Amor à segunda vista
11 Sempre juntos
Nos dias que se sucederam ao velório, em minha casa, o luto é quase palpável e devo confessar que a culpa também. Meu pai, principalmente, parece inconsolável, acho que nesse momento ele sente todas as dores do mundo. Tanto pela perda, quanto pelo remorso, ainda me recordo de ouvir uma conversa dele com Hiashi e das palavras duras que ele disse, tudo para me defender.
— Minato você é muito condescendente com esse menino, ele está fazendo a cabeça da minha filha! — Hiashi trovejou, com o dedo em riste no rosto de meu pai.
— Baixe essa voz para falar do Naruto, ele jamais faria isso, se algo aconteceu foi por que ambos quiseram. — Vociferou meu pai, crescendo uns vinte centímetros em altura. — Acho que já não podemos ser amigos, infelizmente, nossa amizade de anos acaba aqui. - Essas foram suas palavras finais.
Então, pude ver um homem muito grande, com olhos leitosos e extremamente assustadores, girar os calcanhares e sair da minha casa. Esse foi o início do grande apocalipse que veio a seguir. Já que, meu pai jamais poderá se desculpar; ou, até mesmo reatar a amizade existente entre eles. Pois Hiashi-san já não está mais entre nós. O acidente de carro foi fatal, ao menos para ele, bom, graças a Kami a mãe de Hinata e Hanabi está bem. Ainda no hospital, mas já não corre risco de vida.
No entanto, as duas garotas mais fofas desse planeta estão destruídas e inconsoláveis. Não é por menos, perder o pai assim é de cortar o coração. Frente a isso, tentei respeitar ao máximo o tempo de Hinata; porém, a dúvida me assola. Ela ainda me quererá daquele jeito? Sei que, diante de tudo o que aconteceu, o que sinto é pequeno demais para se mensurar. Mesmo assim, sou egoísta ao ponto de achar que ainda podemos continuar de onde paramos, aliás, nem tivemos tempo de avançar em descoberta alguma, não é mesmo? Todavia, só o que pretendo fazer por hora é ficar ao lado da minha hime e de Hanabi também, claro. Aquela pentelha chata, nem parece a garota espevitada que conheço, por mais que seja bem nova, ela sabe que o pai jamais voltará, apenas em seus sonhos.
Pior, finalmente descobri a origem dos pesadelos de Hinata, ela me confidenciou, que, em todas as vezes que sonhara, ela via o pai em volto a uma poça gigantesca de sangue. E, sem saber o que fazer, ela corria para longe, deixando-o desamparado. Ou seja, a garota mais doce que conheço se culpa pelo que aconteceu, acredita piamente que, se não tivesse o desapontado daquela forma, nada disso teria acontecido. Pois, segundo suas próprias palavras, ela não precisaria sair da cidade e, por consequência, ele não iria atrás dela para trazê-la de volta, ocasionando o acidente de carro.
Suspiro resignado.
Meu coração está espremido em meu peito por tudo que aconteceu, se Hinata é culpada eu sou o que? Eu que causei tudo isso, tudo por causa dos meus hormônios idiotas! E, diante dessa constatação, já não sei mais, devemos ficar juntos? Talvez não, somos muito novos como Hiashi alegava, acho que passamos a carroça na frente dos bois. A culpa foi minha? Toda essa dor por parte das pessoas que mais amo? Meu pai brigando com o melhor amigo, Hinata e Hanabi com os corações dilacerados, enquanto a mãe ainda nem deixou o leito de hospital? Tudo isso por desejo? Atração, ou amor? O que devo pensar? Devo enterrar todo esse sentimento que surgiu dentro de mim em algum lugar escuro da minha mente, fingir que nada aconteceu? Esquecer os beijos de Hinata e me concentrar apenas em sua amizade? Contudo, e se isso não mais me bastar? É que, depois do que vivi, já não dá mais para recuar, não agora. Eu ainda sinto o gosto de seus lábios nos meus, ainda desejo tê-la só para mim, como aconteceu no quarto, quando finalmente provei o gosto de sua boca. Céus, vou enlouquecer! Além disso, a dor delas é a minha dor, especificamente a de Hinata. Devo frisar, essas duas Hyuugas são extremamente importantes para mim, Hanabi como uma irmã mais nova e, minha hime, bom, não posso mentir, há tempos não a vejo como minha irmã. Eu até tentei, sem sucesso.
