Amores Irreais
1 Primeira História: Em busca... – Parte 1.
Notas iniciais
Em busca...
(Primeira parte)
Quantas vezes um coração pode aguentar ser partido?
O meu já foi remendado tantas vezes, que acho que ele não aguentaria outra vez. Minha vida sempre foi baseada em desilusões amorosas, superando todas as possibilidades de rejeição. E, sinceramente, sei que ainda tenho que fechar os olhos, respirar fundo e seguir em frente, muitas e muitas vezes no futuro. Mas... O que eu quero de verdade, é encontrar a pessoa certa para mim. Sabe, a outra metade da laranja?
Mas o problema é que durante os últimos anos da minha vida, o máximo de verdadeiro que consegui foi o amor do meu cachorro, que ainda assim é vadio e se agarra em todo mundo que lhe dê um pouco de carinho. E quando digo isso, é da parte oposta, evidentemente. Amor platônico? Sim, claro. Tenho mestrado e doutorado nessa área.
Confesso que já passou pela minha cabeça a possibilidade de virar lésbica, mas depois penso melhor e sei que não aguentaria outra mulher problemática como parceira, já basta minhas amigas que quase não aguento às vezes. E também, quem iria querer uma gorda como eu?
Ah, agora tudo faz sentido, não é mesmo?
Sim, sociedade, eu sou gorda! E por isso não me encaixo nos padrões de beleza, o que faz com que 90% dos garotos que poderiam gostar de mim me verem apenas como a “amiga gorda e engraçada que o ajuda com as paqueras”. Humpf, típico. Mas, fazer o quê se até ao padrão de gordas eu me encaixo? Posso até ter um rosto fofinho, mas sou escrota e boca suja. E pode crer que não fico nenhum pouco feminina quando sou eu mesma. Quem iria se apaixonar por isso?
Bom, mas nem sempre foi assim.
O papel já foi invertido um dia, e eu era a pegadora e arrasadora de corações, é!
Tá, okay, isso foi quando eu tinha 5 anos... Mas cara, tenho que contar alguma vantagem na minha vida, pelo amor de Deus!
O negócio é que eu não era tão gorda, e mesmo que fosse mais, eu ainda seria uma criança fofinha e bonita. É, os padrões às vezes mudam com a idade.
Ano de 2004.
Era um dia comum e eu e minha família estávamos jantando. Nem preciso dizer que sempre comi mais que o normal para o meu tamanho, mas não vamos nos ater a detalhes. Meus pais ainda não eram separados, então éramos uma família completa, com meu irmão, e meu tio que estava conosco nesse dia.
Sempre admirei meu irmão. Nessa época ele era adolescente, e ao contrário de mim, sempre foi bonito e popular com as garotas. E eu só tive esse gostinho quando nem podia usufruir inteiramente.
– Então, Mimi. – Meu tio me chama à mesa. – Como vai seu namorado?
Lembro que todos riram e esperaram minha resposta. E eu, toda orgulhosa, parei de comer e estufei o peito ao dizer:
– Eu e o Alex estamos muito bem!
Minha mãe fica perplexa.
– Alex? Mas como assim! Não era Diego até ontem?
Com cinco anos de idade, olhei para minha mãe como se ela tivesse pirado.
– Eu ainda estou com o Diego, mãe. – falo como se fosse óbvio.
Meu pai e meu irmão riem tanto que até se engasgaram com a comida, enquanto minha mãe continuou com uma face levemente incrédula. Ah, minha mãe não entendia as paradas.
– Nossa, Mimi. Você quer ficar com todos, é?
– Fazer o quê, tio, se todos eles me amam!
Mas veja só, se isso é tamanho de gente. Nessa época, desiludi muitos amores e fiz muitos garotos brigarem por mim no ensino primário. Hoje em dia o máximo que pode acontecer, é minhas duas amigas me quererem ao mesmo tempo para coisas diferentes, aí a coisa fica preta.
O papel se inverteu, e à medida que fui crescendo, ser gordinha não era tão fofinho assim. Minhas colegas foram emagrecendo, ficando bonitas e esbeltas... E eu fui esquecida no banco de reserva, gorda, vendo todo mundo namorar e se apaixonar. Cara, eu tenho lá meus charmes, mas fazer o quê se aos olhos dos homens a beleza vem primeiro que a personalidade? Bando de miseráveis, insensíveis!
