Phoebe caminhava lentamente pelas ruas nevadas de Nova Iorque. Precisava sair para esfriar um pouco a cabeça e tentar esquecer os problemas, mas logo se deu conta de que sair de casa foi uma péssima ideia. Ao seu redor havia crianças brincando na neve, casais abraçados e lojistas sorrindo como nunca. Todos desejavam paz, saúde e muita alegria nessa época de Natal. A loira, que sempre adorou o feriado, sentia-se profundamente depressiva. Tinha vontade de chorar o tempo todo, de gritar, de dormir e nunca mais acordar. Não tinha o menor ânimo para o Natal.

Parou em frente a uma loja de lembrancinhas e, pela vitrine, ficou observando um casal de adolescentes lá dentro que estavam escolhendo algum presente. A menina pegou um relógio em forma de gatinho e mostrou ao namorado.

- “Olha, amor, um gatinho! Não é fofo?” – fez Phoebe com uma voz fininha, interpretando o que a jovem poderia estar dizendo.

- “Sim, amor, vamos comprar e colocar na nossa casa quando nos casarmos e seremos uma família feliz pra sempre!” – Phoebe fez com a voz mais grossa, interpretando o rapaz.

- Pheebs?

A loira levou um susto. Virou-se e encontrou um velho amigo encarando-a.

- Joey! – Ela imediatamente o abraçou. – É tão bom te ver de novo.

- É, eu sei. Também é muito bom te ver e estar aqui de novo. – Ele olhou para a vitrine. – Com quem você tava falando?

- Eu? – Ela apressou-se para pensar numa desculpa. – Com ninguém. Estava falando sozinha. Faço isso, às vezes.

Joey olhou para ela por alguns instantes e deu de ombros. Phoebe tratou de mudar de assunto.

- Você tem um tempinho? Podíamos tomar um café no Central Perk. Sabe, relembrar os velhos tempos.

Joey assentiu e eles foram. Ao chegarem, quase nada havia mudado. Até Gunther ainda trabalhava lá. Como de costume, sentaram no sofá mais afastado da porta para colocar o papo em dia.

- Por que voltou para cá? – Phoebe perguntou.

- Estou gravando um novo filme sobre alienígenas. Eles invadem Nova Iorque e dominam a Terra. Eu interpreto um dos alienígenas, só que sou do bem, e quero impedir que os outros ataquem os humanos.

- Parece interessante – Phoebe disse. – E você vai ficar aqui quanto tempo?

- Só alguns dias. Queria rever você, Rachel e Ross. Você têm vindo ao Central Perk ainda?

- Não. Depois que você, Monica e Chandler se mudaram, não sentimos mais vontade de vir. As coisas ficaram sem graça sem vocês.

- Entendi. Mas, apesar de Monica e Chandler não estarem aqui, deveríamos marcar de nos encontrar aqui de novo.

Phoebe fez que sim com a cabeça e bebeu um gole de seu café. Estava muito feliz de ver Joey novamente, mas não tinha vontade de fazer nada. “Por outro lado,” pensou, “talvez isso me faça bem.”

- E como vai o Mike? – Joey perguntou com a boca cheia de bolo.

A loira desviou o olhar – Vai bem.

Joey notou sua mudança de humor repentina e a fitou por alguns segundos.

- Tem certeza? Não parece que ele está bem pelo modo como você falou.

Phoebe sentiu as lágrimas chegando aos olhos. Fechou-os, respirou fundo e, em seguida, encarou Joey.

- Mike e eu estamos nos divorciando.

Joey ficou surpreso. Ainda se lembrava do dia em que os dois se casaram em frente ao Central Perk. Foi uma cerimônia simples e muito bonita, com tudo bem organizado pela Monica.

- Nossa, Phoebe, sinto muito. Mas... Por que isso?

- Bom... Eu não sou uma modelo de 25 anos. Não tenho peitos grandes nem todos os outros atributos de uma jovem dessa idade. Portanto, ele foi procurar uma mulher que tivesse todas essas qualidades que eu não tenho. – Ela abaixou a cabeça.

- Phoebe, você tem certeza disso? O Mike não tem cara de fazer uma coisa dessas.

- Mas fez, Joey, ele fez! – Ela levantou o rosto e já não conseguia mais segurar o choro. – Eu peguei ele se esfregando com aquela vagabunda num restaurante! E não era qualquer restaurante, era um caríssimo!

Joey estava estupefato. Nunca vira a amiga naquele estado.

- A última vez que ele me levou pra comer num lugar assim foi quando fizemos 3 anos de casados. E já completamos 10, Joey, 10 anos! Ele não me abraça mais, não me beija mais, nem me olha direito...

