Amor é um Vício
1 Capítulo 1 - Observação
— Eu não aguento mais, sério – disse Alex desanimado. – Eu estou puto demais com esse calor.
Daniel encarou-o novamente. Era a décima ou vigésima vez naqueles últimos cinco minutos? Alex sorria de canto, sempre como se tudo ao seu redor fosse nada mais que um palco onde todas as piadas pertencem a ele. Os cabelos loiros cortados rente à testa, bagunçados e encharcado de suor após ele terminar outra partida de futebol lhe dava um aspecto bastante másculo. Mesmo daquele jeito ele ainda era incrivelmente lindo. Daniel não sabia bem o que sentia pelo garoto, mas por alguma piada do destino sempre que Alex estava perto dele — e isto era frequente já que o garoto não tinha muito senso de espaço -, ele sentia um tipo de adrenalina percorrendo seu corpo.
Alex o encarou com aqueles olhos cor de mel de quem estava o tempo todo observando a tudo e todos e sorriu com malícia.
— Mano – Alex começou a dizer, os dentes brancos aparecendo quando sorriu. – Tu não anda me encarando demais ultimamente? Tem algo de errado comigo? Tem algo no meu rosto?
Ele se aproximou cobrindo novamente o espaço que os separava, próximo o suficiente para Daniel sentir sua respiração e o cheiro de suor do garoto.
— Perto demais – Daniel disse o afastando. – Você está cheirando a suor.
Ele cheirou a blusa e suas axilas. E depois se aproximou de Daniel, cheirando-o também.
— Você também está cheirando um pouco a suor – retrucou Alex, dando outra fungada perto do seu pescoço balançando a cabeça com incredulidade.
— Puta merda, porque você sempre cheira tão bem mesmo depois de uma partida?
Daniel suspirou cansado.
— Você jogou três partidas, eu apenas uma. É claro que não vou feder como você.
— Cruel! Você é cruel, Dan! – ele disse fingindo tristeza.
Daniel não sabia o que fazer sobre Alex e principalmente, não sabia lidar com o turbilhão de sentimentos em relação ao melhor amigo. Nunca havia sentindo aquele tipo de tensão e excitação por outros caras, na verdade, nenhum outro cara chamava sua atenção — talvez alguns poucos — fora Alex, ele era relativamente alheio a garotos, mas mantinha relações com garotas normalmente. Então por que eu estou imaginando coisas entre nós que não deveria imaginar?
Alex estalou os dedos na sua frente.
— Ow, Dan, presta atenção em mim, por favor? Tô falando aqui, mas você nem tá ouvindo.
— Desculpe, acabei me desligando um pouco.
O garoto concordou com a cabeça. Como se de fato entendesse o que se passava. Ele passou o braço pelo pescoço de Daniel e o puxou para próximo de si, para sussurrar algo em seu ouvido.
— Posso dormir na sua casa hoje? – perguntou.
Daniel sentiu um choque percorrendo seu corpo e uma parte dele que não devia estar reagindo reagiu. Droga, por que você tem que ser tão ilógico e sem senso de espaço? Teria dito em voz alta se não estivesse ocupado em manter uma parte lá embaixo sobre controle.
— Por quê? Você não ia dormir na casa da sua namorada? Você me avisou ontem.
Ele negou. Seu olhar demonstrava irritação ao ouvir a palavra “namorada”.
— Não quero. Você sabe que as coisas andam complicadas entre nós.
— Não, eu não sei. Vocês sempre parecem brigados.
Ele suspirou pela segunda vez.
— Se eu não posso é só você falar. Como seus pais viajaram pensei que a casa tivesse livre. Ou você tem algum compromisso com a sua atual ficante?
Ele é um completo idiota.
— Este não é o problema.
Ele tirou o braço do pescoço de Daniel.
— Então o problema sou eu? – perguntou curioso.
É, o problema é justamente você. Mas não podia dizer algo assim.
— Não é bem isso, mas você sabe que sou filho único, então apesar da casa ser grande tem três quartos principais, um deles está ocupado com um monte de tralha e só sobra meu quarto e dos meus pais vago no momento, já que a casa está de reforma e os quartos de hóspedes na parte do fundo estão sendo reformados. Vai ter que dormir no sofá ou no colchão livre.
