Notas iniciais
Yo minna-san! :D Me desculpem pelo pequeno atraso, é que eu não tive muito tempo essa semana. Bom, aqui está o nosso próximo capítulo! Boa leitura! ;)

Escola Raimon, 10:15

Minhas bochechas queimavam de constrangimento. Todos na sala me encaravam, a confusão estampada em suas expressões. Sentindo um terrível incomodo em meu interior, tentei ignorar os olhares que me rodeavam, focando o garoto á minha frente com intensidade. Ele não ousava desviar seus olhos dos meus, fazendo com que nosso contanto visual se tornasse contínuo.

Fitando aqueles olhos castanhos, senti a agonia aumentar dentro do meu peito, como se a confusão presente neles se fundisse a minha. Meu corpo mantinha-se rígido, sem forças para se mover. Por alguns instantes, senti como se minha mente estivesse vazia. A única coisa que eu poderia fazer era focar aqueles olhos brilhantes.

Repentinamente, um som alto e estridente invadiu a sala, fazendo com que nossa troca de olhares fosse quebrada. Todos os presentes no local se sobressaltaram, surpresos com a interrupção. Notando que deixara brevemente de ser o centro das atenções me levantei do sofá, seguindo em direção a porta.

Andei com certa dificuldade, receosa pela futura reação do jovem que se encontrava a minha frente. Parando ao lado de Shindou com nervosismo, mantive o olhar baixo, não possuindo forças para olhá-lo nos olhos. Busquei forças para pronunciar algumas palavras.

– Eu... – comecei, sentindo minha voz falhar. – Preciso ir embora.

Andando mais alguns passos me posicionei á frente da porta, que se abriu. Esperei que alguém me impedisse, mas meu temor não se concretizou, fazendo com que um pequeno alívio percorresse meu corpo. No momento em que passei pela porta, eu corri. Corri o mais rápido que conseguia na direção de minha sala de aula. O que eu mais queria era sair dali e ter um momento de paz e tranquilidade para pelo menos tentar processar em minha mente tudo o que havia acabado de acontecer.

Chegando á minha sala, sentei em meu lugar. Apoiando os cotovelos na mesa enquanto segurava minha cabeça com as mãos, tentei organizar meus pensamentos. Sentia-me confusa e assustada, milhares de interrogações preenchiam cada vez mais minha mente. Por que Shindou agia como se me conhecesse? Como ele sabia meu sobrenome? Por que havia ficado tão assustado ao me ver?

No princípio, olhando seu rosto pude ver que possuía certeza absoluta de que me conhecia. Mas, após eu negar a pergunta de Aoi, seus olhos brilharam com descrença, mostrando possuir uma confusão muito maior que a minha própria. Espere um momento. Aoi. Aoi também havia agido como se me conhece.

Lembrei-me de suas palavras no começo da primeira aula: “Sabe, você me parece familiar... Já não nos vimos antes em algum lugar?”. Sentindo-me ainda mais confusa, tentei me acalmar, pensando um pouco. Eu nunca havia conecido Shindou ou Aoi antes de me mudar de Nagoya, mas ambos agiam como se já houvessem me visto muito antes da mudança. Cheguei á uma conclusão: provavelmente eles conheciam alguém muito parecida comigo, tão parecida a ponto de estarem me confundindo com ela. Essa era a explicação mais aceitável. Mas, como era possível haver alguém assim?

Elevando meus olhos a frente, vi Aoi, Tenma e Shinsuke entrarem na sala de aula. Sentando na carteira ao lado, a azulada chamou minha atenção com cautela.

– Yumei... – sua voz soou de forma calma. – Você... Poderia me responder uma pergunta?

Eu a fitei. Não, eu não possuía forças para falar com ninguém naquele momento. O que eu mais queria era ficar sozinha, reorganizar minha mente e esquecer o ocorrido de minutos atrás. Tentei responder de forma gentil, sem magoá-la.

