“Eu preciso de roupas!”

Regina olhou para ela por cima do copo gigante da Starbucks. Ruby sorria, os olhos criando uma expressão quase angelical.

“Eu vou buscar.”

“Está me impedindo de ir até o meu apartamento? Isso é algum tipo de sequestro?”

“Ruby.” Sibilou ela. “Estou te impedindo de voltar a um local que não é mais seguro, e que vai te trazer lembranças ruins. Eu estou pensando no seu bem.”

“Gina, eu vou viajar daqui duas semanas, cedo ou tarde terei que ir até lá.”

Regina terminou de beber seu chá, e colocou o copo sobre a bancada.

“Nesse dia, eu te acompanho. Mas enquanto isso, eu vou até lá e pego algumas coisas. Faça uma lista do que quer e onde provavelmente possa estar.”

Péssima ideia, Regina.

Quando se ofereceu para passar no apartamento de Ruby, não tinha ideia de que ia ter que enfrentar uma tempestade e um clima tão assustadoramente congelante. Ela já tinha preenchido a segunda mala, obedecendo a cada item incrivelmente desnecessário da lista de Ruby. Em nome de Yves Saint Lauren, onde é que ela ia usar aquele poncho horrível?

Concentre-se.

Regina colocou as malas próximas à porta. Deu uma breve olhada em volta, e lembrou-se da última vez em que estivera ali. Aquela noite. Quando encontrara Ruby inconsciente, e teve certeza de que a garota já estava morta. Regina caminhou até o banheiro, que estava uma bagunça. Nojento, para ser específico. Os filhos da puta sequer tiveram o descaramento de limpar a banheira. Regina deu uma olhada no relógio e certificou-se de que tinha tempo de sobra.

Ela tateou pelos armários até achar alvejante e uma vassoura. Com precisão, despejou todo o produto pela banheira, pelo chão, por toda superfície encontrada no banheiro. Esfregou vigorosamente, distraída pelos próprios pensamentos. Alguns minutos depois, o banheiro já tinha outra cara. Claro, fedia alvejante, e os olhos dela estavam marejados com a intoxicação advinda do produto. Ela saiu do banheiro antes que vomitasse ou a cabeça explodisse com a enxaqueca.

Satisfeita, ela deu uma última olhada em volta. Pronta para sair, colocou a bolsa carteiro sobre o ombro. Um segundo antes de colocar a mão na alça da mala, a campainha tocou.

Estranho. Quem viria atrás de Ruby?

O sangue dela vibrou quando ela cogitou a ideia de ser alguém relacionado à Zelena ou Graham procurando-a. Ela andou em passos largos, e abriu a porta.

“Robin?”

Robin passou por ela, entrando na casa sem fazer cerimônia. Parado no meio da sala, ele estava molhado e com o rosto cansado. Parecia igualmente chocado em vê-la ali. Ajeitando a roupa desajeitadamente, ele passou os dedos pela barba.

“Eu estou procurando a Ruby.”

“A Ruby não voltou para este apartamento desde o incidente. Ela está morando comigo por enquanto.”

Ela estava parada na frente dele, totalmente sem jeito. Considerando que dera outro fora nele da última vez que conversaram, ela imaginava que o clima entre eles não estava fluindo. Robin parecia estar decidindo o que fazer, e colocou as mãos nos bolsos do jeans, enquanto balançava quase que imperceptivelmente para frente e para trás.

“Eu gostaria de falar com ela. Preciso me desculpar, preciso fazer perguntas.”

“Fazer perguntas?” Regina olhou-o de soslaio. “Ela já foi interrogada pela polícia.”

Ele balançou os ombros, sinalizando que não se importava. “Eu só quero conversar com ela.”

“Você pode ir até minha casa para isso.”

“E lidar com você?”

“Bem, é a minha casa. E se quiser falar com ela, vai ser assim.”

Robin assentiu, balançando a cabeça. Regina o observou por alguns minutos, surpresa pela facilidade em conseguir aquilo. Ele estava evitando brigar com ela. Por quê? Ela era muito boa em ler pessoas. Mas Robin, ah, Robin era uma incógnita. Transparente em algumas situações, mais opaco que fumê em outras. Uma caixinha de surpresas.

“Quer ajuda com as malas?”

Regina teve um lapso do que estava esquecendo-se de fazer. As malas. Ruby.

“Não precisa.”

Ela tentou passar por ele, mas Robin segurou-a gentilmente pelo antebraço. Ela levantou o olhar, que indubitavelmente atravessou aqueles lábios e depois focaram nos olhos verdes. Regina respirava de maneira rasa, observando atentamente os movimentos dele. Mas Robin apenas ficou ali, com os dedos em volta do pulso delicado, segurando-a.

“Preciso que me desculpe.”

“Por?”

“Pela eleição.”

Ela tirou o pulso dos dedos dele, delicadamente. No segundo posterior, arrependeu-se.

