Amor à última Vista
4 Capítulo 3
As vozes dos companheiros de equipe do moreno foram suficientes para que ele abrisse os olhos e deixasse de notar as sensações que haviam impregnado sua mente e corpo quando o beijo se inciou; no entanto, os olhos do telepata estavam abertos e focados nele, em um aviso silencioso para que ele permanecesse quieto.
O absurdo da situação em que havia se metido, como aceitar ser trancado com um dos seus inimigos no banheiro de uma boate, caiu como um saco de cimento na cabeça do assassino mais novo, que mesmo sabendo que não era a atitude mais esperta a ser tomada, tentou se debater e escapar do alemão. A força no seu pulso aumentou, e os seus gemidos de dor foram rapidamente encobertos por mais um beijo voraz de Schuldig, que no final acabaram por tirar do moreno gemidos que não sinalizavam nenhum sofrimento, físico ou psicológico. Uma risada baixa que pertencia a Yohji se seguiu. — É por isso que eu não entendo como o Kenken não gosta de sair comigo. Ele bem que poderia estar aqui se aquecendo com esse som ambiente ou participando dele. — Yohji-kun! — Omi rebateu assustado, corando furiosamente mas não deixando de notar os barulhos que vinham da porta da cabine trancada — Deixe disso e me diga: tem certeza de que viu Mastermind por aqui? Dentro da cabine, os olhos de Ken tinham um brilho de triunfo, mesmo estando ainda preso pelo outro homem ali dentro. Mas infelizemente, era Schuldig quem agora os tinha fechados, acabando com a alegria momentânea do outro homem. — Claro que sim, Chibi. É difícil encontrar outra pessoa com aquele cabelo. — Hmmm... Wakaranai [1], Yohji-kun. Acho que a luz pode confundir a nossa visão. E depois, me surpreende você ter prestado tanta atenção em um homem lá fora. — Eu espero que você não esteja insinuando o que eu acho que você está insinuando. Agora foi a vez de Omi rir, e Ken estranhava o fato de Schuldig não ter reaberto os olhos. Na verdade, até o beijo que eles dividiam havia cessado, mas os lábios do telepata ainda estavam contra os seus, impedindo-o de falar. — Bom, talvez eu esteja exagerando. Vamos voltar, estamos perdendo tempo aqui dentro. — Verdade. — o menor dos Weiß concordou e os dois deixaram o banheiro masculino, a porta fazendo barulho quando se abriu e deixando a música da pista de dança invadir o recinto até que ela se fechasse novamente. Somente aí Schuldig se separou de Ken, jogando seu corpo para trás e apoiando-se na parede da cabine oposta a do moreno, ofegando um pouco. Olhos turquesa se abriram a tempo de ver o integrante do Weiß limpando a boca com as costas da mão direita. — Você me dá nojo, Schuldig. — Ah, é? Não parecia bem essa a sua opinião momentos atrás. Até mesmo Kudou concordaria comigo. — Não mencione os nomes dos meus amigos. — o moreno acirrou os olhos, movendo a mão direita para a o trinco da porta e abrindo a mesma — Me deixe em paz ou me mate de uma vez. — Sabe, gatinho. — o alemão sorriu e jogou o corpo para a frente, o movimento deixando o tecido ainda mais solto e possibilitando uma visão ainda mais atraente do seu torso do que antes. Fios cor de fogo caíram para o espaço que agora havia entre eles, a mão direita de Schuldig indo para a porta, segurando-a ainda fechada — Poucas coisas são interessantes para um telepata, e você é uma delas. Até eu me encher de você, será inútil tentar fugir de mim. — Estou sentindo muito medo das suas palavras. — Ken bufou e vencendo a força muscular de Schuldig com certa facilidade, conseguiu abrir a porta, saindo de dentro do cubículo e apoiando-se na pia, abrindo a água e lavando o rosto e pescoço. Ele se detestava por ter cedido a Schuldig, e ainda mais por ter gostado. Ele se odiava por saber que deveria tentar matar o telepata, mas ao invés disso, optava por ameaças vazias. Aqueles paradoxos que circulavam na sua cabeça sem parar, colidindo e depois retomando os seus rumos errantes estavam deixando o integrante do Weiß confuso e atormentado. Braços fortes o circundaram pela cintura, puxando Ken para trás. O ex-jogador de futebol se viu novamente contra o tórax de Schuldig, o cabelo longo do outro homem serpenteando pela sua blusa escura enquanto ele falava próximo do seu ouvido: — Isso, Siberian. Continue assim, sem saber como agir. Isso só faz de você mais insano e delicioso de perseguir. O telepata mordeu o pescoço de Ken, fazendo o outro homem gritar de dor com a ação súbita. No entanto, o alemão, ao mesmo tempo que cravava seus dentes na pele morena do ex-jogador de futebol, pressionou uma das suas pernas para a frente e deslizou suas mãos pelo corpo absurdamente bem torneado do outro homem, mais uma vez misturando prazer e dor de um jeito intrigante. Tão inesperado quanto o ataque de Schuldig foi seu desaparecimento, deixando Hidaka Ken sozinho no banheiro com a respiração acelerada e a mente embaralhada, sem saber se tudo havia sido real ou uma alucinação. Olhando para o seu reflexo, a marca no seu pescoço indicava que a hipótese mais provável era a primeira. A mudança de humor que havia se operado em Ken fora tão extrema após a comemoração do aniversário de Yohji que até mesmo Aya havia perguntado se alguma coisa tinha dado errado.