– Me desculpe Aoi... – comecei educadamente. – Mas, não quero conversar com ninguém agora.

Encarando-me com olhos preocupados, ela concordou com a cabeça. Em seguida, virou-se para outro lado, fitando o quadro negro a sua frente.

As últimas aulas se passaram de forma lenta e cansativa. Na verdade, nem prestei a devida atenção ao que o professor falava ou escrevia no quadro. Pensava a todo momento no ocorrido do intervalo e no rosto confuso de Shindou.

Ao ouvir o sinal que indicava o término das aulas, me despedi de Aoi, Tenma e Shinsuke, saindo de minha sala. Chegando ao pátio da escola e rumando na direção dos portões, contornei o campo de futebol, parando ao observar a equipe do Clube de Futebol em seu treino diário.

Correndo pelo campo, os jogadores perseguiam a bola com animação. Realizando dribles, chutes e muitos outros movimentos, todos agiam com harmonia e habilidade. Os observei por alguns minutos admirada, até sentir a falta de um dos garotos. Onde estava Takuto Shindou?

O procurei com os olhos, encontrando-o sentado no banco de reservas. Observando-o melhor, pude ver que sua expressão trazia cansaço e desanimo. Com os olhos baixos, fitava o vazio parecendo pensativo. Senti-me culpada no mesmo momento, não queria vê-lo assim.

Lembrando-me do modo como ele me fitara na hora do intervalo, senti uma pontada de angustia. Eu que o havia deixado daquela maneira, sem entender o que havia acontecido. Eu que era a causa dele estar assim tão desanimado. Era tudo minha culpa.

Repentinamente, meus pensamentos foram interrompidos por um som agudo. Tirando meu celular do bolso da mochila, observei a mensagem que minha mãe havia acabado de me enviar: “Estou á caminho da escola. Me espere na frente dos portões, logo vou chegar”.

Olhando mais uma vez para o rosto do garoto de cabelos ondulados, o vi enxugar a testa com uma toalha, em seguida tomando um gole da garrafa d’água que se encontrava em suas mãos. Seria melhor se ele não me visse, não queria vê-lo confuso novamente. Suspirando fundo, recomecei a andar. Optei por seguir um caminho que passava por baixo de várias árvores, ficando pouco visível para os que se encontravam no campo.

Chegando aos portões, observei o movimento da rua enquanto esperava. O céu continuava claro e ensolarado, com poucas nuvens passando pelo vivo azul. Sentindo o vento leve em meu rosto, fiquei mais tranquila. Após alguns minutos, vi um carro vermelho se aproximar, estacionando á frente da escola.

Seguindo até o automóvel abri a porta e entrei, colocando a mochila em meu colo. Olhando para o lado, encarei o rosto da minha mãe.

– Boa tarde querida. – ela sorriu. – Como foi o primeiro dia de aula?

Pensei se valeria a pena contar a ela sobre o acontecimento do intervalo. Talvez ela me entendesse, talvez pudesse me ajudar a descobrir o porquê de toda aquela confusão, talvez... Não, seria melhor não. Minha mãe não era tão compreensiva, não me entendia tanto assim...

– Foi legal mamãe. – respondi, tentando parecer mais animada.

Ela me fitou de modo desconfiado, mas logo voltou a sorrir. Dando a partida no carro, continuou a conversa.

– Conseguiu fazer novos amigos? – sua voz não mostrava muita espectativa. Ela sabia que desde pequena eu não possuía grande facilidade para fazer amigos. Na verdade, surpreendi a mim mesma no momento em que conheci Aoi e os garotos do Clube de Futebol.

– Fiz sim. – respondi, fazendo com que sua expressão ganhasse surpresa. – Conheci uma garota bem simpática chamada Aoi, e... Os garotos do time de futebol.

Dessa vez, ela me fitou com curiosidade. – Mesmo? – perguntou. – Aqueles garotos que participam dos jogos que você vive assistindo pela tv?

