NARRADO POR:

Serena van der Woodsen

2022.

ATUALIDADE

Dezessete anos, um metro e setenta e dois, olhos azuis e cabelos louros.

Essa era eu há 15 anos atrás no fatídico dia que minha vida mudou.

Relatar todas as tragédias que me ocorreram dentro de quase duas décadas não é fácil, mas se eu não contar, talvez não consiga viver em paz. Eu vivi por anos lambendo minhas próprias feridas de modo a cicatrizá-las, mas hoje percebo que o melhor é expor para livrar-me de todo peso, mágoa e rancor.

Confesso que meus sentimentos pelo meu ex-marido são variáveis indo de raiva a dor, o culpo por ter se omitido, enquanto eu estava sofrendo e por demonstrar que o dinheiro de sua família era mais importante que os sentimentos que Nate nutria por mim, ou talvez, os sentimentos que eu acreditava despertar nele.

Nossa relação ioiô, enquanto se manteve, foi feliz, harmoniosa e de minha parte sempre respeitada, sabe como são as coisas... Nós somos responsáveis apenas por nossos atos, pois, o do outro é humanamente impossível de sermos responsabilizados e uma coisa de antemão será esclarecida: cometi muitos erros, mas a infidelidade nunca esteve na lista.

O que quero que vocês entendam é que todo relacionamento tem começo, meio e fim, e foi exatamente isso que aconteceu entre mim e Nathaniel. Agora retornaremos ao passado indo diretamente para o início dessa história de amor, seus altos e baixos até o momento em que decidi colocar um ponto de final na relação e me desvencilhar da família Archibald's

X

ON: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque (Estados Unidos)

05 de janeiro de 2007.

"Positivo". Ler em letras garrafais que o teste de gravidez foi apontado como positivo trouxera um significado novo para mim. Ao ler palavra por palavra da conclusão do tão temido exame a sensação que me invadiu foi de um renascimento de dentro para fora de minha alma.

Estou gerando uma vida dentro de mim, um ser de luz que sem sombra de dúvidas mudará minha vida para sempre. Essa é a única certeza que eu tenho. Tento segurar as lágrimas, mas a notícia é boa demais para manipular minhas emoções. É uma experiência única e renovadora a ponto de transmitir o sentimento de que os acontecimentos anteriores a este fato nunca existiram.

Definitivamente a definição de felicidade resumia-se antes e depois de um teste de gravidez e agora? Com o resultado em mãos, o dobrei colocando no envelope do consultório, e mesmo com meu corpo ainda em êxtase com a novidade, caminho até a saída do local e para coroar este inesquecível 05 de janeiro de 2007 decido tomar um sorvete de chocolate.

OFF: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque (Estados Unidos)

05 de janeiro de 2007.

XX

Passado a euforia era hora de enfrentar a realidade, ou seja, eu tinha que contar sobre a gravidez para alguém e como uma jovem ingênua foi nesse momento que cometi meus primeiros erros e recebi as primeiras decepções.

Um filho na adolescência aos olhos de meus familiares era tudo o que eu não precisava e por consequência a vida em meu ventre significava um problema a ser debatido entre minha mãe e eu, ou pelo menos eu acreditava ser um estorvo unicamente com Lily Van der Woodsen.

Anne Archibald e Lily Van der Woodsen, foram os piores obstáculos que arrumei ao longo da vida e agora olhando para o passado e refletindo sobre todas as dores que tive de enfrentar me pergunto como pude me deixar levar por tamanha inocência em cogitar que duas mulheres completamente podres como elas foram e continuam sendo, poderiam me estender a mão.

XXX

ON: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque (Estados Unidos)

12 de janeiro de 2007.

Uma semana após descobrir que estou gerando uma vida dentro de mim não sei exatamente o que fazer, ou melhor, não sei como chegar em Nate e falar sobre o assunto.

Nossa relação é como um ioiô, vivemos entre términos e voltas, chega a ser desgastante para ambos, mas no fim das contas, o que sentimos um pelo outro resplandece toda vez que reatamos, separar e voltar nos fortalece. Terminamos há cerca de dois meses e eu não me relacionei com outro homem, porém, não vou mentir, em outros momentos, tanto ele quanto eu usamos outras pessoas de estepe para suprir a carência sexual.

Enquanto caminho pelas ruas de Nova Iorque até chegar no residencial da família Archibald tento organizar mentalmente as palavras, contudo, o medo me consome. O fato de não ter ideia de qual será a reação de Nate corrói minha alma e desorganiza meus pensamentos. E se ele pensar que esse filho não é dele? Ou sei lá, que eu estou tentando segurá-lo através de uma criança inocente? De alguma forma sinto medo e insegurança, um presságio de que algo ruim está por vir.

