Amortecer
1 Carta nº 1
Notas iniciais
Júlio,
Nos conhecemos naquele frenesi juvenil, na fome pela diversão que só a carne sacia. Você não me olhou, mas eu te olhei e disse "vou te devorar", e bem, foi exatamente isso o que aconteceu. Te devorei e te deixei em pedaços.
E eu não quero pedir desculpas, pois seria hipócrita pois não sinto remorso algum pelas escolhas que fiz, e que levaram ao seu sofrimento. Fiz tudo muito ciente, muito certa do erro que cometia ao estar contigo e fazer promessas mentirosas que eram ditas nos nossos momentos mais famintos. Eu preciso admitir, o que você me fazia era de perder o pouco juízo que uma jovem reprimida socialmente ainda tinha.
Eu tinha fome, você também. Eu tinha fome pela vida, e você, de amor. Eu não queria te dar amor, pois não tinha como oferecer algo que em mim não existia. Mas eu sabia fingir, e meia dúzia de palavras eram o suficiente para despertar em você a fome que eu queria que você tivesse.
E era incrível, precisamos ser sincero. Química sexual é um lance difícil de achar em qualquer esquina, e desde a primeira vez a gente entendeu bem o idioma que o outro falava. Um dialeto que se compreendia passeando entre limites entre a intensidade fremente da voracidade e violência e o calor do mais genuíno carinho apaixonado. De quando nossas peles se resvalavam umas nas outras com violência, haver espaço para um sussurro doce que saia ofegante da minha boca, mas que te tremia o corpo inteiro.
E quando penso no que você queria de mim, penso que talvez eu só não queria toda a responsabilidade que você demandava. Você não queria só amor. Queria proteção, abrigo, afeto. Queria morar dentro de mim, que eu te protegesse do mundo lá fora. E eu, que nunca fui adepta de partilhas, simplesmente me abstive. O pouco afeto que tinha por você, minguou amargamente quando você queria fazer de mim a sua morada protetora.
Você esperava de mim, funções que eu nunca esperei que fossem desejar. Proteger como mãe que cuida de um filho, logo eu, que sempre fui avessa a tudo que envolve a maternidade. Achei ultrajante, uma covardia sem tamanho, você projetar suas faltas e querer compensa-las em mim.
Te devorei com gosto, e cuspi as sobras com amargor.
Eu não gosto dos covardes. Já me bastava eu.
Fale com o autor