Amor é um Vício

4 Capítulo 4 - Anamnesis


Sonhou um antigo sonho. Uma memória há muito esquecida de sua mente. Haviam coisas em seu passado que deseja muito esquecer, mas tais lembranças teimam a lhe perturbar. Aquelas memórias sombrias que o perseguiam e que o machucavam, permaneciam ali, fixas em lugares distantes da sua mente.

Alex sempre pensou que a tragédia da vida fosse o esquecimento. Os homens viviam de lembranças; de antigas memórias que os modelavam; que os transformavam; que criavam sua personalidade e história. Os homens nada mais eram que um aglomerado de histórias e escolhas que quando reunidas levavam a determinadas personificações daquilo que seriam. Uma velha frase lhe acometia como um terrível lembrete. "O homem nada mais é que a soma de seus atos". Ouvira aquilo há muito tempo dito por uma pessoa que já não mais poderia falar. Que não mais poderia mentir.

“As pessoas são apenas coisas, Alex, nada mais, nada menos. Um aglomerado de histórias boas e ruins, de mentiras e verdades, de traição e fidelidade, de paixão e sofrimento, nunca se esqueça disso. Esquecer-se é abandonar quem somos, quem podemos ser e quem seríamos". Aquelas palavras continuavam vivas nos confins de sua mente, sempre lhe roubando sua felicidade, sempre o advertindo que se as esquecesse deixaria de ser quem é para então torna-se um vazio. "E o que nos sobra quando abandonamos quem somos, Alex? Nada. Pois não importa o que fazemos para esquecer, elas estarão sempre lá, abandoná-las não as torna nula, só as deforma. Um homem jamais volta a ser uma folha em branco, não se esqueça, você não pode apagar seu passado, se tentar, estará apenas escrevendo em uma folha riscada e maculada cuja conteúdo nada mais será que uma tentativa vã de mascarar sua própria deformação. Viva com isso. Torne-se o que deve se tornar. Mesmo que seja mau. De homens bons o mundo já está cheio". Aquele homem, com suas palavras frias carregada de pesar e arrependimento não o ensinou nada a não ser crueldade. Não havia o ensinado nada a não ser a maldade.

"Os seres humanos nascem e morrem sozinhos, Alex. Isto é algo da qual não podemos fugir. Amor, paixão, amizade, carinho, desejo, abandone tudo isso, seja completamente puro, e então verá a vida como ela é. Abdique aos sentimentos, construa suas memórias e histórias sozinho, sem precisar dos outros, pois amar é uma fraqueza, e toda fraqueza o destrói. Você será abandonado, não se engane, não se deixe iludir, todas as pessoas morrem só, abandonadas e esquecidas. Mas se você não se esquecer jamais de quem é, você será completamente livre. E suas memórias do dia em que nasceu até o dia em que morrer, será a única coisa que não o deixará".

Palavras várias, pensou Alex, de um velho tolo que morreu sozinho, abandonado à mercê de sua própria condição de mesquinhez e egoísmo. Um trágico poema sem profundidade, sem calor, sem emoção. Ele sabia, tinha se convencido disso. Aquelas palavras amarguradas não poderiam lhe ferir mais, mas por que continuava sonhando com elas? Por que teimava a relembrar e a relembrar daquele velho saco de ossos que já havia morrido muitos anos antes de sequer ter chegado a descobrir o que é ter vivido?

Mas não importava, não importava o que fizesse para esquecer, para abandonar aquelas lembranças lá estavam elas invadindo seus sonhos. Torturando-o constantemente e interminavelmente. Ele não aguentava mais. Não as queria. Queria esquecê-las, queria que todas elas fossem mentiras. Que fosse apenas um triste e fatídico sonho. Que no final, tudo fosse algo onírico.

Porém a vida não é tão gentil assim e o passado é um túmulo, um terrível e sombrio túmulo que preserva tudo o que temos de ruim. E como um pesadelo vivo ele reviveu suas memórias.

"Eu não quero, não quero mais, por favor".— ouviu a si mesmo dizer, tinha doze anos. Era só uma criança. "Eu não posso".

"O que eu disse antes, Alex? Você tem que abandonar esses sentimentos. Seja apenas puro. Não existe espaço para piedade no mundo".— disse-lhe aquele velho homem sem rosto.

No sonho seu rosto não passava de um negrume. Uma sombra espessa e maligna que o circundava. Não conseguia ver aquele rosto, não conseguia enxergar sua forma. Só via o terror.

"Ele está inconsciente, eu não quero, não quero. Por favor, pare vovô".— implorava o menino.
"Você quer ser abandonado novamente, Alex? Como seus pais fizeram? Quer ser deixado de lado?".— perguntou aquela escuridão com a voz carregada de crueldade.

"Não, isso não, por favor, não me deixe".— implorou o garoto. Com lágrimas escorrendo em abundância pelo rosto jovem.

"Então faça".— ordenou a velha escuridão. "Ou quer que eu o macule novamente, Alex?".

Não! Não! Não! Não! Alex gritava para seu eu mais novo. Não faça. Se o fizer jamais será o mesmo.

