Amor ou obsessão
6 O Toque e a Trégua
O crepúsculo trazia tons de violeta para as janelas do Castelo de Tara, mas para o Rei Dominic, o mundo havia se reduzido a latejos rítmicos e dolorosos atrás de seus olhos. A dor de cabeça viera como uma tempestade súbita, tão forte que o fizera abandonar uma reunião com seus generais. Agora, ele se encontrava em seus aposentos particulares, a luz das velas reduzida ao mínimo, tentando encontrar um alívio que o vinho não fora capaz de dar.
Na ala dos druidas, o caos era de outra natureza. João e Maria Benevides estavam imersos em um ritual de purificação de solo solicitado pela rainha-mãe, manipulando poções raras que exigiam atenção absoluta a cada segundo do cozimento.
— Ester — chamou João, sem desviar os olhos do caldeirão de bronze. — O Rei está sofrendo. Otávio veio buscar auxílio, mas não podemos deixar esta infusão agora ou perderemos meses de colheita. Leve o bálsamo de casca de salgueiro e a compressa de alfazema. Você conhece os pontos de pressão tanto quanto eu.
Ester hesitou. A última coisa que queria era entrar na intimidade dos aposentos reais, o território mais pessoal do homem que a observava como um predador paciente.
— Pai, certamente um dos aprendizes pode ir...
— Ele é o seu Rei, Ester — Maria interrompeu, com a voz firme. — E ele é um homem sofrendo. Vá.
Sem argumentos, Ester pegou sua bolsa de couro e atravessou os corredores de pedra. Ao chegar às portas duplas do quarto real, os guardas apenas assentiram, permitindo sua entrada. O ar lá dentro cheirava a sândalo e cera de abelha. Dominic estava sentado na beira da imensa cama de dossel, com a cabeça apoiada nas mãos, os ombros largos curvados pelo peso da dor.
— Eu disse que não queria ser perturbado, Otávio — a voz do rei saiu baixa e carregada de irritação.
— Otávio está no conselho. Meu pai me enviou — disse Ester, sua voz suave quebrando o silêncio do quarto.
Dominic levantou a cabeça lentamente. Seu rosto estava pálido, e as linhas ao redor de seus olhos pareciam mais profundas sob a luz tênue. Ao vê-la, a tensão em sua mandíbula pareceu ceder por um instante, substituída por uma surpresa vulnerável.
— Ester... — ele murmurou.
— Deite-se, Majestade. O senhor não pode lutar contra uma dor dessas como luta contra um soldado — ela ordenou, aproximando-se com a autoridade de quem domina a arte da cura.
Para sua surpresa, ele obedeceu. O grande monarca da Irlanda deitou-se nos travesseiros de seda, observando-a preparar as ervas. Ester molhou um pano de linho em uma solução de água fria e essências, sentando-se no banco ao lado da cama.
— Feche os olhos — ela instruiu.
Ao sentir as mãos pequenas e firmes de Ester em suas têmporas, Dominic soltou um suspiro profundo. Ela começou a massagear os pontos de tensão com movimentos circulares e precisos. O toque era profissional, mas a proximidade era perigosa. Ester podia sentir o calor da pele dele, a firmeza dos músculos do pescoço e a pulsação acelerada em suas artérias.
— O senhor carrega o reino inteiro na base do crânio — comentou ela, a voz mais mansa agora. — Não é de se admirar que a cabeça reclame. O poder tem um preço que nem todo o ouro de Tara pode pagar.
Dominic, de olhos fechados, sentia a dor começar a recuar, mas uma nova consciência despertava em seu lugar. A presença de Ester preenchia o quarto.
— Às vezes — ele disse, com a voz rouca — o preço vale a pena se o reino estiver seguro. Mas hoje... hoje a dor quase me venceu.
— O senhor se recusa a admitir fraqueza, não é? — Ester aplicou a compressa fria sobre a testa dele. — Acha que se fechar os olhos por um momento, a Irlanda vai desaparecer. Mas até os carvalhos mais velhos balançam com o vento para não quebrar, Dominic.
O uso de seu nome, sem o título, fez o rei abrir os olhos. Ele buscou a mão dela, prendendo-a suavemente contra seu rosto. Ester tentou puxar, mas ele a segurou com uma força que não era de comando, mas de súplica.
— Por que você é tão arredia, Ester? — ele perguntou, fitando-a com uma intensidade que a fez esquecer o bálsamo por um momento. — Eu lhe dei tudo. Trouxe sua família, dei-lhes honras...
— O senhor nos deu uma gaiola dourada — ela retrucou, embora não tenha retirado a mão dessa vez. — O senhor quer me possuir como possui essas terras. Mas eu não sou um mapa para ser traçado.
— Você me vê como um velho colecionador de troféus — Dominic disse, com uma ponta de amargura. — Mas o que eu sinto quando vejo você pular naquele lago, ou quando vejo o brilho de desafio em seus olhos, não tem nada a ver com posse. Tem a ver com a primeira vez em cinquenta anos que sinto que há algo além da coroa que realmente importa.
Ester sentiu o coração bater contra as costelas. A vulnerabilidade dele era muito mais difícil de combater do que sua arrogância. Ela se inclinou um pouco mais, o rosto a poucos centímetros do dele, para trocar a compressa. O cheiro de ervas nela e o perfume amadeirado dele se misturaram.
— Durma, Rei Dominic — ela sussurrou, a voz tremendo levemente. — A dor vai passar. Mas não confunda gratidão medicinal com o que o senhor deseja. Eu ainda acho que o senhor é um homem de outro tempo, tentando segurar o sol com as mãos.
Dominic fechou os olhos novamente, o toque dela sendo a última coisa que sentiu antes que o remédio fizesse efeito. Ester ficou ali por muito tempo depois que a respiração dele se tornou pesada e regular. Ela observou o rosto do rei em repouso; sem a carranca da autoridade, ele parecia apenas um homem. Um homem marcado pelo tempo, sim, mas com uma beleza madura e devastadora que, pela primeira vez, ela não pôde ignorar.
Ao sair do quarto, Ester encostou-se na parede de pedra do corredor e respirou fundo. A batalha estava longe de terminar, mas naquela noite, nas sombras dos aposentos reais, o Rei da Irlanda havia conquistado o primeiro território: a dúvida no coração da jovem druida.
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