Amor sem Compromisso
53 Me perdoe...
Notas iniciais
(...)
Austin estava encostado na porta, atrás de Noah e Kevin. Sua expressão era duvidosa, seu sorriso era estridente mas seu olhar confuso. E eu nada podia fazer…
Voltei minha atenção para Kevin, que anotava em seu caderno. Ele se levantou da minha cadeira e andou até a sala de vidro. Pus o violão no apoio e me sentei ao seu lado no sofá.
– Pois bem. — iniciou ele — Gostaria de fazer alguma observação?
– Só uma. — respondi — Essa é a primeira vez que me sinto viva em semanas. — falei sorridente.
Austin havia se sentado ao lado de Noah, obviamente ouvindo o que dizíamos.
– Ally, — disse Kevin passando a mão na minha perna — Você está saiu melhor do que eu esperava hoje.
– Obrigada. — falei sorrindo.
– Não agradeça a mim. Agradeça a si mesma. Eu não fiz nada, a única pessoa que poderia te ajudar era você mesma. Você só precisava de alguém disposto a te fazer perceber isso.
Sorri novamente.
Abracei Kevin com força e lhe dei um beijo na bochecha. Não pude contentar minha alegria. Voltar a cantar era… incrível.
Notei Austin, com o canto do olho. Seu sorriso desapareceu. Era como se ele estivesse… Com ciumes.
Separei-me de Kevin, levantei do sofá e andei até Austin. Ele me olhou sem expressão alguma. Estendi minha mão, ele a pegou. Levei ele até a sala de vidro. Parei em frente à Kevin, que se levantou. Abracei Austin pela cintura, que passou o braço pelos meus ombros, e disse:
– Kevin, esse é o Austin. Meu namorado. — falei forçando o cumprimento.
– Então este é o sortudo? — brincou Kevin — Muito prazer. Ally falava muito de você.
– Jura? — disse ele olhando para mim, assenti confirmando a afirmação de Kevin.
O celular de Kevin apitou, ele olhou o a notificação e disse:
– Ally, desculpe eu tenho que ir. — disse ele — Aconteceu um imprevisto..
– Está tudo bem. — falei abraçando-o — Você me ajudou bastante. E obrigada.
Ele sorriu, se despediu e saiu com pressa, fechando a porta atrás de si.
– Não sei porquê… — começou Austin — Mas eu não gostei dele.
Soltei uma risada abafada, não acreditando nisso.
– Ciúmes? — perguntei provocando.
– Ah, desculpe se eu deveria ficar feliz com você beijando a bochecha de outro cara.
– Sabia que você fica muito fofo com ciúmes? — provoquei.
Austin ficou sério, cruzou os braços e desviou o olhar. Ele realmente não estava feliz… Dei um passo, fiquei na ponta dos pés e beijei sua bochecha. Ele não me olhou.
– Escute. — falei — Não me importo se você acha que eu e o Kevin temos alguma coisa. Se eu realmente gostasse dele eu teria terminado com você há semanas, não acha?
Ele olhou para o chão, mordeu o lábio e disse:
– É verdade… Desculpa. É só que… Você é minha namorada e eu gosto de você. Muito.
Sorri e o abracei com força.
Fiquei calma. Era como se o abraço dele ou qualquer contato com ele me deixasse segura e serena… Mas então pensei: Por quê ele está aqui? Eu sei que esta é a gravadora “dele” mas ele quase nunca vem aqui, não que eu saiba…
– Mas afinal, o que você está fazendo aqui?
– Eu tinha uma reunião com o Jimmy, mas aconteceu algum imprevisto e ele teve que adiar a reunião. E quando eu estava indo embora, ouvi você cantando.
Eu sorri.
– Falei com Trish há alguns minutos, ela disse que podemos ir na casa dela hoje a tarde. Isso se você não tiver mais nada para fazer…
– Não! Quer dizer… claro! Eu não tenho mais nada para fazer hoje. Eu teria se Kevin ainda estivesse aqui, a sessão foi bem curta hoje…
Austin mudou a postura. Pôs as mãos no bolso e desviou o olhar por um instante.
– Desculpa. — falei chamando sua atenção — Não falo mais do Kevin. Já percebi que você não gostou muito dele.
– Não é que eu não tenha gostado, é só que… Eu to com um pouco de inveja.
– Por quê?