Revirei os olhos com seu argumento. Suspirando fundo, senti um pequeno mau humor.

– É mãe, esses mesmos... – concordei. Em seguida, pensei em um modo de mudar de assunto. – E você? Como foi sua manhã?

– Ah, foi muito produtiva! – sorriu de forma animada. – Consegui um emprego no restaurante da sua tia. Nem sei como agradecê-la por tudo o que fez por nós até agora.

Não fiquei muito surpresa com aquela notícia, eu já esperava por isso. Após nos mudarmos, ficamos hospedadas na residência de minha tia Mitsue, irmã mais velha da minha mãe. Ela nos acolheu por um mês inteiro, enquanto minha mãe procurava comprar uma boa casa em que pudéssemos morar. Tia Mitsue também havia morado em Nagoya, mas á três anos se mudara com o marido e os filhos para Inazuma.

– Que legal da parte dela. – respondi pensativa.

– É. – minha mãe concordou. Em seguida, encarou-me com seriedade. – Ah, e Yumei, não poderei mais levar ou buscar você na escola.

Eu a fitei com surpresa, não conseguindo entender. – O que? Por que não?

– O horário de trabalho no restaurante começa antes de você ir á escola, terminando somente no final da tarde. – explicou, não parecendo se preocupar. – Você terá que se responsabilizar por seu próprio horário, irá e voltará á escola de a pé e também se responsabilizará pela chave da casa.

Ouvindo suas palavras, me afundei no banco do carro, bufando com irritação. Não adiantaria de nada reclamar, eu sabia disso. Quando minha mãe tomava uma decisão, dificilmente voltava atrás.

– Ta bom... – suspirei, não me importando em mostrar meu mau humor.

Ficamos em silencio pelo resto do trajeto. Enquanto olhava pela janela, eu debatia mentalmente tudo o que havia acontecido naquela manhã.

Chegando em casa, desembarquei do carro e segui até a entrada. Quando entrei pela porta da frente, senti uma onda de tranquilidade passar por todo o meu corpo. Finalmente estava no lugar que eu mais gostava, onde quase ninguém poderia me incomodar.

Em meu quarto, troquei o uniforme e vesti minhas roupas casuais: uma camiseta alaranjada estampada com delicadas flores amarelas, e uma calça jeans azul. Sorrindo, olhei-me no espelho. Até que com o canto do olho, visualizei os pôsteres decorados com notas musicais. Imediatamente, lembrei-me de algo muito importante: eu não havia visitado o Clube de Música na escola.

Senti a raiva e a irritação subirem por minhas veias. Como pude me esquecer de ir ao Clube de Música? Havia me distraído tanto a ponto de nem lembrar da única chance que eu tinha de finalmente poder voltar a tocar piano? Que idiota! Como pude me esquecer?!

Suspirando fundo, me acalmei. Afinal, aquele era somente meu primeiro dia de aula, eu ainda possuía o ano inteiro para poder entrar no clube. Elevando os olhos novamente para as notas musicais desenhadas nos pôsteres das paredes, esbocei um grande sorriso. Então seria amanhã. No dia seguinte, finalmente eu voltaria a tocar piano. Voltaria a me envolver com a música, voltaria a me sentir tão leve e feliz como quando tocava. Finalmente, minha vontade quase insuportável não existiria mais.

Com nova animação, fiz com que minha tarde se passasse de forma rápida. Após almoçar, realizar alguns trabalhos domésticos e resolver meus deveres de casa, reuni várias pastas plásticas e sentei a frente de minha escrivaninha. Abrindo-as, observei partituras dos mais variados ritmos e harmonias. Quantas vezes eu já havia tocado cada uma delas... Lendo-as e sonhando que em breve poderia tocá-las novamente, senti meu coração se preencher de esperança e excitação. Á noite, após a janta, dei boa noite á minha mãe e corri para a cama, mal esperando pelo começo do dia seguinte.

