“Como?” Ela sorriu para ele.

“Quero te conhecer por inteira.”

Ele afastou-se dela, e sentou-se no sofá com as costas eretas. Ele bateu com a mão no colo, e ela engatinhou até ele, deitando a cabeça em seu colo e esticando o corpo pelo sofá confortável. Robin debruçou-se e beijou-a delicadamente, limpando as lágrimas que restavam na área dos olhos dela.

Ele colocou os pés sobre a mesa de centro, assumindo uma postura confortável.

“Eu não sei o que quer que eu fale Robin.”

“Eu quero que se abra, love.” Ele sussurrou, acariciando os cabelos dela. Um toque delicado e gentil.

“Como se estivesse no divã?”

“É, algo assim.”

“Tudo começou em...”

“Desse jeito não, Regina.”

Ela riu, e ele beliscou o antebraço dela, de leve.

“Tudo bem. Eu leio A arte da Guerra porque era o livro de cabeceira da minha mãe. Sei que parece loucura. Mas ela tinha muita inteligência política. Minha mãe era a melhor estrategista que já conheci. Talvez a mais malvada também, mas ainda sim a melhor. Eu leio esse livro desde os oito anos de idade.”

Robin continuou acariciando o cabelo dela, enquanto Regina olhava para o teto, em busca de um ponto fixo no qual instalar seus pensamentos.

“Eu gosto de maçãs, mas todo mundo sabe disso. Eu odeio maçãs verdes. Eu tenho paixão por cavalos, mas tenho trauma desde que minha mãe matou o meu cavalo com machadadas na minha frente. Eu chorei tanto nesse dia. Queria que ela tivesse me matado a machadadas. Eu estava tão infeliz. Meu pai tentou contornar a situação, disse que me compraria outro cavalo, ainda mais bonito. Mas eu sabia que ela mataria o outro também. Ela mataria todos. O que minha mãe queria, era isso que ela obtinha. Eu era só mais um ponto na lista de tópicos dela.”

“Credo, Regina.”

“Eu nunca tive uma boa relação com a minha mãe. Eu vivia uma merda de vida, eu era obrigada a fazer tudo o que eu não queria, eu era obrigada a ser quem eu não era, eu era obrigada a vestir roupas ridículas e colares de pérolas e sorrir para velhos políticos que passavam as mãos nas minhas pernas quando ela estava longe. Era nojento e doentio, e eu não queria aquilo para a minha vida. Mas minha mãe nunca quis saber o que eu queria. Não importava.”

Ela engoliu em seco e Robin entrelaçou seus dedos nos dedos dela. Regina levou-os à boca e beijou-os delicadamente, antes de começar a falar.

“As únicas lembranças bonitas e felizes da minha infância são as que eu tenho com o meu pai. São as caminhadas pela floresta, são as lembranças dele me ensinando a atirar, a usar o arco e flecha, de nós cavalgando pelo matagal. Lembranças de dormir no colo dele enquanto eu chorava de raiva por qualquer merda que minha mãe havia feito. Eu sinto tanta falta da maneira como ele acariciava meus cabelos e beijava o topo da minha cabeça. Eu me sentia amada. Era o único momento em que eu me sentia amada. Em que eu me sentia uma pessoa.”

A esse ponto, as lágrimas haviam voltado. Robin beijou a ponta do nariz dela, e encostou a cabeça contra a dela.

“Se quiser parar de falar, tudo bem. Não quero te forçar a mexer no passado, milady.”

“Não... Você tinha razão, eu preciso me abrir. E eu quero que seja com você.”

Ele beijou-a demoradamente nos lábios.

