Georgina sabia que algo estava errado.

O que a fazia ficar realmente com raiva era lembrar-se do quanto seu pai havia avisado e o quanto ela ignorou. Ele tinha visto os problemas no mundo perfeito e tentado mostrar a filha. Só que ela estava cega pelo o que a sociedade tinha imposto. Tanto que não hesitou em dizer que o pai estava doente antes de cometer suicídio.

De fato, isso não era mentira. Seu pai estava realmente doente.

Depois de anos de pesquisas em busca de uma solução mundialmente positiva, o ser humano conseguiu chegar ao conceito de perfeição superficial. A paz foi finalmente alcançada, as doenças erradicadas e a pobreza se tornaram um mito. Todos viviam em pé de igualdade.

Mas era só isso: superficial.

As pessoas tinham as soluções, só que ainda existiam problemas. Cor Fractum era o mal do século. O número de suicídios causados pela doença do coração partido se tornou alarmante. Ninguém poderia contar com alguma doença repentina para morrer mais cedo, não quando as pessoas poderiam viver até os 130 anos com a saúde plena.

O mundo perfeito tirou a vitória de ultrapassar as dificuldades, fazendo com que o amor se tornasse a ameaça. E foi por isso que o Dr. West morreu. Depois de ter sido abandonado pela esposa, não conseguiu se imunizar do Cor Fractum. O suicídio era inevitável.

Assustados com a situação que aquele sentimento havia proporcionado, os cientistas se empenharam em descobrir a cura para a doença do coração partido. Depois de anos exaustivos, eles chegaram á conclusão óbvia de que o amor não tinha cura. Não sem conseqüências irreparáveis.

E precisou de muito para que Georgina abrisse os olhos e percebesse que isso (essas consequências) não os impediriam de continuar tentando. Ela se sentia tola por não ter notado as mudanças bruscas de comportamento de alguns de seus colegas da escola. Precisou acontecer com alguém próximo para que a verdade brilhasse como luz de neon em sua mente.

Naquele dia ela tinha chego atrasada na escola por culpa de sua tia Abigail e sua relutância em comprar um carro. Isso obrigava Georgina a ir para a escola correndo praticamente todos os dias. Por que aquele dia seria diferente? Sentiu o suor escorrer por sua pele achocolata até a raiz de seus cabelos escuros e cacheados. Sorriu por se achar sortuda. O sinal ainda não tinha tocado.

Seu sorriso se dissolveu no segundo seguinte quando o sinal da St. Loiuse soou, obrigando-a a entrar no mar de estudantes que se arrastavam após um fim de semana de festas e bebidas. Encontrou suas amigas Letha e Jordin conversando perto dos armários. Jordin falava e gesticulava repetidamente, sempre jogando seus cabelos ruivos por cima dos ombros flertando com algum garoto que passava.

Georgina reprimiu a vontade de dar meia-volta ou passar direto. Ela nunca conseguia suportar o egocentrismo de Jordin. O mundo perfeito rodava ao redor dela e ninguém poderia discordar desse fato. O verdadeiro motivo para que elas andassem juntas era que seus pais tinham sido grandes amigos. Os doutores West, Miller e Dawson (pais de Georgina, Letha e Jordin respectivamente) tinham sido os responsáveis por encontrar a maioria das curas existente atualmente. Eles haviam sido os pioneiros na pesquisa sobre o Cor Fractum e a sua cura.

Tinha outras pessoas que também tinham pais cientistas e estudavam ali, só que nenhum deles possuía a fama daqueles três. Carregar aquele sobrenome era quase um fardo para Letha e Georgina. Ao contrário de Jordin, que o exibia com orgulho. A morena teve que fechar os olhos com força e contar até três para se preparar psicologicamente para a conversa enfadonha que viria a seguir.

Precisou chegar perto para perceber as lágrimas nos olhos de Letha, acompanhada de um encolher e tremer de ombros. Suas pequenas mãos tampavam a boca, abafando os soluços para não chamar a atenção dos curiosos. Georgina sentiu o sangue gelar em suas veias. Ela já havia visto aquela reação antes e a conhecia muito bem.

“O que houve, Letha?”, indagou tentando tocar a amiga.

