Era o primeiro crepúsculo do ano. As águas mornas do mar molhavam os pés de Pietra quando ela notou que sua tarde acabara de ganhar um tom a mais. Os olhos azuis de Fernand encontraram os seus, sem cerimônias, um encontro ímpar. Entre eles, havia um lírio branco trazido pelas ondas. Sorriram, conversaram e se confessaram.

Naquele crepúsculo nasceu um amor avassalador, voraz e tênue. Casaram-se exatamente um ano depois daquele encontro. A cerimônia foi na mesma praia em que se conheceram, sob o crepúsculo. Lirios brancos estavam presentes no bordado do vestido da noiva, nas mesas da festa e no quarto da lua de mel.

O crepúsculo se foi, a noite chegou e os lírios morreram. Secos, mostravam apenas a beleza que há na morte. A noite chegou e com ela veio o pesadelo da realidade. O peso era insuportável para Pietra. Descobriu numa noite que seu esposo frequentava becos escuros e sujos, becos sem nomes. Brigaram. Em uma madrugada qualquer, sem importância para ser datada, ali estava seu marido, jogado no chão do banheiro. Trouxera o beco para sua casa.

Sim, havia anoitecido. Não era noite apenas lá fora. Era noite nos olhos de Pietra, ela perdera o mistério que conferia tons especiais ao seu olhar. A única coisa que ainda restara do primeiro crepúsculo era o azul dos olhos de Fernand. Seu marido já não lembrava dos lírios, tampouco os trazia. Só havia uma coisa que com frequência ele dava para Pietra, desculpas.

Era madrugada – esta sim, com data – quando Fernand chegou em casa com lírios brancos, vinho e chocolates com damasco. Pietra estava na varando do apartamento naquela madrugada, a vigésima quinta de novembro. Seu aniversário, mas isso não importava mais. Surpreendeu-se quando Fernand se aproximou dela com os lírios e chocolates, o vinho ficara sobre a cama. Mas não havia surpresa no hálito do esposo, no cheiro sujo das drogas que impregnava a roupa de Fernand. Discutiram ali mesmo. Ele tentou abraça-la, se explicar, mas em um ato de repulsa e nojo Pietra caminhou para trás sem cautela. Tropeçou.

Fernand, graças ao álcool e aos efeitos das drogas não teve reflexo suficiente para segurá-la. Viu apenas o corpo de sua amada estirado no chão frio quatorze andares a baixo. Sentiu um alivio. Sabia que Pietra estava em paz. Que ele não causaria mais dano algum a ela. Mas sem os lírios. “Sem eles ela não ficará feliz, em paz sim, jamais feliz”, pensou. Concluiu que precisava levá-los para Pietra. Sua amada Pietra, era o mínimo que poderia fazer depois de tudo. Segurou os lírios com firmeza e mergulhou. Bastou um mergulho no vazio da madrugada e alguns segundos. Fernand pulara de sua varanda e mesmo com o impacto da queda não largara os lírios.

Quando a policia chegou no condomínio encontrou dois corpos no chão e alguns lírios. Flores que havia sido brancas, mas que naquele momento haviam se tornado rubras. Beberam do sangue de Pietra e Fernand que agora descansavam em um lugar sem praias, crepúsculos e lírios.

Notas finais
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