— Naruto... — ouço Hinata me chamar e degusto, por alguns segundos, meu nome em seus lábios. A voz dela é puro mel e eu adoro açúcar. — Posso ver daqui essa fumacinha saindo da sua cabeleira loira. — e sorri, desarmando-me completamente. Como ela consegue tão facilmente? É um mistério para mim.
Não sei o que faria sem Hinata, por certo, me tornaria apenas uma casca oca. É assim que me sinto longe dela, oco por dentro, como se me faltasse algo essencial.
— Hime, me perdoe. Eu só tenho pensando em tudo isso, me sinto culpado por vê-la sofrendo assim. — sou genuinamente sincero, estou um bocado abatido depois de tudo o que aconteceu.
— Ei, não fique assim. — Hinata aproxima-se, enlaçando meu pescoço. Arrepio-me imediatamente pelo contato espontâneo e suspiro.
Eu a amo, de fato, sem reservas, sei que ainda sou novo e não entendo nada sobre o amor. Mas, eu tenho essa certeza, da mesma forma que o Sol ilumina o dia; e a Lua, a noite. Eu a amo.
— Como posso ficar bem vendo você e Hanabi tão tristes. — quase sufoco com minhas próprias palavras.
— Eu sei, agradeço por estar ao nosso lado, Naruto. — Hina tomba a cabeça em cima da minha, envolvendo-me em um abraço.
E, tudo o que quero é poder ficar cativo desse abraço para sempre, nesse casulo que ela criou em torno de mim.
— Eu te amo tanto, hime. — me levanto, envolvendo-a dessa vez no meu abraço.
Hinata recosta a cabeça em meu peito e ficamos assim, por longos segundos. Até que ouço sua voz angelical.
— Eu também te amo, Naruto. Perdoe-me se fui mesquinha e egoísta nesses últimos dias, afastando-me de você, obrigada por dedicar-se tanto a mim e agora à Hanabi. Não sei o que seria de nós sem você e seus pais, sempre tão bondosos com a gente. — ela começa a soluçar e suas lágrimas molham minha camiseta fina.
— Ei, não chora, eu estou aqui, nós estamos. — afirmo vendo que Hanabi aponta na porta, juntamente com meus pais.
Os três veem em nossa direção e envolvemos Hinata em um abraço de urso, ou de polvo, devido a quantidade de braços que se emaranham em torno dela. Hana, por ser bem menor, agarra suas pernas e eu a pego no colo.
— Estamos aqui, Hina. Vocês não estão sozinhas, vai dar tudo certo. — minha mãe, com a voz mais doce do mundo, passa a alisar os fios escuros de Hinata.
Enquanto isso, Hanabi gruda em seu pescoço instantaneamente.
— Eu amo vocês. — ela sussurra com a voz engrolada. — Todos vocês.
— Nós também te amamos. — agora é a vez de meu pai confortá-la. — Bom, vamos deixar vocês conversarem a sós. — ele pega Hana do colo de Hinata e os três saem do quarto.
— Maninha, não chora. — pede Hanabi, com os olhinhos igualmente marejados.
— Eu não vou chorar mais, Hana. Prometo. — Hinata beija os dois dedos indicadores e sorri, um sorriso sem vida, que não vêem da alma.
Assim que eles deixam o quarto, novamente eu a envolvo em meus braços. Permitindo que ela ponha para fora tudo o que está sentindo em forma de lágrimas. Mesmo que tenha prometido fazer o contrário há pouco. É que às vezes, somente o choro é capaz de expurgar toda a dor que sentimos.