A loira balançou a cabeça e saiu correndo pelo corredor, quase derrubando Georgina no processo. Arregalou os olhos escuros e se virou para Jordin, esperando uma explicação plausível. A jovem Dawson olhava para as unhas como se a cena anterior a tivesse entediado. O sangue congelado voltou a correr com a raiva que fez todo o corpo de Georgina esquentar.

“Ethan terminou com ela.”, explicou revirando os olhos claros. “Ela está doente. Cor Fractum. Espero que não se mate. Tenho teste para as líderes de torcida em poucos dias e não quero que seja cancelado.”, ergueu os olhos e deu um pequeno sorriso. “Ah, Georgie. Sabe que estou brincando não é?”

Com o restante de sua força de vontade, assentiu. Novamente olhou para o caminho por onde sua amiga de infância tinha corrido e lamentou internamente. A tinha perdido para doença, como havia acontecido com seu pai. Era questão de tempo antes que a notícia de seu suicídio se tornasse real. Encolheu os ombros, defensiva. Ela queria poder fazer algo, mas sabia que seria tempo perdido. Seu coração estava quebrado e ninguém poderia fazer nada para curá-lo. Apenas a morte.

“Eles estavam tão bem.”, divagou sem tirar os olhos escuros do corredor. “Pensei que iriam se casar depois que terminassem a escola.”

Jordin deu de ombros.

“O amor acabou.”, sorriu maliciosa para um grupo de garotos que passava. “Deveria ter seguido o meu exemplo e apenas ter se divertido. O amor nos destrói e enfraquece. Letha foi tola e agora terá que conviver com a doença. Ou não viver. Ela ainda poderá escolher.”

“Dizem que a dor a consome de um jeito que até respirar se torna difícil.”, se virou para o armário e pegou o livro da próxima aula. Escassez. Era uma aula boa, onde eles aprendiam sobre os hábitos antigos, doenças e a pobreza que representavam ameaça à terra. “Queria poder fazer algo por ela.”

“Caso não tenha uma máquina do tempo ou um coração novo, ela irá morrer de qualquer jeito.”, um dos jeitos de se livrar da Cor Fractum era o transplante de coração. O problema era que, conforme o avanço das doenças, ás vezes era tarde mais. Além disso, tinha que ter o consentimento da vítima (que em muitas situações, está tão consumida pela dor que não consegue mais raciocinar sobre seu bem estar.). “Ela quis arriscar, não podemos fazer mais nada.”, Jordin arqueou uma sobrancelha. “Se bem que por ele, eu arriscaria.”

Georgina não precisou se virar para saber de quem a ruiva falava. Todos os seus pelos da nuca se arrepiaram, fazendo seu corpo ficar tenso, tirando a concentração que deveria para contra-argumentar Jordin. Seus pulmões arderam como um lembrete que deveria respirar. Arfou, puxando o máximo de ar possível e atendeu ao pedido que seu corpo tanto implorasse em seu interior. Seus olhares se encontraram por poucos segundos, mas foi o que bastou para que sentisse aquela ligação familiar.

Ele era o motivo de sua corrida matutina.

Agradeceu mentalmente por sua pele escura não revelar o corar em suas bochechas enquanto punha uma mecha de cabelo atrás da orelha. Perifericamente reparou que não era a única que encarava o professor de Escassez. Apenas era a única que era retribuída. Desviou os olhos sentindo um vazio em seu peito e os pensamentos duvidosos foram cortados pela voz animada de Jordin.

“Viu o jeito como ele me olhou?”, se gabou incapaz de enxergar através de sua vaidade. “Quando sair daqui, tenho certeza que ele irá me procurar. Vamos para aula antes que nos atrasemos.”

A morena apenas assentiu e pressionou os lábios juntos, se impedindo de dizer a verdade. Jordin estufou o peito, empinando o nariz e estalou os saltos pelo corredor em direção a sala. Georgie abaixou os olhos, retendo o luto por sua amiga e entrou na sala, enfrentando a doce realidade do proibido. O único lado bom de estar apaixonada por seu professor era ser retribuída.

