Amor não era o plano
40 Passeio noturno
Notas iniciais
Renesmee
A praia tinha sido ideia de Jacob, mas, olhando para Belinha adormecida em meus braços enquanto caminhávamos de volta, eu não tinha certeza de que o passeio havia terminado exatamente como ele imaginara. As crianças tinham aproveitado cada minuto. Correram pela areia, molharam os pés apesar de eu ter pedido mais de uma vez para não chegarem tão perto da água e obrigaram Jacob a participar de uma construção que começou como um castelo e terminou como uma montanha torta cercada por conchas. Eu tinha descoberto naquele fim de tarde que o mesmo homem capaz de fazer executivos ficarem em silêncio com um olhar era incapaz de negar qualquer coisa ao neto. Ephraim bastava puxá-lo pela mão e pedir alguma coisa para que toda a postura intimidante de Jacob desaparecesse por alguns minutos, embora ele continuasse fingindo que apenas estava cedendo para o menino parar de insistir.
Quando decidimos voltar, o cansaço finalmente venceu os dois. Belinha ainda tentou argumentar que conseguiria caminhar, mas não passou de alguns metros antes de pedir colo. Ephraim resistiu um pouco mais por puro orgulho, até Jacob pegá-lo nos braços sem perguntar e o menino simplesmente apoiar a cabeça em seu ombro. Dez minutos depois, os dois dormiam profundamente, indiferentes ao fato de que os adultos agora precisavam carregá-los pelo restante do caminho.
Olhei para Jacob caminhando ao meu lado. Ephraim dormia com o rosto escondido contra seu pescoço, um braço pequeno pendendo sobre o ombro dele. Jacob sustentava o menino com uma facilidade impressionante e, de vez em quando, ajustava discretamente a mão nas costas do neto para mantê-lo confortável.
– Acho que nosso passeio não saiu exatamente como você planejou – comentei, ajeitando Belinha nos braços.
Jacob olhou para mim. – Eu planejei tirar você daquela festa por algum tempo. Nesse aspecto, saiu exatamente como eu queria.
– Você realmente não consegue responder uma pergunta sem fazer parecer que tudo aconteceu porque decidiu?
– Não quando aconteceu porque eu decidi.
Balancei a cabeça, contendo um sorriso. – Eu estava falando das crianças. Você me convidou para passear e acabou carregando um menino de três anos dormindo no colo.
– Poderia ser pior.
– Como?
Ele olhou para Ephraim por alguns segundos. – Ele poderia estar acordado.
Ri e imediatamente baixei a voz para não despertar Belinha. – Coitado. Seu neto passou a tarde inteira tentando chamar sua atenção.
– E conseguiu. Esse é o problema. – Jacob ajustou Ephraim contra o peito e continuou andando. – O moleque descobriu cedo demais que consegue quase tudo comigo. Agora usa isso sem qualquer escrúpulo.
– Ele tem três anos, Jake.
– Exatamente. Imagine quando tiver quinze.
Havia uma preocupação genuína escondida atrás da brincadeira, e eu sabia de onde vinha. Jacob não via o neto havia quase dois meses por causa de tudo que estava acontecendo com Claire. Olhei para Ephraim e depois para Belinha, sentindo novamente aquela estranha mistura de carinho e tristeza.
– Eles se apegaram muito rápido.
– Crianças não complicam as coisas como nós.
– Talvez porque não saibam o que existe por trás delas.
Jacob olhou para mim.
– Está pensando no fato de serem irmãos.
Assenti. – É estranho olhar para os dois e saber que não fazem ideia. Belinha fala do Ephraim como se tivesse encontrado um novo melhor amigo. Quando ela descobrir que ele é irmão dela, provavelmente vai achar maravilhoso. Para mim ainda é difícil separar isso de tudo que aconteceu.
– Não tente separar.
Franzi a testa. – Como assim?
