Amores Irreais

4 Primeira História: Do Destino... – Parte 4.


Notas iniciais
Oi, gentee! Estou aqui por que estou sendo ameaçada de morte por certas pessoas ¬u¬ Então, o capítulo está maiorzinho, e o próximo também será! Espero que gostem, o capítulo de hoje está especialmente tretoso :v Boa leitura e aguardo comentários, ein? Fiquei triste, só recebi dois! Mas a culpa é minha ç.ç Bem, até o/


Do Destino...
(Quarta Parte)

– FICA CALMA AMIGA, VAI DAR TUDO CERTO!

– Line, eu estou calma, ao contrário de você. Afinal de contas, o que diabos você está fazendo aqui?

A folgada apenas se joga na minha cama e come mais uma batata ships, falando de boca cheia:

– Vim dar meu apoio psicológico, claro.

Olho para ela e reviro os olhos, me voltando para o espelho.

Certo, eu estou nervosa. E ao invés dessa maldita me ajudar, ela só vem para gritar e atazanar meu juízo. O motivo do alvoroço? Bem, o Felipe se ofereceu para me ajudar com os preparativos para nossa colação de grau, que já está chegando. E por isso vamos nos encontrar na escola em plena quarta-feira à tarde. A única coisa que me conforta é que os outros alunos também estarão lá.

– Não, não. Essa blusa não! – Line resmunga mais uma vez.

Perco a paciência.

– Puta merda, ein?! Já perdi a conta de quantas vezes me falou isso desde que chegou. Olha o estado que ficou meu quarto. – Me exalto, apontando para praticamente todas as minhas roupas espalhadas pelo chão e cama. E como se não bastasse, ela está deitada em cima delas. – E eu já disse que não precisa de nada disso, porra.

– Sua mentirosa! – Ela grita de volta. – Você fala isso, mas eu não me esqueci daquela vez em que fomos fazer o trabalho de sociologia na minha casa. Você tentava ficar normal, mas ficava se remexendo inquieta toda hora perto dele.

Sinto minhas bochechas vermelhas.

– O que você queria? Eu tinha acabado de conhecê-lo! – Suspiro. – Mas agora é diferente. Somos apenas amigos.

Sim, isso mesmo. Apenas amigos.

O QUÊÊÊ? Que história é essa?

Canso de ficar em pé e me junto ao lado dela na cama, me jogando de costas com os braços abertos.

– Ah, Line. Eu já te falei o porquê.

– Mas o amor muda as pessoas! – Line me olha de bruços. – E ele parece gostar de você. Por isso dou todo o apoio.

Hmmm. – Me viro e resmungo no colchão. Cara, por que tudo tem que ser tão difícil?

– Não fica assim. E o que a sua “Tephi-chan” acha disso? – Me pergunta, meio ciumenta. Line sabe que ela sempre me aconselha.

“Siga seu coração e se deixe levar”.

– OLHA AÍ! – ela se exalta e me chuta para fora da cama, fazendo com que eu caia de bunda. – Faça isso! Não traia seu coração...

Olho para minha amiga e me permito a sorrir tristemente. Obrigada Line, mas eu nunca traí meu coração.

Foi ele que me traiu.

***

– Aí, caralho! Cadê todo mundo?

– Calma Mimi, eles devem estar em alguma sala. – Felipe tenta me acalmar. Droga, não deveria estar tão raivosa assim perto dele, mas quer saber? Dane-se! Essa sou eu e ele que se ofereceu para ajudar. Agora aguente.

– Puta que pariu, viu? – continuo a praguejar. – Como eles decidem se juntar numa sala qualquer? Era pra ficar na nossa sala! Eu só fui falar com o coordenador e todos somem. Cadê a porcaria do responsável quando precisamos dele?

– Mimi, você é a responsável.

Estanco no lugar e faço cara de vento, e ele ri da minha cara.

