Notas iniciais
HOJE A NOITE É DE TIROS ♥

“Regina?”

“Eu posso entrar?” A voz dela estava titubeante, incerta da resposta dele. Mas ele podia perceber, olhando para os lábios arroxeados dela, que ela estava com frio.

“O que estava pensando? Está chovendo muito! Você quer se matar?”

Ele a segurou pelos braços e a trouxe para dentro, fechando a porta atrás de si.

“O que você tem na cabeça, Regina? Você veio até aqui andando? Nessa chuva?”

Ele começou a tirar a jaqueta dela, jogando-a no chão.

“Você vai ficar com hipotermia, Regina. Por que fez isso?”

“Porque eu precisava falar com você. E precisava ser hoje.”

“Pelo amor de Deus, Regina! Você me deixa louco!”

Ele apoiou-a na suas costas, e começou a tirar-lhe as botas de cano alto. Ela apenas assentiu, em silêncio.

“Fique aqui, vou buscar toalhas.”

Ele deu alguns passos, mas voltou-se para ela. Ela conseguia ver a irritação irradiando dele para a sala toda.

“Tive uma ideia melhor. Você toma um banho, coloca uma roupa seca e então a gente conversa.”

“Eu não trouxe roupas.”

“Você escolhe alguma coisa do meu guarda-roupa.” Ele colocou a parte posterior da mão sobre a testa dela. “Pelo amor de Deus, Regina. Você está quase azul.”

Ele a pegou pela mão e a guiou para dentro do seu quarto. Levou-a até o banheiro, e depois foi até o quarto, pegando algumas toalhas e trazendo até ela.

“Aqui estão as toalhas” Disse ele, colocando-as sobre a pia. “Você pode vestir o que quiser. Eu vou cozinhar alguma coisa para nós jantarmos.”

“Robin.” A voz dela saiu fraca e ele pressentiu que ela ia começar a chorar a qualquer momento. Ele segurou a mão dela, e então deixou que uma mão deslizasse pelo canto do rosto dela até atingir sua nuca. Ele estava incrivelmente próximo á ela quando seu polegar roçou pelo rosto dela e eles trocaram um olhar demorado, em silêncio. Robin debruçou-se e beijou a bochecha dela demoradamente.

“Tome seu banho primeiro. Você foi muito inconsequente em vir até aqui nessas circunstâncias. Não quero que pegue uma pneumonia ou algo tão sério quanto. Temos muito a conversar, não tenha pressa.”

E no segundo seguinte, ele já estava saindo pela porta do quarto.

Robin estava colocando a macarronada sobre a mesa, e terminando de arrumar os talheres sobre a pequena mesa quando a viu descendo pela escada central vestindo uma das suas camisas sociais. Estava linda, e incrivelmente sexy, porém aquele olhar ferido e a ausência de sorriso o lembraram do motivo de ela estar ali. Nada para ser comemorado.

“Fiz macarrão, não sei se você vai querer.”

“Eu estou faminta, pode ser macarrão.”

Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse.

“Vinho, suco ou água?”

Ela levantou o olhar para ele, e ele sorriu.

“Vinho, então.” Concluiu ele, preenchendo a taça com o líquido viscoso.

Robin sentou-se de frente para ela. Ela comia delicadamente, em silêncio. Mas ele sabia que a cabeça dela estava maquinando um milhão de coisas. Cozinhando pensamentos. Regina nunca parava de lapidar argumentos, deixando-os brilhantes e lustrosos para serem utilizados quando conveniente.

“Está bom?”

Ele começou a comer, sem tirar os olhos dela.

“Sim.”

E ele sorriu, pois ela sequer levantara os olhos para responder. Mesmo irritado com ela, ele tinha de admitir – Regina era dura na queda. Ela não ia falar muita coisa, então ele decidiu jantar calmamente e deixar a conversa para depois.

Ela estava em pé perante a parede de vidro frontal que dava acesso ao jardim dos fundos quando ele voltou. Pelo cheiro de hortelã, sabia que ele tinha ido escovar os dentes logo após enfiar a louça na maquina. Prevísivel, Locksley.