♩❤♩

Rua Haru No Hana, 06:10

Quando acordei de manhã, após uma bela noite de sono, vesti meu uniforme e me arrumei, seguindo até a cozinha. Em cima da mesa havia um pequeno recado em uma folha de papel:

“Yumi, como lhe disse ontem, saí mais cedo para ir ao restaurante. Deixei um prato com seu café da manhã dentro do microondas. Quando sair para ir á escola não se esqueça de trancar a porta e guardar a chave do modo certo. Imagino que você já saiba de cor o caminho para ir á escola.

Espero que suas aulas sejam produtivas, não se esqueça de prestar bastante atenção. Como voltarei somente ao anoitecer, receio que terá de preparar seu próprio almoço de agora em diante. Sei que você sabe cozinhar muito bem. Até logo.

De sua mãe, Keiko.”

Suspirando pensativa, depositei a carta sobre a mesa. Indo até o microondas, tirei um prato de panquecas de seu interior, sentindo o delicioso aroma e calor que emanavam. Sentando-me a mesa, provei meu café da manhã, saboreando bem seu gosto doce.

– Obrigada mamãe... – murmurei.

Eu sinceramente não me importava de ter que ir e voltar da escola a pé nem de que teria de preparar meu próprio almoço, eu gostava muito de cozinhar. A única coisa que me incomodava era o fato de que de agora em diante passaria muito menos tempo com minha mãe. Eu já havia notado que, com o tempo nos afastávamos cada vez mais. Isso me deixava completamente triste, fazendo com que muitas vezes a solidão me envolvesse.

Não queria refletir sobre aquele assunto, por isso desviei meus pensamentos para algo que me faria bem. Planejei o que faria no momento em que chegasse á escola: no intervalo, procuraria o representante do Clube de Música e me apresentaria, entregando minha ficha de inscrição. Aí seria só esperar que me aceitassem como integrante do clube.

Terminando as panquecas, peguei minha mochila e segui até a porta da sala de estar, trancando-a ao sair. Andando pela calçada, rumei para a Escola Raimon, sonhando com o que me esperava. Apurando o passo, atravessei quatro quarteirões e passei por um hospital, finalmente chegando aos portões da escola.

Como o sinal já havia tocado, tive de subir direto para minha sala de aula. Sentando ao lado de Aoi, sorri no momento em que esta me fitou. Possuía uma expressão cautelosa, talvez ainda assustada com o acontecimento do dia anterior. Encarando-a de modo bem humorado, tentei mostrar que estava me sentindo melhor.

– Bom dia Aoi. – sorri, surpreendo-a com minha animação.

– Oi Yumei. – sorriu de leve. – Como você está?

– Ah, estou ótima! – respondi feliz. – Hoje entrarei pro Clube de Música! Finalmente tocarei piano de novo!

A azulada sorriu docemente.

– Que bom. Fico muito feliz por você. – respondeu mostrando sinceridade.

As primeiras aulas se passaram de forma rápida. Anotando a matéria em meu caderno e ouvindo as explicações do professor nem vi o tempo passar. Logo, o sinal que indicava o começo do intervalo já havia soado, permitindo com que todos os alunos saíssem rapidamente de suas salas de aula.

Andando pelos corredores, perguntei-me que direção deveria tomar para chegar á sala do Clube de Música. Estava prestes a seguir até o balcão de recepção para perguntar a atendente, quando ouvi uma voz conhecida me chamar.

– Yumi-chan! – alguém me chamava por meu apelido.

Olhei para trás, focalizando uma garota correr apressada ao meu encontro. Observando-a, vi que possuía cabelos negros compridos até os ombros, com belos olhos verdes destacando-se no rosto sorridente. No momento em que se aproximou, deixei escapar uma exclamação de surpresa.

– Asuna! – sorri feliz. – Eu não esperava te encontrar tão cedo!