– Ah, é mesmo. – digo, rindo sem graça. Mas logo me exalto de novo: – Droga, por que eu fui aceitar isso? Eu sempre soube que isso seria uma dor de cabeça!

E olha que essa é a primeira conversa com a turma para decidirmos tudo.

– Lógico que foi por que, você e o “indiano” ficaram disputando esse lugar. – diz ele azedo, fazendo aspas com as mãos. – E você acabou vencendo pelo cansaço.

É, tinha me esquecido disso também.

– Bom, então não posso reclamar.

– Não sei por que toda essa rixa entre vocês dois! Você por acaso gostou dele alguma vez?

Arregalo os olhos e a boca. Okay, essa me pegou de surpresa. Por que isso agora?

– Está maluco? De onde tirou isso?

– Não sei – Ele dá nos ombros, desdenhoso. –, talvez tenha sido um dos amores que você já viveu, como aqueles que me contou.

Tá vendo só? Intimidade é uma droga! Ao passo que fomos ficando mais amigos ao longo dos meses, cada um foi revelando coisas pessoas da vida, admito que mais eu do que ele. E como não tenho vergonha de esconder, contei ao Felipe tudo o que já vivi, o que sofri e o que passei. Ele sempre me pareceu interessado na minha vida amorosa, dizendo o quanto eu fui corajosa e perseverante. E quando eu lhe perguntava sobre a sua, ele sempre mudava de assunto, dizendo que suas experiências não valiam a pena ser recordadas ou ao menos comentadas. E como ele demonstrava ficar triste e desconfortável com o assunto, nunca insisti.

Mas mesmo que eu saiba o que aconteceu, queria ouvir a versão dele de sua própria boca.

Respiro fundo e fecho os olhos, me sentindo um pouco magoada com o que ele disse.

– Felipe, somos amigos. Se eu gostasse ou tivesse gostado dele, com certeza te falaria.

Me surpreendo quando ele abre um sorriso e coça a nuca.

– Sim, somos amigos. Como sou bobo. Desculpe por isso.

Ele passa por mim, mas estou meio paralisada. Ele definitivamente está estranho, muito estranho esses dias. E essas mudanças repentinas de humor...

– Lipe, você está estranho. – Me viro e ele estanca no lugar quando pergunto: – Tem algo errado entre nós?

Fico em silêncio esperando sua resposta, mas fomos interrompidos por Nara que aparece no fim do corredor:

– Estamos na sala de vídeo. – ela se pronuncia e desaparece, mas não antes de conversar comigo pelo olhar. Se fosse a Line, estaria gritando agora ao perceber o clima tenso.

– Ah, então eles estavam lá. Vamos. – ele põe as mãos no bolso e me chama com a cabeça. Pisco algumas vezes e aceno que sim, passando a andar atrás dele.

E agora ele está normal, como se nada tivesse acontecido. Felipe, juro que você vai me enlouquecer!

Enquanto estou meio perdida em pensamentos, vejo algo cair do bolso de sua calça quando ele retira o celular dali. Felipe continua a andar sem perceber e eu me abaixo para pegar o objeto. Quando me aproximo, vejo que é uma foto.

– Lipe, você deixou cair. – Digo, agora de pé analisando a imagem. Fico curiosa: – Quem é esse?

Na foto, está um garoto com aparentemente catorze ou quinze anos, sorrindo para a câmera. A imagem parece ter sido cortada, pois dá para ver que havia outra pessoa ao qual o garoto apoiava o braço no ombro. Mas... O que mais me intriga, é que ele se parece muito com o Felipe. Olhos verdes. Cabelo castanho claro. E até o sorriso fofo, com direito a olhinhos apertados. Porém, o que me intriga mais ainda, é o fato de o garoto da foto ser obeso, com o rosto gordinho e bochechas rechonchudas.

Quando olho para Felipe ele está de olhos arregalados, mas logo se recompõe. Ele tira a foto das minhas mãos e a guarda no bolso.