Ele sorriu.
— Isso não é problema. Posso dormir em qualquer lugar.
— Eu imagino.
Ele passou a mão energeticamente nos cabelos de Dan.
— Agora eu preciso tomar um banho, então vamos?
— Para onde?
— Sua casa.
Daniel sentiu um rubor pelo rosto.
— Você não pode tomar banho na sua casa?
Alex anuiu:
— Posso, mas não quero. Tua casa é mais próxima e tá cheio de parentes lá em casa. Não estou com vontade de ficar lá, entendeu?
Daniel se sentiu derrotado. Não era a primeira vez que Alex dormia na sua casa ou tomava banho lá, ele já dormiu várias vezes lá na verdade, antigamente, quando eram mais novos. E algumas depois de mais velho. Isto só começou a ser um problema quando a presença de Alex começou a excitá-lo. Mas não poderia dizer não, de alguma forma ele demonstrava estar bastante aflito com algo, então Daniel foi incapaz de negar o pedido.
— Vamos então? – perguntou Daniel acendendo um cigarro e oferecendo um para Alex que aceitou.
O amigo limpou o rosto que suava por causa do calor com a camisa e inconscientemente Daniel observou seu abdômen. Logo em seguida desviou o olhar. Era bem definido para um garoto de dezessete anos. Seria estranho se não fosse, Alex vivia na academia e sempre malhou ou se exercitou desde que eram pequenos. Dan não ficava muito para trás, mas não era do tipo que se esforçava mais do que o necessário, completamente oposto de Alex.
— Ah, quase esqueci, vamos comprar bebidas? – Alex perguntou com tom de afirmação. – A gente pode beber e assistir filme, sua TV é enorme, e você é ricaço, você paga, já que arrumei seu carro.
Daniel sabia que ele usaria o fato de ter consertado um problema em seu carro em algum momento. A família dele mexia com carros, claramente que Alex saberia mexer também, e o fazia com a mais completa tranquilidade. Quando o carro dele deu um problema na injeção elétrica ele não fazia ideia do que fazer, então ligou para o amigo que veio na hora. Ele não era interesseiro, de forma alguma, Daniel tentou oferecer dinheiro, mas o amigo achou sua intenção algo totalmente desnecessária e entre pagar um mecânico e comprar álcool, no final, isto era menor do que o valor do trabalho dele.
— Isso é extorsão – disse Dan brincando.
— Eu sou seu melhor amigo.
— Isso é chantagem emocional.
Alex gargalhou.
— Você é um completo idiota.
Olha só quem fala.
Quando terminaram de fumar ambos se dirigiram até o carro de Daniel em frente ao estacionamento do campo onde haviam ido para jogar bola. A casa dele não ficava longe, geralmente vinham andando, mas o sol e o calor do verão não facilitavam. Andar a pé neste calor e mormaço seria duplamente cansativo.
O caminho pra casa foi silencioso, Alex permaneceu no celular os poucos minutos que demoraram a chegar ao destino. Pararam apenas para comprar bebidas. Comprou dois fardos de cerveja. Daniel notou que ele estava mais sorridente do que o normal e agora parecia também mais tranquilo. Isto o deixava feliz, ultimamente o amigo havia estado sempre pra baixo, coisa que não é comum em Alex, mas também era um problema para ele. O amigo era alguém muito afetuoso e carinhoso, nunca sequer nos seus tempos de amizade Alex levantou a voz para Dan. Não importa o quanto brigassem e eles brigavam bastante, porém, Alex nunca gritou. Tinham um relacionamento saudável. E ele gostava da companhia de Alex mais do que a de outras pessoas.
Mas o rapaz era completamente desligado de algumas coisas, e completamente ilógico na maior parte do tempo. Não tendo um pingo de noção na maioria das suas ações. Isto não importava, e não causava problemas, não problemas sociais, mas pessoais, sim. Vários. A falta de noção de Alex e sua aproximação quase sempre invasiva deixava Daniel inseguro e temeroso, tudo ao mesmo tempo. Já que tinha medo de Alex descobrir seus sentimentos por ele.
Alex não fazia por mal. Era o jeito dele, ele sempre gostou de se aproximar das pessoas. Sempre foi alguém que gostava de demonstrar sentimentos. Não é do tipo que esconde muito bem suas variações emocionais. Era quase um livro aberto, mas às vezes, completamente inacessível e incompreensível.