–-----------------------------------------------

Gregory escreveu “Escassez do Amor” no quadro, dando um pequeno sorriso ao escutar os arfares sobressaltados de seus alunos. Por isso que resolveu falar de um assunto popularmente polêmico. Botou as mãos no bolso e se virou, forçando os seus olhos á ficarem longe dela.

Só foi preciso poucos minutos de aula para que ele percebesse a inquietude da morena. Parecia estar presa em um pensamento longínquo. Pegou-se em silêncio, interrompendo sua explicação rasa sobre o surgimento do amor externo até que ele se interiorizasse. Franziu o cenho querendo ver além daquela expressão distante.

“Hum… professor?”, um de seus alunos ergueu a mão, lhe chamando a atenção. Arros olhos até ele, contrariado. “O senhor parou de repente.”

Forçou um sorriso e coçou o cabelo, constrangido.

“Desculpem. Entrei tanto no assunto que me perdi.”, se recostou na mesa, repreendo-se pela falha. “Estava dizendo que na mitologia grega, o amor era algo externo. Fazendo com que as histórias sobre os cupidos se tornassem populares. Lembram-se de Afrodite, deusa do amor? Seu filho, Eros, era cupido. O amor surgia a partir de suas flechas. Só que, semelhante a cultura contemporânea, eles precisavam olhar para a pessoa amada.”

“Os olhos são a janela da alma.”, Georgina acrescentou atraindo a atenção de todos.

O sorriso de Gregory se tornou genuíno.

“Ótima colocação, Senhorita West. Só diria que os olhos são a porta para o coração também. Por isso os cientistas acham que a cura para esse sentimento deveria ser exteriorizada, assim como a sua origem. Só que quando quebramos algum osso, o nosso sistema fica responsável pela calcificação. Tem uma pequena ajuda exterior para colocar os ossos no lugar que deveriam estar. Mas a cura (a real cura) só depende de nós mesmo.”

Mesmo com o fim da aula, todos os alunos continuaram debatendo a contribuição e a devastação que a cura para o Cor Fractum causaria para a sociedade. Jordin fazia questão de ressaltar seu ponto de vista em alto e bom som. Georgina se apressou para tentar alcançar Letha e conversar com ela. Entretanto foi interrompida pela voz dele.

“Fique Senhorita West. Precisamos conversar.”

Todos saíram apressados da sala, lançando olhares cômicos e cochichando sobre as opções do por que Georgie estar encrencada. Assim que a porta se fechou, toda a hesitação se dissolveu e seus olhos brilharam, exibindo a saudade que tentou ocultar por toda a aula.

“Senti tanto a sua falta.”, ele sussurrou contra os lábios dela. As pontas de seus dedos roçaram com leveza nas bochechas de sua aluna e sorriu. “Está preocupada. O que houve?”

Georgina não hesitou em responder. Nunca fora capaz de esconder nada de Gregory.

“Letha está com Cor Fractum.”, sussurrou.

Gregory desviou os olhos sem demonstrar surpresa.

“Eu sei.”, assentiu consigo mesmo. “A vi no corredor chorando. Não se preocupe com isso. Ela ficará bem.”, ele mentiu vendo-a fazer uma careta. Então percebeu que seu incomodo ia além da preocupação com a amiga. “Georgina, eu nunca faria isso com você. Eu te amo.”

Ela assentiu com suas palavras, dando um pequeno sorriso. Bastou aquilo para que ela afastasse o mau pressentimento de seu peito. Sabia muito bem o que aconteceria se alguém descobrisse. Ele seria preso e ela ficaria doente. Sentiu um tremor interno e suspirou querendo apaziguar o momento.

“Eu também te amo.”

–-------------------

Georgina tentou de todos os modos esquecer a imagem de Letha chorando, mas não conseguiu. Nem a notícia de que seu tio estava trabalhando em um projeto importante a animou. Aquela cena se repetia inúmeras vezes de diferentes ângulos em sua mente. Ficou dispersa da conversa durante o horário jornalístico. Eram sempre os mesmos assuntos: As altas taxas de natalidade, crescimento na expectativa de vida, os avanços nas pesquisas. Nunca os suicídios.

