Amor ou obsessão

2 Um banquete realista



​O salão de banquetes estava iluminado por centenas de velas, e o aroma de carne assada com ervas silvestres preenchia o ar. À mesa real, a disposição das cadeiras refletia a importância do momento. Dominic ocupava o centro, ladeado por seus irmãos. Ricardo e Selina conversavam em voz baixa, enquanto os pequenos Benício e Henrique, este último no colo de uma ama, traziam um ar de leveza ao ambiente. Do outro lado, Mellysa e Urtred Styles mantinham a postura impecável, com Munique e Keylan observando curiosos os novos convidados.

​A família Benevides ocupava o lugar de honra à frente do rei. João e Maria pareciam gratos, embora deslocados entre tanto ouro e seda. Os gêmeos, Maya e Michael, olhavam maravilhados para os tetos altos, tentando conter a agitação típica da idade. E, no centro deles, Ester permanecia como uma força da natureza, impassível.

​— É um prazer receber toda a linhagem Benevides em nossa mesa — iniciou Dominic, elevando sua taça de prata. — João, sua chegada traz esperança ao solo da Irlanda. E sua família é a prova de que a vida floresce com vigor longe das muralhas da capital.

​— O povoado sente falta do rei, Majestade — João respondeu com humildade. — Mas estamos aqui para servir. Minha esposa e meus filhos estão prontos para este novo ciclo.

​Dominic assentiu, mas seus olhos logo voltaram-se para a jovem à frente de João.

​— E você, Ester? O que acha de trocar as florestas do povoado pelas pedras de Tara?

​Ester pousou o talher e encarou o rei. O silêncio se instalou na mesa, fazendo Mellysa trocar um olhar de surpresa com Urtred.

​— As pedras são frias, Majestade. E as paredes de um castelo costumam esconder o céu — ela respondeu com uma calma cortante. — No povoado, o tempo corre de acordo com o sol. Aqui, parece que o tempo parou... assim como tudo o que vive nestes corredores.

​Dominic sentiu a pontada da ironia. Ele deu um sorriso de canto, achando a audácia dela fascinante.

​— O tempo nunca para, Ester. Ele apenas amadurece. Como o bom vinho ou um reino bem gerido.

​— Ou como uma árvore antiga que já não dá mais frutos, mas se recusa a cair — Ester retrucou, mantendo o olhar fixo no dele. — O amadurecimento é apenas o nome gentil que os poderosos dão ao peso dos anos.

​Mellysa soltou uma pequena tosse, tentando disfarçar o choque. Ricardo, percebendo a tensão, interveio para aliviar o clima.

​— Ora, Ester, nosso irmão pode ter seus anos, mas ainda monta como um jovem cavaleiro e governa com a força de um touro. Tara pode ser de pedra, mas é um lar vibrante. Benício, mostre aos gêmeos as histórias nas tapeçarias depois do jantar.

​Os pequenos Benevides sorriram, quebrando o gelo, mas o duelo silencioso entre Dominic e Ester continuava. O rei percebeu que ela o via como alguém ultrapassado, um homem cujo brilho já havia se apagado. Ele, no entanto, nunca se sentira tão vivo.

​— Espero que a vida na corte a convença de que algumas árvores antigas possuem as raízes mais profundas e as sombras mais acolhedoras — disse Dominic, sua voz baixando de tom, dirigida apenas a ela.

​— Sombras são ótimas para dormir, Majestade — ela sorriu, um sorriso que não tinha nada de submisso. — Mas eu prefiro caminhar sob o sol. E duvido que o senhor consiga me acompanhar nessa trilha.

​Dominic tomou um longo gole de vinho, sentindo o sangue pulsar em suas têmporas. O desprezo dela era o combustível que ele não sabia que precisava. Ele olhou para Otávio, seu conselheiro, que observava a cena de longe com uma expressão de preocupação.

​O banquete continuou, com risadas das crianças e conversas políticas entre os adultos, mas para o Rei da Irlanda, só havia uma pessoa naquela mesa. E ela o achava velho demais para ser notado.