Meses atrás...




— Ken-kun! Pode me ajudar aqui, onegai?

O moreno piscou, largando o regador verde brilhante que tinha nas mãos em cima de uma mesa, ignorando um olhar cortante de Aya; o moreno sempre dizia que coisas molhadas deixadas em cima de superfícies de madeira podiam manchar a madeira propriamente dita, mas o ex-jogador realmente não se importava.

Afinal, água e floricultura são coisas intimamente ligadas, as manchas faziam parte do pacote. Aya não podia simplesmente começar aquele regime nazista de conservação das mesas dentro do Koneko, era maluquice.

Desviando de algumas meninas e cumprimentando outras alegremente, Ken passou pelas portas de vidro do Koneko e se aproximou de uma van branca com Omi, o motorista logo destrancando a porta de trás do veículo e deixando que eles descarregassem sozinhos o conteúdo. Omi e Ken se entreolharam, espantados com a falta de solidariedade do motorista do fornecedor deles, mas não ligaram.

— Aqui, Ken-kun. Leve essas violetas para dentro, sim? — pediu o mais novo dos Weiß passando uma armação de papelão que lembrava uma caixa com vários vasos pequenos, enquanto ele próprio entrava com um saco de sementes para dentro.

O moreno ajeitou as violetas e colocou a perna direita para a frente, iniciando sua caminhada de volta quando congelou.

A sensação de queimação nas suas costas era mais que notável; ele sabia que estava sendo observado, e de uma maneira nada discreta.

De repente, como se um interruptor tivesse sido ligado, todo o corpo de Ken se colocou em posição de defesa, mesmo carregando as violetas. Seus sentidos se aguçaram imediatamente, olhos turquesa procurando por pessoas suspeitas na rua.

Fingindo ajeitar os vasos novamente, ele deu um meio-giro no próprio eixo, olhando para cima como se quisesse prever o tempo para aquela tarde ensolarada, mas procurando, na verdade, quem poderia estar por perto.

Mordendo o lábio inferior, Ken quase pulou de susto quando Omi o cutucou no ombro.

— Ken-kun! O quê está fazendo?

— Aa, Omitchi. Nada não. — ele respondeu em voz alta, estranhando o fato de que Omi não percebesse nada.

— Daijobu! Entre logo com isso porque eu acho que vamos precisar de todo mundo lá dentro, a loja está cheia!

Concordando com a cabeça, Ken voltou para dentro da floricultura, o que em dias normais seria uma bênção por causa da sombra e da temperatura mais amena, mas aquele não era um dia normal; os instintos assassinos do moreno já estavam despertos e não iriam voltar a adormecer tão cedo.

Assim que ele voltou para dentro do prédio, a sensação sumiu. Franzindo a testa, ele largou a caixa com as violetas com um pouco menos de cuidado do que seria recomendado, ganhando outro olhar de desaprovação do líder do grupo.

A van ainda não tinha sido totalmente descarregada, o que forçou Ken a voltar para fora mais uma vez, os gritos de Yohji dizendo que ele tinha os braços mais fortes ecoando na loja e fazendo algumas garotas suspirarem. Lutando para não corar por causa de um motivo tão bobo, o moreno saiu novamente para a rua, e a sensação de estar sendo observado voltou.

Dessa vez, Ken retirou um pesado vaso de dentro da van e transportou-o para dentro, não tendo tempo de olhar ao redor ou com certeza o protótipo de árvore que carregava iria cair no chão. No entanto, quando foi para o lado de fora pela terceira vez, não sentiu mais nada. Absolutamente nada.

Coçando a cabeça, o moreno e Omi terminaram de descarregar tudo e chamaram Aya para assinar os recibos, uma vez que a entrega estava no nome do mesmo. Cansados, os dois mais novos membros do Weiß voltaram para a sombra confortável e repleta de garotas do Koneko, mais atraente que ficar no calor do meio-dia na rua.

— Hey, Omi.

— Sim, Ken-kun? — o loirinho perguntou, assumindo a tarefa de regar as plantas que Ken havia abandonado minutos antes.

— Você sentiu alguma coisa estranha enquanto estava lá fora? — o moreno perguntou, mantendo a voz mais baixa para que três garotas que estavam perto deles não ouvissem a conversa.

— Iya, Ken-kun. Só o calor mesmo. — o menor dos dois sorriu amavelmente e virou-se para atender as meninas, deixando o ex-jogador ainda mais confuso; será que só ele havia sentido aquilo então?

Ou somente ele havia sido observado?

Respirando com mais dificuldade do que gostaria, o moreno se apoiou em uma parede, xingando em voz baixa quando notou que havia manchado a mesma com seu sangue.

Maldito irlandês maluco das facas. Tudo, como sempre, estava indo muito bem até o bando de doidos psicopatas do Schwarz aparecerem. Ken realmente não entendia qual era o propósito do outro grupo, aparecendo em qualquer missão deles mesmo que não tivesse nada a ver com Takatori.

O assassino de codenome Siberian estava convencido de que havia alguma coisa neles que atraía o outro grupo de mercenários. Só isso explicava a falta de sorte incrível que vinha se abatendo sobre o Weiß.