Antes ela pensava que era melhor assim. As pessoas estavam bem sem precisar se preocupar com o número crescente de suicídios. Agora, ela questionava o verdadeiro motivo para aquela omissão. Seu pai diria que era por causa da superficialidade do mundo perfeito. Toda a expectativa era feita de vidro. Qualquer rachadura que aparecesse, por menor que fosse, poderia destruir tudo.

E foi com esse pensamento que ela foi para a escola no dia seguinte determinada a falar com Letha e a desviar de seu curso homicida. A encontrou no corredor e quase passou direto por ela.

“Letha?”

A loira erguer os olhos vazios fazendo Georgie recuar, assustada. Parecia que tudo nela funcionava automaticamente, como um robô. Piscou maquinalmente e torceu a ponta dos lábios para cima, em uma tentativa falha de sorrir.

“Está tudo bem?”

“Claro que sim.”, respondeu com a voz fria e destacando cada palavra. Antes que Georgina pudesse questioná-la novamente, se virou. “Vou para a aula.” e continuou o seu caminho.

Foi aí que Georgina suspeitou que tivesse algo errado. Mas ela só teve certeza no fim daquela mesma semana, quando percebeu o processo se repetindo em vários alunos da escola. Todos seguindo o mesmo padrão: Apresentavam o Estágio Inicial da doença Cor Fractum e no dia seguinte, se tornavam zumbis automatizados e controlados pelos crus hábitos diários. Sem vontade, sem ânimo. Apenas para preservar os hábitos.

Também não foi difícil descobrir o padrão. Tinha uma coisa em comum entre todos os atingidos, além de terem adquirido a doença. Letha Miller, Shane Stewart, Michael Simon, Lilian Derulo e Fiona Barnes eram filhos de cientistas.

Assim como Georgina e Jordin.

“Sei que não tenho provas, mas você precisa acreditar em mim.” , ela suplicou a Gregory na sexta feira. Ele andava pela sala passando as mãos pelos cabelos e ceticismo em seus olhos. “Você tem que concordar que tudo isso é estranho, Greg.”

Ele balançou a cabeça e Georgina sentiu uma pontada em seu peito. Sabia que tudo o que dizia era loucura e que não tinha nenhuma prova, só que tinha a esperança de que Gregory acreditaria nela. Afinal, quem ama confia, certo? Respirou fundo, se pondo no lugar do amado por alguns instantes. Eles tinham sete anos de diferença, então era natural que ele pensasse que era apenas o instinto super protetor dela agindo. E talvez fosse mesmo.

Ela só queria que aquela dúvida não doesse tanto.

Vendo que o desânimo de Georgina, Gregory se repreendeu por ser tão ligado á provas concretas. Ele sabia que tinha alguma coisa errada acontecendo naquela escola. Só que ele se adaptara aquela mudança e seguiu em frente com sua vida. Portanto que ele e Georgie estivessem bem e junto, nada mais importava. A abraçou, sentindo seu cheiro doce e fechou os olhos ao dar o braço a torcer.

“Traga-me qualquer prova.” pediu. “Não estou dizendo que não acredito em você. Só que se vamos acusar alguém, precisamos de provas. Segunda feira venha direto para a sala e eu estarei te esperando.”

Ela concordou aliviada e sentindo aquela dor se afastando lentamente. Seus lábios se tocaram de forma terna e ela suspirou envolvida pelo momento. Nenhum deles se deu conta da porta se abrindo até escutarem o arfar feminino. Afastaram-se sobressaltados e encararam os olhos arregalados de Jordin. Georgina tentou dizer algo, mas a ruiva já tinha corrido.

“Oh, Deus.” passou os dedos trêmulos pelo rosto. “E agora?”

“Vou falar com ela.”, Gregory assegurou com determinação nos olhos esmeraldinos. Pegou sua bolsa com rapidez e beijou a testa da morena. “Pegue as provas e traga para mim.”

Ele saiu sem dizer que a amava. Era um mero detalhe diante de toda a confusão que estava acontecendo, entretanto um detalhe que fez a dor retornar ao peito de Georgina e fazê-lo latejar. Seu mau pressentimento não poderia ser ignorado. Alguma coisa muito errada estava acontecendo. E seu pai tentou alertá-la.