– Desculpe, não quis ser bisbilhoteira. – digo, envergonhada. Droga Jasmim, sua intrometida!

Mas ele apenas balança a cabeça e sorri tristemente.

– Não, tudo bem. Não tem problema.

Silêncio de novo. Começo a ficar nervosa, porém antes de eu pedir para ele esquecer o assunto ele se pronuncia de novo, agora virado de costas para mim.

– Ele era meu irmão.

Caramba.

– Era?

– Sim. Ele morreu há pouco mais de dois anos.

Fico sem palavras por alguns instantes.

– Desculpe. Eu sinto mui...

– Não sinta. – ele me interrompe e se vira novamente. E ao invés de sua expressão estar ainda triste, agora está... firme. – Ele estava sofrendo, então...

E inesperadamente, num impulso maluco que senti quando vi sua face entristecida, o abracei. Não deveria estar fazendo isso, mas... Ele correspondeu meu abraço. O que ficou meio engraçado, por que ele é bem mais alto que eu. Então, parece que ele está me abraçando, e não o contrário.

É o primeiro abraço que damos, me dou conta disso nesse instante. Ele apóia o queixo em minha cabeça e envolve meu corpo com suas grandes mãos. É gostoso senti-las nas minhas costas e eu não deixo de aproveitar para inalar seu cheiro. Hm, cheiro de Felipe.

Chego a conclusão de que isso está indo longe demais quando percebo que poderia ficar assim com ele o resto do dia. Mas aí, ele se desfaz do abraço delicadamente, poupando-me do feito. E mesmo que fosse essa minha intenção, fiquei triste por ele ter decidido.

Uma parte de mim queria que ele não quisesse me soltar.

– Desculpe. – digo logo em seguida, sentindo um pouco de vergonha.

– Tudo bem, Mimi. Obrigado de verdade.

– De nada.

– Bem, vamos para sala?

Ah...

– Vamos.

Como se nada tivesse acontecido...

Aquietando meus pensamentos de lado por ora, entro na sala de vídeo e vejo todos da minha classe espalhados pelo recinto.

– Finalmente, ein? – diz Thaís, bufando.

Sinceramente? Não estou com paciências para picuinhas nesse momento.

– Estaria aqui mais cedo se tivessem me informado da decisão de vir para cá.

– Fui eu quem decidi, afinal aqui é maior e cabe todos mais confortavelmente. – explica o indiano sentando numa das primeiras cadeiras.

– Ah, claro que foi você.

Vou para a frente da sala e me sento em cima do birô, não estou nem aí. Vejo que quase todo mundo está presente e de relance avisto Felipe de braços cruzados em pé ao fundo da sala.

Balanço a cabeça.

– Okay, eu pedi que viesse hoje para discutirmos o que faremos quando nos formamos. E antes de mais nada, digo: Não haverá uma festa de formatura.

No segundo seguinte, uma barulheira de reclamações e xingamentos surge na sala. Reviro os olhos e faço com que minha voz se sobressaia na bagunça.

– Calma, gente! Vocês sabiam desde o início que seria assim.

– E por que diz isso? – alguém pergunta.

– Refrescando a memória de vocês, nós já tínhamos conversado ano passado e decidimos que não faríamos. Gasta muito dinheiro e paciência. E mesmo que voltássemos atrás, não daria. Nos formamos daqui a dois meses e não teria como levantar tanto dinheiro ou organizar uma festa agora.

– Então, o que foi decido finalmente? – pergunta o Indiano.

– Faremos uma viajem, que vai ficar para Janeiro. E para recebermos o diploma apenas uma colação de grau. Todos de acordo?

– Mais ou menos. – Interrompe Thaís. – Como será essa colação de grau? Como vamos nos vestir?

