Amy
8 Capítulo 7 - O melhor presente
Notas iniciais
Luke pagou um taxi para lhes levar até uma parte da cidade que Amy desconhecia. Estava até assustada, temia que o garoto tentasse alguma coisa com ela, mas resolveu apagar esses pensamentos da cabeça e confiar nele como havia decidido que faria. Eles desceram então em algum lugar que Amy não teve tempo de ver, pois o novo amigo a vendou.
– Ei, o que está fazendo? — quase gritou.
– Calma. — ele sorriu, mas ela não pôde ver- Confie em mim.
Ainda desconfiada, ela foi guiada por Luke por alguns passos, até que ele parou e a segurou para que não saísse andando sozinha. Tirando sua venda, Luke pôde ouvir um ruído saindo da garganta de Amy, um ruído de espanto. Estavam em frente a um campo de golfe enorme.
– Ahn... — ela não sabia muito bem o que dizer. — O que isso significa? Aliás, como entramos aqui?
– Shh — ele a calou com um dedo sobre os lábios da mesma. — Apenas me siga.
E segurando-a pelos ombros, ele a guiou mais uma vez, pelo campo verde e vasto a frente dos dois. Chegaram em um ponto onde um telescópio e alguns livros repousavam sob uma árvore, ao lado de um lago, típicos obstáculos para as tacadas dos singelos jogadores dali. Porém, Amy não entendeu. Virou um pouco a cabeça, de lado, como um gato que houvera visto em um filme uma vez.
– De quem são essas coisas? Por que estão aqui?
– De quem você acha? — Luke a soltou e dirigiu-se até o telescópio, virando para a morena e apontando pra si mesmo.
– Mas o que quer me mostrar? O que está fazendo, Luke?
– Calma. — ele falou, estendendo a mão para que ela o acompanhasse. Amy deu passos relutantes até perto do garoto. — Sabe, eu... Essa estrela — apontou para o pingente na pulseira. — Representa confiança. Eu queria que você tivesse certeza de que poderia finalmente acreditar em mim, hoje.
– E o que vai fazer para me fazer confiar em você? — ela cruzou os braços, sorrindo e se divertindo com aquilo.
– Bem.. — não conseguiu se impedir de sorrir também, apoiando a cabeça no telescópio, como se deitasse ali. — Eu pensei em contar um pouco de mim e confiar em você primeiro. — Amy fez uma expressão surpresa, antes mesmo de pensar em esconder as emoções. — Eu percebi que eu suplicava muito por sua confiança, mas você ao menos sabia algo sobre mim.
– Muito bem... — a mais velha voltou a sorrir.
– E eu também pensei em irmos fazendo isso aos poucos. Por exemplo, hoje eu poderia perguntar sua cor favorita e responder a minha, amanhã o tema seria outro.
– Azul. — respondeu rapidamente. — É só?
– Não, era só um exemplo — riu — Mas que bom que falou, pouparemos um dia. E a minha é branco.
– Então qual o 'tema' de hoje? — fez aspas com as mãos.
– Que tal contarmos um pouco sobre nossas infâncias? — viu-a alargar o sorriso. — Está gostando disso, não é?
– De certa forma. — Amy jogou-se na grama. — Comece, 'Só' Luke.
Rindo, o mais novo sentou-se ao lado da morena, no chão verde. Olhando para cima, mais porque não gostaria de encará-la enquanto narrava seu passado, ele sorriu de um jeito que Amy gostou. Seus lábios passaram pelos dentes brancos, enquanto ele abria aquele sorriso, como se risse de alguma coisa. A mais velha percebeu que seu rosto estava esquentando, mas permaneceu calma, já que o amigo não estava a mirando.
– Eu não possuí lá uma infância muito feliz ou... 'Infantil', digamos... — seu ar era nostálgico, porém aparentemente tortuoso. Estava costurado em seus olhos, mesmo que o sorriso tentasse desmentir com seu brilho. — Eu tive que amadurecer cedo demais, eu acho... Acabei tendo uma infância encurtada. — suspirou, antes de começar a citar os fatos verdadeiramente, mas foi impedido por Amy, que tocou sua mão com uma expressão solidária.
– Se não quiser contar, não precisa. — ela entrelaçou os dedos nos dele. — Não é preciso me contar coisas tortuosas para que eu lhe conte as minhas.
Ele sorriu, daquele mesmo jeito que Amy gostava, fazendo-a enrubescer um pouco.
– Não precisa se preocupar, eu estou bem. Eu quero lhe contar isso. — reforçou a entonação do penúltimo verbo. — Bom.. Pra começar, meu pai era um alcoólatra que batia em minha mãe. Eu sempre me escondia no armário de casa, com meu irmão mais novo no colo, quando ele chegava em casa. Eu tinha muito medo, como normal e esperado de uma criança... O problema é que nas manhãs seguintes ele acordava mal humorado e abusava de mim. — viu-a colocar a mão sobre a boca. — Não se preocupe, nunca foi sexualmente.. — seu sorriso sumiu. — Até que... Numa madrugada, eu quis enfrentá-lo... Minha mãe se escondeu com meu irmão em meu lugar. Acho que ele já tinha uns cinco anos.