–------------------------------

Suas mãos suavam contra o corrimão de ferro e suas pernas bambeavam nas escadas que levava até o sótão. Não pisava ali há dois anos, desde a morte de seu pai. Era apenas um lugar com luz precária, coberto de caixas e poeira. Tudo o que Georgina precisava no momento. Tinha que fazer o máximo de silêncio para não acordar os tios. Pegou a lanterna que ficava na antiga mesa de trabalho do pai e iluminou o nome escrito nas caixas.

Fotos.

Georgie, o mundo perfeito nunca vai existir sem amor e eles não conseguem compreender isso. Eu amo o que faço, eu amo minha família. Sem o amor, a vontade de viver e satisfação também acabam. Todos temos o Cor Fractum só que os suicidas são os desistentes. Os mais fracos dessa guerra interna. Eu sou um desistente, Georgina.

Vídeos.

Nunca duvide que te amo, minha filha. A culpa é da dor. Não quero que você me veja cedendo á ela. Quero que se lembre de mim sorrindo e nunca desista do amor. O meu coração foi partido, mas isso não quer dizer que isso irá se repetir em você.

Roupas.

Eles querem cobaias, Georgina. Querem jovens em seu amor pleno para poder testar a cura. Eles estão tão cegos que não conseguem ver o quanto estão errados. Não existe cura. O amor não morre, ele nos mata.

Arquivos.

Eu te amo, Georgie.

“Eu também te amo, pai.”, sussurrou para o vazio e para a escuridão. “Desculpe nunca ter dito isso. Espero que esteja…”, pausou. Ela iria dizer bem, só que aquela era uma coisa que todos naquele mundo estavam. Bem. Saudáveis. “Feliz. Espero que esteja feliz.”

–--------------------------------

Ela já estava impaciente de ter que esperar aquela porta se abrir. Apertava a pasta por entre suas mãos e transpirava inquietude. Estava quase desistindo, quando ele entrou. Sabia que teria pouquíssimos minutos, por isso foi em sua direção, determinada e abrindo a pasta na página que importava.

“Gregory, eu…”

Ela parou quando seus olhos se encontraram. Sentiu suas pernas cederem ao ver apenas o vazio tomando conta de suas íris verdes. Estava afobada demais para perceber os movimentos sistematizados e sem vontade. Seu coração palpitou, fazendo-a arfar. Continuou recuando, incapaz de acreditar em seus olhos lacrimejados.

“Eu te amo.”, murmurou. Largou a pasta em um canto qualquer e se lançou em sua direção. Pegou sua mão, notando a ausência de calor. “Por favor, diga que me ama.”, suplicou.

Ele permaneceu com a expressão neutra.

“Senhorita West, se recomponha.”

Era como se mil espinhos estivessem atravessando todos os seus órgãos simultaneamente, a incapacitando de respirar. As lágrimas correram por seu rosto com liberdade e ela soluçou. Com o corpo trêmulo recolheu os papéis espalhados no chão e pôs a pasta embaixo do braço. Deu um último olhar para Gregory, vendo-o arrumar seus materiais com perfeição. Ele caminhou até o quadro e escreveu “Escassez da Cura.”.

Sem conseguir ver aquilo em silêncio, saiu com passos firmes trombando em todos os alunos que entravam. Entrou no Box do banheiro feminino e se deixou gritar, presa em uma dor física e mentalmente excruciante. Parecia que iria chorar todas as lágrimas que pudesse antes que se transformassem em sangue.

Sangue. Ela queria sangue. Queria ver seu coração palpitando nas palmas de suas mãos e entregá-lo a outro que pudesse usá-lo melhor. Estava infectada e doente. Cor Fractum.

–----------------------

Jordin terminou de trançar o seu cabelo e sorriu para o reflexo, satisfeita com o resultado. Desligou a luz, caminhando de volta para o seu quarto e se preparando para uma bela noite de sono para recompor sua beleza. Puxou a coberta até que estivesse por cima de todo o seu corpo e bocejou, deixando que seus pesados olhos descansassem.

A luz foi acesa subitamente, fazendo dar um salto na cama.

“Georgie?”, indagou incerta se seus olhos sonolentos estavam pregando alguma peça. “O que você está fazendo?”