Ken abriu a mão direita, trazendo-a para debaixo de um feixe de luz da lua que entrava por uma janela quebrada; sangue. Ele sabia que Farfarello havia ferido-o naquele embate na escada. Também, brigar em escadas costuma ser desvantajoso para quem se encontra nos degraus inferiores, e era exatamente o que tinha acontecido com Ken.

Quando ele foi tentar olhar o corte feito por uma das milhares de facas do irlandês, o ex-jogador de futebol sentiu a familiar sensação de ser observado novamente. Não era possível que a mesma pessoa estivesse ali, olhando para ele de novo, em uma casa abandonada.

A não ser que...

A pessoa que estivesse encarando-o mais cedo aquele dia fosse alguém do Schwarz.

Ken estremeceu com a idéia de que o esconderijo deles estava exposto, e ainda mais com a risada baixa e quase maligna que se seguiu.

— Muito bem, mein Kätzchen.

A figura ligeiramente mais alta e de cabelos laranja berrantes do telepata estava parada a poucos metros dele, apoiada no batente de uma das salas daquele corredor com um sorriso que lembrava e muito o Gato de Alice no País das Maravilhas: um sorriso que bastava mudar o ângulo de visão para que ele tivesse um significado diferente.

— Schwarz! — Ken sibilou, esquecendo do corte no seu braço esquerdo e avançando para confrontar Schuldig.

— Weiß! — o alemão falou do mesmo jeito que o assassino mais novo havia dito o nome do time adversário, movimentando-se com uma velocidade que não era humana e esquivando-se facilmente do primeiro ataque do outro homem — Sabia que eu acho irritante essa sua mania de me chamar como se eu fosse uma cor?

O ex-jogador de futebol nem ligou para a reclamação; na verdade, quanto mais manias ele tivesse que não fossem apreciadas por Schuldig, mais feliz ele ficaria.

— Ah, Siberian. Não pense assim. Vai ferir os meus sentimentos.

Ken arregalou os olhos, esquecendo-se de que o alemão lia sua mente. Murmurando vários xingamentos, ele girou no seu próprio eixo e encontrou o telepata parado logo atrás de si, o cano de um revólver apontando para o seu peito.

— Eu não me mexeria se fosse você, gatinho.

— Mas você não é eu.

Ken raramente se permitia sorrir durante conflitos, mas aquele momento pediu por um pequeno sorriso de vitória; Schuldig havia deixado uma brecha na sua guarda, que foi rapidamente aproveitada pelo moreno, conseguindo desarmar o outro homem com um rápido golpe na mão do mesmo.

Buracos na defesa eram raros; todos os membros do Schwarz eram bem treinados. Mas Ken tinha a seu favor o fato de que, quando lutando, ele não pensava em que movimentos faria, agindo por pura experiência e instinto, quase como um animal. Dessa forma, os poderes de telepatia do outro homem eram praticamente anulados.

O telepata de fato pareceu surpreso com a reação de Ken, sumindo rapidamente de onde estava e ressurgindo próximo da arma, mas o assassino do Weiß rapidamente correu na sua direção, forçando Schuldig a mudar seus planos novamente. Ele aproveitou e pegou a arma do seu oponente, um sorriso claro de triunfo no seu rosto e apontando o revólver para o outro homem.

— Não mais tão arrogante sem uma arma, Schwarz?

— Arrogante? Eu? — o telepata pareceu ofendido, abrindo um sorriso que perturbou Ken profundamente. Pessoas geralmente não sorriam quando na mira de um revólver — Você realmente acha que vai acertar o tiro? Você nem é treinado para isso, Hidaka.

Ken odiava quando seu verdeiro nome era usado por qualquer um dos seus inimigos. Ainda mais por alguém do Schwarz.

— Damare [1], Schwarz!

— Aw, por que tão bravo gatinho? Só por que eu descobri o seu esconderijo?

A arma foi disparada sem aviso e Schuldig novamente se esquivou, aparecendo atrás do assassino mais novo e abraçando-o por trás, imobilizando-o com eficiência e arrancando sua arma de volta antes que Ken pudesse tentar feri-lo com suas garras.

O alemão ficou um tempo ligeiramente maior que o necessário atrás do moreno, de forma que quando este congelou ao ligar os pontos e descobriu que era Schuldig que o tinha observado pela manhã, foi possível sentir o ar quente que escapava dos lábios vermelhos do telepata quando ele riu satisfeito.

— Eu vou ficar de olho em você, Siberian. Gatos que se comportam mal geralmente são punidos. Tchüs [2], mein Kätzchen!

O moreno não entendeu o que levou Schuldig a se retirar sem tentar outro ataque, mas fato foi que seu inimigo desapareceu, não sem antes acertá-lo com o cano do revólver nas costas. Antes que Ken começasse a pensar em motivos que poderiam ter causado a saída súbita do telepata, seu relógio disparou, indicando que uma bomba estava prestes a explodir no prédio.

O pensamento de que a sua sorte só tendia a piorar era a única coisa na cabeça do ex-jogador de futebol enquanto ele corria para a janela mais próxima para escapar da explosão iminente.



[1] Cale a boca.
[2] Tchau.

Continua...