E já que ser meiga apenas me tornava mais frágil para os outros e para mim mesma, decidi ser forte. Foi minha personalidade agitada e palhaça que fez parecer que não ligava para todas as vezes em que fui rejeitada por um garoto. Foi meu jeito escroto que me fez esquecer os amores que vivi, pois eles eram platônicos. E é desse mesmo jeito que vivo hoje, com 17 anos e no terceiro ano do ensino médio.
Deixei todo meu sofrimento para trás, no fundamental, quando tive minha última desilusão amorosa na oitava série. Ao mudar de colégio, decidi fechar meu coração para novos passageiros... Têm sido difícil, mas tem dado certo. Além do mais, quando me apaixono, sei que vou sofrer muito mais que a rejeição, mas também as consequências de estar apaixonada.
Meu primeiro erro: Sempre acabo gostando do meu melhor amigo. E devo dizer, friendzone não é nem um pouco legal. Some isso ao fato de que outra amiga minha quase sempre acaba gostando do mesmo carinha que eu e, diferente de mim, elas são magras e bonitas. E quem vocês acham que ele vai escolher? A resposta é tão óbvia que a pergunta é desnecessária. E, achando pouco, ainda tem a grande probabilidade de que, quando eu me declare para ele, nossa amizade acabe. O que já me aconteceu uma vez e eu perdi um amigo para toda a vida.
Ano de 2011.
Já fazia alguns meses que eu percebi que estava apaixonada pelo meu melhor amigo, o Rick. Rick e eu sempre fomos muito unidos e nossas brincadeiras juntos eram as melhores. Acho que foi um dos poucos garotos que gostei depois de ser amiga, então acho que foi um dos mais verdadeiros que já tive, se não o único. Ele era carinhoso comigo e seu jeito palhaço de ser me encantou, eu o queria comigo pelo resto da vida. Mas... ele nunca pareceu me ver com esses olhos. Para ele, eu era sua querida irmãzinha que ele deveria proteger, só que eu cometeria um incesto se esse fosse o caso. Rick era popular com as garotas bonitas, mas ele nunca me esqueceu ou me deixou de lado. Então, um dia eu decidi me confessar.
Estávamos voltando da escola juntos, nossa condução estava com problemas por isso fomos andando. E, como quem não quer nada, iniciei o assunto.
– Sabe, Rick. Eu sei quem gosta de você.
Ele praticamente parou de andar e arregalou os olhos.
– Você está de brincadeira!
– Não, é sério! – sorri e pigarreei, ficando com vergonha de repente. Afinal, estava falando de mim mesma. – Eu sei quem é.
Ele pareceu bem animado com o assunto, pois sorriu e me abraçou pelo pescoço.
– Está esperando o quê para me dizer? – ele disse, enquanto continuávamos a andar.
Fiquei tensa com a proximidade, mas me controlei e fiz um joguinho para tentar brincar um pouco antes da grande revelação.
– Hum... Que tal você adivinhar quem é?
Ele fez bico, mas entrou na onda.
– Tudo bem. Hã... Karen?
Meu sorriso morreu.
– Por que você pensa que é ela?
– Sei lá, estou falando os nomes. – deu de ombros – Então, é ou não é?
– Não, não é ela. – respondi de um modo triste, mas logo tratei de me reerguer.
Por que fiquei desolada? Simplesmente por que Karen é uma das garotas mais bonitas da escola, e ele foi logo nela de primeira! Não que eu esperasse que ele dissesse meu nome primeiramente, mas confesso que fiquei triste por ele pensar tão alto.
Graças a Deus ele não pereceu perceber meu conflito interno.
– Certo, vou continuar. Amanda?
– Não.
– Laís?
– Não.
– Bruna?
– Não.
– Thainá, Ray, Fernanda, Gabi, Beth... Caralho, quem é?
– Não, não, não, não e não!
Naquele momento, sabia qual resposta ele daria quando eu dissesse que era eu que gostava dele. Em todo o momento, Rick só citou as meninas bonitas e magras do colégio, como ele poderia me aceitar?
Estanquei no lugar o fazendo parar de resmungar palavrões. Abaixei a cabeça e respirei fundo, e quando o olhei novamente, soube que ele já sabia quem era a garota. Ele soube o que eu iria dizer antes mesmo de eu falar. Mas eu tinha que falar! Se eu fosse rejeitada logo de uma vez, poderia dizer para mim mesma “Não foi dessa vez”, e seguir em frente.
E então, eu disse:
– Sou eu. Eu gosto de você.