– E você tinha que idade?
– Dez. — ele a olhou com uma expressão de derrota. — Mas ele parecia estar mais bêbado naquela noite... — se encolheu enquanto prosseguia. — Eu não sei dizer... Havia algo diferente. E então, depois de bater em mim, ele... — não terminou a frase.
Amy apertou forte a mão de Luke, que parecia um filhote encolhido e aterrorizado que parecia que iria começar a chorar, porém quem o fez fora a própria morena, que o abraçou apertado.
– Não precisa mais falar nada. — afagou os cabelos dele, que retribuiu o abraço. — Eu sinto muito, Luke. — sua voz tremeu.
– Ei, o que é isso? — ele riu, afastando- se para poder olhá-la. — Não chore por mim.
– Mas... — soluçou. — Eu não consigo suportar, Luke... Como esse tipo de crueldade... — não terminou, escondeu o rosto com a mão livre, chorando mais.
– Ei, ei. — ele sorriu e afastou sua mão de seu rosto, olhando-a como se fosse uma ação besta. — Não faça isso, não fique assim. — colocou uma mecha de cabelo para trás de sua orelha. — Não precisa chorar por mim. O passado está lá atrás. — seu sorriso se alargou, porém ele não conseguia mentir para Amy, mesmo com aquele sorriso encantador.
A mais velha tocou o rosto de Luke, aquela era sua vez de olhá-lo como um besta.
– Não precisa tentar mentir pra mim.
O garoto a olhou surpreso. Era a primeira pessoa que decifrava seu sorriso de tal jeito. Sendo assim, os dois sorriram e talvez devido a atmosfera da situação, começaram a aproximar seus semblantes. Chegaram tão perto que podiam sentir a respiração um do outro nas próprias faces. Amy fechou os olhos e ia selar seus lábios sem hesitar, quando duas lanternas fortes atingiram os rostos dos dois. Luke resmungou baixo e levantou, estendendo os dois braços.
– Calma, cidadãos. — riu, brincalhão.
– Quem são vocês e o que fazem aqui? — falou um dos policiais, provavelmente os vigias do lugar.
– Eu sou Luke Weaver.
– Weaver? — os homens se entreolharam. — O que veio fazer aqui a essa hora, senhor?
– Só vim pegar minhas coisas. Havia esquecido elas aqui.
– Entendo... — falou o da direita. — Bom, já estamos fechados, senhor, é melhor sair logo.
– Tudo bem. Viu-se os policiais se afastando, enquanto Luke voltava para perto de Amy. — Essa foi por pouco. — ele corou um pouco ao olhá-la.
– É... — falou sem-graça, lembrando do que estaria prestes a acontecer se aqueles policiais não os houvessem visto. — Eu.. me desculpe, eu tenho trabalho amanhã, é melhor irmos logo.
– Sim, sim. — concordou nervoso.
Recolheram os pertences astronômicos de Luke e correram para fora.
– Ah, então.. Weaver, não é? — indagou Amy.
– Ah, não — riu. — Isso foi mentira.
– O que?!
– Weaver é o sobrenome dos donos daqui, só fiz isso porque foi necessário, senão pensariam que estávamos tentando roubar alguma coisa ou sei lá.
– Pensava que você não mentia. — franziu o cenho com um sorriso brincalhão.
– Só quando eu não tenho outra escolha — corrigiu.
Pararam na beirada da rua em frente a recepção do campo de golfe. Entreolharam-se e coraram, desviando o olhar simultaneamente.
– Ah. — recordou-se de algo. — Essas coisas. — Apontou para os livros e pro telescópio que carregava embaixo do braço. — Eu as escolhi porque, quando era pequeno eu almejava ser astrônomo. Era meu sonho.
– E realizou esse sonho?
– Não. — riu.
– Mas nunca é tarde para correr atrás. — Amy segurou sua mão mais uma vez, colocando os livros debaixo do outro braço. — Você ainda pode realizar seu sonho, ainda é jovem, pode entrar na faculdade de novo e conseguir o emprego em algum centro de pesquisas, coisa do tipo.
– Amie, você não entende... — mirou o chão, balançando um pouco a cabeça. — Eu.. Já tenho um emprego.
– E com que você trabalha?
Relutante, Luke abriu a boca e olhou para ela. Mas isso era algo que não poderia contar à morena, se o fizesse, seria despedido, na certa. Não poderia ao menos estar ali, havia mentido para o chefe, disse que iria visitar a família. Se descobrissem o que fazia, estava ferrado.
– Esse não é o tema de hoje. — riu, fugindo do assunto. — Você ainda não me contou nada, é a sua vez.
– Ah. — ela riu, quando ele cutucou a ponta de seu nariz gelado. — Bem.. Eu também não tive uma infância muito feliz... Mas não tive que amadurecer muito cedo, eu acho. — suspirou com olhos pouco mareados. — Meu pai era viciado em drogas pesadas e morreu em um tiroteio contra a polícia, no dia que foi pego traficando algumas delas para ganhar dinheiro e sustentar o vício. Então, eu fui criada pela minha mãe, uma velha ranzinza que me fez desistir dos próprios sonhos.