– Ele ficou com você em todas essas semanas, enquanto eu ficava na expectativa…
Dei um passo a frente, ficando à poucos centímetros de distância dele. Olhei-o nos olhos e disse:
– Você sabe que é o único na minha vida. Além do mais… Só existe um de você, não posso me dar ao luxo de te perder.
Ele sorriu, de verdade. Austin passou os braços pela minha cintura e me beijou.
O beijo foi calmo, como sempre, mas um pouco diferente. Algo estava estranho no ambiente. Uma certa tensão entrou no local…
Quando nos separamos, um som ecoou pelos auto-falantes da sala, algo vindo da mesa de mixagem. Olhamos pelo vidro. Por um segundo senti minha respiração pausar e minhas pernas sumirem.
Kira havia entrado.
A morena estava na porta do estúdio, sua mochila estava no chão, seu pulso cerrado e sua expressão era de raiva.
Apertei a mão de Austin que olhava para mim com preocupação. Senti uma corrente gélida subir pela minha “espinha”. Era como se algo realmente tivesse mudado no local.
Kira nos olhou por alguns segundos, e em seguida seguiu pelo corredor.
Assim que ela desapareceu de minha vista, andei depressa até minha mochila e a pus nas costas. Saí do estúdio o mais rápido que pude.
Assim que saí da gravadora e desci os degraus da entrada e senti meu braço sendo segurado. Parei imediatamente e olhei para trás. Austin me olhou como se esperasse que eu dissesse algo…
– Você está bem? — perguntou ele — Quer ir à algum lugar?
– Qualquer lugar, só quero sair daqui.
– Tudo bem…
...oOo...
POV Austin
– Você vai ficar bem? — perguntei pela centésima vez para Ally.
– Sim, vou.
Estamos conversando por telefone há quase meia-hora. Ally está no aeroporto esperando o embarque para Miami, eu poderia muito bem ter faltado a aula mas não fui liberado, nem por ela nem por minha mãe… Ela está em Sidney há três dias, disse que sua mãe está progredindo mas que vê a falta de esperança nos olhos dos médicos.
Tudo o que eu quero é abraçá-la. Sabe quando tudo o que você quer é pegar aquela pessoa, guardar em uma caixinha para o mundo não ferí-la. Estou assim agora…
Ally tem parecido tão vulnerável a tudo isso que eu só quero escondê-la de tudo e todos para que ninguém estrague sua felicidade. Quero trancar-me em um quarto com ela para não nos separarmos nunca mais…
Flashback ON
Eram quatro da manhã.
Trish estava dormindo profundamente em sua cama, Dez roncava no sofá e Ally havia sumido. Ela havia dormido comigo, mas não estava mais ao meu lado. Acho que acordei com a falta dela… Algo brilhava em um canto do quarto, perto de nossas coisas. Era o celular dela. Estava desbloqueado.
Hesitei em olhar o que ela estava vendo àquela hora, mas não resisti. Desde o dia no estúdio tenho maus pressentimentos em relação a Kira…
Toquei na tela, fazendo o brilho voltar novamente. Dei um passo para trás ao ver a imagem à mostra. Era uma foto não muito recente, de um ano atrás, pouco antes de Ally e eu começarmos a namorar… Estávamos todos nós: Dez, Trish, Ally, Dallas, Clary, eu e… Kira, abraçados em um canto da foto. Ally havia dado um zoom em Kira e eu. Pude ver o sorriso em meu rosto. Por um instante pensei que era feliz com Kira, mas então lembrei que eu era muito bom em esconder minha infelicidade.
Desliguei o celular. Pensei em voltar a dormir mas vi algo diferente. Tudo estava lá, mas algo estava diferente. Olhei então ao lado do celular, uma caixinha de remédios, havia apenas um comprimido sobrando. Deveria ser de Trish. Mas então olhei o rótulo, COMPRA E CONSUMO APENAS COM PRESCRIÇÃO MÉDICA OU PSIQUIÁTRICA estava em escrito em vermelho.
Olhei em volta e saí do quarto.
Absoluto silêncio.
Desci as escadas. Apenas o rangido dos degraus ecoando suavemente pelo corredor. Segui até a sala. Nada. Entrei na cozinha e encontrei Ally debruçada na bancada. Havia um guardanapo na sua frente e um copo d’água, o qual ela brincava com os dedos.
Não a interrompi. Deixei-a com seus pensamentos, já estava pensando em dar meia volta quando ela disse:
– Eu sei que você está aí. — disse ela suavemente.