Assim que chegaram a sua casa Alex foi direto para o banheiro. Daniel deixou as bebidas na geladeira e foi para a cozinha preparar um café. Enquanto a água fervia aprontou a mesa com o que tinha no momento para comer. Havia geleia de goiaba, queijo, pão francês, pegou o leite e algumas laranjas, sabendo que Alex não tomava café. Preparou um suco de laranja para que o amigo pudesse tomar e quando terminou de coar, encheu uma xícara de café e foi se sentar no sofá. Acendeu outro cigarro e bebericou o café e o cheiro foi suficiente para acalmá-lo.
Estava com uma tensão a flor da pele, com as emoções bagunçadas e a mente inebriada de desejos mesquinhos. Isto sempre acontecia quando Alex o surpreendia com algo inesperado como um pedido como aquele. A incapacidade de lidar com estas emoções estressavam Daniel que odiava estar sobre controle das emoções e não da razão.
Ouviu a voz de Alex o chamando do banheiro. Por alguns segundos quase havia esquecido que o garoto estava tomando banho.
— Toalha – ele gritou. – Preciso de uma.
— Deve ter alguma dentro do armário da pia – respondeu.
A porta se abriu repentinamente. Não pouco, não o suficiente só para ele colocar a cabeça para fora e dizer algo. Mas, literalmente, ele havia arreganhado a porta. Daniel se assustou, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo em segundos. Alex estava nu, com tudo a mostra, como no dia de seu nascimento, e a primeira coisa que seus olhos se puseram imediatamente a ver foi seu pau. Daniel corou e se virou para o lado.
— Foi o primeiro lugar que eu procurei e não tinha – disse Alex.
Daniel se virou para ele, se esforçando para manter o olhar focado nele e não lá embaixo, onde estava curioso para observar melhor. Já que pelo que viu, além dele ter deixado tudo sem pelo, seu pau não era nada mal.
No que eu estou pensando? Em que porra eu tô pensando?
Respirou fundo não deixando o desejo de o seu corpo dominá-lo. Alex o olhou com uma curiosidade totalmente maliciosa. O tipo de olhar de alguém que está testando uma pessoa e ficou completamente satisfeito pelo resultado que obteve.
— Vou pegar uma – disse Daniel se afastando.
— Okay.
Daniel se afastou e Alex o seguiu em silêncio atrás, os pés fazendo barulho enquanto caminhava com os chinelos molhados pela casa.
— Você podia ter esperado no banheiro.
— Eu teria que ir pro seu quarto de qualquer jeito para me trocar.
— Mas não precisava andar pelado pela minha casa.
Alex riu.
— Isto te incomoda?
Daniel se irritou, mas não se deixou ser enganado por ele.
— Acredito que sim. Não é legal andar pelado pela casa dos outros.
— Hmm... Eu acho que não.
— Acha que não o quê?
— Não é algo que me incomodaria – disse Alex.
— O quê? – perguntou Daniel irritado.
Alex não respondeu. Daniel entregou a toalha para ele sem encará-lo em nenhum momento. Precisava fingir que aquilo não estava acontecendo, ou senão, seu corpo reagiria novamente. Vê-lo nu já foi suficientemente complicado de lidar, principalmente com a parte do seu corpo que mais queria vê-lo e senti-lo. Teve que andar na frente sem deixar transpassar que estava tendo uma ereção.
Enquanto ele se secava, pegou uma cueca, camisa e um short e deixou em cima da cama. Sentia os olhos de Alex em cada movimento seu, como se ele estivesse o observando, analisando-o. Sentiu certo desconforto com aquilo e quando foi sair do quarto, apressado, não percebeu que a porta de vidro estava fechada em um de seus lados e deu direto com sua testa nela.
— Droga! – exclamou de raiva. – Porra.
A dor foi bastante razoável e levou a mão a testa por um momento, antes de sentir uma leve tontura e tropeçar em algo no chão, Alex se moveu com rapidez e o segurou antes que pudesse cair. Os braços dele se fecharam em torno de seu peito quando o segurou. Quente. Ele está quente. Sentia o corpo dele completamente junto do seu, seus braços segurando-o com delicadeza, e os músculos do braço reagindo ao peso. A barriga dele relava em suas costas deixando uma sensação de calor ao toque. Daniel agradeceu o fato dele ao menos ter colocado a toalha da cintura para baixo, caso contrário seria incapaz de manter o controle do próprio corpo.
