Amor ou obsessão
19 O Olhar do Leão
O baile havia terminado, mas a energia da celebração ainda pairava como poeira dourada pelos corredores de Tara. Na sala privada da família real, o fogo na lareira crepitava suavemente, criando um refúgio de calor e intimidade. Era o momento que Dominic mais prezava: quando as coroas eram deixadas de lado e eles eram apenas pais, filhos, tios e sobrinhos.
João e Maria, agora bem idosos mas com a saúde preservada pelas ervas de Ester, descansavam em poltronas confortáveis, observando com orgulho os netos que criaram. Mellysa e Ricardo compartilhavam um vinho com Ester, conversando sobre o sucesso da noite.
No centro da sala, os jovens riam. Michael e Luan, o filho de Mellysa que Ester salvara tantos anos atrás, agora eram melhores amigos e companheiros de armas. Luan havia se tornado um cavaleiro galante, com a mesma altivez dos Mackenzie, mas com uma doçura que herdara da gratidão de sua mãe.
Dominic, recostado em sua poltrona com uma taça de vinho na mão, observava a cena em silêncio. Seus olhos, embora cercados por rugas, permaneciam tão afiados quanto as garras de um falcão. Ele notou algo que ninguém mais parecia ver.
Luan estava ao lado de Maya, ajudando-a a desembaraçar uma fita de seda que se prendera em sua manga. O toque do rapaz era hesitante, quase reverente. Quando Maya riu de uma piada de Michael e jogou a cabeça para trás, Luan não riu. Ele apenas a olhou. Foi um olhar rápido, carregado de uma adoração silenciosa, de um desejo contido e de uma lealdade que ia muito além da amizade entre primos de consideração.
Maya, distraída pela própria alegria, não percebeu. Mellysa estava ocupada demais gabando-se da postura do filho, e Ester estava envolvida em uma conversa sobre as colheitas de inverno.
Dominic deu um sorriso imperceptível, sentindo um "déjà vu" poderoso. Ele reconhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que ele mesmo lançara a Ester no boticário, décadas atrás — uma mistura de obsessão, proteção e a percepção de que o mundo inteiro se resumia a uma única pessoa.
— Algum problema, meu senhor? — sussurrou Ester, aproximando-se e notando o silêncio reflexivo do marido.
Dominic tomou um gole de vinho e indicou discretamente os dois jovens com o olhar.
— O tempo é um círculo curioso, Ester. O amor não pede permissão para entrar neste castelo, ele simplesmente derruba as portas.
Ester olhou para Maya e Luan, mas eles já estavam conversando com Michael novamente. Ela franziu a testa, sem entender.
— Do que está falando? Eles são como irmãos.
— Assim como você achava que eu era apenas um rei velho e rabugento — Dominic riu, uma risada rouca e cheia de sabedoria. — Luan está perdido, Ester. Ele olha para Maya como se ela fosse o sol e ele um homem que viveu a vida toda nas sombras.
Ester olhou novamente, desta vez com mais atenção, captando o momento em que Luan discretamente afastou uma mecha de cabelo do rosto de Maya antes de recuar rapidamente. Ela levou a mão à boca, surpresa.
— Pelos deuses... Mellysa teria um colapso se soubesse agora.
— Deixe-os — Dominic disse, puxando a esposa para perto de si. — Luan é um bom homem. Ele tem honra e, o mais importante, ele a ama o suficiente para ter medo dela. É o começo de uma bela e complicada história.
Dominic recostou a cabeça, sentindo uma paz profunda. Ele vira o início de seu amor, lutara por sua família e agora, do alto de seus sessenta e oito anos, tinha o privilégio de ser o primeiro a ver o nascimento da próxima grande saga de Tara.
O Leão da Irlanda podia estar envelhecendo, mas sua mente ainda era o terreno mais fértil do reino, capaz de enxergar as sementes do futuro antes mesmo que elas brotassem da terra.
— O que o senhor vai fazer? — perguntou Ester, sorrindo.
— Vou fazer o que um rei faz de melhor, minha Rainha — Dominic piscou para ela. — Vou observar, proteger e, quando chegar a hora certa... vou dar o empurrão necessário. Afinal, eu sei por experiência própria que um Mackenzie apaixonado é uma força que ninguém consegue parar.
A noite terminou com o som das risadas dos jovens, sob o olhar atento e cúmplice do velho Rei, que sabia que, enquanto houvesse amor e segredos para serem desvendados, a linhagem de Tara nunca perderia seu fogo.
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