Phoebe estava em prantos. Afundou o rosto nas mãos enquanto as pessoas em volta olhavam a cena. Joey, sem saber o que fazer, a puxou para perto de si e deu-lhe um forte abraço. A loira se aninhou no peito dele e ele, meio confuso, começou a acariciar sua cabeça. Eles ficaram assim durante longos minutos até que a mulher se recompôs.

- Desculpa, Joey – ela pediu. – Eu não deveria ter descarregado tudo em você.

- Ei, não se desculpe. Nada disso é sua culpa. E, se quer saber minha opinião, Mike é muito burro de trocar você por uma modelo de 25 anos – ele disse mesmo não confiando muito em suas próprias palavras.

- Joey, não se sinta obrigado a ser gentil comigo.

- Não, eu estou falando sério. Aposto que essa modelo não faz massagens tão bem quanto você ou compõe músicas tão bem quanto você. Mike está perdendo uma mulher incrível e nem se dá conta disso.

Phoebe deu um meio sorriso. Joey não era a melhor pessoa para confortar outra, mas só o fato dele tentar já era bom para ela. Era disso que ela precisava naquele momento: um amigo.

- Obrigada, Joey. Eu não sei o que faria sem você.

- Você sabe que pode contar comigo sempre, né?

Ela assentiu com a cabeça e encarou. Antes, estava tão deprimida que nem tinha reparado direito como os anos haviam castigado o amigo; seu cabelo, antes preto, estava agora cheio de fios brancos e grisalhos, o que, Phoebe admitiu para si mesma, o deixava mais charmoso. Ele também estava com rugas na testa e no canto dos olhos. Até sua voz havia mudado.

Joey também começou a reparar mais nela. Apesar de manter o longo cabelo loiro, o rosto de Phoebe estava bastante diferente. Diversas rugas apareceram ali e aqui. O fato dela estar com os olhos vermelhos deixou-a com o rosto mais envelhecido. Entretanto, nada disso tirava a beleza dela.

Antes que ambos pudessem notar, já estavam chegando perto um do outro. Quando seus lábios estavam a centímetros de distância, Phoebe se afastou bruscamente.

- Preciso ir – ela disse enquanto se levantava e vestia o casaco rapidamente.

- É, é melhor – Joey concordou. – Quer que eu te acompanhe até em casa?

- Não precisa. Tchau.

Ela saiu correndo do Central Perk e, enquanto caminhava apressada pelas ruas de Nova Iorque, ficou pensando no quase beijo que teve com Joey. Estava tão deprimida que quase se deixou levar pelo momento. Não que ela nunca tivesse sentido nada por ele; secretamente, quando os 6 amigos ainda moravam na cidade, Phoebe ficou a fim do moreno durante um bom tempo. Mas como nunca quis botar a amizade em risco, guardou o sentimento para si até que ele fosse embora. Conheceu Mike, casou com ele e, agora que estava se divorciando, quase beijou Joey. Não podia permitir que isso acontecesse. Por isso, ao chegar em casa, aproveitou para tomar um banho quente e relaxar.

Joey voltou ao hotel que estava hospedado em passos lentos. A cena se repetia em sua mente diversas vezes. Não queria se aproveitar da loira por conta da atual situação dela, entretanto, não podia negar que ficou mexido com aquilo tudo. Estava sentado na cama quando decidiu que aquele rebuliço de sentimentos era temporário e, portanto, deveria esquecê-la pois eram apenas amigos.

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Era o penúltimo dia de Joey em Nova Iorque. Após o término das gravações daquele dia, foi se encontrar com Rachel e Ross no Central Perk.

- Phoebe está muito abalada com a separação – disse Rachel. – Pobre Phoebe. Estou com tanta pena dela! E com muita raiva do Mike, também. Nunca pensei que ele pudesse ser tão canalha.

- Mas ela vai superar – disse Ross. – Se conheço bem a Phoebe, ela deve estar compondo uma música sobre isso e, logo, logo, se apresentará aqui, como sempre.

Joey e Rachel concordaram. Ficaram discutindo um pouco mais sobre o assunto quando a conversa foi interrompida pelo toque de celular da Rachel e ela atendeu. Estava com uma expressão séria enquanto falava ao telefone. Assim que desligou, virou para Ross.

- Era do colégio da Emma. Ela entrou em uma briga de novo. O diretor quer que a gente vá pra lá agora pra conversar com ele.

- De novo?! – Ross disse, visivelmente irritado. – Já chega, eu vou tirar qualquer coisa eletrônica dela! Nada de celular, nada de tablet, computador, televisão, vídeo game...

- Sentimos muito, Joey, mas precisamos ir – Rachel disse ao amigo.

