Amor não era o plano
26 Visita inesperada
Jacob
A casa estava silenciosa quando servi a segunda dose de uísque. Normalmente eu gostava daquele silêncio. Depois de passar o dia inteiro cercado de gente querendo respostas, decisões e dinheiro, voltar para uma casa onde ninguém me perguntava absolutamente nada era quase um privilégio.
Naquela noite, porém, o silêncio estava servindo apenas para me deixar sozinho com pensamentos que eu vinha tentando evitar desde que voltei de Forks. Girei lentamente o copo entre os dedos e observei o líquido antes de tomar um gole. Tinha passado três dias desde que vi Renesmee pela última vez e ainda conseguia lembrar perfeitamente da maneira como ela saiu daquele restaurante levando Belinha pela mão, orgulhosa demais para aceitar que eu a levasse para casa e irritada o suficiente para preferir chamar um táxi.
Eu deveria ter achado aquilo uma perda de tempo. Atravessei horas de estrada, contei o que sabia, ofereci ajuda e fui praticamente mandado cuidar da minha própria vida. Qualquer pessoa sensata entenderia o recado.
Eu não era qualquer pessoa e, aparentemente, também não estava muito interessado em ser sensato quando se tratava de Renesmee Cullen.
Depois que ela foi embora, ainda passei por La Push. Quil tinha resolvido algumas coisas em Forks e eu aproveitei para dirigir até a reserva com a intenção de ver meu pai. Pelo menos era isso que disse a mim mesmo durante todo o caminho. Estacionei perto da casa onde Billy continuava morando e fiquei tempo suficiente dentro do carro para me sentir um completo idiota.
Na última vez em que estivemos juntos, discutimos por uma besteira que nenhum dos dois admitiria ser uma besteira. Billy tinha o talento irritante de me tratar como se eu ainda tivesse quinze anos e eu tinha herdado dele a incapacidade de dar o braço a torcer. No fim, vi a luz acesa na sala, imaginei o velho sentado na poltrona assistindo televisão e fui embora sem sequer bater à porta.
Rachel descobriu.
Claro que descobriu.
Minha irmã parecia possuir algum sistema de vigilância particular em La Push.
– Se você contar ao velho que estive lá, eu nego – avisei quando ela me ligou.
Rachel riu por quase um minuto.
– Você tem quarenta e nove anos, Jacob.
– E?
– Está escondendo do papai que passou na frente da casa dele.
– Eu não passei na frente.
– Você estacionou.
– Rachel.
– Está bem. Não vou contar.
– Estou falando sério.
– Eu também. Mas vocês dois precisam crescer.
Desliguei na cara dela.
Agora, sentado na sala da minha casa, comecei a pensar que talvez ela tivesse razão, o que me irritou ainda mais. Tomei outro gole e me acomodei no sofá, apoiando a cabeça no encosto. Minha mente deveria estar em Claire. Minha filha continuava ao lado de Ethan, apesar de tudo que tinha descoberto, e aquilo era um problema que eu ainda não sabia como resolver sem afastá-la ainda mais.
Cortar os cartões e o acesso ao meu dinheiro não tinha sido vingança, apesar do que ela dizia. Claire tinha vinte e cinco anos, era casada e escolhera sair da minha casa com o marido. Eu não financiaria a vida de Ethan enquanto ele usava minha filha e meu neto como escudo. Ela receberia o que lhe cabia e nada além disso. Se quisesse continuar ao lado dele, teria de começar a compreender o preço das próprias decisões.
O problema era Ephraim.
Bastava pensar no meu neto naquela casa com Ethan para minha paciência desaparecer.
Passei a mão pelo rosto e fechei os olhos. Havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo. Claire, Ephraim, Ethan, a empresa, o pedido de guarda de Belinha e, no meio de tudo aquilo, uma ruiva de Forks que não tinha absolutamente nenhuma obrigação de ocupar meus pensamentos tanto quanto ocupava.
Ouvi passos antes de abrir os olhos.
Imaginei que fosse algum funcionário da casa até uma voz feminina surgir da entrada da sala.
– Então é assim que você passa as noites agora?
Reconheci antes mesmo de olhar.
Bree Tanner estava parada a poucos metros de mim.
Fiquei alguns segundos encarando-a, mais surpreso com a audácia do que com sua presença. Bree usava um vestido escuro e segurava a bolsa com uma das mãos, perfeitamente arrumada como costumava estar quando queria alguma coisa. Durante muito tempo, aquela aparência teria sido suficiente para despertar meu interesse. Naquela noite não senti absolutamente nada além de irritação.
– O que você está fazendo aqui?
Ela arqueou uma sobrancelha.
– Boa noite para você também.
– Bree.
– Se a montanha não vai a Maomé...
– Não termina essa frase.
Ela soltou uma pequena risada e caminhou para dentro da sala como se ainda tivesse intimidade suficiente para isso.
– Você não atende minhas ligações há mais de um mês.
– Talvez exista um motivo.
– Eu imaginei vários.
– Escolhe o mais óbvio.
O sorriso dela diminuiu.