Olho para Felipe no fim da sala e ele sorri para mim. Começo a falar:

– Como o Lipe se ofereceu para ajudar, eu e ele fomos falar com a coordenadora da escola. Ele sugeriu que usaríamos roupa de gala, por causa das fotos e tudo mais. E para ficar mais bonito, os meninos poderiam usar gravatas vermelhas e as meninas uma pulseira da mesma cor, feitos com algo que tivesse um significado emocional relacionado a toda a turma.

Inicia-se os murmurinhos a favor da ideia e eu já fico aliviada por ter meio caminho andando. Até que o Indiano decide tirar uma com a minha cara:

– Por que vermelho e não azul?

Mas que beleza.

– E por que azul e não vermelho? – rebato, ainda mantendo a calma.

– Só acho que vocês não te o direito de decidirem isso sozinhos.

– Escolhemos vermelho por que é uma cor que fica bem, independente do gênero.

– É verdade. – Line se intromete. – Eu que não vou usar azul, que ridículo.

– Tá vendo aí? – Aponto para ela.

– Você não tem opinião própria, Jasmim. – diz ele, de repente. – Só por que o Felipe decidiu, você acatou.

COMO É?

– Ei, espera aí! Eu só concordei, que mal há nisso?

– Se eu tivesse sugerido a você antes a cor azul, você diria o mesmo. – ele ainda insiste.

Olho raivosa para ele. Não acredito que isso está acontecendo!

– Vamos resolver isso agora. – me assusto quando ouço a voz altiva do Felipe cortando o silêncio.

Com cara de poucos amigos, ele se dirige rapidamente até onde estou e tira da gaveta um papel e caneta. Em seguida, coloca com força até demais os objetos em cima da carteira em que o indiano está sentando. Ele pula com o susto.

– Você, ao invés de começar com esse charminho de chamar a atenção e ofender os outros, deveria tomar uma iniciativa ou dar uma sugestão. E como não é só o que você e quer e sim o que todos querem, faremos uma votação e escolheremos a mais votada. Pode começar a escrever.

E depois disso, ele anda até a porta e diz antes de sair:

– E contem meu voto, continua sendo vermelho.

Mas que porra foi essa que aconteceu aqui?

– Muito bem, muito bem. – Line corta o clima tenso e puxa o papel do indiano, que ainda está meio apático. – Eu quero vermelho! Venham logo, vocês.

Logo todos se amontoam para votar e a cena é deixada de lado. Agradeço a Line mentalmente e saio do meu estado de choque, saindo da sala em seguida.

Preciso saber o que está acontecendo. Ele tem agido tão estranhamente, e hoje foi o ápice da estranheza. Alterações de humor, perguntas sem pé nem cabeça... Será que...

Não. Não pode ser... Não é? Quero dizer, não tem nada a ver! Somos apenas amigos. E também, ele quis se soltar do abraço.

Mas, independente de qualquer coisa, preciso saber o que está acontecendo!

Passo a correr pelos corredores, procurando em todas as salas. Mas ele não está em nenhum delas e nem no refeitório. Então, me lembro do pátio. E quando chego lá fora, o encontro sentando num dos bancos de madeira perto das árvores. Ele está de costas para mim e parece estar olhando algo em suas mãos. Respiro fundo e decido me pronunciar.

– O que foi aquilo lá dentro?

Rapidamente ele ergue o corpo no banco e esconde em baixo da perna o que parece ser uma foto. A foto de seu irmão.

– Desculpe. – É tudo o que ele diz.

Suspiro e dou a volta, ficando de frente para ele. E quando olho seu rosto, percebo que ele está normal. Nem feliz, nem triste e nem com raiva. Apenas... normal, calmo. Como se ele estivesse dormindo de olhos abertos.

Acho que nunca vou entender esse garoto.

– Tudo bem, só foi meio estranho. Claro que fiquei feliz por me defender, mas todos sabem que eu e o Indiano vivemos dando patadas um no outro, e no segundo seguinte tudo foi esquecido. Deveria já ter se acostumado.