— Você está bem? – Alex perguntou calmo, sua respiração próxima de seu ouvido foi o bastante para arrepiá-lo. – Está doendo?
Ele o levou até a poltrona no canto do quarto, tomando todo cuidado possível como se para Alex, o amigo fosse de porcelana.
— Estou sim, só me deu uma tontura por causa da batida.
— Certeza? – perguntou ele colocando a mão sobre a testa dele. – Você não está sentindo nenhuma dor?
— Não. Estou bem, sério. Foi só por conta da batida.
— É... – sussurrou ele enquanto se debruçava em cima de Daniel, apoiando as mãos nos braços da poltrona, e jogando todo seu corpo sobre o dele. – Você parece bastante tenso. Tem certeza que está bem?
— Eu estou bem... Você está perto demais.
Perto demais. Consigo sentir o cheiro dele. Consigo quase imaginar como seria beijá-lo nesta posição. Alex provavelmente beija bem. Pensou ele, enquanto o amigo o encarava com ar sério.
Um sorriso brotou nos lábios dele, suave, sem nenhuma timidez, totalmente seguro de si. Pequenas gotas d'água caíam de seus cabelos loiros. Os olhos cor de mel fixos nos dele. Tão profundamente ele encarou que foi o suficiente para que Dan desviasse o olhar do amigo.
Eu não sei o que ele está pensando. Não consigo entendê-lo, será que está brincando comigo? Não seria estranho se fosse, sabia disso. Alex podia ser bom, afetuoso e gentil, porém, era completamente sagaz e manipulador.
— Por que está tão tenso, Dan? – perguntou ele se aproximando ainda mais. O espaço que os separava não passava de centímetros. – Você me parece bastante tenso ultimamente. Sempre me encarando, sempre me olhando quando não estou prestando atenção em você. E quando percebo você se afasta, finge indiferença, como se estivesse com medo de que eu percebesse.
O coração de Daniel batia rápido, extremamente rápido. Todo seu corpo pulsava. Tum, tum, tum, tum, tum, tum, sempre acelerando. Pensou que o barulho estava tão alto que até Alex poderia ouvir. Não consegui pensar em nada pra dizer. Não tinha como dizer. A presença de Alex quase em cima dele era totalmente perturbadora. Agitava todo seu pensamento lógico.
Deixando o quê? Só sua fraqueza.
— Você sente algo por mim, Dan? – ele perguntou sem vacilar.
Não podia responder que sim. Não sabia o que aquilo poderia representar. Alex podia muito bem só estar brincando com ele. Fazendo com que dissesse qualquer coisa que o comprometesse.
— Não... Você não está me dando espaço.
— É só você me afastar. Podia tê-lo feito, eu não faria nada contra você. Mas não o fez.
Dan engoliu em seco. Sem pensar em nada para dizer.
— Sei que você gosta de mim, sei que se sente atraído por mim e isso é bastante interessante a meu ver.
O que ele está dizendo. O que ele espera que eu diga com isso? Não conseguia pensar em nada. A mente estava completamente bagunçada. E a aproximação dele o deixou excitado. Extremamente excitado. Alex riu. Um riso totalmente infantil.
— Tudo bem, eu não vou te forçar a dizer. Talvez eu tenha entendido errado. – Alex disse se afastado, e Daniel pode respirar novamente.
Ele se virou e começou a caminhar até onde estavam as roupas, mas parou por um instante e disse:
— Não me importo em satisfazer seus desejos. Afinal, você é o esperto entre nós, e eu sou só o garoto forte. Você me ensina, e eu, te defendo. Mas podemos inverter a situação dessa vez, certo?
O que diabos isso quer dizer, porra? Que tipo de fala de algum filme hollywoodiano é essa? Ou seria algum drama BL asiático?
— Tô cheio de fome – ele disse, enquanto se vestia. – Um tipo de fome bastante voraz. Uma fome que começa com D e termina com L.
Daniel levantou e saiu. Pode ver Alex sorrindo enquanto se afastava
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