– Ethan fez o que fez. Eles não têm responsabilidade alguma por isso. Se as crianças criarem uma relação, deixe que criem. Talvez seja uma das poucas coisas boas que aquele filho da puta produziu em toda essa história.
Olhei para ele, surpresa com a simplicidade da resposta.
– Você consegue ser bastante sensato quando quer.
– Não espalhe.
– Sua reputação pode ser prejudicada?
– Seriamente.
Sorri e continuei caminhando. O vento estava mais frio agora, e o céu começava a escurecer. A praia ficava para trás enquanto seguíamos pelo caminho de volta para a casa de Billy. Eu tinha perdido completamente a noção do tempo durante o passeio, e somente quando peguei o celular na bolsa percebi quantas mensagens havia recebido.
– Acho que estão procurando por nós.
Jacob sequer demonstrou preocupação. – Estamos voltando.
– Tenho três mensagens da minha mãe, duas da Alice e uma do Emmett.
– Nenhuma do seu pai?
Olhei novamente para a tela.
– Quatro.
O sorriso de Jacob surgiu devagar.
– Imaginei.
– Não faça essa cara.
– Que cara?
– Essa de quem está satisfeito por irritar meu pai sem sequer precisar estar perto dele.
– Eu não fiz absolutamente nada para irritar Edward.
– Você me levou para a praia sem avisar.
Jacob virou o rosto para mim. – Eu convidei uma mulher adulta para caminhar comigo. Você aceitou. Não sabia que precisava solicitar autorização ao seu pai.
A lembrança da discussão que eu tivera com Edward voltou imediatamente, e minha expressão deve ter denunciado alguma coisa porque Jacob ficou sério.
– Foi por minha causa?
– O quê?
– A conversa que deixou você daquele jeito antes de irmos para a praia.
Hesitei antes de responder. – Em parte.
Jacob permaneceu alguns segundos em silêncio. – Ele não gostou de mim.
– Meu pai mal conhece você.
– Não foi o que perguntei.
Suspirei. – Ele percebeu que você está interessado em mim.
– Seu pai enxerga bem.
Lancei um olhar irritado para ele. – Você poderia colaborar um pouco.
– Com o quê? Quer que eu finja que ele interpretou errado?
– Não. Só não precisa parecer tão satisfeito.
Jacob diminuiu um pouco o passo e me encarou. – Nessie, se seu pai está preocupado porque acha que quero alguma coisa com você, não vou insultar a inteligência dele fingindo o contrário. Quero. Você sabe disso desde aquela manhã na minha casa.
Mesmo conhecendo a posição dele, ouvir aquilo dito com tamanha naturalidade ainda conseguia mexer comigo.
– Para você tudo parece muito simples.
– Porque eu não tenho vinte anos para perder fingindo que não sei o que quero.
A frase me atingiu diretamente, sobretudo depois da discussão sobre nossa diferença de idade. Jacob percebeu alguma mudança em meu rosto.
– O que Edward disse?
– Não importa.
– Se envolveu meu nome, importa para mim.
– Ele está preocupado com a diferença de idade.
Jacob não demonstrou surpresa. – Justo.
Parei de andar por um instante. – Justo?
Ele também parou e virou o corpo para mim, ainda sustentando Ephraim nos braços. – Você tem vinte e seis anos. Eu tenho quarenta e nove. Seu pai tem praticamente a minha idade. Eu ficaria muito mais surpreso se ele tivesse apertado minha mão e me desejado boa sorte.
Não consegui evitar uma pequena risada. – Ele definitivamente não fez isso.
– Eu percebi.
Voltamos a caminhar.
– Então você não ficou incomodado?
– Não disse isso. – A voz dele ficou mais firme. – Eu disse que entendo. Edward pode desconfiar de mim o quanto quiser. Pode me observar, fazer perguntas e tentar descobrir minhas intenções. É pai. Eu faria pior se fosse Claire.
– Pior quanto?