– E quais eram seus sonhos?
– Bem... — fungou, sentindo como se seu nariz houvesse congelado. — Eu queria ser várias coisas. Eu queria pintar, eu queria desenhar, eu queria cantar... Eu queria viver fazendo o que eu gostava. — foi sua vez de mirar o chão. — E olhe só para mim, hoje. Uma garota depressiva que trabalha em uma loja de disco, a qual está falindo, de poucos amigos e que nem fez e nem quer fazer faculdade. Ela estava certa, eu sou um desastre.
– É claro que não. — Luke colocou o telescópio no chão, segurando o rosto dela. — Todo sonho é possível. Se você pode sonhar, você pode fazer. Nunca é tarde, não é? — sorriu.
Amy riu um pouco.
– Talvez. — olhou para Luke, fazendo seus olhares se cruzarem sem querer.
Mais uma vez, hesitantes, fecharam os olhos e aproximaram-se. Incertos e nervosos como pequenos adolescentes crescidos. Porém, o taxi que Luke houvera chamado chegara, trazendo de volta o rubor na face dos dois, que separaram-se mais uma vez. Corados, entraram no carro, assim que este parou a sua frente. Amy recitou seu endereço para o taxista e encostou as costas no banco cheiroso do automóvel.
Luke permanecia calado, nervoso e corado, avoado como uma criança sonhadora. Queria ter completado a ação, então por que não o havia feito? A resposta lhe veio rápida como um foguete à mente. Não podia. O emprego não deixava, o seu chefe acabaria descobrindo e também, mesmo que quisesse, e queria, ter uma relação dessas com Amy, seria impossível. E ele não estava pensando só no trabalho, mas sim na própria pessoa e na pessoa que a então amiga era. O mais novo sabia de Andrew e sabia dos sentimentos dele pela pequena. Essa era uma das situações onde Luke não sabia o que fazer. Mas calma, era só manter a calma e seguir seu plano. Seu plano... Sorriu. Havia tido uma idéia, mas não a diria naquela hora, esperaria o momento certo.
Enfim o taxi chegou a frente do Monte Fuji. Amy abriu a porta, deixou os livros de Luke no banco e desceu, agradecendo ao novo amigo e desculpando-se por não ter dinheiro para pagar a carona. Apressado, o mais novo pediu que o taxista esperasse um pouco, descendo do carro e pedindo para a morena esperar. Segurou seu braço e meramente corado, sorriu.
– Obrigado. — Amy pôde ver uma nuvem branca e fria sair da boca do amigo, quando ele começou a falar. — Por ter confiado em mim.
Ela retribuiu o sorriso e puxou-o para si, deixando um beijo em sua bochecha gelada, hesitante.
– Obrigada a você. — a pequena corrigiu. — Pelo melhor presente que eu poderia ganhar, hoje.
Foi o que bastou para que os dois corassem juntos, mas Amy não poderia superar Luke naquele momento, nem se saísse de uma sauna fervente depois de horas entediantes ali dentro.
– Espera. — ele pareceu se lembrar de algo. — Você tem o que comer nessa casa?
– Que espécie de pergunta é essa? — rebateu.
– Só estou preocupado. — escondeu o rosto, ajeitando o cachecol e desviando o olhar.
A pequena riu.
– Não precisa se preocupar. — entristeceu-se ao lembrar daquela manhã. E acabou deixando isso um pouco claro em seu rosto, pois Luke percebeu e perguntou se algo havia acontecido. — Bem... — suspirou. — Estou com cinco meses de aluguel atrasado, então vou ser despejada semana que vem, se não me engano.
– E você tem para onde ir? — indagou, preocupado.
– Acho que vou voltar a morar com minha mãe. — bufou.
– Entendo.. — assentiu. — Se você, por algum motivo, não tiver outro lugar pra ficar e não quiser continuar com sua mãe, pode... Pode vir morar comigo. Mas só se quiser. — gaguejou. — Eu moro sozinho, então tem bastante espaço lá em casa.
– Bem... — ela recuou um passo. — Obrigada.
– Boa noite. — Luke afagou seus cabelos, no topo da sua cabeça. — E Feliz Aniversário, Amie.
A aniversariante sorriu.
– Obrigada, Luke.
Deste modo, o mais novo se virou e entrou no taxi de novo, vendo-a entrar no prédio antigo com nome de montanha, com um sorriso besta nos lábios, que o taxista avistou pelo retrovisor.
– Ela é muito bonita. — comentou. — Sua namorada?
– Não, não, não. — corou e se apressou em dizer. — Ela não é minha namorada.
– Quantos "não". — riu o taxista, ciente da situação do cliente.
Assim, Luke forneceu o endereço de sua casa ao motorista, ainda olhando para o Monte Fuji. E continuou olhando, enquanto o carro andava e o prédio da nova amiga ia se distanciando.
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