- Não, tá tudo bem – falou Joey. – Eu vou ficar por aqui ainda, vou terminar meu café.

Eles se despediram e o casal saiu discutindo do local, deixando Joey livre para mergulhar em seus próprios pensamentos. Não conseguiu tirar Phoebe da cabeça desde a última vez que se encontraram. Aquilo estava enlouquecendo-o. Sempre que tentava pensar em outra coisa, a loira surgia de tal maneira que era impossível não sorrir. Sentia-se um adolescente idiota vivenciando a primeira paixão.

De repente, seus pensamentos foram interrompidos por um “oi” tímido vindo de uma mulher em pé ao lado do sofá em que Joey se encontrava.

- Phoebe! – ele exclamou surpreso. – Eu não esperava que você viesse.

- Resolvi de última hora. Cadê Rachel e Ross?

- Ah, eles tiveram que ir resolver um negócio da Emma. Não quer sentar?

- Não posso. Vou me apresentar agora – ela sorriu.

Joey sorriu de volta. Se acomodou melhor no sofá enquanto Phoebe se ajeitava em um banquinho com um microfone à sua frente. Por fim, pegou seu violão e pigarreou para chamar a atenção de todos.

- Olá, meu nome é Phoebe – ela hesitou antes de falar o sobrenome e, então, decidiu usar o de solteira. – Phoebe Buffay. Faz um tempinho que não toco aqui, por isso, muitos de vocês não devem me conhecer. Mesmo assim, espero que gostem da minha nova música que compus há alguns dias.

Ela começou a tocar o violão.

Você sempre trabalha demais

Chega em casa tarde e exausto

E eu te recebo com amor e carinho

Mesmo não ganhando nada em troca

Mas agora que sei a verdade

Eu desejo do fundo do meu coração

Que os peitos da vagabunda caiam

Junto com o seu pinto

Lalala lalala lalala

Em um primeiro momento, as pessoas se entreolharam confusas. Em seguida, algumas começaram a aplaudir, encorajando outras a fazerem o mesmo. Joey era o que mais vibrava. Phoebe agradeceu e cantou mais três músicas antes de descer.

- Você gostou da minha música nova? – perguntou a Joey.

- É bem... original – ele respondeu.

- Sem querer me gabar, mas eu adorei. Acho que é a mais sentimental que já fiz.

Joey riu e tomou um gole de café. Os dois ficaram alguns minutos em um silêncio constrangedor até que Phoebe tomou coragem e convidou o outro para um passeio. Ele aceitou e, assim que saíram da cafeteria, o ar gélido de dezembro machucou seus rostos.

- Talvez sair não tenha sido uma boa ideia.

- Não é tão ruim. Vamos até o parque nos distrair, venha.

Sem perceber, ele segurou o braço de Phoebe e a arrastou até o parque mais próximo. Caminhavam devagar pela calçada coberta de neve até que resolveram se sentar em um banco. Começaram a conversar sobre tudo, se distraíram e riram um bocado. Phoebe estava se sentindo verdadeiramente alegre em muito tempo.

Em uma breve pausa que fizeram na conversa, Joey se acomodou melhor no banco e olhou para cima. Percebeu, então, que estavam bem debaixo de um visgo. Por um momento, pensou em beijar Phoebe ali mesmo. Mas pensou melhor e decidiu que não valia a pena arriscar. Ficou quieto durante um bom tempo depois disso.

- O que aconteceu? – perguntou Phoebe. – Tá tão calado.

- Nada – mentiu Joey.

Phoebe o observou. Sabia que tinha algo o incomodando. Quis fazer alguma coisa para distraí-lo e começou a olhar em volta.

- Olha, Joey – ela disse. – Eu acho que conheço essa planta. Você sabe qual é?

- É... É um visgo – ele respondeu e, em seguida, olhou fixamente para ela.

Phoebe retribuiu o olhar, mas logo o desviou. – Joey, eu gosto muito de você para estragar nossa amizade assim.

- A gente não sabe se vai estragar se não tentarmos – ele disse. – Phoebe, durante esses dias todos, eu não consegui parar de pensar em você. Não consigo acreditar que o Mike foi capaz de trair uma mulher tão maravilhosa como você. E, pra ser sincero, eu realmente acho que... Eu te amo, Pheebs.

Phoebe não pensou duas vezes antes de puxar o rosto de Joey para o encontro do seu. O beijo tinha um misto de urgência e suavidade, desejo e amor. Estavam aproveitando tanto o momento que nem notaram a neve que começou a cair. Também preferiram não pensar no que aconteceria amanhã, afinal, se tinham certeza de que a amizade era verdadeira, então o amor também seria.

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