Amor ou obsessão
4 O Galope do Desafio
A manhã seguinte surgiu envolta em uma névoa densa, típica das terras altas irlandesas, que conferia ao Castelo de Tara uma aura de mistério e isolamento. No estábulo real, o cheiro de feno fresco e couro misturava-se ao bafo quente dos cavalos. Dominic estava lá desde cedo, verificando pessoalmente a sela de seu imenso garanhão negro. Ele vestia trajes de montaria práticos, botas altas e um gibão de couro que realçava seu porte atlético, sem as formalidades das sedas reais.
Ester apareceu pouco depois, acompanhando o pai. João Benevides precisava coletar ervas específicas que só cresciam na encosta leste, e Dominic, providencialmente, decidira que aquela era a manhã perfeita para supervisionar as fronteiras da propriedade.
— O caminho até a encosta é íngreme para se fazer a pé, João — disse o Rei, aproximando-se com as rédeas na mão. — Pedi que selassem cavalos para todos. Ester, espero que saiba conduzir uma sela. Ou as jovens do povoado preferem apenas caminhar entre as flores?
Ester arqueou uma sobrancelha, sentindo a provocação velada. Ela se aproximou de uma égua baia, de temperamento visivelmente inquieto, e acariciou o focinho do animal com uma segurança que surpreendeu os cavalariços.
— No povoado, Majestade, nós cavalgamos em pelo para buscar o gado antes que a tempestade chegue. Uma sela de couro e estribos de prata são luxos que apenas tornam o cavaleiro mais preguiçoso — ela respondeu, montando com uma agilidade graciosa, sem precisar de ajuda.
Dominic deu um sorriso curto, montando em seu garanhão.
— Veremos se sua confiança se mantém quando as trilhas de pedra começarem.
O grupo partiu, deixando para trás os portões de ferro de Tara. João e os guardas seguiam à frente, discutindo sobre as propriedades das plantas, enquanto Dominic e Ester ficaram ligeiramente para trás. O silêncio entre eles era preenchido apenas pelo som dos cascos batendo no solo úmido e pelo pio de falcões ao longe.
— Vi que esteve no pátio de treinos ontem — Dominic iniciou, quebrando o gelo. Sua voz era profunda, competindo com o vento. — O que achou da técnica do General?
— Achei que ele tem muita paciência — Ester respondeu, sem olhar para ele. — Deve ser difícil para um homem jovem ter que fingir que está perdendo para que seu Rei se sinta vigoroso.
Dominic puxou as rédeas, fazendo seu cavalo empinar levemente pela parada brusca. Ele soltou uma gargalhada genuína que ecoou pelo vale.
— Você realmente acredita que ele me deixou vencer? Ester, na batalha, o inimigo não se importa com a cor da sua barba ou com os anos que você carrega. Ele só se importa se você é mais rápido ou mais forte. Ontem, eu fui os dois.
— O senhor fala de força como se fosse a única coisa que importa — ela finalmente o encarou, os olhos verdes brilhando sob o capuz do manto. — Um rei de cinquenta anos deveria ter sabedoria suficiente para saber que não precisa mais provar que pode derrubar um homem. Mas o senhor... o senhor parece desesperado para ser notado.
Dominic aproximou seu cavalo do dela, até que suas pernas quase se tocassem. O ar entre eles ficou eletrizante.
— Não quero ser notado por todos, Ester. Quero ser notado por você. E não é desespero. É a primeira vez em décadas que encontro algo que não posso simplesmente ordenar que seja meu. Isso me faz sentir mais vivo do que qualquer batalha.
Ester sentiu um calafrio que não vinha do vento frio da Irlanda. A intensidade no olhar de Dominic era quase física, uma força que parecia querer desvendar todos os seus segredos.
— O senhor está acostumado a ter tudo o que deseja — ela murmurou, desviando o olhar para o horizonte. — Mas eu não sou um território para ser conquistado, nem uma lei para ser assinada. Sou como o vento nessas montanhas: o senhor pode até senti-lo, mas nunca conseguirá prendê-lo em suas mãos.
— O vento também sopra as velas dos navios e move os moinhos, Ester. Ele tem um propósito — Dominic retrucou com suavidade. — Assim como você tem um aqui em Tara. E eu não pretendo prendê-la. Pretendo apenas caminhar ao seu lado.
Ester deu um comando seco à sua égua e disparou à frente, iniciando um galope veloz pela encosta aberta. Dominic não hesitou; ele soltou as rédeas de seu garanhão e partiu em seu encalço. Durante minutos, foram apenas os dois contra a vastidão verde, uma caçada silenciosa onde o Rei tentava alcançar a liberdade que ela representava.
Quando finalmente pararam no topo da colina, ofegantes, os cavalos bufando vapor no ar frio, Ester olhou para o lado e viu Dominic sorrindo. Ele não estava cansado; estava radiante. O suor brilhava em suas têmporas grisalhas e ele parecia ter rejuvenescido dez anos naquele galope.
— O senhor corre bem para um... — ela começou, mas parou antes de dizer a palavra.
— Para um velho? — ele completou, divertido. — Pode dizer, Ester. As palavras não me ferem. Mas admita: eu não fiquei para trás.
Ela não admitiu com palavras, mas o leve erguer de seus lábios foi a primeira vitória que Dominic obteve naquela manhã. Ela ainda o via como um homem de outra geração, mas, pela primeira vez, começou a perceber que aquele "velho poderoso" tinha um fogo que muitos jovens de sua idade jamais conheceriam.
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