A garota me fitou com uma expressão desconfiada, sorrindo de lado.

– Como assim? – arqueou uma das sobrancelhas. – Não esperava encontrar sua prima favorita na mesma escola que você? Achei que eu e o Satoru já tivéssemos te contado que também estudamos na Raimon.

Sim, Asuna e Satoru Sakisaka eram meus primos. Gêmeos, eram filhos de tia Mitsue. No pequeno período em que fiquei hospedada na casa de minha tia, tive tempo suficiente para conversar e matar a saudade de meus primos. Em Nagoya, antes dos dois se mudarem com a mãe estudávamos na mesma escola e nos víamos todos os dias. Sempre brincávamos e nos divertíamos juntos. Após os dois se mudarem ficamos um longo período sem nos comunicar. Mas agora que morávamos todos na mesma cidade e estudávamos na mesma escola novamente, com certeza voltaríamos a ser inseparáveis, assim como antigamente.

– Ah não Asuna, claro que vocês me contaram que estudaríamos na mesma escola. – expliquei, ainda sorrindo. – Eu só não esperava te encontrar logo no segundo dia de aula.

– Pois saiba que eu estava mesmo planejando te encontrar. – ela continuou. – Se tivesse te achado ontem, já teria falado com você. E falando nisso, onde você estava ontem?

Fiquei surpresa com sua pergunta, lembrando-me da confusão que havia ocorrido no dia anterior. Expulsando os maus pensamentos de minha mente, continuei a fitar seu rosto curioso.

– Ah, eu só fui fazer uma visitinha á sala do Clube de Futebol com uma amiga que eu fiz e... – mas não consegui continuar a falar, pois a garota quase pulara em cima de mim.

– Você ainda gosta de futebol?! – seus olhos brilhavam de tanta excitação.

– Ahn... – senti-me um pouco incomodada com sua aproximação repentina. – Bom, eu ainda gosto sim.

– E ainda pratica? Vai entrar pro Clube de Futebol?

– É... Não. – com minha resposta, toda a sua animação desapareceu, fazendo com que se distanciasse. – Na verdade, vou entrar pro Clube de Música. Você lembra que eu toco piano não é?

Ouvindo minha explicação, ela voltou a sorrir.

– Como poderia me esquecer que minha prima é a melhor pianista de toda a Nagoya? – perguntou, deixando-me corada com seu elogio exagerado. – Ah, e falando nisso, faço parte do Clube de Música também.

– Mesmo? – perguntei surpresa. – Eu não sabia que você também gostava de música.

– Comecei a tocar violão no ano passado, então entrei pro clube.

– Verdade? Então faremos parte do mesmo clube!

– Isso mesmo! – afirmou com a cabeça. – Bom, estou indo pra lá agora, que ir comigo?

– Claro! – sorri. – Eu estava agora mesmo procurando a sala do clube.

– Então, vem comigo! – disse começando a me puxar pelo braço.

Asuna me guiou pelos corredores até uma porta fechada. Ao ouvir a bela melodia que saia do local, senti um grande conforto. Entrando na sala, Asuna chamou a atenção dos que estavam presentes, fazendo com que a música cessasse no mesmo momento.

– Bom dia pessoal. – ela acenou. – Tenho uma novidade: minha prima Yumei vai entrar pro nosso clube!

Puxando-me pelo braço, a morena fez com que eu entrasse abruptamente na sala, quase caindo no chão. Constrangida, me endireitei e olhei para as pessoas a minha frente, sorrindo sem jeito.

A sala do Clube de Música era muito menor e mais simples que a do Clube de Futebol. Fixado a uma das paredes, havia um grande quadro negro repleto de notas musicais e partituras. Em outro canto, uma estante cheia de livros e pastas. Seis cadeiras e pedestais se espalhavam pelo local, virados na direção do que mais se destacava na sala: um belo piano de madeira negra.

