Amores e Uns Quebrados

2 começando pela metade


Eu diria que o ano onde toda minha transformação sentimental aconteceu foi 2018. Foi um divisor de águas enorme na minha vida, e ainda não consigo dizer se foi por minha causa ou por tudo que rolou involuntariamente. Se alguém aí puder me dizer depois de ler essas histórias, eu agradeço.

Obs.: Quero deixar claro que os nomes que eu vou usar aqui não são os verdadeiros. Poucos serão os que vou revelar — um deles é o meu.

29 de julho de 2018

Foi o dia da maior mancada que eu dei.

Nesse dia eu admiti pro Pedro pela primeira vez que talvez eu estivesse sentindo algo por ele, logo depois dele me dizer que sentia algo por mim. Nós ficamos muito tempo conversando sobre isso naquela noite; mal me dei conta e no dia seguinte ele já estava me chamando de "vida".

Admito, eu disse talvez para ele, mas a verdade é que o que estava sentindo era bem forte — comigo sempre era assim. Hoje todos os meus amigos sabem disso, ainda que naquela época nem eu soubesse direito (haviam motivos).

Foi na casa do Tiago que conheci o Pedro. Ele me chamou pra ensaiarmos algumas músicas pra um encontro de jovens da igreja que seria no quintal dele, e chamou o Pedro pra tocar com a gente. Foi assim que acabamos cantando juntos e fazendo o que eu digo que foi o melhor dueto da minha vida.

Falando um pouco sobre mim, é bom pra contextualizar vocês. Sou completamente apaixonada por música. Canto desde muito pequena, e cresci com um amor muito grande por isso. Ouço muito músicas das décadas de 70, 80 e 90. Isso acaba refletindo um pouco no estilo de roupa que eu uso, mesmo sem querer. Na verdade, reflete na maioria das coisas que eu gosto. Não nego que sou extremamente saudosista, porque definitivamente a maior parte de tudo que admiro veio ao mundo antes de 1990 — e eu nasci em 2001.

E falando sobre o Pedro, ele é um cara realmente incrível. O talento dele para música é inegável e isso ficou claro desde o primeiro dia que nos encontramos, quando eu nem conhecia ele. Só por isso já me chamava a atenção, e aí veio o gosto musical e o estilo extremamente parecidos com os meus, além do fato de ele ser extremamente inteligente e cuidadoso. Mais ainda, sempre o detalhe extra que era meu ponto fraco: o cabelo dele. Comprido até o ombro e tinha o melhor cheiro do mundo.

Não é nada difícil me impressionar por pouca coisa; então imaginem ali, que haviam motivos até demais pra me fazer impressionar. Por isso, desde o primeiro ensaio na casa do Tiago, fiquei com aquele menino na cabeça por dias, com nenhuma coragem pra dizer isso enquanto a gente conversava.

Admito que foi incrível. A sensação de receber quase todo dia um vídeo dele cantando pra mim, ou toda tarde a ligação dele pra falar sobre qualquer coisa, receber todo tipo de mensagem e algum meme sobre paixão era realmente maravilhoso. Não tinha nada melhor do que saber que nós podíamos falar sobre qualquer coisa, porque todo assunto era confortável, dos mais idiotas aos mais sérios ou profundos. Foi um laço de ligação muito forte que se criou em um intervalo mínimo de duas semanas, e eu nem acreditava na minha sorte.

O problema foi ter confessado pro Pedro o que sentia da pior forma possível, dizendo que eu estava confusa. De repente eu estava mesmo, mas as coisas podiam ter sido diferentes se eu avaliasse melhor meus sentimentos.

Por que eu estava confusa? Basicamente, até conhecer o Pedro, era do Tiago que eu estava a fim.

Quarta, 15 de agosto de 2018

Depois de vários dias sem ver o Pedro, ele me chamou pra tomar açaí. Fiquei ansiosa, agitada, sem saber o que esperar se eu aceitasse, afinal eu estava num impasse. Ainda não contei muito sobre o Tiago, porém ele estava numa história paralela a tudo isso que estou contando do Pedro — e esse era o impasse.

Obviamente eu queria vê-lo já fazia tempos, então acabei aceitando no fim das contas. Como eu estudava em período integral naquela época, tinha um horário de almoço. Eu precisaria usar aquele período pra sair da escola e tentar encontrar o Pedro no horário de saída dele — o colégio dele ficava a uns 15 minutos do meu, se eu desse sorte com o ônibus. Arriscaria perder as aulas da tarde se eu não voltasse antes do portão fechar; pra mim o risco valia.

Lembro da expectativa que eu senti minutos antes de sair da escola, porque eu sempre fui meio intensa assim. Pensar em reencontrar o Pedro depois de quase duas semanas e com todo o jogo aberto entre nós dois me deixou ao mesmo tempo nervosa e animada. Assim que saí pela porta tentei me acalmar, afinal só íamos tomar um açaí, o que podia dar errado?

Cheguei no ponto e o ônibus que ia até a escola dele foi o primeiro a passar, graças a Deus. Com o celular na mão e o Google Maps aberto eu fui ficando mais tensa a cada minuto que passava e me deixava mais próxima de ver o Pedro.

Depois de quase me perder e finalmente descobrir onde era a saída do colégio, fiquei na calçada esperando dar o horário. A essa altura, eu já estava quase morrendo de ansiedade.

