Amor não machuca
1 Amor não faz chorar.
Notas iniciais
Hana ouviu com paciência todos os pedidos dos colegas de classe. Mas não era como se tivesse outra opção, afinal estava naquele instante cercada por vários deles. As requisições eram as mais diversas: queriam que fosse a representante de classe (até a atual pedia isso), imploravam para que tentasse entrar no Conselho Estudantil, desejavam que fizesse parte de vários clubes: futebol, basquete, volêi, corrida, fotografia… Que fosse modelo para o grupo de artes! Tantas solicitações diferentes que Hana teria que se dividir em cem para dar conta…
A todos recusava com graça e gentileza, duas características que atraíam ainda mais os colegas. Ela era uma jovem de apenas treze anos, mas parecia madura para a idade. Era responsável, calma e bonita como uma verdadeira princesa! Era até difícil acreditar nas marcas vermelhas em seu rosto: uma integrante do Clã Inuzuka, notoriamente a família mais selvagem e sem limites de Konoha! Por ser tão carismática atraía a atenção de inúmeros colegas, precisando se acostumar com a rotina de dizer vários e vários “nãos”. Ela não podia assumir mais responsabilidades do que já tinha, nada relacionado à escola. Seus deveres eram em casa.
Tsume trabalhava demais para manter a casa e os dois filhos. E Hana tentava ajudar da melhor forma possível, indo embora tão logo as aulas acabavam para dar conta das tarefas domésticas e cuidar do irmãozinho. Por isso desviava de todas as tentativas de recrutá-la para clubes e atividades acadêmicas e ia embora depressa. Hana não se importava em abrir mão desses extras. Era muito amiga da atual presidente do Conselho de Estudantes e via como a pobre coitada sofria com as exigências, vivia pressionada e cobrada tanto por professores quanto por alunos. Os outros membros do conselho eram inócuos, fato que a obrigava a se desdobrar para dar conta de tudo.
Inuzuka Hana era dedicada e aplicada na medida, não queria se matar por responsabilidades tão exorbitantes para a pouca idade. Estava chegando ao fim do Chuugaku, queria fazer essa transição com calma. Talvez, quando entrasse no Koukousei, pensasse em participar de algum clube, mas nada disso estava certo ainda. Gostava de voltar para o lar, era uma jovem caseira. E adorava, principalmente, cuidar do irmãozinho caçula.
Inuzuka Kiba era um pequeno vulcão em erupção que botava o terror na turminha do Youchien. Kiba tinha cinco anos e estava no último ano do Jardim de Infância. A diferença de idade entre os irmãos era de oito anos, Hana nutria sentimentos de irmã mais velha envolvidos em algo meio materno, pois acabava cuidando mais tempo do pequenino do que a mãe de ambos. E assim, após mais um longo dia de aula, Hana seguiu a rotina e escapuliu dos colegas e seus pedidos desesperados, logo saindo da escola e tomando o rumo da escola de Kiba.
O prédio ficava alguns quarteirões sentido rua abaixo, não era longe. Depois enfrentavam uma caminhada significativa, já que a família Inuzuka vivia na periferia da cidade, mais próxima à floresta e à liberdade que tanto adoravam. Não poucas vezes preferiam fazer piqueniques em clareiras a reunir-se em aglomerações no parque central.
Hana chegou ao Jardim de Infância e logo notou um dos professores no portão, era o mesmo que acompanhava a entrada e a saída dos alunos, para que acontecesse em segurança e com organização.
— Ohayou, sensei! — Ela cumprimentou assim que se aproximou. Alunos que moravam perto iam embora sozinhos, seguindo rotas específicas e conhecidas por todos. Crianças que moravam longe, como os Inuzuka e os Aburame, precisavam que algum acompanhante ou responsável viesse pegá-los.
— Ohayou, Hana-chan!
— Vim buscar meu irmãozinho! Ele aprontou muito hoje?
— Ah, o de sempre, Hana-chan. O dia que Kiba-kun não aprontar é melhor correr pro médico! — O homem brincou e em seguida hesitou visivelmente. — Mas ele já foi embora. O pai veio buscá-lo.
O sorriso sumiu dos lábios de Hana. Não poderia ter ouvido algo pior. Reverenciou de leve e deu meia volta, sem dizer mais nada. Era frustrante ter as mãos amarradas pela lei daquela forma: o pai de Kiba já não fazia mais parte da família, tendo sido afastado por Tsume tão logo o homem mostrou as verdadeiras garras. Mas legalmente era o pai de Kiba e mantinha a guarda compartilhada da criança, pois apesar de ser um bêbado que amava gastar e odiava trabalhar, nunca deu motivos para ser proibido de se aproximar do filho. Ainda que sua presença fizesse mais mal do que bem, aos olhos da lei, era um pai que tinha o direito de ver o filho.