Suspirei e andei em sua direção.
– Não consegui dormir… — disse ela sem olhar para mim.
– Eu vi o seu celular… — falei — E a caixa de remédios.
– Eu sei. Eu esperava que você visse. Não era minha intenção, eu apenas… Esqueci por um instante.
– Não estou bravo, ou… Chateado. Apenas…
– Preocupado. Eu sei.
– O que está acontecendo, Ally? Para que são esses remédios?
Olhei para o guardanapo. Um, dois… Três comprimidos. Dois brancos e um vermelho e amarelo.
– Sono, dor de cabeça e… Memória.
– Memória? Pra que você precis… — nem precisei terminar a frase, olhei em seus olhos e disse — O sonho?
Ela apenas assentiu. E pela primeira vez naquela noite, ela olhou em meus olhos. Nunca os vi tão brilhantes. Era… fascinante… e assustador.
– Eu sei que era real. Não literalmente, mas significava alguma coisa. Eu preciso me lembrar de tudo, preciso me lembrar do que aconteceu antes de eu acordar. Preciso lembrar quem eu era… E quero ser…
FLASHBACK OFF
Sem perceber, eu já tinha bebido minha sétima cerveja e a terceira vodka. Eu estava andando pela rua. Voltei do transe com o som de uma buzina de carro na avenida principal.
Minha mente não sabia onde ia, mas meus pés sim. Eu estava no automático, por assim dizer. Segui reto, dobrei uma esquina, dois quarteirões… Milling Hills, mais especificamente: o bairro onde Kira mora com sua mãe…
Não soube ao certo porque eu estava andando até lá, só sei que quando toquei a campainha da casa de Kira, eu disse:
– Ally é minha namorada agora, aceite isso! — disse ao ver ela diante de mim.
Kira sorriu maliciosamente e disse:
– Eu já aceitei.
– Então pare com isso! Estamos juntos e eu amo ela!
– Ama? — disse ela levantando uma sobrancelha.
– Sim, amo!
– Então por que está aqui?
Esta pergunta me pegou de jeito.
– Em momento algum eu a torturei após o… O acidente. Se você veio aqui é porque sente falta… de algo que sabe que apenas eu posso te dar agora.
Kira estava com os braços em volta de meu pescoço se aproximando cada vez mais. Não tenho ideia do que estava acontecendo. Em um momento eu estava pedindo para que ela se afastasse e no outro estávamos subindo as escadas.
Kira e eu nos beijávamos intensamente. Minha mente ficou nebulosa, era como se… Como se algo nela me atraísse e acabasse com meus pensamentos de suposições. Ela era tão… Ai meu Deus!
Kira fechou a porta do quarto, e me empurrou para a cama dela. Eu estava sem camiseta e ela tirava o vestido. Quando voltamos a nos beijar, minha mente apagou tudo o que aconteceu depois disto.
No dia seguinte, eu acordei com uma dor de cabeça insuportável. De inicio não reconheci o local em que estava, mas assim que me levantei e minha visão se adequou à luz, percebi que estava na casa de Kira.
Merda. pensei.
O que eu fiz? Por que eu… Ally!
Merda! Ally deve estar me procurando.
Olhei em volta e recolhi minhas roupas. Vesti-me saí correndo da casa de Kira.
Acho que nunca corri tão rápido na minha vida (http://media.tumblr.com/0fb49e84d47e6f64ac9954a74f5d146b/tumblr_inline_n1vp1wcQzx1r8u8i7.gif) Passei pela rodovia, um atalho entre as casas e quando cheguei em frente a minha casa, percebi que era tarde de mais.
Ally estava atravessando a rua na direção de minha casa, mas parou quando me viu correndo. Ficamos nos encarando por alguns segundos, ela sorria, mas quando notou o estado de minhas roupas, ficou sem expressão. Ela andou até mim e disse:
– Parece que a festa foi boa ontem. — disse ela.
Eu tentei falar, mas as palavras não saíam da minha boca.
– Espera. — disse ela olhando algo com atenção.
Ally se aproximou mais de mim, mexeu em algo na minha camisa e disse:
– Parece… Batom.
Ela me olhou nos olhos sem dizer nada. Naquele momento eu soube que estava ferrado, muito ferrado. Meu queixo tremeu e eu disse:
– M-me desculpa! Eu nem sei o que estava fazendo! Em um momento fui por você no outro eu…
– Você o que…?