“Ela era uma tirana, era um monstro. Mas meu pai era meu salvador. Ele estava sempre lá para cuidar de mim. Para me dar uma saída. Só que o segundo mandato chegou, e nós não tínhamos mais como aceitar o que estava acontecendo. Havia pessoas morrendo, havia fome, havia injustiças e crimes. As pessoas nos odiavam, por causa dela. As pessoas morriam o tempo todo. Minha mãe estava cada dia mais exigente. Ela me trancava por horas e horas. Exigia que eu estudasse aquela merda de política. E foi por causa dessas merdas de estudos que eu sugeri que meu pai concorresse. Eu sentenciei meu pai á morte. Por que? Por que eu não fiquei quieta? O que ele conseguiu com isso? O que eu fiz? Eu o tornei um inimigo dela. E ela destruía todos os inimigos. Eu matei meu pai.”

“Regina, pelo amor de Deus! Isso não é verdade. Foi ela que o apunhalou, não você.”

“Eu devia ter me tocado. Meu pai era adorado pelo povo. Ele estava em perfeitas condições de tomar o poder das mãos dela. Cora Mills nunca perdia, e eu subestimei esse fato. Subestimei a inteligência dela. Subestimei as intenções dela, até vê-la enfiar aquela adaga no peito dele. Eu queria ter tomado aquela merda de sonífero. Desejei nunca ter jogado fora. O gemido do meu pai foi a coisa mais horripilante que já ouvi na face da terra. E ele me viu. Suas últimas palavras foram Regina.”

“Regina, chega. Chega de falar disso.”

“Você não faz ideia do medo que eu passei, todos os dias. Eu tinha certeza que em algum momento, ela viria até a minha cama e me mataria também. Eu não conseguia fechar os olhos sem lembrar do meu pai, sem vê-lo com o peito apunhalado e sussurrando meu nome antes de morrer. Foi torturante. Eu estava enlouquecendo, e quando disse a ela que sabia o que ela tinha feito, que ia contar a polícia – ah, as coisas ficaram muito piores. Ela zombou de mim. Riu da minha cara quando eu disse que vingaria meu pai. Ela fez eu me sentir a mais impotente e inútil de todas as pessoas. Fez eu me sentir culpada. Destruiu tudo o que poderia parecer com esperança dentro de mim e me despachou para aquela merda de colégio interno.”

“Você é uma pessoa excelente, Regina. É disso que deve se orgulhar.”

“Eu só queria ter a oportunidade de pedir desculpas a ele. A culpa foi mesmo minha. Eu jamais deveria ter sugerido que ele concorresse.”

“A culpa não é sua. Podemos falar de outra coisa? Que não seja sua mãe, nem seus ex-namorados.”

Ela sorriu, mas os olhos estavam marejados e vermelhos.

“Desculpa. Meu passado me machuca muito.”

“Eu notei. Minha mãe se chamava Grace. Era uma senhora muito bondosa, porém não tínhamos muitos meios de vida. Meu pai era um bêbado imbecil que às vezes aparecia em casa. Mas ele nunca cuidou dela. De fato, às vezes ele aparecia para tomar dela o pouco dinheiro que ela conseguia com os animais que possuíamos. Minha mãe sempre foi muito paciente com ele. Não sei se ela o amava, ou ela era assim com todas as pessoas. Eu nunca soube. Eu só sei que um dia ele ergueu a mão para machucá-la e eu o soquei até que minha mãe implorou que eu parasse. Ele nunca mais voltou.”

“Robin, eu não fazia idéia.”

“Por muito tempo na minha vida, eu acabei seguindo o mesmo caminho que ele – exceto pela parte em pegar o dinheiro da minha mãe. Me enfiava em bares, enchia a cara e ficava bagunçando por aí com um bando de vagabundos. Foi assim que me envolvi naquele roubo.” Ela o fitou. “Minha mãe nunca desistiu de mim. Mesmo quando eu fazia tudo errado, ela estava lá, esperando por mim. Eu tenho muito a agradecer. Se não fosse por ela, eu não estaria aqui hoje.”

“E você não sente falta do seu pai?”

“Daquele bêbado oportunista? Com certeza não.”

