Amour DésEnchanté!
2 Capítulo I
Capítulo I
O prédio tinha uma fachada abatida, a tinta de um tom pastel já estava desgastando e algumas rachaduras eram visíveis nas paredes. As janelas eram altas e de vidros embaçados devido ao clima úmido naquele dia – a chuva caia calidamente pela calçada de paralelepípedos e poucos eram as pessoas naquela hora da manhã. Mas nada disso parecia importar para a garota dos curtos cabelos acastanhados parada em frente ao prédio puído pelo tempo. As mãos pequenas apertavam com firmeza o guarda-chuva que segurava enquanto seus olhos estreitavam ao ler a placa metálica na porta de madeira escura, “Agence d’Plaidoyer Tasse”.
Parce que maman? Por que eu tenho que vir a esse tipo de lugar? Indagava-se a garota suspirando.
— Coralie? Tudo bem? – a pergunta repentina tirara a jovem de seus devaneios inquietantes.
Seus olhos castanhos amendoados e redondos focaram na figura alta e um tanto rechonchuda ao seu lado. Os cabelos pintados de um verde musgo da mulher de meia idade presos em um coque desajeitado faziam um contraste com o tom de pele bronzeado e os lábios rubros – aquela era sua tia, Thérèse Fabron. Coralie achava-a no mínimo peculiar, seus jeitos um pouco fora do comum, contudo, era inegável o apreço que a adolescente sentia para com a parente. Principalmente devido aos últimos acontecimentos que assolaram aquela pequena família.
Coralie suspirou, dando-se o trabalho em apenas anuir com a cabeça. Sua voz parecia presa em sua garganta e por tal limitou-se em encarar o lugar em que estavam. A mulher franziu os lábios, preocupada. Desde que um advogado havia telefonado na tarde anterior comunicando sobre um testamento, até então pensado ser inexistente, direcionada a sobrinha, a mesma tinha entrado em modo silencioso e recluso. Thérèse gostaria de pensar que era apenas uma amarga fase do luto misturado com o choque da perda. Contudo, seu peito se comprimia e uma ansiedade imensurável apossava-se de seu ser todas as vezes em que mirava a jovem moça.
Não sabia mais o que fazer diante de tudo aquilo. Sentia-se sobrecarregada.
— Tia? Podemos entrar? – indagou Coralie, o receio visível em sua voz mesmo que tentando esconde-lo.
— Oui, cher.
Thérèse assentiu antes de adentrar no estabelecimento seguida pela mais nova. A primeira coisa que notou foi o ar quente – quente demais na sua opinião, ao ponto de ter que retirar o casaco ao sentir-se desconfortável. Ao seu lado Coralie parecia concordar, tirando o casaco de lã amarelado –. A recepcionista estava atrás de um balcão de madeira envernizada, concentrada no que estivesse fazendo em frente ao computador. Em nenhum momento dedicara um olhar para as recém-chegadas. Thérèse crispou os lábios, andando até a mulher de meia idade.
— Boa dia. Tenho uma hora marcada com o Dr. Renoir. – informou Thérèse com uma pequeno sorriso, forçado. A mulher apenas a olhava com um franzir.
— Nome, por favor. – pediu a outra se voltando para a tela do computador.
A Fabron engoliu a vontade de fazer uma careta com a atitude rude que lhe foi dirigida.
— Thérèse Fabron acompanhada de Coralie Bordelon.
— O Dr. Renoir as atenderá em poucos minutos. – disse enquanto continuava a teclar ligeira e fazendo um gesto para os sofás de aparência sofisticada.
Coralie teve que segurar o cotovelo da tia enquanto a guiava para se sentar em uma poltrona. Sabia que a recepcionista não tivera a melhor educação para com elas, mas não deixaria que a parente mostrasse sua personalidade forte demais naquele momento. Não era a hora certa. A adolescente pedia silenciosamente que a mais velha aquietasse enquanto se acomodavam no sofá púrpura e duro. O clima já era tenso devido aos fins que fizeram vir até ali, não queria que isso piorasse devido a uma mulher indelicada.
— É melhor que o Doutor nos atenda logo. – ouviu Thérèse murmurar agastada, hora ou outra olhando de esgueira para o balcão.
