá estava ele pronto para ir para a praia, Philip estava ansioso para passear pela cidade, afinal ele descobriu que convive com um astrocitomas de grau dois, um tumor localizado em seu cérebro e que tem crescimento lento, mas dependendo da área, pode crescer mais rápido que algum outro tipo de câncer.

A única coisa que ele quis após saber disso, não foi operar, apenas quis viver como não estava vivendo, como nunca viveu antes, decidiu pedir demissão do seu emprego onde trabalhava por mais de sete anos e com seu acerto decidiu conhecer todos os Estados do Brasil, e então lá estava ele no Rio de Janeiro.

Já na barca à caminho da ilha de Paquetá, ele começou a se sentir fraco, suando frio, pensou por ser a primeira vez andando de barca por um longo período de tempo, mas também ficou assustado quando sua nuca começou a doer e ele estava nessa viagem sozinho, como um mochileiro, até que ele se forçou a ficar de pé, levantou da cadeira e foi até a parte de fora onde poderia pegar um pouco de sol e ao mesmo tempo sentir o frescor do vento que tinha em alto mar.

— Desculpa, desculpa… – ele disse após esbarrar na única pessoa que estava ali fora também sentindo o ar fresco que nem o sol quente do Rio impediu de ter.

— Tudo bem, sem problemas. – o sotaque do outro não era tão diferente para si, não era local e isso fez com que o Philip o encarasse novamente, então seus olhares se cruzaram e naquele momento as vistas do outro escureceram e ele caiu no chão da barca.

Alguns minutos depois o moreno estava acordando, sentindo leve pontadas em sua cabeça, mas não estava se sentindo fraco e com calafrio como antes. Ele forçou suas vistas a fim de focar e enxergar quem era o dono da voz que falava consigo.

— Ei, você tá bem? Garoto, como você se chama? Você pode me dizer o seu nome? – pelas roupas do outro, ele deduziu que era um socorrista da barca, sua consciência voltou e ele se lembrou do que aconteceu antes de apagar e cair ao chão.

— Eu me chamo Philip, eu estou bem, foi apenas falta de costume com a temperatura do Rio, eu já estou bem… – ele disse já se levantando da maca, percebeu que estava na sala de socorros da barca.

Já se sentindo melhor, ele foi liberado para sair de lá, ao fechar a porta da sala e caminhar de volta para as poltronas uma mão tocou o seu ombro lhe chamando a atenção.

— Oi, desculpa, mas eu queria saber como você está... – ao se virar ele se lembrou instantaneamente daquele olhar lhe encarando antes do desmaio, sorriu de canto e após breves segundos processando a imagem à sua frente, respondeu.

— Olá, eu estou bem, obrigado por se preocupar… – ele foi breve, não conhecia aquele rapaz e não pretendia tampouco conhecer, queria curtir a viagem como planejado, mas o outro persistiu e continuou.

— Me chamo Luiz, prazer… – o garoto de cabelo levemente ondulado, com barba falhada e por fazer estendeu sua mão para cumprimenta- lo.

— Philip, prazer só mais tarde… – brincou para descontrair a situação, mas percebeu que o outro lhe encarou de uma forma diferente, mudou a expressão e passou a língua em seus lábios avermelhados a fim de molhar os mesmos que estavam ressecados por conta do calor antes de sorrir de canto e continuar a falar.

— Promete? – entrando no clima de descontração, ele respondeu no mesmo nível. Eles se encararam quietos, olhares fixos um no outro, então ele continuou. – Porque não agora?

Philip não era alguém que facilmente curtia e aceitava casual com desconhecidos, mas após toda a semana anterior que passou em médicos, fazendo exames e resolvendo o que fazer com o pouco de vida que lhe restava por conta do tumor, ele mudou um pouco seus conceitos de privação, quis se permitir viver, pois de um jeito ou de outro ele pensou que todos estavam caminhando para morte, só que alguns mais breves que outros, como no caso dele.

Eles foram até o banheiro da barca, fecharam uma das portas da ala para cadeirantes e ali eles começaram a se beijar, se tocar, como se aquela barca fosse afundar tempo depois. Os lábios rosados do Luiz tocavam cada parte da pele morena do outro, o fazendo se arrepiar a cada contato.