Sentados nas cadeiras, quatro garotos nos encararam. Olhando-me de cima a baixo, permaneceram em silencio, deixando-me envergonhada. Levantando-se da frente do piano, um garoto moreno aparentemente mais velho que eu e Asuna seguiu em nossa direção.

– Bom dia. – ele sorriu cordial. – Seja bem vinda ao Clube de Música da Raimon. Me chamo Hideki Kazumi, o representante do clube, muito prazer.

– O prazer é todo meu. – agradeci. – Meu nome é Yumei Okatsu, e gostaria muito de entrar aqui no clube.

Sorrindo, Hideki apertou minha mão.

– Sua prima tem falado muito da senhorita. – comentou, fazendo com que Asuna revirasse os olhos ao meu lado. – Ela nos disse que você é uma incrível pianista.

Ouvindo suas palavras, corei. Asuna possuía o costume irritante de espalhar para todo mundo que eu era a melhor pianista de Nagoya. Isso fazia com que as pessoas me julgassem de forma errada, pensando que eu tocava melhor do que seria a verdade.

– Ah... Eu não sou tão boa assim... – discordei com a cabeça, fazendo com que Hideki lançasse um olhar desconfiado a minha prima. – Mas sei tocar vários ritmos e melodias.

O moreno ajeitou os óculos de aros negros no rosto. – Muito bem, a senhorita toca já faz um bom tempo, não é?

– Toco sim. – concordei. – É o que eu mais gosto no mundo.

Ouvindo minhas palavras, o garoto pareceu animado. – Então acho que será facilmente aceita no clube. Hum... Por acaso trouxe sua ficha de inscrição?

Procurando em meus bolsos, encontrei um papel dobrado com cuidado, entregando-o em seguida nas mãos do garoto. Hideki desdobrou a ficha e a leu com atenção. Quando terminou, guardou-a no bolso do uniforme.

– Muito bem, sua ficha esta de acordo com nossos termos. – disse, fazendo com que minha excitação aumentasse. – Mas não podemos acolhê-la como membro do clube até nossa administradora ficar ciente da inscrição.

– Administradora? – repeti confusa.

– Sim, a administradora do Clube de Música, Sakura Yoru-sama. – Hideki explicou. – Entregarei sua ficha a ela no final do intervalo. Após as aulas, volte aqui para saber se foi realmente aceita.

Senti decepção em ter de esperar até o intervalo para finalmente poder me nomear como membro do clube. Suspirei profundamente, chamando a atenção de Asuna, que olhando meu rosto desanimado, me puxou pelo braço.

– Hum... – a morena fez pensativa. – Yumei, enquanto espera gostaria de conhecer os outros membros do clube?

– Ah, claro. – respondi, olhando novamente para os outros presentes na sala.

Asuna me apresentou a dois garotos e uma garota. Os três me pareceram muito simpáticos e gentis, cumprimentando–me com sorrisos e palavras educadas. Após nos apresentarmos, minha prima estava prestes a me puxar novamente á frente da sala, quando notei que não havia falado com uma garota loira e silenciosa que se encontrava sentada em um canto da sala.

– Ah... Asuna. – chamei, fazendo com que soltasse meu braço. – Ainda não falei com aquela garota.

Olhando na direção em que eu apontara, a morena se imobilizou. Ganhando uma expressão rígida e nervosa, arregalou os olhos para mim, deixando-me confusa. O que havia acontecido? Por acaso eu havia dito algo errado?

– Yumi-chan, eu não acho uma boa ideia... – começou, mas eu já havia seguido na direção da pessoa localizada no final da sala.

Ficando a frente da garota, fiz com que me encarasse. No momento em que nos fitamos, seus olhos brilharam de um modo estranho. De um modo... Assustador. Sentindo-me um pouco desconfortável, estendi a mão ao esboçar um sorriso pequeno.

– Olá, meu nome é Yumei Okatsu. Prazer em conhecê-la.