Ele parou no batente da porta, e ela sabia que ele estava a observando. Exatamente por isso, ela não se virou. Continuou olhando a chuva que caía incessante lá fora. A chuva que a abraçara enquanto ela passava e repassava o que ela queria ter dito quando ele abriu a porta. Infelizmente, naquele momento, sua própria mente a trapaceou e ela ficou paralisada, e a única coisa que seus lábios conseguiram proferir foi “eu posso entrar?”.

“Regina.”

Ela virou-se e ele ainda estava lá, em pé, contra o batente da porta.

“Sim?”

“Você veio até aqui para conversar, certo?”

“Exatamente.”

“Pois vamos conversar.”

Ele entrou na sala de dois ambientes com passos curtos, e sentou-se em uma das extremidades do sofá, colocando os pés no estofado. Regina caminhou também até o sofá, sentando-se na outra ponta, sentando-se nas próprias pernas. Ele tirou um controle do bolso do moletom e apertou alguns números, fazendo a lareira acender-se instantaneamente.

“Robin, eu...” Ela olhou para a lareira, tomando fôlego. Aquilo seria mais difícil do que ela pensava. “O que você quer de mim?”

“Você.” Ele a encarou, e ela não desviou o olhar.

“Então porque está dificultando as coisas?”

“Não estou dificultando nada, Regina. Só quero que as coisas sejam feitas da maneira certa.”

“E me afastar é a maneira certa de começar um relacionamento?”

“Transar com você no banheiro de um café também não é.”

Ela revirou os olhos.

“Você fala como se tivesse sido um grande esforço para você. Um sacrifício.”

“Não é isso. Eu faria aquilo de novo, e de novo e de novo. Eu jamais vou me cansar, Regina. Mas temos de concordar que não existe maneira ‘certa’ entre nós desde que tudo isso começou.”

“E porque você está tentando corrigir isso agora?”

“Porque antes eu não sabia o que queria, eu acho. Portanto, sexo estava ótimo. Era ótimo, era gostoso, ponto final. Mas eu estou apaixonado por você. E apesar do sexo ser excelente, não quero só isso.”

“Nem eu quero só isso de você, Robin.”

“Ah é?” Brincou ele, mas ela sentiu o sarcasmo em cada sílaba. “E o que você tem feito por nós, além de brincar com o meu tesão?”

“Robin, você é bem adulto. Fez o que queria, eu fiz o que queria. Ok.”

“O que você sabe sobre mim, para começar?”

“Como?”

“Sabe minha cor favorita? O que gosto de ler? O que penso sobre política, sobre filhos, sobre a vida, sobre dinheiro? Minha música favorita? O nome dos meus pais?”

“Só por que eu não sei algumas coisas a seu respeito, não quer dizer que eu não te ame de verdade Robin.”

“Sua cor favorita é preto, embora azul e vermelho sejam extremamente frequentes. Você lê Osho diariamente, e seu livro de cabeceira é A arte da Guerra. Você tem uma visão aguçada politicamente, e embora seja completamente inescrupulosa para manter sua posição, é imparcial e justa quando se trata da administração da cidade. Você tem uma paixão pela vida que é invejável, e uma resiliência incomum. Você sorri mesmo quando tudo está desmoronando, e isso requer uma força extraordinária, mas você faz como se fosse indolor e simples. Não tem filhos, mas adora crianças e tem instinto materno de sobra. Sua música favorita é Tighten Up, dos The Black Keys, mas você suspira toda vez que toca I Do, da Colbie Caillat. Seus pais se chamavam Cora e Henry. Seu cabelo é um reflexo do seu humor, e você veste branco toda vez que quer impressionar alguém.”

Regina o encarou com os lábios semiabertos, respirando pesadamente.

“Isso é conhecer um pouquinho de alguém, Regina. Não que você tenha me dado tal abertura.” Ele revirou os olhos e sorriu para si mesmo. “Você nunca me contou nada disso. Eu descobri, seja observando você, seja pesquisando a seu respeito.”

Ela engoliu em seco, e entrelaçou seus dedos uns nos outros, nervosamente.

“Eu... Tudo bem. Talvez eu seja um pouco fechada.”