XXXX

Há alguns metros de distância consigo observar o jardim da enorme mansão da família de meu ex e pela décima quinta vez dou um longo suspiro de modo a segurar minha ansiedade, repassando as palavras que ensaiei mentalmente para ele.

Ao chegar no portão da mansão avistei Nate no local e em questão de milésimos de segundo meu mundo começará a desabar e agora meus hormônios estão causando-me enorme estresse a ponto de morder os lábios, estalar os dedos e sentir as mãos suarem frio, pois, para meu azar ele não está sozinho, longe disso, está muito bem acompanhado.

De modo algum estou bancando a ciumenta ou a garota que termina e quer ser exclusiva numa relação que não existe, mas não vou mentir, eu esperava encontrá-lo sozinho. Agora estou parada em frente ao portão completamente, desorientada, enquanto vejo Nate e Mayena aos beijos.

Respiro profundamente e decido não atrapalhar o lance de Nate e Mayena, afinal, eu sou bem melhor sozinha.

XXXXX

ON: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque

(Estados Unidos)

13 de janeiro de 2007.

Acordo com o barulho de chuva molhando minha janela conjuntamente com o ar gélido, o que indicava que lá fora está fazendo muito frio. A temperatura congelante do inverno no hemisfério norte é algo normal para pessoas como eu, afinal, nasci e cresci aqui em Nova Iorque, um lugar com grandes picos de frio. Deixando a preguiça de lado me levanto, após olhar as horas através do aparelho celular.

"Coragem, Serena" Meu subconsciente explanou, fazendo-me lembrar que eu tenho que falar com minha sogra. Após ter presenciado Nate e Mayena aos beijos, não tive condições de ao menos ligar-lhe e marcar um encontro, então, decidi falar com Anne sobre o assunto.

Minha sogra e eu temos uma relação amigável e por conta disso me sinto segura para confidenciar a respeito de minha gravidez a ela. Senhora Archibald é uma mulher fina e educada que em todos os conflitos entre seu filho e eu, está presente de modo a contornar os ânimos aflorados.

Peguei o aparelho celular e mandei um SMS para Anne pedindo que ela me encontrasse no Palace para podermos conversar. Ressaltei que o assunto é sério e confidencial.

XXX.XXX

— Obrigada por vir. — Digo me ajeitando na cadeira, enquanto Anne se senta visivelmente curiosa pelo que eu tinha para lhe contar depois da mensagem de horas atrás.

— Não vou mentir querida, a sua mensagem me deixou curiosa e preocupada com o que está acontecendo. — Anne comenta soltando um sorriso singelo.

— Eu imaginei que lhe deixaria à beira de um colapso de curiosidade, mas é realmente algo sério. — Forço um sorriso, enquanto espero o garçom colocar o café extremamente quente em cima da mesa. — Nós temos uma boa relação, e talvez eu confie mais em você do que em minha própria mãe, inclusive, o que vou contar-lhe minha mãe não faz ideia, por enquanto.

— Bem, eu presumo que seja algo muito importante, então vamos lá o que viemos conversar nessa tarde chuvosa, minha flor? — Anne comenta.

— Eu estou grávida. — Comento olhando no fundo, de seus olhos e pude ver o momento que Anne os arregalou visivelmente em choque. — Estou grávida de quase dois meses.

— Ai meu Deus! Isso é tão único, incrível. — Anne comenta. — Um filho é uma benção na vida de qualquer mulher, mas você realmente tem certeza de que está grávida? E o Nate, sabe que será papai?

— É justamente sobre isso que eu quero falar— rebato me alterando. — A criança que levo em meu ventre é seu neto ou neta. — Comento segurando as lágrimas. — Mas não tenho condições de conversar com o Nate sobre isso. Não depois de vê-lo aos beijos com a Mayena ontem. Eu nem sei como falar com a minha mãe também. — Abaixo a cabeça, enquanto aliso minhas próprias mãos. — Eu tenho só o seu apoio.

— Oh! querida... — Anne me olha docemente. — Eu já posso imaginar essa criança fofa correndo pela minha residência e me chamando vovó. — Anne sorriu. — Tudo bem que vocês são muito novos, e estamos falando de um bebê não planejado, porém, amado e bem-vindo a família.

XXX.XXX.X

ON: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque

(Estados Unidos)

14 de janeiro de 2007.

Um novo dia se inicia e junto dele eu acordo também. Dessa vez menos tensa e mais confiante, após falar com minha sogra e conseguir o apoio que eu e meu bebê precisamos, porém, ainda que eu tenha a sorte de ter Anne ao meu lado e futuramente teremos o apoio de Nate, entendo que minha mãe tem de saber sobre essa gestação, porque, é seu neto e estamos morando sob o teto que Lily mantém.