Mas sua voz não podia alcançar o passado. Aquilo não era nada mais que uma lembrança terrível. Uma lembrança cruel. Um terror absoluto.

O corpo do outro garoto estava imóvel. Ensanguentado. Quem era ele mesmo? Alex nem se recordava. Não o conhecia. Nunca o conheceu. Não sabia nada sobre ele. Sobre os outros. De onde viam. Eles tinham pais? Eles tinham famílias? Nada. Todos eram diferentes, todos não passavam de desconhecidos. Queria apagar tudo. Queria esquecer. Deixar que esse sofrimento sumisse, preferia morrer a continuar. Mas isto foi negado. Ansiava por viver, desejava viver. Era só um garoto, uma criança, não era culpado. Não podia ser culpado.

Porém, foi obrigado. Obrigado a agredir aquelas crianças. Machucá-las. Ele também era uma criança. Por quê? Por que teve que passar por tudo aquilo? Por quê? Por que seus pais o abandonaram? Por quê? O que ele tinha feito? Qual foi seu erro? Qual foi o seu erro?

Não! Não! Não! Gritava em desespero esperando que ele pudesse ouvir. Que pudesse parar. Não! Não! Não! Mas nada podia ser feito. O passado não existe senão em lembranças.

E a voz da escuridão ria, ria, ria, e quanto mais Alex agrediu o garoto sem nome, mais a maldita escuridão ria.

— Alex! Alex! Alex!

Ouvia uma voz chamar seu nome distante, como uma miragem. Desértica. Oca. Aterrorizada. E sua mente teimava a reviver as imagens. O pesadelo. E a voz chamava:

— Alex! Acorde! Alex!

Quando seus olhos se abriram ouvia aquele riso ecoando em sua mente. Gargalhando. Escurecendo seu ser. Rindo e rindo. Perfurando sua mente. Maculando sua mente. O matando. Roubando sua inocência. Roubando sua felicidade. A escuridão que tanto ansiava, aspirava, odiava, amava, detestava, estava ali, o encarando, o observando. Escuridão. Só isso que via era escuridão.

Seu corpo agiu como uma máquina, inconsciente e programada, recordando tudo que fez. O guiando sem ele consentir. Aspirando por realizar o mesmo que fazia no passado.

— MORRA! MORRA! MORRA! MORRA! MORRA DE UMA VEZ – gritava para escuridão.

Mas suas mãos não se agarravam a escuridão do passado. Não, elas agarravam a faísca que representava a luz no fim do túnel. A pequena luz da sua vida. A imagem daquele que mais amava. De quem mais queria amor.

— Alex, sou eu! – a voz dizia. – Alex, está tudo bem.

A voz o trouxe a realidade. O tragando violentamente para seu presente. Para si mesmo. Não para o que era. Conheço essa voz. É Daniel. É Daniel. O que está acontecendo? Quando despertou viu apenas seu corpo forçadamente em cima de Daniel. Suas mãos tentando agarrar seu pescoço, e as mãos dele lutando para segurá-las. O que estou fazendo? O quê? Por quê? O desespero o acometeu. Pesado e violentamente. Tudo nele ruiu, uma avalanche de terror e desespero.

— Desculpa, me desculpe, me desculpe – repetia as palavras chorando. Incrédulo demais para acreditar no que ocorria. – Me desculpe.

Sentiu as mãos de Daniel puxar seu corpo para o dele, abraçando-o. Seu toque era tão gentil, tão acolhedor. Tão quente. As mãos dele acariciavam seu cabelo enquanto Alex afundava sua cabeça no travesseiro, tentando abafar as próprias lágrimas.

— Está tudo bem. Eu estou aqui – Daniel sussurrava com uma voz gentil. – Eu estou aqui agora.

Ele ainda soluçava todo o corpo reagindo ao sonho. A lembrança viva do seu passado. Seu próprio terror.

— Estou aqui, Alex, e nunca, nunca vou sair do seu lado.

Que palavras gentis, pensou Alex, que toque gentil. Quando foi a última vez que alguém havia lhe dito algo tão gentil? Quando foi a última vez que alguém o tocou tão gentilmente? Não se recordava. Não tinha memórias de nada tão caloroso. Tão real e verdadeiro. Apenas ficou ali, sob o corpo de Dan, sentindo seu calor; sentindo as mãos dele acariciando seus cabelos com tanta gentileza e carinho. Não sabia quanto tempo já haviam se passado. Daniel apenas ficou naquela posição, sem reclamar, sem se importar com seu peso em cima dele. Alex não queria sair, queria ficar ali. Desejava que Dan o mimasse mais que dissesse que tudo ficaria bem quantas vezes fossem necessárias. Queria sentir seu toque eternamente. Ouvir sua voz. Amar tudo nele e ser amado. Não desejava nada mais que isso.