Seu ar desolado só não machucou mais que seu olhar de pena. Ele abaixou a cabeça, incapaz de me olhar nos olhos, dizendo o que eu já sabia:
– Desculpe, Jasmim. Mas eu não gosto de você.
Cara, foi como se um peso tivesse sido tirado do meu coração, e eu me senti mais leve e com a sensação de dever cumprido. Ficaria sim triste, mas me recuperaria. Eu sempre me recuperei.
– Mas... – acabei dizendo, numa tentativa vã do meu pobre coração implorar por ser amado.
Ele ergueu a mão antes que eu terminasse.
– Não.
– Posso apenas ganhar um beijo antes de ir?
Ele sempre me deu um beijo quando nos despedimos, e como não quero perder sua amizade, preciso de pelo menos isso para saber que estamos bem.
Mas depois que ele beijou minha bochecha, percebi que não estávamos bem e que nunca mais ficaríamos. Posso dizer que aquele foi o pior beijo que recebi durante toda a minha vida.
– É por que eu sou gorda, não é?
Mas ele não escutou quando eu disse isso, pois já tinha ido embora, enquanto eu continuei ali, paralisada na rua.
No dia seguinte, fui para escola normalmente, mas tendo a plena consciência de que nossa amizade nunca mais seria a mesma, se é que ainda houvesse. Mas eu queria tentar, tentar esquecer tudo em valor do nosso companheirismo.
Mas ele não quis isso.
Rick não foi à aula no dia seguinte. Nem no próximo, nem depois. Quando perguntei sobre ele aos seus amigos, me disseram que ele havia mudado de escola. Cara, eu fiquei tão acabada. Ele nem sequer me avisou, ou pelo menos uma mensagem de texto pelos nossos anos de amizade. Ele me descartou totalmente de sua vida, e eu não demorei muito para fazer o mesmo. Devo dizer que sofri mais por perder um amigo do que um amor, pois de amores platônicos eu já estava acostumada.
Porém, nunca derramei uma lágrima. Não por garotos. Por que mesmo que tenha gostado deles, sei que nenhum, nenhum, mereceu minhas lágrimas.
Eu deveria ter criado vergonha na cara. Mas ao invés de fechar meu coração e jogar a chave fora, eu me apaixonei de novo. E sofri de novo, e de novo. E de novo.
Sendo assim, nunca beijei na vida. Pelo menos não na boca. Mesmo dizendo que não, sou uma eterna romântica, que sonha ter seu primeiro beijo com o amor de sua vida. Um amor verdadeiro, não os irreais que vivi. Ou talvez, eu apenas tenha o bom senso de beijar alguém que goste de mim, ao invés de ser uma vadia e ficar com todos os garotos que forem bonitos e desejem meu corpo, isso se eu fosse magra.
Acho que o garoto mais bonito por quem tive uma paixonite foi o Matheus. Mas as coisas acabaram antes mesmo de começar...
Ano de 2010.
Sétima série.
No momento que pus os olhos nele, me encantei. Matheus era um garoto de olhos claros e cabelos castanhos, tão lindo que parecia ser de mentira. Só havia um problema: Ele era intocável para mim. Vivia rodeado de garotas bonitas, além de ser um atleta escolar. Mas minha capacidade de ser rejeitada superou os limites do bom senso.
Ele estava passando pelo corredor e quando vi que estava sozinho, não perdi a oportunidade de iniciar um diálogo amigável com ele. Sinceramente, confesso que dessa vez eu procurei o sofrimento.
No momento em que ele passou por mim, eu o chamei:
– Math...
– Não! – Me interrompeu bruscamente e continuou a andar, como se nada tivesse acontecido.
Minha cara não poderia ser mais cômica, com a boca aberta uns vinte centímetros e paralisada.
Cara, eu superei todos os limites! Ele nem ao menos me deixou falar com ele, aí ele poderia responder, nós conversaríamos, eu me apaixonaria mais e, no final, eu me declararia e seria rejeitada como de costume. Mas essa foi a rejeição da rejeição!
Depois disso houveram outros, mas como sempre eu seguia em frente. Até que eu cansei de sofrer. Cansei de procurar, de correr atrás, e sempre cair de cara. Se eu tiver que me apaixonar, tem que ser naturalmente e sem precisar forçar nada. Afinal, eu acredito que existe alguém destinado a mim, apenas esperando o nosso encontro.
E eu esperarei o tempo que for preciso. Só espero que essa pessoa exista.
– JASMIM!
