Amores Roubados
21 Capítulo 21
Robin caminhava com passos largos e precisos através do parque. O recado o assustou. Regina, querendo se encontrar com ele? Era a coisa mais atípica que lhe acontecera nos últimos dias. De acordo com os últimos encontros entre eles, as coisas estavam vulcânicas. À beira de uma explosão violenta.
Com as mãos dentro dos bolsos do moletom, ele olhou ao redor para ter certeza de que não havia nenhum conhecido por perto. Mesmo vestido com o capuz do moletom, óculos aviador e um boné, ele ainda se sentia facilmente reconhecível. Dobrando a terceira curva da ala oeste, a avistou.
Sentada sobre um banco, ela usava jeans e botas até o joelho, cobertas por um casaco vermelho. O pescoço estava enrolado em uma echarpe verde esmeralda.
“Ei.”
A voz dele a alertou e ela se levantou, com as mãos nos bolsos do casaco. Ele sorriu discretamente para ela, mas ela não sorriu de volta. Seu semblante era de preocupação. Ela se adiantou, aproximando-se dele.
“Eu deixei o Roland na sua casa esta tarde, e falei com a Marian. Porque não me disse que ela sabia de tudo, Robin? Porque não me disse que estão se separando?”
“Calma, o que aconteceu?”
“Ela sabe de tudo, Robin. Como pode contar a ela e sequer me avisar?”
“Ela disse alguma coisa?”
“Ela não precisou.”
Ele olhou para aqueles olhos, amendoados e marejados na sua frente, e quis abraça-la.
“Eu não contei nada para ela. De fato, ela me perguntou. Chegou até a implorar pela verdade. Eu menti para ela. Disse que simplesmente não sabia o que havia de errado.”
Regina cruzou os braços, e baixou o olhar.
“Nós cometemos um erro.”
“Você não fez nada além de tentar me afastar. De tentar fazer a coisa certa.”
“Não fui convincente o suficiente.” Eles trocaram um olhar curto, porém carregado. “Isso tudo me assusta, Robin. Um dia, minha amiga me diz que eu deveria ficar com você e no outro o seu casamento acaba sem que você me conte nada. Eu não sei onde você está, eu não sei o que acontece dentro de você.”
“Você me conhece, apesar do pouco tempo, Regina.”
“Eu não sei nem se eu me conheço, dear. Muito menos se conheço você.”
“É por isso que você se casou com a Marian. Ela consegue ver através do seu coração, assim como eu vejo através do David.”
“Gina, meus sentimentos por você não mudaram e não vão mudar. Mas você é casada, e quer permanecer casada com ele. Eu entendo.”
Regina olhou para os lábios dele por dois segundos.
“Você a quer de volta?”
“Você não precisa que eu responda isso. Eu estava casado, mas não era o melhor marido do mundo, porque passava o tempo todo pensando em como seria minha vida com você.”
“Robin... eu disse que não ia acontecer nada.”
“Eu sei. E provavelmente não vai mesmo. Mas eu não consigo me desfazer da fantasia de que isso poderia se tornar realidade. E eu preciso contar a ela.”
“Contar o quê para ela? Sobre mim?”
“Ela precisa saber a verdade. Ela tem o direito de saber que o problema não é ela, e que ela não fez nada de errado. Que não há nada que ela poderia ter feito.”
“E o que nós fizemos?”
“O que nós fizemos? Nós nos beijamos uma vez. Ela não precisa saber disso.”
“Mas ela vai descobrir, Robin. E vai querer saber quão longe as coisas foram e quando. E você vai acabar mentindo ainda mais, ou vai acabar contando tudo para ela.”
“Você está preocupada com o seu casamento?”
“Claro que estou.” Respondeu ela, se afastando dele. A dois passos dele, ela se virou novamente. “Se você quer fazer uma mudança na sua vida, Robin, faça. Mas não machuque as pessoas que amam você.”
Sentado no balcão da Granny, David bebia distraidamente quando Robin sentou-se ao seu lado.
“Ainda está aqui?”
David sorriu para ele, entorpecido pelo tanto que já havia bebido.
“Talvez a noite toda!”
“Por quê? Problemas com a prefeita?”
“Ex-prefeita, Robin. Olhe para os seus índices de voto. Você a venceu. Ela está indomável.”
Robin acenou para que lhe trouxessem um caneco também. Ele brindou sua caneca contra a de David.
“A alegria de uns é a tristeza de outros. Ela vai superar.”
“Vai ser bem difícil.”
“Ah, como assim? Vai dizer que a excelentíssima prefeita não sabe perder?! Ela pode se candidatar novamente daqui a alguns anos!”
David bebeu um gole longo da sua caneca. Ele limpou os lábios com a face posterior da mão. Lentamente, se virou para Robin.
“Tenha mais cuidado com a minha mulher, Robin. Ela está perdendo uma relíquia familiar. Discutimos tantas vezes hoje que nem consigo contar. Regina está segurando suas emoções como pode. Mas eu a conheço. Ela está desmoronando.”
“Relíquia familiar?”
“É... vou te contar uma história.”
Flashback on
“Regina tinha 12 anos quando sua mãe tornou-se prefeita. Eles moravam em uma cidadezinha no Condado do Maine. O outro candidato misteriosamente aparecera morto, pouco antes das eleições. Houve muita investigação na época, mas não havia nenhuma prova que ligasse Cora ao crime. Portanto, legalmente, ela recebera o cargo.
