​O tilintar da prataria e o murmúrio das conversas preenchiam o vasto salão de desjejum do Castelo de Tara. O Rei Dominic Mackenzie ocupava a cabeceira, observando com um olhar sereno, porém distante, a vitalidade de sua família. Ricardo e Selina riam das travessuras do pequeno Benício, enquanto Mellysa tentava aconselhar Munique sobre as etiquetas da corte, sob o olhar atento de Urtred Styles.

​A vida pulsava ao redor de Dominic, mas ele se sentia como uma estátua de gelo em meio ao calor daquela manhã.

​— Majestade — a voz grave de Otávio, seu conselheiro mais leal, quebrou seus pensamentos. — Precisamos tratar de um assunto urgente. O reino está sem sua bússola espiritual. Desde que o mestre Finnan faleceu, as colheitas parecem incertas e o povo clama por orientação. Precisamos de um novo druida real.

​Dominic pousou a taça de cristal. O peso da coroa parecia subitamente mais real sobre seus ombros.

​— A Irlanda não pode murchar, Otávio. Se o equilíbrio exige um novo guia, nós o encontraremos. Prepare os cavalos. Iremos ao povoado ainda hoje. Dizem que os melhores conhecedores da terra e das tradições antigas vivem por lá.

​A viagem foi marcada pelo som constante dos cascos contra a terra úmida. Ao chegar ao povoado, o nome "Benevides" foi indicado por todos como a linhagem mais sábia da região. Dominic foi recebido com uma hospitalidade que raramente encontrava na nobreza. João Benevides, o patriarca de olhos profundos e mãos calejadas, curvou-se com respeito ao receber o rei em sua modesta casa.

​— É uma honra, Majestade — disse João, enquanto sua esposa, Maria, servia chá de ervas.

​— João Benevides, a corte precisa de sua sabedoria — Dominic foi direto, sua voz de comando ecoando pela sala. — Convido você e sua família a se mudarem para o castelo. A Irlanda precisa de um Druida Real, e eu não aceitarei menos que o melhor para o meu conselho.

​João olhou para Maria, que assentiu levemente, e depois para os pequenos gêmeos, Maya e Michael, que espiavam curiosos por trás da porta.

​— Se é para o bem da nossa terra e o desejo do rei, aceitamos o convite. Partiremos conforme vossa ordem.

​Dominic deixou o povoado satisfeito, mas sentia que algo ainda faltava. Ele só descobriu o que era dias depois, quando o salão principal de Tara foi decorado com velas e ramos de carvalho para o banquete de boas-vindas à família Benevides.

​O rei estava posicionado em seu lugar de honra, impecável em seu traje de veludo negro, observando a entrada dos novos moradores da corte. Foi quando as portas se abriram e Ester entrou.

​Ela caminhava com uma altivez que desafiava a própria estrutura de pedra do castelo. O vestido roxo realçava sua pele jovem e o mistério em seus olhos claros. Dominic sentiu o ar escapar de seus pulmões. O coração, que ele julgava ser apenas um músculo treinado para o dever, deu um solavanco violento. Ele nunca havia sentido nada parecido; uma atração imediata, avassaladora e perigosa.

​Ester parou diante dele e fez uma reverência curta, o mínimo exigido pela etiqueta. Ao levantar o rosto, ela encontrou os olhos intensos do monarca. Enquanto Dominic ardia em um fascínio silencioso, o pensamento dela foi frio e direto:

​"Então este é o rei? Um homem de cabelos grisalhos e olhar cansado. É apenas um velho poderoso em uma gaiola de ouro."

​— Seja bem-vinda a Tara, Ester Benevides — disse Dominic, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido.

​— Agradeço a hospitalidade, Majestade — ela respondeu, com um sorriso educado que não chegava aos olhos desafiadores.

​O jogo de conquista havia começado, mas Dominic ainda não sabia que sua coroa seria a arma menos eficaz contra aquela jovem.