Olhando para minha mão, a garota parecia debater se a apertaria ou não. Possuía longos cabelos dourados, que brilhavam de acordo com a luz que entrava pelas janelas. Seus grandes olhos azulados fitavam-me com certo desdém. Após me examinar de cima a baixo, ela se permitiu sorrir. Um sorriso pouco amigável.

– Me chamo Naomi Aiako. – disse tranquilamente. Pude sentir um tom de superioridade em sua voz. – Você sabe mesmo tocar piano do jeito certo?

Surpresa com sua pergunta grosseira, engoli em seco, não sabendo o que responder. Olhei para trás procurando apoio, porém todos os outros presentes conversavam distraidamente. Mas, Asuna não estava com eles... Voltando meus olhos novamente para Naomi, tomei o maior susto. Ali, na minha frente vi Asuna cara a cara com a garota, fitando-a de modo ameaçador.

– Ta duvidando da minha prima, Miss Convencida?! – perguntou, mostrando irritação e raiva em sua voz. Senti-me assustada, nunca havia a visto agir daquela maneira. O que havia acontecido?

A loira a encarou com desgosto. Revirando os olhos, fez pouco caso de sua pergunta. – Bom, ela não tem cara de quem sabe tocar algum tipo de música. – olhou para suas unhas, entediada.

Asuna parecia que ia explodir. Segurando-se para não pular em cima da loira, a morena cerrou os punhos com força. – Olha aqui sua loira exibida, se você começar a provocar a minha prima, você vai se ver comigo!

Naomi continuou a encará-la de forma entediada, fazendo com que ficasse cada vez mais irritada. Pude ver que Asuna estava prestes a pular em cima dela, quando o sinal que indicava o fim do intervalo chamou nossa atenção. No mesmo momento, os outros presentes no local se retiraram, rumando para o corredor lotado de alunos. Levantando da cadeira, Naomi passou por mim e Asuna, virando-se para nós antes de sair.

– Não se preocupe, não vou fazer nada com sua priminha, Sakisaka. – sorriu maliciosa, pronunciando o sobrenome de minha prima com nojo. – Bom... Pelo menos se ela não atrapalhar nenhum dos meus planos.

Antes de deslizar para o corredor, a garota me lançou um olhar frio e perverso, fazendo com que um rápido arrepio passasse por meu corpo. Ao meu lado, Asuna se segurava para não dar um ataque de nervos. Com cautela, coloquei uma das mãos em seu ombro, torcendo para que se acalmasse.

– A-Asuna... – gaguejei, temendo sua futura reação. — Por que essa garota nos tratou assim?

Mas a morena não respondeu. Ainda com os punhos cerrados, permaneceu imóvel, tentando controlar sua raiva crescente.

– Aquela... Loira idiota... – murmurava, deixando-me ainda mais assustada. – Ela vai me pagar um dia...

Repentinamente, ela se virou para mim, encarando-me com uma seriedade que eu nunca vira em seu rosto. Olhando-me nos olhos, me segurou pelos ombros. — Yumei, me prometa que nunca falará com aquela garota.

No momento em que me tocou, pude sentir a tensão que segurava dentro de si. — Prometer? – repeti confusa. – Por que Asuna...?

– Apenas prometa! – ela exclamou, fazendo-me arregalar os olhos com seu tom de voz.

Nos encaramos por alguns segundos. Eu podia ver um grande medo em seu olhar, algo que nunca havia visto antes. Ela falava de forma extremamente séria, quase implorando para que eu prometesse.

– Certo... – suspirei. — Prometo que nunca falarei com ela.

Ouvindo minhas palavras, ela me soltou, suspirando com um grande alívio. Após respirar fundo várias vezes seguidas, finalmente conseguiu se acalmar.

– Ainda bem... – sorriu de leve. Sua expressão mais suave fez com que eu me sentisse melhor. — Venha, já está na hora de voltarmos ás nossas salas de aula.