Ante a pergunta, o moreno respondeu negativamente, tentando parecer convicente. O líder do Weiß percebeu que a saída dos três não havia sido normal, mas conhecendo o desconforto que o ex-jogador tinha ao freqüentar tais lugares, não questionou mais o outro assassino. Uma semana de folga foi o período que o ex-jogador de futebol teve antes da próxima missão, noticiada a eles em um começo de tarde chuvosa quando Manx apareceu na floricultura. Era curioso como ela sempre chegava quando já não tinha mais nenhuma garota comprando no Koneko, e nunca parecia ser notada pelas freguesas do lugar. — Weiß, vocês tem uma missão. — a secretária anunciou com o seu tom de sempre ao inserir a fita de VHS no videocassete logo embaixo da televisão na sala das missões, fazendo Yohji sorrir da sua posição, praticamente largado em um dos sofás. — Ah, Manx. Por um segundo, eu jurava que você iria convidar a todos nós para um jantar. — Claro, Balinese. — ela redargüiu enquanto apertava o \"play\" — Quando alguma missão pedir para que vocês trabalhem como garçons. Com um sorriso que, na opinião de Ken, foi malvado, a ruiva se afastou da televisão enquanto o vídeo rodava, as palavras entrando por um ouvido e saindo pelo outro do ex-jogador de futebol, confuso demais com as estranhas investidas que Schuldig estava fazendo para prestar atenção no que ocorria na tela. O nome \"Takatori\", no entanto, chamou sua atenção, fazendo com que ele voltasse sua cabeça na direção do vídeo em segundos, em uma reação que fez Omi e Yohji se entreolharem. Afinal, quem tinha um histórico de ódio nada pequeno pelo nome ali dentro era o espadachim, e não o moreno. O vídeo acabou momentos depois com a já célebre frase de Persia, que no começo de tudo até tinha uma certa aura de mistério e imponência, mas depois de repetida tantas vezes, começava a soar como dispensável. Ken já não tinha mais certeza sobre qual amanhã ele estavam exterminando: os dos criminosos ou os deles próprios, cada vez mais se afundando em um mar de assassinatos, sonhos destruídos e violência. Estranho como aquela visão da sua vida nunca havia lhe ocorrido antes. Piscando, o nome \"Takatori\" voltou à sua mente, e ele sentiu a adrenalina correndo pelas suas veias naquele mesmo instante. — Manx? — Sim, Siberian? — Quais as possibilidades de um encontro com o Schwarz durante essa missão? A pergunta pegou todos de surpresa no cômodo, mesmo que a luz apagada não permitisse uma observação detalhada da expressão de cada um. A secretária da Kritiker suspirou enquanto retirava a fita de VHS do aparelho embutido na televisão, apoiando uma mão na cintura quando tinha completado a sua pequena tarefa. — Francamente falando, Siberian? Muito altas. Parece que eles andaram seguindo todas as nossas atividades, mesmo aquelas que não eram ligadas a Takatori. — Isso nós notamos. — comentou Aya do seu canto, em uma voz baixa mas espantosamente clara e audível. Um aceno por parte de Yohji se seguiu. — Por que a pergunta agora? — ...Nada em particular. Uma sobrancelha cor de sangue foi erguida pela ruiva, que balançou a cabeça negativamente e pegou suas coisas para sair, preparando-se para abrir um guarda-chuva. O playboy prontamente se ofereceu para que ela dormisse ali ou então aceitasse uma carona, mas a secretária recusou os dois convites com um olhar que faria até mesmo Schuldig sentir medo. Schuldig. Por que diabos ele estava pensando no telepata com aquela freqüência toda? Por quê? Uma parte da sua mente dizia que era porque ele não parava de ser seguido, pertubado e provocado pelo alemão. A outra parte defendia a idéia de que, na verdade, Ken estava achando a presença do outro homem na sua vida interessante. Era realmente algo fora da sua rotina floricultura-missão-futebol, que o colocava em situações reais de perigo de vida que ele não conhecia em missões simples, disparando a adrenalina nas suas veias. O ex-jogador de futebol se viu em uma perigosa situação: a de que a parte mencionada por último da sua mente estava ganhando a disputa. Hidaka Ken sabia que aquela não era uma noite comum e que ele não estava sozinho naquele