Jacob me lançou um olhar que me fez desistir da pergunta.
– Certo. Prefiro não saber.
– Boa escolha.
– Mas meu pai acha que você pode se aproveitar do momento que estou vivendo. Para ele, você tem muito mais experiência, dinheiro, poder e está acostumado a conseguir o que quer.
Jacob ficou em silêncio por alguns passos, e quando respondeu não havia brincadeira alguma em sua voz. – Nisso ele também está certo.
Olhei imediatamente para ele.
– Jacob.
– Não faça essa expressão. Eu tenho mais experiência que você, tenho dinheiro, poder e sou acostumado a conseguir o que quero. Não vou fingir modéstia apenas porque essas características assustam seu pai. A parte em que ele está errado é acreditar que eu usaria qualquer uma delas para conseguir você contra a sua vontade.
A segurança com que disse aquilo fez minha respiração mudar discretamente.
– Você fala como se tivesse certeza de que vai conseguir.
Ele olhou diretamente para mim. – Eu disse que sou acostumado a conseguir o que quero, não que obrigo uma mulher a me querer. Existe uma diferença enorme.
– E se eu nunca quiser?
O canto de sua boca se ergueu. – Já tivemos essa conversa, Nessie.
Lembrei da varanda, do café e da resposta arrogante que ele tinha me dado naquela manhã.
Nunca era uma palavra muito forte.
– Continua convencido.
– E você continua mudando de assunto quando fica nervosa.
– Eu não estou nervosa.
– Está apertando a alça da bolsa há quase um minuto.
Olhei para minha mão e imediatamente a soltei.
Jacob sorriu.
– Insuportável.
– Você continua andando ao meu lado.
Não encontrei uma resposta que não piorasse minha situação, então preferi ficar em silêncio. Quando finalmente chegamos à propriedade de Billy, a festa já tinha diminuído bastante. Algumas pessoas tinham ido embora e outras se despediam perto dos carros. Assim que nos viram chegando com as duas crianças adormecidas, Rachel abriu um sorriso enorme, e eu tive certeza de que algum comentário viria mais tarde.
Leah apareceu para pegar Ephraim. O menino resmungou quando saiu dos braços do avô, mas nem chegou a acordar completamente. Jacob beijou discretamente os cabelos dele antes de entregá-lo à ex-esposa, um gesto tão natural que me fez observá-lo por alguns segundos a mais do que deveria.
Belinha continuava completamente apagada no meu colo.
– Eu acompanho você até o carro – Jacob disse.
– Não precisa. Eu sei chegar sozinha.
Ele simplesmente começou a caminhar.
– Percebi que não era uma pergunta – murmurei, acompanhando-o.
– Está aprendendo.
Seguimos entre os carros até avistar o meu. Antes que chegássemos, porém, uma figura enorme apareceu encostada na lateral do veículo. Emmett cruzou os braços e olhou primeiro para mim, depois para Jacob.
– Finalmente. O velho Cullen está perguntando pela senhorita como se ela tivesse quinze anos e tivesse fugido da festa com o namorado escondido.
Fechei os olhos.
– Emmett.
Meu irmão abriu um sorriso inocente. – O quê? Estou apenas transmitindo a mensagem.
– Você é incapaz de transmitir qualquer coisa sem piorar.
– Eu considero um talento.
Jacob soltou uma risada baixa ao meu lado.
– Não incentive.
– Não falei nada – respondeu ele.
– Mas gostou.
– Bastante.
Emmett olhou para nós dois e seu sorriso aumentou de uma maneira que me fez querer acertá-lo.
– Interessante.
– Nem pense – avisei.
– Não pensei em nada.
– Você nunca faz essa cara sem pensar em alguma coisa inconveniente.
Emmett decidiu preservar a própria vida e estendeu os braços para Belinha. – Me dê minha sobrinha antes que seus braços caiam. Eu levo a pequena para o carro.