“O pai do David é o mais próximo que eu tive de uma família novamente, entende? Você nos viu juntos na Grannys e na festa. Ele é um homem bom, e cuidou de mim desde o momento em que me conheceu como namorada do David. E eu sou grata a ele, sabe? Por ter me deixado ser parte da família deles. Eu era muito solitária.”

“O David também é um bom homem, Regina. Ele me garantiu que se eu não cuidasse de você, ia me socar os dentes.”

“Vocês conversaram sobre mim?”

“Há muitas pessoas que se importam com a sua felicidade.”

“O pai dele também nos apoia.”

“Ele torce contra o filho dele?”

“Ele é a favor da minha felicidade.”

Robin debruçou-se e beijou-a novamente.

“Continue falando.”

“Eu gosto de saltos altos porque me sinto muito baixa perto dos homens ao meu redor. Rabisco citações de filósofos toda vez que estou apreensiva, e adoro jogar xadrez. Não tenho paciência para praticar ioga, pilates ou qualquer coisa que eu precise ficar parada à toa. Acho o seu filho a coisa mais adorável desse mundo, e amo o filho da Emma Swan, apesar dela ser um tanto intragável.”

“Preciso concordar.”

“Acho a Ruby extremamente atraente.”

“Quê?”

“Não é pra eu dizer o que eu sinto?”

“Tudo bem.” Resmungou ele, sorrindo.

“Eu adoro a maneira como você me olha quando eu entro em um lugar, é como se o mundo ao seu redor desaparecesse, e estivéssemos só você e eu. Eu adorei cada centímetro dessa casa. Eu tenho dificuldades em deixar as pessoas se aproximarem, e as vezes eu sequer percebo quando estou as afastando de mim. Eu ainda fico um tanto chocada quando lembro de como encontrei a Ruby no apartamento. Eu adoro as músicas do Black Keys, realmente. Eles tem um timing perfeito. E se quer saber, I Do talvez seja a nossa música. Ou Fallin for you, ou Bubbly. Vou deixar você escolher.”

“Preciso ouvir para saber.”

“Eu ainda não acredito que o David ficou com a professorinha.”

“Você está com ciúmes?”

“Não é ciúmes, é... sei lá, choque. Ciúmes foi o que eu senti quando soube de você e da Zelena.”

“Não teve significado nenhum.”

“Sei.”

“Eu estava com raiva de você depois da nossa discussão na porta do mercado, ela me deu mole...”

“Que justificativa mais absurda.”

“É passado.”

Ela levantou-se e ele ficou apenas observando enquanto ela se remanejava no sofá, sentando no colo dele com as pernas atravessadas para o outro lado. Uma das mãos dela subia pela sua nuca, acariciando lhe o cabelo com carinho enquanto a outra roçava delicadamente a barba por fazer.

“No momento, eu me arrependo profundamente de uma coisa.”

“Do quê?” Indagou ele, curioso.

“De não ter lhe dito desde o começo que eu te amo. Que você é tudo que eu preciso, tudo o que eu quero e que eu não me importo em acordar todos os dias e vê-lo deitado ao meu lado. Eu quero que seja meu, Locksley. Para sempre.”

Robin enfiou a mão na nuca dela e a puxou para um beijo apaixonado. Sua outra mão descansava sobre as costas dela, apenas acariciando-a timidamente. Ela puxou a camiseta dele com força e sussurrou contra os lábios dele.

“Eu sei que você disse que não é isso o que quer de mim hoje, mas por favor, faça amor comigo. Eu preciso me sentir amada.”

Notas finais
Eu sei o que vocês vão dizer: Porra, parou justo aí? Quero sexo, quero amor, e outras coisas. 1) Pode me xingar um pouquinho só. 2) Tenham amor por mim. Foram 3 capítulos em uma noite. Eu mereço uma trégua. Eu juro que o 45 chega muito, muito em breve. ♥