setor do prédio. Ele não conseguia ouvir os passos de quem quer que o estivesse seguindo, mas tinha certeza de que havia alguém. Seus sentidos eram muito bem treinados, e não havia como enganá-los. Virando à esquerda em um corredor, o moreno foi surpreendido por um amontoado de caixas, que subindo até quase o teto, bloqueavam sua passagem. Suspirando, ele tinha quase certeza de que aquele era o caminho que Omi havia indicado para que ele chegasse até um dos escritórios, para finalmente destruir os computadores de lá. Frustrado, Ken grunhiu alto, resolvendo usar o comunicador. No entanto, na hora em que o moreno ergueu o braço direito para ajudar o pequeno microfone à sua boca, o zunido de algo voando bem próximo à sua orelha o pegou de surpresa. Olhando para as caixas na sua frente, o assassino encontrou uma faca cravada em uma delas. Totalmente em modo de combate, o ex-jogador de futebol se virou, pronto para mais um embate com Farfarello quando seus braços caíram ao lado do seu corpo, completamente desarmado por alguns instantes. — Você? — Ouch. Com esse tom, você me machuca... — o telepata respondeu com fingida dor, abrindo logo em seguida um sorriso que desmontava seu pequeno teatro de antes e que fez os pêlos da nuca de Ken se arrepiarem. Algo lhe dizia que aquele não era mais um dos simples encontros que ele tinha com o Schwarz durante missões; e o jeito que os olhos azuis de Schuldig haviam cintilado quando ele pensou naquilo só lhe deu mais medo. Antes que o membro do Weiß pudesse fazer qualquer coisa, Schuldig surgiu atrás dele e o agarrou pela cintura, de um jeito que lembrava um dos primeiros confrontos entre eles, travado há alguns dias. O moreno tentou se soltar, mas antes que ele conseguisse se livrar do abraço nada confortável do telepata, Schuldig tirou mais uma faca de um dos seus bolsos, rasgando o tecido da jaqueta de Ken em uma altura precisa do seu braço esquerdo, revelando uma ferida que parecia ter sido cicatrizada recentemente. O assassino mais novo sentiu o sorriso contra a sua nuca, se dando conta de que o homem de cabelos cor de fogo havia colado seu rosto no seu pescoço. Aquela sensação fez Ken congelar, somente para gritar de dor quando Schuldig reabriu a ferida feita por Farfarello no seu braço com um único corte, deixando que o ex-jogador de futebol caísse ao chão logo depois. O telepata se ajoelhou na frente do outro, um sorriso sem emoção no rosto e pronto para dizer alguma coisa para o homem ferido quando o braço machucado de Ken saltou para a frente, os dedos da sua mão esquerda se fechando em torno da garganta de Schuldig com uma força que assustou os dois envolvidos na questão. Sem falar nada, os dois permaneceram naquela posição no chão até o sorriso de sempre voltar ao rosto do membro do Schwarz, mas desta vez, o gesto alcançava seus olhos com um divertimento evidente: — Nein, eu estava errado. A palavra certa para você é paradoxo e não interessante. Quando se espera algo de você, você age ao contrário. Você mata e você salva ao mesmo tempo, corrompe e não deixa de ser inocente. O único problema... — o telepata teve dificuldade para engolir com a mão de Ken apertando-o daquele jeito — É que paradoxos não sobrevivem por muito tempo. Os pés calçados com botas militares do alemão de repente encontraram o tórax de Ken, que foi jogado para trás com o gesto, batendo a cabeça no chão duro do prédio. Em instantes, o telepata tirava as rugas imaginárias da sua roupa, seus lábios torcidos para cima em uma clara manifestação de prepotência e superioridade. — Você é realmente único. E pensar que apenas as justificativas nos separam. Sem mais, o homem de cabelos laranjas se foi, mas não antes de Ken notar que as últimas palavras do outro foram ditas com o sorriso presente, mas somente por hábito; elas eram a verdadeira mensagem do telepata, ainda mais pelo jeito que elas ecoaram na sua mente, ficando impressas no seu subconsciente. No chão e sangrando, o moreno começou a achar que, talvez, Schuldig fosse outra contradição ambulante.[1] Não sei.Continua...
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