Alex adormeceu sobre o corpo do amigo, sentindo o cheiro dele, o cabelo dele encostando-se a seu rosto e suas mãos gentis o afagando. Pensou por alguns instantes que tudo que viveu foi uma mentira, e só Daniel e esse momento fosse real. Queria viver esse momento para sempre. Assim poderia viver de verdade, viver por algo que valesse realmente a pena viver.

Quando acordou Daniel ainda estava ali, mas dormia. Alex o puxou para perto de si, escondendo seu rosto nas costas dele. Poderia ficar assim para sempre. Não tinha do que reclamar. Se alguma vez foi feliz, não conseguia se lembrar sem visualizar Daniel.

Ele é meu único consolo neste mundo. A única pessoa que me ama verdadeiramente. Nem meus pais de mentira são tão importantes quanto Daniel. Ele precisava contar a verdade para Daniel, sobre seu passado, seus pais, seu avô e sobre seus pais adotivos, que na verdade eram seus tios. Mas não tinha coragem. Não tinha coragem de contar para Dan sobre seu passado monstruoso.

Ele conheceu Daniel aos onze anos na mesma época em que seu avô o fez cometer todo tipo de crueldade e o fez passar por todo tipo de violação. Naquela época Alex não tinha outro desejo além de desaparecer desse mundo. Até que conheceu aquele pequeno garotinho de cabelos negros e olhos profundamente gentis. Havia alguns garotos ao redor dele, garotos mais velhos, eles zombavam dele. Chamavam-no de mariquinha, fracote, viadinho e o agrediram, verbalmente e fisicamente. Alex observou por um tempo a cena, sem expressar nada pelo que via. E o garoto não fugia. Ele ficava lá, de cabeça erguida, seus olhos azuis encaravam seus agressores com determinação. Mesmo que não tivesse chances de vencer ele não corria. Mantinha-se firme em dignidade contra seus malfeitores. Ele os olhava como se olhava para animais fedidos e nojentos, determinado a não ceder um centímetro sequer da sua própria honra. Foram aqueles olhos que levaram Alex a vislumbrar no garoto algo que nunca teve: coragem.

Naquele dia ele enfrentou os garotos mais velhos e bateu em todos eles. A dor não era nada para ele. Convivia com ela todos os dias. Quando afugentou os agressores, o garoto olhava-o sem demonstrar nenhum tipo de gratidão, suas palavras foram as seguintes:

— Eu não precisava de ajuda! Poderia ganhar deles sem você.

— Você só estava apanhando.

Ele concordou.

— Mas eu não estava perdendo.

— Só estava apanhando mesmo – retrucou Alex.

— Meu pai me ensinou que a vitória não se trata do quanto você bate, mas do quanto aguenta apanhar e seguir em frente.

Aquela frase inocente vindas de um garotinho inocente deixou Alex admirado. Talvez fosse ali que amou ele. Se amor à primeira vista existe, foi ali que descobriu o amor. Decidiu naquele instante que protegeria Dan com a própria vida.

— Me chamo Alex – disse estendendo a mão para ele.

— Daniel, Daniel Maximillian – ele respondeu formalmente, segurando sua mão.

— Nome bonito o seu. Vou chamá-lo de Dan, agora que somos amigos.

Ele apenas acenou com a cabeça.

— Agora tenho que ir, ou meus pais vão ficar preocupados.

— Até mais – se despediu Alex, recordando o quanto desejava que ele ficasse mais um pouco.

— Até – se despediu Daniel.

Observou ele partindo, se distanciando correndo em direção a sua casa. A imagem do dia que o conheceu também nunca deixou sua mente. E mesmo quando o avô morreu, e ele foi adotado pelos tios, Alex nunca revelou seu passado. Nunca deixou que viesse à tona. Guardou-o consigo. Como aquele velho, que morreu só, sem ninguém para velá-lo. Morreu com seus pecados, sem nunca ter se arrependido, sem nunca ter sido realmente amado, nem pelos filhos. Talvez em algum momento Alex tenha o amado, mas isto ficou no passado, onde suas mãos jamais voltariam a alcançar. Esse era o único consolo de Alex neste oceano de tristeza.

Que você apodreça no inferno, vovô. Que sofra eternamente. E que sua alma seja engolida pela escuridão e solidão, tal como foi em vida. Que você não encontre jamais a salvação.

Quando Daniel se mexeu Alex ainda o abraçava e Dan se virou para ele. Seus lindos olhos azuis o encararam e eram tão gentis. Ele sorriu e sussurrou:

— Bom dia. Você está melhor?

O coração de Alex se encheu de ternura. Nada importava. Não interessava se eram garotos, nada disso realmente importava. A única coisa que sempre importou para ele era o garoto na sua frente.

— Bom dia – respondeu sorrindo. – Eu não poderia estar melhor.

— Fico feliz que esteja bem. Você me deixou desesperado... – Alex o beijou, sem o deixar terminar a frase.

— Não se preocupe com isso.

Daniel pareceu surpreso com a ação dele. Porém, o beijo mais pareceu lhe agradar do que o envergonhar. Às vezes Alex se perguntava se realmente era digno da amizade e amor de Daniel, seja lá qual fosse a resposta seria o bastante para ele.