Hana sentiu o coração apertar só de pensar no caso de Shigure levar o filho direto para casa. Às vezes ele fazia isso: passava na escola, pegava Kiba, enchia o menino tanto de doces e brinquedos, quanto de promessas que nunca cumpriria. Bombardeava-o com esperanças de que um dia voltariam a ser aquela família unida de novo, uma família que o menininho acreditava ser real, já que era pouco mais que um bebê. E então o largava em casa e sumia por um longo período de tempo. Ela estava cansada de ver a euforia minar no dia a dia, conforme Kiba percebia que o homem o enganou mais uma vez, repetindo sempre o mesmo ciclo.
— Hana-chan?! — A voz do professor a parou tão logo se afastou.
— Sim? — Ela virou-se, estranhando o tom de voz hesitante.
— Aoyama-san comentou sobre levar Kiba-kun a um parquinho. Ele parecia muito empolgado com a ideia. Os dois, na verdade…
— Obrigada. — Reverenciou a segunda vez antes de retomar o caminho.
Aquele “empolgado” explicava tudo o que estava nas entrelinhas. Provavelmente Shigure viera até ali caindo de bêbado. A frustração da jovem atingiu níveis altos, queria brigar com a escola por deixar seu irmão sair com um homem assim! Ainda que mantivesse parte da guarda, não era uma situação em que estivesse responsável sequer por si só, quanto mais por uma criança pequena! Passou a andar mais rápido, as mãos segurando com força na bolsa escolar, desejando encontrar logo com o irmãozinho.
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E Hana descobriu que fez muito bem em quase correr para o parque central. Se não para evitar algo ruim, ao menos para evitar o pior! Pois esse foi o cenário em que encontrou pai e filho na área dos brinquedos: Shigure gesticulando com uma das mãos, em gestos amplos, enquanto com a outra arrastava o filho na direção dos balanços.
— Kiba?! — Hana gritou antes mesmo de pisar no gramado verdinho. O lugar estava vazio, a não ser por aqueles dois. Ainda era meio da tarde de uma quarta-feira, horário de baixa procura ao parquinho.
— Hana-nee…? — Kiba tentou soltar o bracinho, conseguiu graças a um puxão inesperado. Então saiu correndo de encontro à irmã, escondendo-se atrás dela tão logo a alcançou.
Foi rápido como lhe era característico, mas não o bastante a ponto de Hana não perceber os joelhos esfolados, o cotovelo ralado e o topo do nariz que sangrava. Ela olhou para baixo, observando como o menininho segurou na barra de sua blusa, notando a marca avermelhada no pulso magricela, bem onde Shigure havia segurado. Não usava o uniforme do Jardim da Infância, porque vivia com a roupa suja ou rasgada de tantas traquinagens, então tanto Tsume quanto a diretora da escola se conformaram que usasse roupas comuns...
— O que está fazendo, Shigure-san? — Hana irritou-se. Logo ela, sempre tão ponderada em suas reações, não conseguiu aceitar o que seus olhos viam.
— Vim passear... com me...u filho... — Shigure respondeu colocando as mãos na cintura. A voz saiu enrolada e confusa, evidenciando ainda mais a embriaguez. — Só assim pra conseguir ver o Kiba! To… tentan...do mostrar que… sou um bom. Um bom. Bom… PAI!
— Hana-nee…
— Bom pai?! Você deixou ele se machucar!
Shigure fez um gesto de pouco caso.
— Criança… cai mesmo. A gaio...la é alta. — Hana ofegou de raiva e o rosto da jovenzinha denunciou sua fúria.
“Criança cai mesmo”?? Claro, era normal. Mas pelo estado de seu irmãozinho deduzia fácil que não foi uma única queda. E Kiba só tinha cinco anos! Era espevitado e ágil como ele só, claro. Mas ainda estava preso em limitações que requeriam atenção redobrada dos adultos.
Shigure, quando estava sóbrio, era um bom homem: divertido, que sabia conversar sobre variados assuntos, ótimo ouvinte e simpático. Hana ouviu Tsume comentar que lembrava muito o primeiro companheiro, seu próprio pai, que faleceu assim que a filha nasceu, vítima de um acidente de carro. Talvez essa semelhança fosse um dos pontos que fez a mulher aproximar-se esperançosa de ter encontrado um parceiro confiável, depois de um luto de longos anos.