— Ana!

Quase caí ali mesmo.

— Pedro, oi! Pensei que tinha chegado cedo demais.

— Não, é que hoje demorou um pouco mais pra terminar a aula.

Parecia ter um milhão de alunos passando em volta da gente, e eu era a única estranha ali no meio. Sinceramente, eu nem ligava pra todos me vendo ali. Eu estava na frente do Pedro de novo, e vocês ainda não fazem ideia do quanto isso importava.

— E então, — eu continuei — onde é esse tal açaí?

— Bom, antes, a gente pode ir por ali? — ele apontou numa direção que eu reconheci.

O fato é que no dia anterior, quando combinamos tudo, o Pedro me mandou a foto de uma rua bem perto de onde estávamos. Veio com a seguinte legenda:

"Mano, essa aqui é uma rua lá perto da escola que o povo vai pra ficar na saída kkkkk"

É óbvio que eu não podia ser tão tapada a ponto de esquecer da imagem, afinal era impossível não notar o convite subentendido daquela mensagem. Nenhum problema, já era bem claro que eu queria tanto quanto ele.

Mas também era isso que estava me deixando agitada desde o começo do dia.

Ele pegou na minha mão — o que por si só já era o suficiente pra me deixar nervosa — e se despediu dos amigos muito rápido, já me conduzindo em direção à rua.

— Pedro, você tem certeza? — claramente eu estava nervosa.

Parou bruscamente.

— Não precisamos ir lá se você não quiser. — ele se virou pra mim e me olhou de um jeito quase preocupado. — Pensei que estava tudo bem pra você.

— Não, não esquenta. Eu só fiquei meio nervosa, sei lá. Já faz tempo, você sabe...

— 'Tá tudo bem?

Eu respirei fundo. Não estava tudo muito bem, mesmo assim eu não ia sair correndo agora. Balancei a cabeça num sinal afirmativo, e ele me abraçou pelo pescoço. Continuamos a subir a rua.

Paramos bem em frente a um muro enorme, e não haviam casas ali dos lados, era mais uma rua de passagem, cercada por um terreno bem grande de um lado (o qual estávamos) e alguns portões fechados do outro.

Ali foi onde o Pedro me beijou a primeira vez.

Era um beijo diferente daquele que eu era acostumada. Isso não era ruim, só não pude evitar esse pensamento no primeiro segundo. Até porque cada segundo a mais me fazia lembrar menos do beijo ao qual me acostumei tempos antes.

Algum tempo depois eu me dei conta do horário. Já não daria mais tempo de voltar à escola e nós dois rimos, surpresos por não termos visto o tempo passar. Encostamos na parede e ficamos alguns minutos ali, parados e abraçados, sem falar muito. Depois, finalmente descemos a rua pra tomar açaí.

Pedro não soltou minha mão um segundo até chegar lá. Fez questão de pagar o açaí e até gravou um vídeo meu sem que eu percebesse quando sentamos na mesa. São detalhes minúsculos, mas ainda lembro de todos eles.

Na volta, andamos até a casa dele, que era bem perto dali. Conversamos sobre música, sobre alguns filmes e algumas histórias do passado, até que Pedro ficou um pouco mais recluso.

— Ana, — o ar ficou mais sério e começamos a caminhar mais devagar. — você conseguiu decidir?

— Como assim? — literalmente não havia entendido nem uma palavra.

— Sobre o que você me disse. Sobre estar confusa. Essa história do Tiago.

— Ah... — mais uma vez, eu não tive reação.

Era óbvio que eu havia feito minha cabeça. Eu não estaria ali, de mãos dadas com o Pedro, nem o teria beijado se não estivesse bem claro o que estava decidido. O fato é que ele não sabia disso, e eu mais uma vez escolhi dizer a coisa errada.

— Olha, eu não sei. Eu 'tô feliz agora, aqui, com você. Não soltaria sua mão por nada. É sério. Mas ainda fico mal pensando no Tiago. Sabe, a gente conhece os três lados dessa história, mas ele só sabe sobre você. E eu nem sei como contar.

O olhar do Pedro pra mim parecia um tanto triste, no entanto isso não bateu com sua fala.

— Tudo bem. Depois vemos isso.

Nós voltamos a andar e de alguma forma ele retomou as conversas animadas que tivemos antes, até chegarmos frente a uma travessa de uma avenida que eu já conhecia.

— Minha casa fica descendo essa rua. — Pedro apontou para baixo em direção a um portão branco. — Você consegue voltar daqui sem problema?

— Consigo sim, não precisa se preocupar.

— Isso é meio impossível. Eu espero seu ônibus contigo.

Mais alguns minutos conversando e deu o tempo do ônibus chegar ao ponto onde estávamos sentados.

— Obrigada de verdade.

— Foi um dia bem incrível. — e com um sorriso e último beijo, ele se despediu de mim.

Não tinha como eu estar mais feliz que aquilo. Minha cabeça girava, nas nuvens. O perfume do cabelo dele ficou na minha blusa e eu coloquei o fone no celular com a playlist que montei com as músicas que nós dois mais ouvíamos juntos. O sol até apareceu mais no céu no caminho para casa, enquanto eu pensava sobre tudo que tinha acontecido naquela tarde.

Tudo teria ficado perfeito, não fosse por um detalhe: olhei pela janela e vi que passava pela região onde morava o Paulo. Afundei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.