Entreguei Belinha com cuidado. Minha filha se mexeu, abriu os olhos apenas o suficiente para reconhecer o tio e tornou a esconder o rosto contra o peito dele.
– Eu já vou – avisei.
Emmett olhou para Jacob, depois para mim e teve a rara inteligência de não fazer comentário algum.
– Certo. Vou avisar ao velho Cullen que você não foi sequestrada.
– Emmett!
Ele saiu rindo com Belinha nos braços.
Balancei a cabeça e, quando voltei a olhar para Jacob, ele me observava com evidente diversão.
– Não diga nada.
– Sua família é interessante.
– Você conheceu meu irmão durante cinco minutos.
– Foram suficientes.
– Espere até conhecer Alice direito. Depois vai valorizar o silêncio.
Jacob colocou as mãos nos bolsos e parou diante de mim. Por alguns segundos, o barulho da festa pareceu distante. Eu sabia que deveria simplesmente me despedir e ir embora, mas depois daquela tarde inteira ao lado dele, a ideia pareceu estranhamente abrupta.
– Obrigada pelo passeio – falei. – Eu precisava sair um pouco daqui, mesmo que tenha terminado carregando uma criança adormecida por metade do caminho.
– Você estava pensando demais.
– Eu tenho motivos.
– Tem. Só não precisa deixar o medo ocupar todas as horas do seu dia.
Sorri discretamente. – Essa frase pareceu surpreendentemente gentil para você.
Jacob inclinou o rosto, e o olhar dele se tornou mais intenso. – Não se acostume.
– Não pretendo.
– Mentira.
Revirei os olhos, mas sorri. – Boa noite, Jake.
– Boa noite, Nessie.
Dei um passo para me afastar e então parei. Não pensei muito no que faria, provavelmente porque, se tivesse pensado, teria desistido. Aproximei-me novamente e fiquei na ponta dos pés para alcançar seu rosto. Meus lábios tocaram sua bochecha num beijo rápido.
Jacob ficou imóvel.
Eu também, por uma fração de segundo.
Quando me afastei, encontrei seus olhos presos aos meus. A expressão dele tinha mudado. Não havia mais diversão. Seu olhar desceu rapidamente até minha boca antes de retornar aos meus olhos, e a intensidade foi suficiente para fazer meu coração acelerar.
– Foi apenas um agradecimento – expliquei, embora ele não tivesse perguntado.
Jacob inclinou ligeiramente o rosto na minha direção. – Eu não disse nada.
– Mas está pensando.
– Você não quer saber o que estou pensando agora.
Engoli em seco.
– Provavelmente não.
– Provavelmente não – repetiu ele, com a voz mais baixa. Depois recuou um passo, como se tivesse decidido encerrar aquilo antes que tomasse outro rumo. – Vá. Seu pai já deve estar planejando uma operação de busca.
Soltei uma risada nervosa. – Boa noite de novo.
– Entre no carro, Nessie.
A ordem veio acompanhada daquele tom firme que eu já conhecia. Balancei a cabeça e finalmente caminhei até o veículo.
Edward estava próximo ao carro de meus pais quando cheguei. Bella já ocupava o banco do passageiro, Emmett terminava de acomodar Belinha e Alice parecia conversar com Charlie alguns metros atrás. Meu pai olhou para mim, depois para Jacob ao longe e novamente para mim.
Conhecia aquela expressão.
E não estava disposta a outra discussão.
Edward abriu a boca, mas levantei a mão antes que dissesse qualquer coisa.
– Nem comece, pai.
– Eu só ia perguntar se você está bem.
– Estou ótima.
Abri a porta do carro e entrei. Antes de fechá-la, ainda olhei uma última vez na direção de Jacob.
Ele continuava exatamente onde eu o tinha deixado.
Observando.
Meu pai percebeu.
Eu percebi que ele percebeu.
E fechei a porta antes que qualquer um dos dois tivesse a oportunidade de transformar aquilo em outro problema.
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