Amy
2 Capítulo 1 - The Cure
- M... Me solta! — Amy deu vários tapas nos braços do garoto que, sabe-se lá como, a havia segurado.
Ele atendeu ao seu pedido, reclamando dos golpes que recebera. Amy pensou que ele iria embora e a deixaria em paz, mas o garoto não o fez. Querendo ficar sozinha e frustrada por não ter conseguido nem morrer em paz, ela virou as costas para o desconhecido e voltou para o próprio apartamento.
Ignorou as pessoas que constantemente esbarravam nela, se concentrando somente em ir para casa e deitar. Atravessou a calçada larga e se aproximou do amarelado e velho Monte Fuji. As centrais de ar-condicionado das sacadas pingavam, umas nas outras, enquanto as paredes pichadas descascavam. Sem olhar para trás, Amy entrou pela porta de vidro da frente, já avistando o balcão, onde dona Liza repousava. A cabeça estava apoiada nos braços. Nada sorrateiramente, Amy andou pelo salão, em direção às escadas. As botas com saltos fizeram barulho, ao subir as escadas, acordando dona Liza.
Amy subiu quatro lances de degraus antes de chegar no andar de seu próprio apartamento. Pegou as chaves na bolsa de couro preto, destrancou a porta de madeira velha e a empurrou para entrar. Ao fazer isso e virar para fechá-la, a jovem quase pulou ao ver o rosto novo do mesmo garoto que a havia salvado.
- O que você quer? — Amy quase gritou. Não o fez pensando nos vizinhos e em como iria ser repreendida pelos mesmos, no dia seguinte, se o fizesse. — Por que me seguiu?!
- E.. Eu... — os olhos azuis e inquietos do garoto passearam nervosos pelo rosto da garota. Talvez o nervosismo fosse por causa de sua beleza, talvez por não saber simplesmente explicar porquê a estivera seguindo, ou porquê a salvara, o que com certeza seria sua próxima pergunta, pensara. Não podia explicar. Simplesmente não podia. E sincero ele tentou ser. — Eu não... sei.
Como se as últimas gotas de paciência de Amy tivessem se esvaído, ela empurrou a porta com força, mas ao invés de ter fechado com um estrondo, ela foi impedida pelo pé esguio do estranho perseguidor, que gemeu do outro lado da porta. Talvez tocada pelo som de dor que o garoto emitiu, Amy se arrependeu e abriu a porta rapidamente.
- Anh... Você está bem? — perguntou, ainda sem jeito.
- Acho que sim... — ele tentou tranquilizá-la.
- ... Desculpe por isso. — se preocupou em dizer, mas assumiu sua expressão irritada em seguida. — M... Mas afinal, o que pensa que está fazendo? Me seguindo desse jeito.... E por que você não me deixou simplesmente cair e morrer naquela hora?
- Eu.. Não podia te deixar fazer aquilo. — o garoto baixou a cabeça. — E eu... Eu não sei — mentiu — Acho que não quero simplesmente te deixar ir embora, sem saber se vai tentar, ou não, fazer aquilo de novo.
Uma pausa ligeira se formou. As sobrancelhas de Amy se mostraram um pouco menos tensas, durante um tempo. Pensou se aquele estranho estivera realmente preocupada com ela, ou se era apenas lábia para abusar dela, ou sequestrá-la. Coisa do tipo. Já ele, nervoso mentia. Pensou nos negócios, no próprio emprego. Se aquilo poderia prejudicar seu trabalho. Ao final, Amy suspirou.
- Quer entrar? — rendeu-se em perguntar, suspirando.
E o garoto assentiu, tremulamente. Como se estivessem balançando sua cabeça, forçando sua ação. Desajeitadamente, seguiu uma Amy que parecia cheia de atitude. Ele pensou que ela fosse uma daquelas jovens cheias de si, que viviam bebendo e indo parar em outros apartamentos, arranjando empregos fáceis, mas que pagassem as farras e os tratamentos de beleza. Pensou em porquê estaria tentando se matar. Pensou em como, de repente, estava louco para conhecê-la e, de novo, pensou no emprego.
Amy, apesar de parecer cheia de atitude, se sentia uma nada. Novamente o mundo parecia pesar em seus ombros. Pacientemente, passou os dedos pela coleção de CDs que tinha na sala e tomou um deles nas mãos. Passeou pelo espaço entre a sala e a cozinha, quase ignorando a presença do garoto. Abriu a capa de plástico do objeto, tirando o disco de dentro e logo o colocando para tocar no seu sonzinho. O havia comprado em algum lugar do qual não lembrava. Talvez em alguma feira de garagem ou coisa do tipo. Ao tocar da primeira música, Amy finalmente prestou atenção no convidado.
- Anh... — pensou em algo para oferecer. Pensou se estivera sendo muito chata, ao colocar uma música sem lhe perguntar a opinião.
- The Cure? — ele a interrompeu.
- O quê?
- O CD. — respondeu calmamente.
- Ah, sim. Sim, sim. — confirmou exageradamente. — Eu.. Amo eles.
- Por quê? — inclinou um pouco a cabeça, deixando os olhos passearem pelo apartamento.
- Não sei direito... — pensou Amy. — Quando era menor, eu só gostava deles por causa do nome...
- Do nome?
- É. — ela esboçou rapidamente um sorriso. — The Cure.... Meu nome é Amie Cure.
- Ah.. — ele assentiu, sorrindo ao entender.
- .... Mas e você?
- O que tem eu? — se desesperou a perguntar, nervoso novamente.
- Qual seu nome?
- Meu nome é Luke.
- Só Luke?
- S... Só Luke. — ele desviou o olhar.
- Entendo... — Amy assentiu. — Então... — olhou ao redor. — Quer... Sei lá... Um chá? Café?
- Acho que vou aceitar um café...
E Amy abriu o armário, tentando encontrar o pote de café em pó.
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