“Um pouco? Regina, Roma era um pouco fechada. A muralha da China é um pouco fechada. Você criou barreiras impenetráveis ao seu redor, e briga com aqueles que não conseguem atravessá-las.”

“Mas você conseguiu, não?”

“Eu consegui espiar por cima da barreira, isso é bem diferente.”

“Robin, porque está fazendo tudo isso?”

“Ah, Regina. Quanto tempo você vai demorar pra entender? Estamos aqui conversando, tentando nos entender porque eu quero ficar com você, sua insuportável. Eu quero você. Eu quero passar todos os meus dias do seu lado. Mas pra isso, as coisas precisam mudar. Nós precisamos consertar o que está dando errado. E sem conversar, vai ser impossível fazer isso.”

“Eu estou cansada de brigar.”

“Você acha que eu gosto de brigar com você? Eu tenho vontade de socar pessoas, de esmurrar paredes, de gritar, de xingar... Você acha que eu gosto disso? Eu quero que as brigas acabem. A única briga que eu quero ter com você é a respeito de que filme vamos ver ou o que vamos jantar. Nada mais.”

“Me desculpa.”

Robin ergueu as sobrancelhas, surpreso.

“Quê?”

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

“Me desculpa, Robin. Por não ter te escolhido de uma vez. Por...” As primeiras lágrimas começaram a cair pelo rosto dela. “Por não ter confiado em você. Por todos os xingamentos, por todas as insinuações, por todas as acusações injustas.” Ela continuou chorando, a voz saindo um tanto tremula. “Desculpa por ter me fechado e te deixado do lado de fora. Me desculpa se eu coloquei os sentimentos do David acima dos seus, se eu fui arrogante, soberba ou até mesmo vil.”

Ele sentiu um nó formando-se na sua garganta. Não queria vê-la sofrer. Não mais. Sorrateiramente, ele engatinhou pelo sofá e aproximou-se dela, limpando as lágrimas que umedeciam a maçã do rosto dela com o polegar.

“Me desculpa se não assumi que estava apaixonada por você. Me desculpa por ter acreditado nas mentiras das outras pessoas. Eu sei que eu errei muito, muito mesmo. Eu nunca devia ter destruído a sua reputação daquele jeito. Eu fui egoísta demais. Eu só pensei em mim, e eu subestimei o que você sentia por mim.”

Ele limpou as lágrimas com o polegar, e deixou que o polegar deslizasse sobre os lábios dela. O rosto dela era comovente, a dor tão bem desenhada em suas expressões.

“Me desculpa por te amar, Robin. Eu não queria ter nos metido nessa confusão.”

Ele colocou o polegar sobre o lábio dela, e segurou-a pelas duas laterais do rosto.

“Nunca mais peça desculpas por me amar.”

Ela estava chorando novamente.

“Robin.” A voz dela saiu em um sussurro doloroso.

“Eu te amo.”

Robin deixou que seus dedos tocassem a nuca dela, puxando-a para um beijo forte, porém apaixonado. Ele se moveu pouco, as mãos acariciavam os cabelos e o rosto dela enquanto ele a beijava com toda a paixão que o consumia por dentro. Ele sentiu as lágrimas dela contra o seu rosto, e afastou-se dela, beijando-a delicadamente sobre as pálpebras fechadas, sobre a ponta do nariz, sobre a testa e então beijando-a novamente sobre os lábios.

Ele sentiu no exato momento em que ela colocou a mão sobre os primeiros botões da camisa que usava, e antes que ela desabotoasse a primeira casa, ele segurou os pulsos dela.

“Não.”

Ela olhou nos olhos dele, insegura.

“Você não me quer?”

Robin delicadamente pousou as mãos dela sobre seu pescoço. Eles estavam incrivelmente próximos um do outro, era quase palpável a respiração alheia.

“Não me leve a mal. Seu corpo é a oitava maravilha deste mundo. Mas eu já o vi, várias vezes. Hoje eu quero que você me mostre outra coisa.”

“O quê?” Perguntou ela franzindo o cenho.

“Eu quero ver a sua alma, Regina. Fique nua pra mim.”