Amor.exe: Arquivo Corrompido

3 Capítulo 2: Substituto de ômegas


Scott era um cara de porte atlético, com músculos suficientes para parecer confiante, mas não exagerados a ponto de intimidar. Sua pele morena clara contrastava com os cabelos castanhos escuros, sempre penteados para cima em um estilo espetado que gritava: "Olhem para mim, sou esportista e descolado!" Stiles sabia muito bem que aquele visual fazia parte de um esforço constante de Scott para parecer maior e mais forte do que realmente era — talvez uma tentativa de compensar os anos em que, como um garoto asmático, ele ficava de fora das competições escolares e era o alvo favorito dos valentões.

Agora, no curso de Educação Física, Scott parecia determinado a enterrar o garoto magricela e sem fôlego que era na adolescência. Mas, sob o olhar crítico de Stiles, ele ainda murchava. O queixo levemente assimétrico de Scott — a razão do apelido “Cara Torta” — parecia ainda mais proeminente quando ele ficava desconfortável. E, naquele momento, Scott estava claramente desconfortável.

— Eu falei: de novo? — Stiles enfatizou, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha com perfeição teatral. — O Jackson quer os nossos serviços de novo?

— Pois é... — admitiu Scott, desviando o olhar e passando a mão pelo pescoço, um claro sinal de culpa.

— Ele nem pagou direito da última vez! — Stiles exclamou, levantando as mãos em exasperação.

— Bem, a gente meio que não devia esquecer o que fizemos... — lembrou Scott, a voz hesitante.

— Não começa! — Stiles apontou o dedo acusadoramente. — Não me diga que você tem uma quedinha pelo Jack-Chatonilde-Whittemore.

— N-não! — gaguejou Scott, as bochechas corando como um tomate maduro. — Só que... bem, você fingiu que estava possuído pelo demônio...

— Sim, para assustar aquele alfa metido que o papai do Jack-Jackie queria empurrar pra ele. E eu lembro muito bem! — Stiles abriu um sorriso triunfante, como se recordasse sua obra-prima.

Ah, aquela cena. Que dia glorioso! Uma versão completamente diferente de si mesmo: cabelos longos (uma peruca barata, porque o corte raspado que ele usava era "uma afronta" para um ômega decente), roupas apertadas e sofisticadas — calça de alfaiataria, camisa justíssima, casaco de pele e sapatos brilhantes. Tudo gentilmente emprestado (ou seja, empurrado) pelo próprio Jack. O melhor, porém, não eram as roupas. Era o momento em que o alfa metido ficou branco como uma folha ao ver "Jack" falando em uma língua gutural e sombria, cuspindo detalhes embaraçosos da vida dele — como o fato de ele ter vários amantes betas na empresa do papai alfa.

— E então eu vomitei, entre aspas, aquela sopa de ervilha nojenta. Cena digna do Exorcista, não acha? — Stiles completou, orgulhoso.

— Aquilo foi... bem maneiro — admitiu Scott, dando uma risadinha, mesmo que estivesse tentando parecer sério. — Mas foi por isso que o pai dele quase o internou numa instituição.

— Ele devia me agradecer! — Stiles deu de ombros, pegando uma batata perdida do prato. — Tenho certeza de que aquilo evitou que um monte de outros pretendentes aparecesse na porta dele. Ele sabia que os meus métodos eram ligeiramente excêntricos quando me contratou.

Scott sorriu, porque, bom... ele sabia. Conhecia Stiles desde o maternal e era testemunha viva da capacidade infinita de excentricidade do amigo.

— Tá, mas se ele não gostou, por que me quer de novo? — Stiles arqueou as sobrancelhas, desafiando Scott com o olhar.

— Ele disse que está desesperado. — Scott coçou o pescoço, claramente desconfortável. — Parece que ele tentou de tudo pra escapar desse encontro que o pai dele está forçando.

— Ah, entendi. — Stiles estalou os dedos e apontou para Scott. — Ele quer que eu vá no lugar dele, finja ser o pobre ômega desesperado e assuste mais um alfa riquinho, não é isso?

Scott assentiu, sabendo que Stiles tinha acabado de resumir a situação.

Esse era o trabalho de Stiles. Um bico que ele arrumara para ajudar a pagar as despesas universitárias e, talvez, se divertir um pouco no processo. Em círculos privilegiados como o de Jackson, era comum que ômegas fossem empurrados para casamentos arranjados. O método? Encontros insuportáveis, festas cheias de alfas de "alta estirpe" e pais desesperados para selar alianças que trariam mais fortuna e poder.