— Eu estarei aqui, sempre. — asseguro, ainda afagando seus cabelos.
— Eu sei... — ela sorri, passando a acariciar meu rosto.
Fecho meus olhos, para poder sentir melhor o toque, então, alguns segundos depois. Os lábios de Hinata estão nos meus e, mais uma vez, me pergunto como evitar algo que me parece tão correto.
Contudo, o beijo é incerto, receoso; mas, aos poucos conseguimos nos entregar. Eu, ainda tentando assimilar tudo, tento não assustá-la, vou apenas seguindo a direção que Hinata me dá. Envolvendo-a cada vez mais em meu abraço, tanto para protegê-la, quanto para me proteger. Me proteger de perdê-la, se quer posso pensar nisso. Não mais. Hinata se tornou uma parte indispensável de mim, já não tenho como mudar isso.
— Eu te amo tanto, hime. — encosto minha testa à dela e olho bem no fundo de seus olhos, aqueles mesmos olhos de lua que tanto me fascinam. Por mais que eles estejam um tanto opacos pela perda do pai, ainda assim, são a coisa mais linda que já vi. — Eu daria o mundo para te ver feliz novamente. Aliás, o meu coração é seu, sei que é pouco, mas é tudo que tenho. — pego sua mão e repouso sobre meu peito.
Vejo um pequeno sorriso brincar em sua boca rosada e sinto meu corpo relaxar em resposta.
— Eu sei, meu gatinho. Seu coração é o melhor presente que você poderia me dar, prometo cuidar dele e jamais machucá-lo. — ela faz uma pausa, como se pensasse. — Pelo menos, não propositalmente. — e sorri, mais abertamente dessa vez.
— Ah, então você vai machucar meu coração, hime? — devolvo fingindo indignação.
Hinata faz cara de anjo e sela nossos lábios, ressalto aqui, que não há necessidade de forçar. Naturalmente ela já parece um anjo, o meu anjo, minha lua e minhas estrelas.
Minha melhor amiga e meu primeiro amor.
— Tudo bem, ter o coração maltratado por você seria uma honra. — brinco, fazendo-a cair na gargalhada.
Um som extremamente gostoso de ouvir, principalmente levando em conta os últimos acontecimentos. Acho que foi seu primeiro riso sincero, de coração, depois de tanto sofrimento que ela teve de passar.
— Jamais faria isso com você, meu amor. — Hinata para de rir aos poucos, me encarando intensa e verdadeiramente, como se seus olhos indecisos pudessem me enxergar por dentro.
Sim, ainda os caracterizo como indecisos; agora mesmo, vendo-a tão de perto, percebo que estão mais prateados, muito mais parecidos com a Lua que agracia a noite. Não é por menos que os comparo com esse grande astro.
Sinto um arrepio percorrer todo o meu corpo e engulo em seco. Como não percebi antes a preciosidade que estava ao meu lado, quero dizer, sempre valorizei sua amizade e o fato de Hinata estar por perto em todos os momentos da minha curta vida. No entanto, agora, observando-a desse jeito, chego a sentir o coração descompassado, com apenas um olhar dela.
— Quando nos apaixonamos? — questiono, tomando-a para mim.
— Eu não sei. — ela é sincera em sua resposta. — Acho que foi gradativo, enquanto brincávamos de ser amigos.
Gradativo.
A palavra se repete em minha mente.
— Acho que está certa, minha hime. Então foi amor à segunda vista? — sorrio ao constatar que, não importa como, muito menos quando.
Esse sentimento já não pode mais sair de mim.
— Podemos dizer que sim. — seus olhos passeiam pelos meus, seu sorrio ilumina toda minha vida; e, por osmose, eu sorrio também.
— E o que será que a vida nos reservou? — eu realmente gostaria de saber, ter certeza de que sempre a terei por perto.
Para mim e comigo.
— Isso vamos ter que descobrir... — a frase morre em meus lábios, pois Hinata me beija e eu, obviamente, retribuo.
FIM.
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