Georgina caminhou até a porta e a trancou. Em seguida puxou uma cadeira e se sentou. Jordin não tirou os olhos da morena por nenhum segundo enquanto ela pegava uma pasta e a abria em uma página específica. Pigarreou.

“Devo admitir que os avanços com a cura para o Cor Fractum sejam encorajadoras, sendo que seus efeitos colaterais nos fizeram lamentar em ter que recomeçar do zero. Tudo indica que com a remoção do amor, tiramos a vontade de viver. São robôs. Fazem o que tem que fazer e não o que querem fazer…”

Jordin abraçou as pernas com medo.

“Georgie…”, tentou novamente, mas a morena lançou um olhar cortante.

“...Todos concordamos em tentar novamente. Chegamos perto, então estamos no caminho certo. Só que ele não concorda. Diz que é melhor termos zumbis vagando pelas ruas, do que corpos largados na sarjetas. São as consequências do mundo perfeito, ele disse. Todos temos que lidar com elas.”, ergueu os olhos para Jordin. “Eu demorei para perceber quem era ele, Jordin. Fui ingênua e não enxerguei o que estava na minha frente. Sua vaidade é genética. Seu pai era tão egocêntrico e egoísta quanto você.”

Jordin se levantou, jogando o cobertor para o lado.

“Eu fiz por bem.”, ela tentou argumentar. “Papai precisava de cobaias e reclamava disso todos os dias. Tinham que estar em amor pleno.”

“Como Letha.”, Georgina acrescentou também se levantando. “Vê-la daquele jeito te ver ter essa ideia estúpida de curá-la e transformá-la em um zumbi. Uma ótima primeira cobaia.”

Jordin deu um sorriso malicioso e abriu a gaveta da cômoda tirando uma vacina cor de leite. Tirou a capa que protegia a agulha e bateu duas vezes para tirar o ar.

“Letha não foi a primeira cobaia, Georgie. Tudo começou dois anos atrás com sua querida mãe.”, ela gargalhou ao ver a descrença nos olhos arregalados de Georgina. “Acha que nunca percebi que vocês me odiavam? Letha sempre ficava revirando aqueles olhos e se gabando do quanto era sortuda por ter um namorado como Ethan. Eu estava cansada. Então resolvi juntar o útil ao agradável. Seria a última esperança da humanidade quando todos os filhos dos cientistas fossem vacinados.”, fez um bico olhando para a ex-amiga de cima a baixo. “Eu iria poupá-la, sabe?”

“Para quê?”, esbravejou. “Estou doente, Jordin. Você fez isso comigo e com Gregory. Era inveja? Por ele estar comigo e não com você?”

Jordin ficou séria, dando passos calculados na direção da oponente.

“Era inveja sim, Georgina. Mas não por você ter ele. E sim por ele ter você.”, soltou um riso amargo. “Como nunca percebeu que eu te amava? Sempre queria estar ao seu lado, por mais que me odiasse. Agora é tarde. Vou ter que vaciná-la e depois morrerei de Cor Fractum. A humanidade voltará a ser imperfeita por culpa sua.”

Georgina desviou do golpe de Jordin e conseguiu ir em direção a janela. A ruiva lançou seu corpo de encontro ao da morena e sentiram o impacto do vidro contra os seus corpos. Aquilo não era mais uma luta pela vida. E sim pela força de vontade.

Jordin tossiu e sentiu uma pontada no peito. Ao abaixar os olhos perceber que a agulha estava cravada em seu seio e não existia mais nenhum líquido na seringa.Virou a cabeça, querendo contemplar a mulher que amava pela última vez. E gritou quando a viu se afastando trôpega e sangrando.

Georgina se esforçou para levantar, pressionando o ferimento que o enorme caco de vidro tinha feito em seu abdômen.

Sabia que se fosse até o hospital teria chance de sobreviver, só que não era assim que queria terminar sua vida. Ignorou a dor e a trilha de sangue que deixou pela rua, se abaixando para pegar a chave debaixo do tapete. Encontrou Gregory dormindo tranquilamente e se deitou ao lado dele. Não soube o que a atingiu primeiro. A hemorragia ou a doença.

Só sabia que estava feliz, pelo simples fato de ter morrido por amor.

O amor não morre, ele nos mata.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!