— Acho que não vai dar pra gente ir totalmente, eu não tenho… – Philip disse expressando sua preocupação com a proteção, mas foi interrompido e sua voz abafou com a língua do outro adentrando a sua boca e roçando por cada canto ali dentro.

— Não precisamos fazer tudo agora, estamos indo para o mesmo lugar e lá podemos terminar o que começamos aqui. – Luiz disse quando interrompeu o beijo para recuperar o fôlego. Mas ambos são interrompidos com o barulho da barca, o que deixou claro que eles já estavam chegando na ilha, logo depois a voz no auto falante confirmou isso.

Philip achou que aquilo que aconteceu foi apenas algo casual e passageiro, mas na sua estadia de um dia na ilha, eles ficaram juntos, o Luiz que não iria ficar, passou a noite na mesma pousada que ele, eles tiveram sua noite juntos, no dia seguinte eles foram almoçar e passear pelos lugares turísticos, até que ele percebeu que não queria que aquilo acabasse após eles saírem daquele lugar.

Ele se sentiu mal e então desmaiou novamente em um de seus passeios, o Luiz ficou preocupado demais, decidiu levar ele até a clínica local e então lá ele descobriu que o Philip tinha pouco tempo de vida se não operasse logo. Ele disse que não iria operar, que de qualquer jeito iria morrer, então ele escolheu viver dignamente os seus últimos dias do que dentro de um hospital. Eles se desentenderam e o Philip foi um tanto rude com o outro que só queria ajudar, mesmo nem o conhecendo direito, e então eles ficaram o resto do dia sem se ver.

— Eu preciso falar com você, eu pensei muito e tenho uma proposta… Posso entrar? – após algumas horas o Luiz estava na porta do quarto do Philip naquela pousada, o mesmo o permitiu entrar logo em seguida.

— Olha, a gente nem se conhece, eu sei que você acha que sabe algo sobre mim, mas… – o moreno começou a dizer, pensando que ele estava ali para discutir, mas foi interrompido no mesmo instante.

— Namora comigo? – o outro o encarou, sentiu até mesmo um pouco de vontade de rir, mas não pela situação e sim por aquilo tudo ser irreal, como um filme, porém não o fez, apenas o encarou esperando que ele explicasse. – Se você se recusa a ir no médico por você, então vai por mim, se não tenho tempo para ter você, então vamos começar a namorar hoje!

— Não é assim, não nos conhecemos, a gente teve um momento legal demais nessa ilha, eu gostei muito de você, ainda mais por você também ser de Goiânia, perto de onde eu moro e nunca nos vimos antes, isso tudo é mágico… Mas não é assim que as coisas funcionam no mundo real. Desculpa… – Philip se sentou na cama e abaixou a cabeça, começou a se sentir fraco novamente, ele sentia que a briga dentro de si contra esse tumor cada vez estava ficando mais difícil, mas ele queria viver, queria morrer com dignidade e não dentro de um hospital.

— E descobrir um tumor, se recusar a se dar chance de lutar, vencer e viver mais é algo do mundo real? – Luiz foi duro em suas palavras, mas o outro entendeu sua expressão.

O moreno nesse instante deixou seu corpo cair para trás, deitando o seu corpo na cama onde estava sentado, as lágrimas saíram de seus olhos como uma correnteza em dia chuvoso, partindo em pedaços o coração do outro que lhe observava.

— Desculpa, eu não quis ser rude, eu apenas quero que você lute… Que você persista e acredite na vida, porque o que você está fazendo consigo não é viver como tinha me dito, mas sim desistir da vida, de viver… Não é digno isso. Não é justo… – ele se deitou ao lado do moreno e o envolveu em seus braços lhe dando conforto.