Acontece que muitos ômegas não viam isso com bons olhos. Era uma prisão disfarçada de elegância, uma armadilha dourada que os obrigava a ter um alfa-marido ou esposa no seu pé, decidindo o que deviam fazer, como se portar e quem poderiam ser.

E aí entrava Stiles.

Com suas habilidades inatas de ser irritante, atrevido e completamente anti-ômega, ele era capaz de transformar qualquer jantar chique ou festa luxuosa em um verdadeiro pesadelo. Quem poderia resistir a um "pretendente" que usava roupas provocantes, lançava comentários ácidos e ainda parecia mais interessado em assustar todo mundo do que agradar? Stiles sabia ser irresistivelmente insuportável, e isso funcionava todas as vezes.

— Então... — continuou Scott, hesitante. — Você vai aceitar?

— Scott. — Stiles abriu um sorriso tão cheio de autoconfiança que parecia um herói de filme prestes a derrotar o vilão. — Um novo alfa riquinho para espantar? Sabe muito bem que não digo não a um trabalho desses. Mas só aceito se o Jackson pagar o que me deve e ainda um bônus pelo novo serviço.

Scott soltou um suspiro longo, como alguém que sabia que aquilo ia dar trabalho, mas assentiu.

— Certo, eu vou fal...

— Espera aí, Scott. — Stiles estreitou os olhos, desconfiado. — Por que você tá agindo como representante do Jack-Jackie nessa história? Ele mora no mesmo dormitório que eu! Poderia muito bem vir falar comigo direto.

— Bem... — Scott começou, claramente desconfortável, coçando a nuca em um gesto clássico de "estou escondendo algo importante". — A gente tem algumas matérias juntos, então... é mais fácil ele se comunicar comigo.

— Scott McCall, você é um ótimo amigo, mas um péssimo mentiroso. Anda logo, desembucha! — Stiles cruzou os braços e fixou o olhar nele.

Scott soltou um som parecido com um gemido.

— Ele... não quer ser visto com você no campus — admitiu em um sussurro. — Disse que você é um ômega de péssima reputação...

Ah! — exclamou Stiles, triunfante. — Então meus esforços estão dando resultado! Eu tenho uma reputação? E olha que ainda estou no primeiro ano da faculdade!

— Você não deveria ficar feliz com isso — criticou Scott, franzindo o cenho. — Com essa reputação, os alfas...

— Os alfas não vão me querer? — Stiles deu um tapinha no ombro do amigo, rindo. — Só vejo vantagens nisso, Scott! Quem se importa com eles? Agora, quanto ao Jack-Jackie... — Um sorriso travesso apareceu em seus lábios. — Pode deixar que eu mesmo encontro ele. Vamos conversar sobre os detalhes com o nosso querido cliente.

— Stiles... — Scott tentou, lançando um olhar preocupado. — A gente precisa muito desse dinheiro. Não irrita ele, por favor.

— Scott. — Stiles colocou as mãos nos bolsos do moletom e inclinou a cabeça, como um gato prestes a dar o bote. — Se ele está desesperado, então ele que não me irrite.

Antes que Scott pudesse responder, Stiles já estava de pé, pronto para sair. O pobre Scott apenas suspirou, juntando-se a ele, claramente nervoso com o que viria pela frente.

Assim que saíram da lanchonete, o vento frio de novembro os atingiu, carregado com o cheiro de folhas secas e uma pitada de fritura que ainda vinha de dentro. O chão estava coberto de folhas amarelas, laranjas e marrons, e o céu exibia um entardecer alaranjado de arrancar suspiros. Stiles enfiou as mãos no bolso do moletom fino e tremeu, se arrependendo amargamente de não ter pego algo mais quente. Mas, bem... seu casaco mais pesado estava cheio de furos de traça, o que o fazia parecer um queijo suíço.

— Definitivamente, preciso do dinheiro desse trabalho — resmungou ele para si mesmo.

— Você tem ideia de quem é o alfa que você vai precisar assustar? — perguntou Stiles, lançando um olhar curioso a Scott.

Scott, que também tinha enterrado as mãos no bolso do seu surrado casaco de couro, balançou a cabeça negativamente.

— Se tratando do Jackson e do poder do pai dele, dono daquele império de telecomunicações, provavelmente é outro alfa milionário e poderoso...

Stiles assentiu, sentindo um frio diferente no estômago, aquele tipo de excitação que vinha quando você sabia que algo muito divertido (ou muito caótico) estava prestes a acontecer.

— Quanto mais poderoso o alfa — murmurou ele, um sorriso malicioso se formando —, mais divertido é derrubar ele do salto.

Scott apenas revirou os olhos, resignado. Ele sabia que uma coisa era certa: Stiles ia transformar aquele trabalho em um verdadeiro espetáculo.