Fiquei quieto apenas olhando para ela, havia lágrimas em meu olhos. A sensação era de uma faca subindo pela minha garganta. Mordi meu lábio inferior na expectativa de fazer meu queixo parar de tremer, mas foi em vão.
Ally me olhava com uma expressão surpresa, como se dissesse “Como você pode?”. E acredite, estou fazendo essa pergunta para mim mesmo e não sei responder.
– C-Com quem? — perguntou ela.
Faz diferença? Sim, toda diferença seu imbecil!
– Kira… — murmurei.
Imediatamente, todas as lágrimas que ela segurava desabaram pelos seus olhos. Era horrível vê-la assim. Era pior do que a sensação de saber que a decepcionei.
Ally não disse nada por longos segundos, apenas me olhou com os olhos marejados de lágrimas e as bochechas vermelhas como maçãs. Ela balançou a cabeça e deu meia volta, indo em direção a sua casa. Antes que ela pudesse atravessar a rua, eu segurei seu braço, fazendo com que ela me olhasse:
– Eu sei que quebrei uma promessa quando não fui fiel com você. E não quero quebrar mais nenhuma… Eu nunca fui mais feliz com outra garota que não fosse fosse você, Ally. Eu te amo! E-Eu nem sei como aconteceu, ou por quê aconteceu! Me perdoa por favor. — falei em desespero, já gritando de tanto chorar.
Ela me olhou sem demonstrar sentimento algum. Naquele instante eu realmente tive certeza que não era mais seu namorado…
– Não importa como ou porque aconteceu, Austin. — disse ela — O que importa é que aconteceu… — ela fez uma pausa — Você sabe por que dói tanto? — não respondi — É porque decepção nunca vem de quem você odeia.
– Ally...
– NÃO ME CHAMA ASSIM! VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO! – ela berrava, sem se importar com os vizinhos e os outros. – VOCÊ PERDEU ESSE DIREITO ASSIM QUE ME TRAIU!
Seu tom de voz apenas fazia com que ela chorasse mais ainda. Não fora sua intenção, mas ela parecia não ligar… Ela não confiava mais em mim. E isso fazia com que doesse ainda mais, afinal, sem confiança não há relacionamento. Não há amor...
A dor apertava em meu coração, como alguém pode sofrer tamanha dor por meio da pessoa amada? Como? Deve ser o que ela pensava enquanto seus soluços eram abafados pelas brutas palavras.
– Você... VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO! — ela gritou mais alto — EU NUNCA TE DEI UM, UM MOTIVO PRA VOCÊ ME TRAIR! NUNCA! SEMPRE FUI UMA NAMORADA PREOCUPADA, CARINHOSA, DISPOSTA A TE AJUDAR! MAS PARECE... – ela parou, respirou fundo e sorriu sarcástico, fazendo duas lágrimas despencarem por seu rosto. – Parece que você não liga.
Por essa eu não esperava, foi como levar um tapa na cara. Ela parou de chorar no mesmo momento e me encarou no mesmo instante. Seu rosto ficando vermelho, mas dessa vez, de raiva.
– Toda a minha confiança e respeito em você acabou neste exato momento. — ela respirou fundo e continuou — Agora pode correr atrás daquela vadia! Vai! Você pode fazer o que bem entender com ela, mas pode ter certeza: Ninguém… Eu disse NINGUÉM vai ter tanta paciência e preocupação com você quanto eu tive. — ela fez uma pausa — Posso ter demorado para perceber isso mas as minhas palavras vão ser eternas até que eu seja trouxa o suficiente para te perdoar. Considere-se fora da minha vida agora
Ela me olhou mais uma vez, então balançou a cabeça negativamente e foi embora.
Todas as minhas forças se esvaíram de meu corpo. Despenquei no chão como se tivesse levado um tiro nas costas.
Eu sabia que ela não me odiava, estava apenas machucada. Digo, “apenas”. A dor que ela sentia neste momento nem podia ser comparada com a minha. Ser ferido é muito pior do que ferir. Mas arrependimento dói o bastante para dizer que: Eu sei o que ela está sentindo. Nunca irei me perdoar por ter feito algo tão estúpido, e não espero que ela me perdoe. Nem eu mesmo sei o que aconteceu. Foi uma estupidez ter ido até Kira e foi uma estupidez ter bebido em plena meia-noite.
Só queria que ela acreditasse que eu a amo, de verdade. E sempre a amarei...
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