Desço as escadas ainda de pijamas, cruzo a cozinha e vejo minha mãe e meu irmão Eric sentados à mesa tomando um belo café da manhã. Dou os cumprimentos de bom dia e um sorriso singelo e me sento também.

— Estou faminta e esse café parece tão bom. — Digo com água na boca ao observar o pedaço de queijo em cima da mesa.

Percebo que minha mãe me olha com a fisionomia de quem está se controlando para não dizer nada, mas não aprofundo a desconfiança e foco no queijo à minha frente cortando-o e rapidamente comendo o mesmo. Após engolir o que comia, dou um gole no café preto, mas meu estômago embrulha fazendo-me levantar-se rapidamente indo para a pia da cozinha para vomitar.

Jogo tudo para fora, enquanto Eric me olha preocupado.

— Serena, está tudo bem? — Eric me questiona. — Você praticamente engoliu o queijo e do nada jogou tudo para fora, não me diga que também têm transtornos alimentares igual a Blair?

Ouvir esse tipo de comentário vindo de Eric me surpreende de modo negativo, porque nunca pensei que meu irmão mais novo fosse venenoso desse jeito. Não consegui respondê-lo, pois novamente uma onda de enjôo me atingiu e lá vou eu novamente para a pia vomitar.

Sem mais nem menos saio correndo da cozinha diretamente para meu quarto e ouvi os passos de minha mãe vindo atrás dos meus. Entrei em meu quarto e ouvi a porta sendo fechada por minha mãe.

— Cínica! — Lily profere assim que me viro e lhe encaro. — Acha mesmo que eu não percebi que ganhou peso nos últimos dois meses? Você está grávida, não é?

Ao ouvi-la proferir a bendita palavra uma onda de tensão, medo e pavor me atingiu por completo a ponto de me fazer perder a voz.

— Eu não quero ouvir o que tem a me dizer. — Minha mãe comenta. — Pegue suas coisas e suma de minha casa.

— Como? — Arregalo meus olhos petrificados. — A senhora está me expulsando de casa? Há uma criança em meu ventre! Eu não posso ficar na rua... Mãe... eu não tenho lugar para ficar.

— Dê seu jeito, Serena. — Lily continua. — O filho é seu, é uma responsabilidade unicamente sua. Estou cansada de contornar seus escândalos, estou cansada de fingir haver uma boa filha em casa, enquanto você se enfia em confusão atrás de confusão.

— A senhora está usando as confusões de quando eu tinha quinze anos para me expulsar de casa com um bebê na barriga? — Pergunto revoltada. — A senhora é suja!

— Me poupe, Serena! Não vou contornar um escândalo desse porte por um erro seu, pode pensar o que quiser sobre mim, mas não vou manter uma filha vagabunda dentro de minha casa, você já me trouxe inúmeros problemas e agora além de um problema de reputação ainda há um problema financeiro.

— Tudo bem, Lilian Celia. — Rebato com a voz embargada. — Onde não cabe meu filho, não me cabe também.

OFF: Flashback

Aconteceu há 15 anos.

Nova Iorque

(Estados Unidos)

14 de janeiro de 2007.

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2022

Naquela sexta feira de 14 de janeiro de 2007 foi a última vez que falei com minha mãe e meu irmão, assim como a última vez que vi Nate no Central Park alimentando os patos ao lado de Mayena.

RECOMEÇO. Foi a palavra que definiu minha vida a partir do momento em que minha mãe me jogou para fora de casa. Inicialmente eu era apenas uma adolescente de dezessete anos completamente desorientada e com uma criança em meu ventre que em alguns meses seria inserido nesse mundo cruel composto por pessoas maldosas.

O meu maior desafio naquele fatídico 2007 foi o de me virar sozinha. Não iria dar o gosto de vitória para minha mãe de modo algum, porque, estava claro que se eu batesse em sua porta novamente Lily iria me humilhar, então, eu havia decidido refazer minha vida.

Dez mil dólares era tudo em conta, pois felizmente mantinha um fundo de reserva feito por minha avó, e por sorte dona Cece Rhodes não contou para os membros da família, sendo assim, o dinheiro de vovó foi minha salvação.

Fiquei hospedada num hotel no bairro do Bronx por uma semana, o Morris Guest House não era um paraíso e nem confortável como o meu quarto, mas era a opção mais barata que eu tinha naquele momento e foi onde pude comer, beber e dormir em segurança, enquanto procurava por definitivo o meu novo lar.

CONTINUA...