— Minha irmã e minha mãe agem comigo como se eu fosse um doente, mesmo que eu esteja doente, eu sou adulto e eu odeio viver com excesso de preocupação dos outros, delas, minha família. Se eu decidir operar, vou estar sozinho, porque elas só querem me ver bem e nem sempre excesso de preocupação é bom, me deixa mais nervoso, faz parecer que é uma obrigação eu operar e eu não quero fazer como obrigação, pois obrigações não são legais, elas nos tiram o prazer da vida a maior parte do tempo. Mas quando eu te conheci e começamos a interagir, foi a primeira pessoa com quem tive grande contato sem a cobrança e preocupação que venho recebendo delas, então eu quis manter isso…

— Você não está sozinho, você não vai ficar sozinho… E você vai viver por muito mais tempo do que imagina. E eu vou estar lá do seu lado quando você acordar da cirurgia, eu prometo… – tudo o que o moreno queria era alguém para lhe dar segurança, não para lhe preencher com mais preocupação e ele estava recebendo isso do outro.

— Se eu voltar para Goiânia e realizar essa operação, você promete que vai estar comigo antes e depois dela? – ele o encarou e olhou diretamente em seus olhos.

— Eu vou estar e quando você acordar da cirurgia eu vou te fazer essa pergunta novamente, e então você não vai poder mais recusar e dizer que não nos conhecemos. Combinado? – ambos sorriram e ele o beijou como confirmação.

***

— Então foi isso, eu voltei pra Goiânia logo depois e chegando em casa eu comuniquei a minha família que iria operar, mas só que temos um trato, entende? Ele prometeu que estaria aqui antes e após a cirurgia, então eu só preciso aguardar um pouco mais e ele vai chegar… – o médico encarou a irmã do garoto e a mesma tinha uma expressão de preocupação.

— E vocês não tiraram fotos? Não trocaram números de celular? Como você sabe que ele vai estar aqui? Ele te ligou? Como você falou com ele? – ele continuou questionando para entender mais sobre o caso.

— Tem um número, mas sempre que ligamos dá fora de área ou desligado, exceto quando ele está sozinho e diz que o seu celular tocou e eles se falaram, por esse tal número. É tudo muito confuso, eu acho que você deveria oper…

— Mas que droga, por favor, eu já disse para tirar ela daqui, eu estou cansado disso tudo, eu não vou operar nada e… – eles são interrompidos quando a enfermeira chega com uma pasta e prontuário atualizado do paciente, ao abrir e verificar, a expressão do outro muda no mesmo instante. – o que foi, algo se agravou?

— Ta vendo essa parte da tomografia? – ele aproximou do garoto e de sua irmã, então seguiu explicando. – Essa parte do cérebro foi tomada completamente pelo tumor, então quando você sente dor nessa região significa que é ele se expandindo, o que na maioria dos casos gera um certo tipo de falsa memória, onde o paciente se lembra de algo com precisão e detalhes de algo que nunca existiu… Desculpa, Philip, mas se não operarmos você agora, presumo que será tarde demais para tentar algum procedimento cirúrgico, lamento…

— Então tudo isso realmente foi fruto da minha imaginação, do tumor… Eu achei que… – Philip começou a chorar descontroladamente, seus batimentos cardíacos começaram a se intensificar. – Me desculpa, irmã, me desculpa, eu… Eu achei que era real, eu não entendo, é tudo muito confuso, era tudo tão real, é tudo tão real… Meu Deus…

Após alguns minutos, ainda afetado, mas já tinha se recuperado do choque, ele aceitou entrar para a cirurgia, ele se despediu de sua irmã e sua mãe que estava fora do quarto, falou com ela no corredor enquanto estavam o levando para a sala cirúrgica. A cirurgia durou cerca de seis horas e meia.

— Doutor, eu preciso falar com você… – saindo da sala de cirurgia, a enfermeira que estava consigo nesse caso do paciente o chamou antes dele ir até a família do Philip.

— Não… Você só pode estar de brincadeira… – surpreso ele disse ao ver consigo um garoto, a mesma disse que ele se chama Luiz e estava ali perguntando sobre o paciente Philip. Os olhos do neurocirurgião se encheram de lágrimas ao vê- lo ali ao lado da enfermeira, sem ação a única coisa que ele conseguiu fazer foi abraçar o outro. – Me desculpa…

Eles tentaram de tudo por quase sete horas de cirurgia, mas teve complicações durante a remoção do tumor e o paciente faleceu no meio do processo. Se tudo tivesse ocorrido bem, totalizariam em média treze horas de cirurgia.

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