“Você teve uma campanha mais limpa que a minha, pelo menos.”

“Se eu soubesse que significava tanto para você, Regina, eu...”

“Você o quê, Robin? Ia desistir? Ia pegar leve comigo? Poupe-me do sentimentalismo.”

Ele deixou um sorriso escorregar por seus lábios. Ela era incorrigível.

“Eu nem teria concorrido.”

Ela o encarou, séria.

“Enfim, a Ruby não está. Mais alguma coisa em que eu possa ajudá-lo?”

“Você pode me ouvir um minuto sem tentar fugir como o diabo fugindo da cruz, Regina?”

Ela bufou, mas deixou os ombros relaxarem.

“Ok. Fale.”

“Eu sinto muito por ter lhe colocado em uma situação difícil. Eu sinto muito por ter tirado de você algo que significava laços de família. Sinto muito se não soube respeitar todas as vezes que você me pediu para ficar longe. Mas eu vou compensar tudo. Eu estou retirando a minha candidatura.”

“Você o quê?”

“Eu ainda não terminei. Eu estou retirando a candidatura. Assim que o divórcio sair, eu vou embora de Storybrooke. É claro que eu não consigo tirar você da cabeça, Regina. Mas também ficou claro para mim que você quer ficar com o seu marido, e como você sugeriu uma vez, é melhor que eu vá embora. Agora eu sei que é mesmo a melhor opção. Não se sinta culpada, eu que me apaixonei por você sabendo que você já tinha toda uma vida.”

Robin falava aquilo como se estivesse explicando a uma criança como se realiza a fotossíntese. Como se estivesse tão confortável com a verdade a ponto de não ser tocado por ela. Regina, por outro lado, sentia o coração batendo tão forte que parecia que ou ele ia saltar de dentro da caixa torácica, ou ia subir pela traqueia. Ela não tinha maturidade emocional para lidar com esse tipo de declaração com naturalidade. Como se fosse indiferente.

“Robin... você acabou de chegar à cidade.”

“Eu sei, mas já estudei propostas de emprego em outros lugares. Tenho algumas cartas na manga. Não se preocupe, eu sei me virar.”

Regina aproximou-se dele. Ela estava com os olhos marejados, e o encarou antes de deixar as palavras escaparem pelos seus lábios.

“Eu odeio ser a razão pela qual você está indo embora.”

“Você não é a única razão.”

Ela olhou para o chão, e ele sentiu que ela estava relutante contra os próprios pensamentos. Eles estavam incrivelmente próximos, e Robin lutava contra a sensação de querer tocá-la.

“Talvez eu não tenha direito nenhum de lhe dizer isso, Robin... Mas eu não quero que você vá embora.” Eles não conseguiam deixar de olhar nos olhos do outro. “Você sabia o tempo todo, não é? Que meu casamento estava desmoronando.”

“Ele ama você. Se você quer ficar com ele, não há nada que não possa consertar.”

“O que eu quero?” As primeiras lágrimas começaram a deslizar sobre o rosto dela. “Eu quero tudo, Robin. É isso o que nós dois temos em comum.”

Ela estava chorando. Ele quis morrer naquele momento. Ela continuou com a voz embargada.

“Não importa o que vai custar, ou quem vai se ferir.”

“Gina.”

Robin delicadamente aproximou-se, e suas mãos deslizaram nos ombros dela, subindo até que os dedos se firmassem na nuca dela, os polegares roçando seu rosto e limpando suas lágrimas. Os olhos se tocaram de uma maneira nova, como se estivessem cientes do que estavam sentindo naquele momento. Regina mantinha os olhos nos olhos dele. Aos poucos, seu olhar foi percorrendo aquele rosto másculo, e concentrando-se naqueles lábios. Lábios que ela almejava. Que ela sonhava a respeito.

Ela mordeu o lábio inferior quando sentiu os dedos dele roçando sua clavícula, fazendo com que seu casaco deslizasse dos seus ombros para seus braços, caindo aos seus pés. Regina ainda estava inerte em seus braços, apenas consentindo com o toque dele. Robin enfiou os dedos no cabelo dela, e a puxou para ele, mas não a beijou. Com os lábios dela próximos aos seus, ele podia sentir sua respiração, podia sentir o calor dela.

Mas a falta de resposta dela talvez fosse à resposta. Ou não.

Beije-a logo, caralho.

Ele estava prestes a obedecer seu subconsciente quando ambos ouviram um click, e o apartamento – assim como metade da cidade – mergulhou em escuridão. Eles não se moveram. Robin segurava-a pelo rosto, acariciando-a. Lágrimas ainda escorriam, e ele não sabia se era por culpa, se eram por cansaço... Ele não sabia de nada. A verdade era essa.

“Robin.”

A voz dela saiu como um sussurro choramingado, e ele apertou um pouco mais os dedos contra a nuca dela.

“Sim?”

“Me beija. Me beija agora, como se fosse a última vez.”