Salto da cama como se ela estivesse pegando fogo, até que percebo que foi apenas a minha mãe que invadiu meu quarto, dando uma de alto-falante.
– Ai, que susto!
– Acorda, garota! Faz horas que eu te chamo para ir à escola e você continua aí deitada, pensando na morte da bezerra.
Revirei os olhos. Na verdade, estava pensando na minha conturbada vida amorosa... Será que se eu fizer um livro faria sucesso?
– Ai! – esfrego a cabeça no local onde recebi um tapa, minha mãe ama interromper meus devaneios.
– Vamos, levante. Da próxima vez, te acordarei com um balde de água fria.
No segundo seguinte já estou de pé e corro para banheiro, fechando a porta após ouvir a risada da minha mãe. Escovo os dentes e tomo um banho rapidamente. Olho no meu relógio de parede em forma de pizza ao sair do banheiro.
– Caralho, estou atrasada. Muito atrasada!
Se passar horas divagando emagrecesse, eu seria como um palito. Mas infelizmente, milagres não acontecem. Depois de quase dez minutos para conseguir fazer com que minha calça entre no meu corpo, chego à conclusão de que engordei mais e que estou mais atrasada ainda. Termino de me vestir e pego minha mochila sem verificar se está tudo em ordem, não tenho tempo nem para respirar! Desço as escadas e minha mãe me joga uma maça antes que eu saia correndo porta a fora. Ótima forma de se exercitar.
Chego ao colégio esbaforida, por ter corrido do ponto de descida até a entrada. O porteiro me olha com repreensão, mas faço beicinho e logo ele abre passagem para mim. Continuo com aquela carinha meiga enquanto aceno para ele. Sou uma pessoa legal com todo mundo, desde faxineiros até o diretor. E isso tem lá suas vantagens.
Vejo meu reflexo numa das vidraças do prédio e regrido os passos para analisar meu rosto. Sorrio de um jeito falsamente meigo, com direito a olhinhos apertados, fazendo com que minhas duas covinhas dessem o ar da graça em minhas bochechas. Posso até não ser fofa, mas sou uma boa atriz. Balanço a cabeça para minha imagem refletida.
– Olha só, olhando assim, pareço até uma fofa de verdade.
– Falando sozinha, Mimi?
Me viro encontrando a face divertida de meu amigo palhaço e super sincero. Amo esse cara.
– Caio!
– Sou eu.
– Como está?
– Estou bem, e pelo visto, você, atrasada.
Dou um sorriso amarelo e ele ri.
– Verdade, tenho que ir para aula.
Aceno para ele e continuo pelo corredor. Caio segue para o lado oposto, pois somos de salas separadas. Ele grita quando já estamos longe um do outro.
– Hey, Jasmim! – me viro e sibilo “o quê?!” com os lábios. Caio é sem noção por gritar no corredor vazio no horário de aula, que aliás, deveríamos estar assistindo. – Esqueci de te dizer, mas parece que tem um novato na sua sala.
Meu coração desce aos pés, e quase tenho uma vertigem.
Veja bem, fechei meu coração, decidi não me apaixonar mais, porém, quanto menos oportunidades, melhor. Afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente. Pelo menos nesse caso.
Esqueci totalmente a sanidade quando gritei de volta, ainda mais alto que ele:
– Garoto ou garota? – perguntei, torcendo pela segunda opção.
Não tenho boas experiências com novatos, afinal sempre acabo me apaixonando por eles. E já disse que sempre fui rejeitada?
– A não ser que ela faça xixi de pé. – Ele dá de ombros e fala naturalmente antes de sumir na esquina.
Puta que pariu. E ele ainda vai embora, depois de soltar essa bomba. Respiro fundo e conto até dez antes de voltar a andar, dessa vez mais calmamente. Preciso me acalmar, preciso me acalmar. Não quero me desiludir. Não quero me enganar. Não quero me encantar se ele for bonito, consequentemente me apaixonando e sofrendo a rejeição mais uma vez. Com todas as novas caras masculinas que surgem por aqui, eu uso a mesma blindagem, não deixando nada passar.
Porém, como sei que a carne é fraca e que em qualquer oportunidade pode haver uma recaída, segui para minha classe, repetindo mentalmente meu mantra: Por favor, que seja feio! Por favor, que seja feio! Por favor que seja feio, meu Deus!
Mas no momento em que abri a porta e o cara olhou para mim, sentado ao lado da carteira que sempre costumo me sentar, soube que teria meu coração partido mais uma vez.
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