Cora era uma mãe abusiva. Queria que Regina estudasse política, que se tornasse presidente do país, ou uma senadora influente; obrigava a filha a ter aulas extensas de economia, de história da constituição, da história da colonização, de relações internacionais. Regina odiava. Odiava toda e qualquer coisa relacionada com política. Mas era obrigada.
Por outro lado, seu pai a tratava como um pequeno tesouro. Henry a levava para andar a cavalo, para correr pela montanha, para ter aulas de arco e flecha, jogar futebol, ter curso de tiro – aquilo que Regina sentia vontade de fazer e conhecer, seu pai providenciava. Ele ouvia seus desabafos e vez após vez se colocava entre Regina e Cora, protegendo a filha dos ataques da esposa.
Cora era uma vadia exigente, mas fora majestosa como prefeita. Ela realmente fez com que a cidade crescesse e prosperasse. Gerou renda, gerou empregos e triplicou a economia. As pessoas realmente a admiravam. Gostavam de tê-la como autoridade. Ela parecia justa e focada. Entretanto, houve o segundo mandato.
Na época, Regina tinha 16 anos. Sua mãe transformou-se. De uma vadia exigente, Cora evoluiu drasticamente para uma tirana insensível. Aliou-se a partidos extremistas. Começou a mandar as pessoas para a prisão por motivos ridículos e temperamentais. Exigia uma tributação exacerbada, congelava bens materiais, fiscalizava as pequenas economias de famílias pobres. A cidade toda estava em pânico, e temia por sua vida. Onde Cora pisava, o temor era mortal.
Regina sentia-se desprotegida. Sentia-se mal pelas pessoas oprimidas por sua mãe. Sabia como essas pessoas se sentiam. Ela estudava coisas que não queria, vestia roupas que não gostava. Namorava um cara que odiava, simplesmente porque sua mãe achava que namorar um filho de senador era um truque que valia a pena. Ela sabia o que era ser destruída por Cora. Mas o que ela podia fazer? Tinha 16 anos!
Seu pai tomou a iniciativa. Colocou-se contra Cora. Investiu em partidos da oposição, uniu-se ao povo. Lançou sua campanha; e tinha realmente o apoio da cidade toda. Mas ele nunca quis ferir Cora. Ele queria apenas proteger as pessoas. Queria que as pessoas se sentissem seguras novamente. Mas Cora não tinha limites.
Uma noite antes do debate, ela drogou Henry e tentou drogar Regina, mas Regina conseguiu enganá-la. Para a sua infelicidade, eu diria. Naquela noite, ela viu a própria mãe apunhalar seu pai. No peito. Ela temeu por sua segurança. Entretanto, no outro dia, acusou a mãe. Disse-lhe que tinha assistido tudo, que ia contar à cidade toda o que ela tinha feito. Que ia vingar o pai. Mas o corpo de Henry sumiu, e a polícia nada podia fazer. Cora trancou Regina em um colégio interno fora do país, e ela só retornou quando fez 20 anos.
Nessa época, Cora já tinha morrido. Regina estudou por mais algum tempo, fez amigos, namorou, conquistou uma vida aqui em Storybrooke e se tornou prefeita. Você talvez se pergunte por que ela faria isso, depois de tudo o que aconteceu. Por isso que eu disse que ser prefeita era uma relíquia familiar para ela. Ela encara isso como terminar o que seu pai começou. Ela é prefeita porque quer que as pessoas de Storybrooke nunca se sintam como os cidadãos de sua antiga cidade. Porque ela acredita que as pessoas mereçam sentirem-se seguras, mereçam ter uma pessoa que cuide da cidade e não que tente extorquir tudo o que a cidade possui para si mesma. Ela é prefeita para fazer exatamente o oposto que sua mãe fazia, para fazer aquilo que ela confia cegamente que seu pai faria se estivesse em seu lugar.
Regina é durona, Robin. Ela não se permite chorar na frente de ninguém, não se permite ser derrotada. Você a derrotar é uma novidade para ela, e ela está lidando com isso de uma maneira bem catastrófica. Ser prefeita é tudo para ela. Significa uma vida. Eu sei, eu não ajudei muito me engraçando com outra mulher enquanto ela estava com esse circo na cabeça. Fui otário demais. Mas agora preciso cuidar da minha esposa, porque ela definitivamente vai precisar. ”
Flashback off
Quando David terminou de falar, Robin estava com a garganta seca. Ele nunca, em toda a sua mísera existência, em toda a sua ínfima alma ia imaginar que aquele era o passado da fantástica Prefeita Regina. Que ela escondia tanta dor, tanto sofrimento por trás daqueles sorrisinhos maldosos e os vestidos apertados. Regina era uma muralha, linda e esculpida, em volta de um tesouro inestimável.
Robin bebeu um longe gole da sua caneca, pensando em tudo que fizera a ela, em tudo que ela fizera a ele, as farpas trocadas, as brigas, os ataques políticos. Saber que ela não era apenas uma vadia arrogante mudava as coisas drasticamente. E saber que Regina tinha motivações tão nobres era assustadoramente reconfortante, mas ao mesmo tempo, uma carga enorme de remorso.
Ele não queria mais aquilo. Não queria tirar a prefeitura dela. Que motivos ele tinha? Nenhum nobre. Ele primeiro decidira concorrer para provocá-la, e depois para fazer a diferença. Mas no final das contas, os motivos dela eram demasiadamente melhores. Puros. Nobres. Robin bateu a caneca contra a caneca de David, e sorriu.
Não importava o que fosse acontecer, ele só tinha uma certeza agora.
Precisava falar com ela.
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