Ele não esboça nada e apenas me olha.

– Realmente. Mas, talvez seja aquilo que eu te disse. Já vi muito isso acontecer. Quando um garoto perturba muito uma garota, é por que sente algo a mais por ela.

Você está falando do indiano, ou de você?

Falei a primeira coisa que me veio a cabeça. Não aguento mais ele insistindo nessa história. Ele fala tanto... Como se estivesse dando como exemplo! Não me arrependo de ter sido sincera.

– Eu perturbo você, Jasmim? – pergunta ele, ainda com a mesma expressão serena.

Não demoro um segundo para responder, já tagarelando. Coisa que faço muito quando estou nervosa ou irritada.

– Ah, mas é claro que sim! Eu juro que não consigo te entender às vezes e isso me deixa maluca. Quero dizer, você é imprevisível e algumas atitudes suas me assustam. Não sei quase nada sobre você, sendo que eu falo tudo sobre mim. E como se não bastasse você faz umas coisas que me fazem pensar besteira, e eu definitivamente não quero cometer o mesmo erro.

Puta merda, falei demais. Isso foi quase uma confissão! Quase tenho um enfarte durante os dois segundos que demorou para ele me responder. E para falar a verdade, preferia que ele não tivesse respondido.

– Não se preocupe, Mimi. Como você disse, somos amigos. Nada mais que isso.

Não importa quantas vezes eu tenha escutado isso, eu nunca vou parar de sentir esse aperto no coração. Dói, mais um pedacinho dele foi destruído. E dessa vez nem me confessei. Dessa vez nem aceitei que gostava dele. Dessa vez nem aproveitei a sensação de estar apaixonada.

Mas como sempre fiz, engoli toda a amargura e sorri para ele, como se estivesse tudo bem.

E quando ele devolveu o gesto, esboçando uma expressão desde que o encontrei aqui fora, percebi que seus lábios sorriam, mas seus olhos não sorriam junto.



***

Faz quatro dias desde que aquilo aconteceu.

Hoje é um domingo e definitivamente, não estou com saco para nada. Estou triste e abusada, apenas quero ficar com meu sorvete de flocos e meus animes shoujo para chorar juntos com as garotas rejeitadas. Engraçado que eu choro por uma ficção, enquanto por mim mesma não derramo uma lágrima sequer.

Vai entender.

Estou esparramada na cama com meu notebook quando ouço meu celular tocar. Coloco mais uma colher de sorvete na boca e tateio com as mãos a procura do aparelho no meio da bagunça. E quando vejo de quem é a ligação, quase cuspo meus rins.

O nome “Lipe” pisca no visor, junto com a foto dele que coloquei nos contatos. Jesus, por que eu coloquei essa foto?

Calma, Jasmim. Haja naturalmente.

Respiro fundo e aperto “atender”.

– Alô?

– Mimi?

– Sou eu...

– Oi, sou eu. Lipe. – a voz dele está amigável. – Estou atrapalhando algo?

Sim, está atrapalhando meu ritual pós-rejeição! E a culpa disso é sua!

– Claro que não. Pode falar.

Eu não tenho jeito mesmo. Ouço ele suspirar.

– Bem, queria perguntar se você poderia vir me encontrar aqui no parque perto da escola.

Ah... Oi?

– Parque? – pergunto, sem entender. – Aquele das árvores?

– Esse mesmo.

– Por quê?

Se a Line estivesse aqui, daria uma chinelada na minha cara por não aceitar logo de primeira.

– Eu preciso conversar uma coisa séria com você. – diz ele seriamente.

Fico em silêncio na linha por alguns instantes.

– Por favor. – insiste com sinceridade.

Se eu fosse outra, estaria tão puta da vida que nem se ele viesse me buscar pintado de ouro eu iria. Mas... Ele não tem culpa por eu gostar dele. Também não posso culpá-lo por não gostar de mim. E além do mais, estou curiosa para saber o que ele quer me falar.

