Amor ou ego
2 Ser ou não ser: eis a questão
Ao decorrer das aulas, me surgiam pontos de questionamentos muito distintos, baseados nas mesmas premissas, na terça ele parecia muito interessado, na quinta aparentava completo desdém, na outra terça se aproximava de outros homens e na outra quinta me seduzia de novo. Eu estava começando a tentar perder o interesse, mas não perco interesse fácil, então ainda era só uma tentativa.
Numa certa aula, houve um acidente grave no trânsito e todas as vias estavam interditadas, meu trajeto para casa seria longo e levariam horas para esperar um ônibus, então ele me ofereceu uma carona até a estação de trem, seria um adianto enorme mas precisaríamos esperar um tempo. Seria o momento ideal para sairmos de lá, darmos uma volta e nos beijarmos muito, mas ao invés disso, ficamos um do lado do outro, assistindo a aula de Jiu Jitsu, cada um mexendo no seu celular, eu nem era capaz de puxar qualquer assunto. Fomos embora e o caminho foi diferente, conversamos sobre amor, sobre música e ele colocou um cd que já estava no carro, era forró eletrônico, do estilo de aviões do forró e Wesley safadão, ele se desculpou e disse que havia ganhado o cd e era a única coisa que tinha no carro, aproveitei a oportunidade pra dizer que era música altamente heterossexual.
— Você julga a orientação sexual das pessoas pelo que elas escutam? — Ele disse
— Não costumo, mas dá pra ter uma noção, na maioria das vezes.
— E essa música é de ‘hétero’?
— Eu diria que sim, por quê? Você não é?
— O que você acha?
— Não tenho que achar nada, você quem acha e me diz!
— Eu sou hétero, Serena! — ele me disse e finalmente senti que havia menos um empecilho para me dar bem com ele, até que ele completou com – hoje eu sou!
— Ué, só hoje? Amanhã pode ser que não seja?
— Exatamente, pode ser que amanhã de manhã eu acorde me sentindo gay – ele disse rindo, com ironia, mas eu não tinha certeza se de fato era uma ironia. — essa via ainda está obstruída, mas não se preocupe, você volta segura, nem que eu precise te deixar em casa – continuou.
— Não precisa, mas você é muito gentil! – não permiti que ele me deixasse em casa, pois seria quase 1h de viagem, mas apreciei muito a sua preocupação, as ruas estavam um caos.
Quando cheguei, mandei mensagem: “Obrigada e me desculpa por abusar da sua boa vontade” “não se preocupe com isso, chegou bem em casa?” , e continuamos a conversar, eu disse que queria saber mais sobre ele e me respondeu: “amiga, amanhã te conto mais sobre mim, tô indo dormir agora, boa noite”. Fiquei desolada com o “amiga”, mas fiquei na esperança de receber uma mensagem de bom dia com ensinamentos a respeito dele, mas depois disso, só nos vemos na aula seguinte.
Em todas as outras aulas ele me chamava de amiga, logo depois de me olhar na boca, e eu continuava confusa, se não era a respeito de sua orientação sexual, era a respeito das suas intenções comigo. Outro dia, enquanto conversávamos, ele estava comendo um pão com gergelim e seus lábios ficavam sujos de grãos de gergelim a cada mordida que dava, e a cada mordida eu o avisava, sorrindo, de que ele deveria limpar, ele disse que eu poderia pensar até que era proposital, como se ele estivesse sujando a boca de propósito com o único intuito de eu olhar para seus lábios e nota-lo. Eu senti esperança e um mínimo progresso. Nós flertávamos o tempo inteiro e nossa energia era sexual, inevitável não tomar nota disso, comecei a ficar entusiasmada. Ser ou não ser já não era mais uma questão.
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