E no começo Shigure mostrou-se encantador. Encanto que durou pouco. Quando Kiba nasceu, o pai já dava indícios claros de sua real personalidade, o grande e maior defeito: o apego ao álcool. O verdadeiro, real e único grande amor daquele homem: a bebida. Não parava mais de um mês em cada emprego, surrupiava o dinheiro da esposa para alimentar o vício. Negligenciou a enteada e o filho, mas não por muito tempo. Inuzuka Tsume não era mulher para aguentar esse tipo de comportamento. Deu duas únicas chances a Shigure, que falhou em ambas e ganhou um “adeus” definitivo.
Lamentável. Era a única palavra que Hana conseguia pensar para atribuir ao homem naquele instante, que gaguejava justificativas para o comportamento irresponsável causado pela embriaguez.
— Vamos embora, Kiba! — Ela disse suave para o irmão, antes de segurá-lo pela mão.
— Espera! — Shigure afastou-se um pouco dos balanços. A roupa estava desalinhada e suja, só então Hana notou como ele parecia abatido, magro e envelhecido. Os cabelos curtos estavam prematuramente grisalhos. Havia profundas marcas sob os olhos castanhos. — Vem brincar com o… Papai, Kiba!
O menininho apertou a mão de Hana, preso em um dilema doloroso. Os olhinhos arderam cheios de lágrimas. Queria muito brincar com o pai! Mas naquele instante estava apavorado. Seu pai o obrigou a subir na parte mais alta da gaiola! A queda foi assustadora e doeu demais. Também o empurrou com muita força no escorrega, momento em que ralou os cotovelos. E o ferimento no rosto…
— Não pode brincar com ele! — Hana balançou a cabeça. — Não se estiver assim tão bêbado, Shigure-san.
— Mas…
— Vamos embora, irmãozinho! — Ela começou a se afastar, puxando o menino pela mão. Foi na direção da lancheira infantil vermelha caída perto da gangorra.
— Mas... — Shigure repetiu — Kiba é a me...lhor coisa que... Restou na minha vida.
— Ele não é uma “coisa”, Shigure-san. Precisa entender isso antes de se aproximar da gente de novo. Mamãe vai ficar brava! — Ameaçou.
O pobre homem gemeu em antecipação, imaginando que Tsume o procuraria para tirar satisfações. O gênio bravio daquela mulher o atraíra demais no primeiro encontro de ambos, mas agora o fazia ter dores no estômago de medo! E, mesmo assim, continuava errando e errando. Era fraco demais para abdicar da bebida enquanto o amor e a saudades pelo filho eram inversos: fortes. Muito fortes.
— Me… Me perdoa! Filho… Eu… Não! Não… Não consegui… — A duplinha de irmãos já estava longe demais para ouvi-lo. Já saiam da parte gramada e seguiam para fora do parque. Shigure deixou as mãos caírem ao lado do corpo e baixou a cabeça. — Não consegui… Segurá-lo.
Hana sentiu o peito apertar de tristeza. Os Inuzuka prezavam por laços, de sangue ou de afinidade. Família vinha sempre em primeiro lugar. Dar as costas para o homem a quem tratou como pai não foi fácil. Fingir-se de surda ao que ele dizia, tão pouco. Mas tirou forças para dar aqueles passos e afastar-se, porque tinha um menininho segurando firme em sua mão, que chorava de tristeza pelo pai que não parecia ter concerto. E ouvir aqueles soluços sofridos amargavam mais do que abandonar Aoyama Shigure sozinho no parque.
Hana queria chegar logo em casa para cuidar dos ferimentos do irmãozinho e afastar a tristeza, quem sabe com um chocolate quente docinho ou um bom brigadeiro, coisas que Kiba adorava. Pois os Inuzuka respeitavam e valorizam os laços, mas como Tsume fez questão de mostrar aos filhos, alguns desses laços precisavam ser desfeitos, pois não eram ligações embasadas no amor. Hana era jovem demais para compreender a complexidade das relações humanas, embora aprendesse bem a lição ensinada pela mãe.
Amor não faz chorar. Amor nunca machuca.
Notas finais
Por curiosidade: o Kiba comenta com o Naruto que a Tsume botou o pai para correr, mas sem detalhes. Então vamos de mais headcanon!!
Tem outra fic na agulha. Vou postar segunda-feira que vem!! Sexta-feira tem EnDen! Vejo vocês por lá ♥
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