Cogitei em interrogá-la sobre o que havia acabado de acontecer, mas conclui que a melhor opção seria deixá-la em paz. Após nos despedirmos, voltei á minha sala de aula. Passei minhas últimas aulas de forma pensativa. Por que Naomi havia nos tratado daquela forma? O que ela havia feito para Asuna odiá-la tanto? Eu sabia que não haveriam respostas para minhas perguntas, por isso tentei desviar meus pensamentos do assunto. Imaginando o que aconteceria no momento em que voltasse ao clube no final das aulas, senti a alegria voltar a me preencher.

Quando o sinal tocou, agarrei minha mochila e sai correndo pelos corredores, sentindo a excitação aumentar cada vez mais dentro de mim. Chegando á sala do Clube de Música respirei fundo, girando a maçaneta da porta. Ao entrar, me deparei com uma mulher alta e bonita. Usava um vestido estampado com belas flores amarelas e violetas, com compridos cabelos azuis marinho caindo sobre suas costas. Ao seu lado, estavam Hideki e Asuna, fitando-me no momento em que entrei, sorriram com simpatia. Aproximando-se de mim, a mulher estendeu a mão.

– Boa tarde. – sua voz suave mostrava gentileza. – Você deve ser a Yumei Okatsu. Muito prazer em conhecê-la, sou Sakura Yoru, a administradora do Clube de Música.

Apertando sua mão, fiquei surpresa e ainda mais excitada. Olhando para Sakura, me senti admirada com a bondade que seu sorriso transmitia.

– Fui informada que a senhorita quer entrar para nosso clube. – assenti com a cabeça. – Muito bem. Já tenho sua ficha de inscrição e todos os termos são aceitáveis. Portanto... Seja bem vindo como a mais nova integrante do Clube de Música da Raimon.

Senti uma enxurrada de alegria tomar conta de mim. Eu havia conseguido! Havia entrado pro Clube de Música! Sorrindo abertamente, tive de me segurar em meu lugar para não pular de felicidade, com vontade de abraçar cada um dos presentes na sala.

– Ah, muito obrigada! — exclamei, não contendo a animação em minha voz.

Observando minha expressão, Sakura sorriu. Em seguida, apontou o piano a minha frente. – Bom, agora que faz parte do clube o que acha de mostrar um pouco do seu verdadeiro talento? Quer tocar um pouco?

Arregalando os olhos, senti meu coração bater forte em meu peito. Concordando com a cabeça, segui lentamente na direção do instrumento musical. Sentando-me a sua frente, olhei para as notas do teclado. Todas estavam bem ali, esperando que eu as tocasse. Repentinamente, meu corpo começou a tremer de tanto nervosismo e emoção. Olhando-me com mais atenção, a administradora do clube mostrou um vestígio de preocupação em sua voz.

– Está tudo bem, querida?

Assenti, não desviando meus olhos do piano. Seria agora, agora que eu daria fim ao meu sofrimento e angústia. Agora que eu voltaria a fazer o que mais amava na minha vida.

Elevando as mãos ao teclado, toquei uma nota. No momento em que o som chegou aos meus ouvidos, senti meu coração transbordar. Um grande sentimento tomou conta de mim. Um sentimento de leveza, de paz, alívio, alegria e esperança. Grossas lágrimas de felicidade rolaram pelo meu rosto. Toquei mais algumas notas, e mais algumas, até começar a transformá-las em uma bela e maravilhosa melodia. Eu podia sentí-la, conseguia me envolver com ela como se não houvesse mais ninguém ali comigo. Eram somente eu, o piano, e a música.

Agora, naquele momento me sentia finalmente completa, como se houvesse encontrado a verdadeira felicidade. Finalmente, eu havia retornado á música. Algo que jamais deveria de ter deixado.

♩❤♩

Notas finais
Então, o que acharam? Mereço comentários? Espero que tenham gostado! Até o próximo capítulo! ;)