Com isso, não consigo resistir a burrice de deixar meu coração ter uma centelha de esperança. Esperança do que o que ele vai me dizer seja o que eu quero ouvir.

– Tudo bem, estarei aí em uma hora.

Sei que parece loucura, mas juro tê-lo ouvido sorrir do outro lado da linha.

***

Odeio essa ansiedade. A cada passo que dou, parece que regrido dois. É uma sensação estranha de que parece que nunca chegarei lá. Queria mesmo é correr, mas não posso chegar suada e esbaforida. Nos dias depois da minha rejeição indireta, não tivemos aula. Então, desde que o conheci, nunca tinha ficado tanto tempo longe dele. Estou nervosa, parece que meu coração vai saltar pela boca.

Acho que peguei o complexo da Lina. Saí tirando quase todas as roupas do guarda-roupa até que achasse algo que prestasse. No fim coloquei um vestido florido e All Star, junto com uma pequena bolsa de passeio. O cabelo solto como sempre. Maquiagem? Zero.

Bem, essa sou eu.

Quase beijo o chão quando avisto que estou chegando no local marcado e passo a andar mais depressa. Mas meu sorriso morre e eu estanco no lugar antes mesmo de chegar perto.

Eu definitivamente nasci para sofrer. Só pode.

Uma coisa é aguentar tudo que aguentei. Ouvir tudo o que já ouvi. E outra completamente diferente é ser obrigada a ver o que estou vendo.

Felipe com uma garota. Ambos conversavam animadamente... Até se beijarem. E depois disso, eles se abraçaram carinhosamente, com direito até a um aperto no final.

Então... foi para isso que ele me chamou? Para me mostrar que já tem alguém? Para dessa forma me fazer entender de vez que ele nunca será meu? Que ele tem uma namorada linda e magra?

Ele é... O pior.

Engulo em seco, sentindo um bolo na garganta. Mas não é choro, é algo mais como... Desprezo.

Vejo a garota se afastar um pouco eu continuo ali, parada. E como se sentisse minha presença, ele olha exatamente na minha direção. E ainda acena.

Cara de pau.

Respiro fundo e dou as costas, passando a andar. Eu supero essa também.

– Espera, Mimi! – ouço ele me chamar. Apenas aperto o passo.

Não quero olhar para ele agora, não vou conseguir fingir que está tudo bem. Vou acabar falando tudo. E nada de bom acontece quando eu faço isso.

– MIMI!

Não vou olhar para trás, não vou olhar para trás...

Travo quando sinto sua mão em meu braço. Nesse instante o vento fica mais forte e balança meus cabelos. Aperto os olhos, tentando conseguir um pouco de paz, me concentrando no farfalhar das árvores... Mas jogo tudo pro alto quando ele pergunta:

– Por que está fugindo?

Por que estou fugindo? – Ralho raivosa e puxo meu braço do seu toque. – Você ainda pergunta?

– Mimi, não estou te entendendo. – diz ele com uma feição surpresa.

Só pode ser brincadeira, não é?

– Realmente, nem eu me entendo. Eu não deveria estar agindo assim agora, vai contra os meus princípios. Mas... eu pensei que você fosse diferente. Pensei que... quisesse realmente conversar comigo. Se queria me mostrar sua namorada, não precisava armar esta cena. Não precisava mesmo.

– Namorada? – rebate, incrédulo. – Meu Deus, você não está falando coisa com coisa. E quem está armando uma cena é você.

Deus, isso não está acontecendo. Suspiro e tento ignorar os olhares curiosos das pessoas que passam por nós. Ainda bem que não tem muita gente nessa área.