Coralie se limitou a anuir, olhos postos nas mãos entrelaçadas em seu colo – elas tremiam de nervosismo, pensamentos lancinantes povoavam sua mente, torturantes—. Ainda lhe era doloroso pensar na mãe, a mulher que sempre esteve consigo em todos os momentos de sua curta vida e que havia partido tão de repente. Sua amável mãe estivera meses doente e mesmo assim a garota não percebeu nada. Que tipo de filha eu tenho sido todos esses anos? Tinha vontade de chorar novamente, espernear, gritar e sair correndo daquela sala de recepção tão fria.
Fazer alguma coisa, qualquer coisa.
Menos ter que ficar esperando ali, aguardando para ouvir os últimos desejos de sua doce mãe. A fazia tomar consciência de que estava sem ninguém, órfã e sozinha. O que será de mim agora? Todavia, antes que pudesse se aprofundar em tais pensamentos, uma das portas de madeira escura abrira-se e por ela passava um calvo e enrugado homem vestindo um terno caro.
— Senhora Fabron e Senhorita Bordelon? – indagou o homem aproximando-se. Sua tia levantou-se para o cumprimentar, mas Coralie se manteve sentada ainda meio aérea. – Sou o Dr. Renoir e estarei cuidando do testamento da Senhora Bordelon e tudo que o implica. Por favor, queiram me acompanhar até o meu escritório.
— Claro, claro. Obrigada. – Thésèse disse, um sorriso nervoso despontando em seu rosto de forma peculiar. Virou-se para a sobrinha imóvel, franzido a testa em preocupação. – Coralie? Venha, querida.
O toque delicado da mais velha em seu ombro fez com que a jovem morena despertasse completamente, se levantando em um rompente com as bochechas marcadas em vermelho. Engoliu em seco, seguindo os mais velhos até a sala adjacente. Coração acelerado retumbando no peito como se mil trombetas estivessem tocando dentro de sua caixa torácica.
Era a hora de descobrir algumas verdades.
×.×
Sentia-se como se permanecesse em um sonho – ou melhor dizendo, num pesadelo. As últimas horas eram um borrão para a Bordelon depois que o advogado havia lido o testamento e dito todas as implicações que o mesmo detinha. E então tudo se tornara embaçado, havia um zumbido em seus ouvidos e a voz alterada de sua tia discutindo nervosamente com o homem eram abafadas, quase silenciosas.
Coralie sentia-se à deriva. Tonta, perdida em meio a tantas novas informações. Uma dor assolava seu peito ao pensar no que sua mãe havia feito – como ela poderia ter decidido seu futuro daquela forma? Como ela pensou que estava tudo bem entregar a sua vida a estranhos que nunca se quer ouviu falar?
Sentia-se traída.
A porta do quarto abriu-se e Thérèse adentrou de forma hesitante, era visível em como ela não sabia o que fazer naquela situação. Observava a adorada sobrinha encolhida debaixo de um montinho de cobertas, olhos secos de tanto chorar, íris brilhando com mágoa. Nas mãos delicadas estava a carta que Laurine Bordelon deixara para a filha, lacrada, mas bem amassada.
A mulher suspirou, triste, indo se sentar na beirada da cama e fazendo uma carícia nos cabelos castanhos meio ruivos da outra. Desejava ter o poder de ajudar a mais nova, mesmo sabendo que era o desejo da sua falecida cunhada. Porém, ainda não entendia totalmente as atitudes tomadas. O que a fazia pensar no quanto não conhecia sobre Laurine e seu passado antes de chegar a Caen.
— Eu não quero ir, tia Thérèse. – O murmuro angustiado lhe chamou a atenção. – Por favor, não deixe que me levem.
Seu coração pareceu parar com aquele pedido, os olhos marejando.
— Oh, minha querida! Eu sinto muito, muito mesmo. – a mulher abraçou o corpo menor e trêmulo. – Eu farei o que eu puder.
Prometeu, beijando-lhe os cabelos da adolescente. Mas no fundo sabia que era quase impossível que a Fabron conseguisse a guarda da garota, pois nem parentes de sangue elas eram. E havia o maldito testamento. As coisas não pareciam bem.
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