– Você continua bravo.
– Não estou bravo.
– Então por que não atendeu?
Tomei outro gole antes de responder.
– Porque terminamos.
Bree permaneceu parada.
– Nós já terminamos outras vezes.
– Dessa vez funcionou.
– Jacob.
– O quê?
– Para com isso.
Olhei para ela.
– Você entrou na minha casa sem ser convidada e agora quer me dizer como devo agir?
– Seus funcionários me conhecem.
– Vou resolver esse problema amanhã.
Ela respirou fundo, claramente tentando controlar a irritação.
– Eu vim conversar.
– Está conversando.
– Não precisa ser um babaca.
– Você me conhece há tempo suficiente para saber que não preciso me esforçar.
Bree se aproximou do sofá.
– Eu fui uma idiota.
Não respondi.
– Está satisfeito? Eu admiti. Exagerei, falei coisas que não deveria e deixei meu orgulho falar mais alto. Eu sinto sua falta.
Coloquei o copo sobre a mesa.
– Isso passa.
Ela franziu o cenho.
– Você está falando sério?
– Muito.
– Depois de tudo que tivemos?
– Nós tivemos o que funcionava enquanto funcionava.
– E agora simplesmente acabou?
– Sim.
Bree me observou como se esperasse que eu mudasse de ideia. Quando percebeu que isso não aconteceria, aproximou-se ainda mais e se sentou ao meu lado. Sua mão tocou meu braço.
– Eu sei que você está passando por problemas com Claire. Sei que aconteceu alguma coisa no aniversário dela e que Ethan...
Afastei o braço.
– Minha filha não é assunto seu.
– Eu só estou tentando dizer que posso estar aqui.
– Não preciso.
A expressão dela mudou.
– Você nunca precisou de ninguém, Jacob. Isso não significa que não gostava de me ter por perto.
– Bree, vai para casa.
Ela se levantou.
– Tem outra mulher?
Soltei uma risada sem humor.
– Não começa.
– É uma pergunta.
– E não te devo resposta.
– Então tem.
– Eu disse que terminamos. Isso significa que eu posso ter uma, cinco ou nenhuma e continua não sendo problema seu.
– Você é inacreditável.
– E ainda assim veio até minha casa.
Bree abriu a boca para responder, mas passos surgiram novamente no corredor. Dessa vez um dos homens da segurança apareceu na entrada da sala e parou ao perceber que eu não estava sozinho.
– Senhor Black.
Olhei para ele.
– O que foi?
– Desculpe interromper, mas tem uma jovem no portão insistindo para falar com o senhor.
Bree soltou uma risada amarga.
– Parece que cheguei em uma noite movimentada.
Ignorei.
– A essa hora?
– Sim, senhor.
– Ela disse o que quer?
– Não. Apenas que precisa falar pessoalmente com o senhor.
Bree cruzou os braços.
– Que interessante.
Virei o rosto para ela.
– Bree.
– Estou quieta.
– Continue.
Voltei minha atenção para o segurança.
– Essa jovem tem nome?
– Tem.
Ele hesitou por um instante.
– Ela se apresentou como Cullen.
Meu corpo ficou imediatamente alerta.
Coloquei o copo sobre a mesa.
– Cullen?
– Renesmee Cullen, senhor.
Por alguns segundos, não respondi.
De todas as pessoas que poderiam aparecer no portão da minha casa naquela noite, ela era a última que eu esperava. Três dias antes, Renesmee tinha deixado bem claro que não queria minha interferência. Recusou meus advogados, recusou minha proteção e até recusou uma carona porque estava irritada demais comigo para permanecer dentro do meu carro por mais alguns minutos.
Agora tinha vindo de Forks até Seattle.
Bree percebeu minha reação.
– Quem é Renesmee Cullen?
Levantei do sofá.
– Alguém que eu quero ver.
A resposta pareceu atingi-la mais do que qualquer coisa que eu tivesse dito durante toda a conversa.
O segurança continuou esperando.
– Posso dispensá-la, se o senhor...
– Não.
Peguei o celular que estava sobre a mesa.
– Abra o portão.
– Sim, senhor.
Ele se virou, mas o chamei antes que saísse.
– Levem ela até o jardim e avisa a todos que é minha convidada.
– Claro.
Bree me encarava.
– Então é ela.
Passei por Bree sem responder, mas ela segurou meu braço.
– Jacob, eu estou falando com você.
Olhei para sua mão até que ela me soltasse.
– E eu já encerrei nossa conversa.
– Você vai me mandar embora porque essa mulher apareceu?
– Eu já tinha mandado você embora antes dela chegar.
Bree ficou vermelha de raiva.
– Quem é ela?
Dessa vez parei.
– Você realmente quer saber?
– Quero.
Sustentei o olhar dela.
– Não é problema seu.
Segui em direção à entrada da casa antes que respondesse. Eu ainda não sabia por que Renesmee estava ali, mas uma coisa era evidente.
Se ela tinha engolido o orgulho e dirigido de Forks até minha casa depois da forma como nos despedimos, alguma coisa tinha acontecido.
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