– Você é pior do que eu pensei. – estreito os olhos e balanço a cabeça. – Se não era sua namorada, o que era? Uma das suas peguetes temporárias? Então isso tudo foi para o quê? Me mostrar que pode ter todas para você? – Enquanto desabafo sem parar, ele só me olha de modo assustado. Acho que ele não fazia ideia de que eu poderia fazer isso. Na verdade, até eu estou surpresa comigo mesma. – Francamente, Felipe. Quando eu soube do seu passado “galinha”, juro que tentei entender seu lado. Talvez tivesse algum motivo para isso, e eu também não posso me meter na sua vida. Mas... Depois que ficamos amigos, realmente pensei que você tinha mudado. Mas vejo que estava errada.

– Não acredito que você está falando isso... – ele murmura.

Quer saber? Foda-se!

– Não acredita? Eu que não acredito que me deixei cair nessa de novo! Nunca dá certo se apaixonar pelo melhor amigo, mas parece que me jogaram uma praga para que isso sempre me aconteça! E dessa vez... Eu tinha, juro que tinha uma esperança, uma esperança verdadeira, de que fosse correspondida. Mas eu me enganei. Mais uma vez, esperei mais do que posso receber.

– Vocês está errada, Jasmim. – ele fala, com uma expressa dura. – Fui eu que me enganei. Sobre você.

O quê?

– Se enganou sobre mim? – indago de modo retórico e descrente. – Como pode dizer isso?

– Exatamente. Eu pensava que você era diferente. Que não julgava um livro pela capa. Mas é isso que está fazendo agora. E aquela mulher ali – ele se vira de lado e aponta para a moça agora sentada no banco. –, é minha mãe.

Meu estômago desce aos pés num segundo.

– Sua... Mãe?

– Sim, minha mãe. E sabe aquela foto? – antes que eu possa raciocinar do que ele está falando, ele joga o objeto em minhas mãos. Olho para ele sem entender. – Não existe irmão nenhum, Jasmim. Esse sou eu, com 14 anos.

Ca-ra-lho.

Nesse instante, minha cabeça vai a mil, mas não estou conseguindo raciocinar direito. Então esse garoto... é o Felipe?

– Por que mentiu para mim? – É a única coisa que consigo dizer, ainda olhando para a foto.

– Por que eu era como você. Quando mais novo, sempre fui ridicularizado na escola. Tinha poucos amigos, sempre fui tímido e introvertido. Passei a gostar de uma garota em segredo, mas acabaram descobrindo e contando para ela. Fui humilhado na frente de todo mundo.

Apenas fico olhando para ele, ouvindo atentamente. É muita coisa para digerir.

– Depois disso, tudo piorou. E para completar, eu precisava emagrecer. Não por motivos de estética, mas sim por que eu estava ficando muito doente. Então passei por uma cirurgia de redução de estômago e emagreci oitenta e quatro quilos. – Nessa hora, ele ri sem humor. – Engraçado que depois disso, as garotas começaram a se interessar em mim. Inclusive a que tinha me rejeitado. Como um grande idiota, comecei a namorar com ela... Mas depois que a conheci de verdade, o encanto acabou. Ela era fútil e só ligava para vaidade. Então terminei. Mas como você, eu continuei tentando. Tentando e tentando. Mas a cada vez que eu recomeçava, eu via que aquilo não era certo. Eu nunca conseguiria algo verdadeiro daquele jeito.

– Felipe, eu nem sei o que dizer... – falei, sem ter mesmo o que falar. Tantas coisas passam pela minha cabeça, mas não consigo colocar os pensamentos em ordem para dizer algo coerente.

– Só quero que me escute. – Balanço a cabeça. – Depois disso, me mudei para cá com a minha família. E decidi recomeçar. Foi quando eu conheci você. – Ele me olhou nos olhos e meu coração passou a bater mais depressa. – E, pode até ser impressão minha, mas mesmo sem nunca ter me visto, no momento em que entrou na sala você já estava me procurando com os olhos. E isso de certa forma me deixou curioso. – Parou para sorrir. – Depois que fui te conhecendo melhor, fui me encantando com seu jeito. Engraçada, simpática e amiga. E quando você me contou sobre sua história, a primeira coisa que eu pensei foi: Posso ser a pessoa que ela tanto procurou.

Estou me sentindo estranha. Parece surreal o que estou ouvindo. Eu não acredito que...

– Felipe, eu...

– Deixa eu terminar, por favor. – Ele me interrompe. – Não consegui conter meu jeito meio possessivo, controlador e ciumento. Mas eu não queria te ver com outra pessoa. Eu queria você comigo!

– E por que não me falou isso?! – perguntei, quase gritando. Parece um sonho, parece que vou acordar no próximo segundo...

– Por que eu queria fazer diferente! Eu tive medo de estar forçando demais, como já fiz tantas vezes. Mas vejo que tudo foi em vão. Você não é como eu pensei que fosse.

– E como você pensou que eu fosse? – questiono, sentindo uma mágoa crescente. O que eu fiz?

Ele me olha nos olhos e consigo captar a tristeza neles.

– Pensei que você fosse menos... Fútil.

– Fútil? – Não acredito no que estou ouvindo. – Eu, fútil?

– É, Jasmim. Me responda, de quantos garotos que você já gostou, algum deles era feio?

– O que está querendo insinuar com isso?

– Que, no final das contas, você só liga para aparência, como todas as outras.

O olho com raiva. Ele está errado!

– Não acha que está sendo muito prepotente, Sr. Galã?

– Então por que se interessou por mim?

– Por que eu vi, que quando você me olhou naquela hora, você não pensou: “Nossa, que garota gorda”. Eu vi isso nos seus olhos e fiquei feliz. Agora entendo por que. Você já passou por isso.

Ele balança a cabeça, se alterando um pouco.

– E mesmo com isso, o que você pensou de mim quando soube do meu passado? Que eu era um filho da puta sem coração e que só queria saber de brincar com as garotas? Você que foi prepotente comigo! Me julgou sem saber do que realmente aconteceu.

Eu nunca o vi falar um palavrão assim...

– Mas eu nunca disse nada disso...

– Mas pensou. Agora, me responde uma coisa, Jasmim. Se eu ainda fosse como nessa foto. – Ele a tira das minhas mãos e a levanta na altura dos meus olhos. – Se eu ainda fosse esse garoto tímido e gordo, você teria se interessado por mim, ou se apaixonado?

Quero gritar um sonoro “SIM!”, mas fico paralisada. Estou confusa, não sei como reagir. Apenas olho para ele e para a foto, desesperada. Não sei o que dizer.

– Não precisa falar mais nada. – ele se pronuncia, depois de alguns segundos. – Sua expressão já disse tudo.

Não!

– Não, Felipe! Você entendeu tudo errado! – digo, quando ele faz menção de se afastar.

– Realmente, eu entendi tudo errado. Eu pensei que o que sentia por mim era verdadeiro. Mas agora vejo que fui apenas mais um de seus amores irreais.

O bolo na minha garganta está crescendo, mas agora não é repugnância. Estou em pânico. Não é nada disso!

Quando ele começa a andar, agarro seu braço.

– Por favor, você tem que me escutar. Eu...

– Você não tinha me dito que odeia perder? – Ele me olha friamente e me pergunta. Fico sem entender. – Sinto muito, mas agora você acabou de me perder.

Agora é oficial, meu coração foi destruído de vez. Sei disso por que ele dói como nunca doeu, quando ele se desprende de mim e vai embora, me deixando sozinha e paralisada.

Sinto que vou quebrar. Meu estômago se revira e meus músculos estão retraídos. E sem perceber, minha visão dele indo embora passa a ficar embaçada gradativamente. O bolo no meu pescoço sobe de vez e sai da minha boca através de um soluço.

E pela primeira vez na vida, eu chorei por um garoto.

Notas finais
Postei às pressas ¬_¬ Se tiver algum erro me avisem, sim? Feliz natal a todos! Reviews? *U*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.